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Artigo

Pergunte e Responderemos - Ciência e Fé - Como a fé desempatou o jogo - por Estêvão Bettencourt

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 539/Maio 2007
Ciência e fé

Ainda ciência e fé:

"COMO A FÉ DESEMPATOU O JOGO"
(Revista VEJA)

Em síntese: A revista VEJA publicou aos 7/02/07 uma reportagem que reduz o sobrenatural a reações de química e eletricidade. - O artigo a seguir propõe uma réplica a tão simplórias afirmações.
* * *

A revista VEJA costuma publicar periodicamente algum artigo que interessa à fé e à razão. Aos 7 de fevereiro 2007 apresentou as ponderações do repórter Okky de Souza sobre a persistência das crenças religiosas nos tempos atuais muito marcados pelos avanços da ciência: "Não passa um mês sem que dos laboratórios saiam explicações cabais sobre o que se pensava ser algo sobrenatural" (p. 479). A explicação dada a tal fenômeno é deduzida de comportamento do cérebro humano, que teria seu gene de espiritualidade; favorecido por emoções, medo e expectativas. A reportagem se encerra em termos ambíguos, a saber: "Por mais atuante que seja esse gene, ele é certamente apenas um tijolo de uma catedral maior: a vida espiritual humana" (p. 85).
Vão, a seguir, transcritos os tópicos principais da explanação de Okky de Souza:
"Os antepassados humanos que desenvolveram a capacidade de crer foram os únicos a sobreviver à Idade do Gelo. Isto explica porque a fé resiste mesmo quando a ciência prova que o sobrenatural nada mais é do que química e eletricidade" (p. 79).

Tal afirmação é explicitada nos termos seguintes:
"As pesquisas arqueológicas e antropológicas mostram que diversos tipos de ancestrais humanos conviviam antes da Idade do Gelo, há cerca de 30.000 anos. Quando as geleiras cederam, apenas um tipo predominava, os Cro-Magnon: Eles organizavam-se em famílias, puniam o incesto, enterravam seus mortos, enfeitavam os túmulos, pintavam as paredes das cavernas por deleite estético e espiritual... os cientistas dizem que a brutal aceleração da competição por recursos escassos e a luta pela sobrevivência em condições climáticas adversas selecionaram os hominídeos de tal forma que restaram apenas aqueles que desenvolveram a capacidade de acreditar. Em quê? Acreditar que aqueles tempos duros iriam passar. Acreditar que uma força superior iria trazer de volta as temperaturas amenas" (p. 85).
O repórter, de um lado, acentua o ateísmo professado por muitos cientistas. "Nos Estados Unidos apenas 3% dos cientistas mais respeitáveis... acreditam em Deus" (p. 83). Mas, por outro lado, cita grandes vultos da ciência que professam fé em Deus e se apresentam como pessoas religiosas.

Que dizer?
Proporemos cinco considerações a propósito.

1. Sobrenatural
O autor do artigo identifica sobrenatural com religioso e o reduz a fenômenos de química e eletricidade ou a atividade mágica.
Ora note-se:
- em Teologia sobrenatural nada tem que ver com algum fenômeno de índole visível, mas significa a elevação do ser humano à capacidade de ver Deus face-a-face na vida futura. O sobrenatural eleva a natureza humana acima de si mesma. Pode ter expressões corpóreas, extraordinárias, como feitos milagrosos, mas não é nisto que consiste o sobrenatural; a graça santificante reside no íntimo do ser humano e não se deixa apalpar.
-A química e a eletricidade produzem suas manifestações portentosas, que não são necessariamente ligadas à religião.
-A magia é a tentativa de dominar poderes divinos em favor desta ou daquela causa. É uma caricatura da religião.

2. O gene da espiritualidade
Às expressões religiosas do homem não são meros feitos de genes ou de emoções ligadas necessariamente ao cérebro humano. Na verdade, devemos dizer que o homem é um composto de corpo e alma espiritual. A alma espiritual é o princípio vital do corpo; é imortal por sua própria natureza e tem a capacidade de contactar o Infinito ou o Absoluto; essa capacidade é o sinete do Fabricante, que Deus colocou em cada criatura humana, de modo que se pode dizer que o homem é um peregrino do Absoluto. Essa tendência ao Mais e Mais ou ao Absoluto repercute na corporeidade humana, suscita emoções e outros sentimentos, mas estes são apenas corolários da sede de infinito, característica da alma humana espiritual.

3. Degelo e origem da Religião
Em conseqüência do que foi dito, deve-se afastar a tese de que o fenômeno religioso começa em alguma fase da história; ele é tão antigo quanto a humanidade; é elemento constitutivo da personalidade humana. O ateu não encontra resposta para as questões mais fundamentais que todo ser humano concebe: "Quem sou eu? De onde venho? Para onde vou? Por que existo?...", por isto já na pré-história mais remota se encontram vestígios religiosos, entre os quais o sepultamento dos mortos, sinal de crença em outra vida segundo o favor da Divindade. O medo e a esperança acompanham todo homem, mas não são necessariamente fatores que geram atitudes religiosas, embora muito contribuam legitimamente para isto. A própria e insaciável sede que o homem tem do Mais e Mais explica o surgimento de atitudes religiosas. Vale à pena repetir as palavras de Santo Agostinho: "Senhor, Tu nos fizeste para Ti e inquieto é o nosso coração enquanto não repousa em Ti". O próprio marxismo, que combate a Religião, vem a ser uma religião às avessas, que tem o proletariado como Messias sacrificado em vista de um mundo novo ou de um mais além terrestre. Dir-se-á que existe uma mística marxista.

4. Cientistas que crêem
Okky de Souza não deixa de reconhecer que há cientistas de grande valor que professam a fé em Deus. Entre outros cita o farmacólogo João Batista Callixto, da Universidade Federal de Santa Catarina, "um dos cientistas brasileiros cujo trabalho tem repercussão internacional". Comenta o repórter:
"Diferentemente de muitos dos seus colegas, ele não vê contradição entre a ciência e a crença em Deus (ver pág. 201-206 deste fascículo). ‘Justamente por ser cientista, posso afirmar que a ciência não tem resposta para tudo', diz, 'Quanto mais eu estudo, tanto mais eu descubro que existem mistérios que não podem ser explicados pela razão!’ Para Callixto, o ser humano precisa de fé para sobreviver. É ela que ajuda a vencer os obstáculos no dia-a-dia".
Esta declaração é muito pertinente: a ciência fica no campo da matéria ou do imanente e não atinge as questões mais profundas do ser humano relativas à sua identidade. Deixa encobertos mistérios que só a fé dissipa. Aliás, a própria reportagem em foco apresenta o depoimento de David Wilson, biólogo e professor da Universidade de Bighamton, que se diz ateu, mas confessa ter fé; fé na ciência, fé no médico, fé na imprensa, fé em muitos valores meramente humanos. Na verdade, o homem tem aspirações congênitas a que ele não pode satisfazer por si e exigem se apóie com fé em fontes de resposta: o colega, a ciência ou -melhor ainda - o próprio Deus.

5. Experiências durante o coma
O repórter refere relatos de pessoas que, em coma, dizem ter saído do corpo e haver encontrado um túnel no fim do qual haveria grande luz e amigos acolhedores em sua nova mansão. - Ora estes relatos estão longe de corresponder à realidade, pois não há topografia do além. São exceções da fantasia, que imagina o além como um aquém melhorado. A fé não está necessariamente ligada a tais experiências.

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