BíBLIA (2614)'
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Artigo

SEGUNDA EPÍSTOLA DE SÃO PEDRO


Os fiéis aos quais é dirigida esta segunda Epístola do príncipe dos apóstolos são os mesmos a que foi dirigida a primeira (cf. 3,1). Aliás, ao passo que na primeira o seu intento era encorajá-los nas perseguições desencadeadas contra eles pelos pagãos, com esta quer chamar-lhes a atenção para os inimigos internos, para erros perniciosos que, infelizmente, começavam a infiltrar-se nas comunidades cristãs. O Apóstolo, prevendo próxima a sua morte (1;13), apressa-se a prevenir os fiéis do perigo, enviando-lhes, como última recordação (1,12,15), este afetuoso escrito. Os três capítulos, em que se divide, tratam de três argumentos distintos.

C. 1. Saudação e votos (1-2); santidade de vida (3-11); firmeza na fé (12-21), que deve ser ornato do cristão.

C. 2. Os falsos mestres: insinuam doutrinas perniciosas, atraindo sobre si a perdição (1-3); antigos exemplos de pecadores terrivelmente punidos por Deus (4-9); aplicação àqueles falsos doutores (10-16); o mal que fazem e sua condenação (17-21).

C. 3. Refutação do erro a respeito da proximidade da parusia ou vinda do Senhor (1-3); ocasião do erro (1-4). Refutação: as três fases do mundo (5-7); o tempo ante a eternidade de Deus (8-9); aquele dia virá, mas de improviso (10); conseqüências práticas (11-13).

Conclusão: estejamos preparados (14); advertência sobre as epístolas de S. Paulo (15-16); votos e doxologia (17-18).

Digno de nota é o c. 2 (mais 3,1-3), porque corre paralelo com a Epístola de Judas: mesmo argumento, exposto na mesma ordem, muitas idéias iguais, freqüentemente expressas com as mesmas palavras. A dependência direta de uma epístola para com a outra parece inegável. Menos fácil é determinar quem é que depende do outro, e as opiniões dos doutos não são unânimes. Considerando aquilo que Pedro apresenta a mais (por exemplo, Noé e o dilúvio, 2,5; cf. 1Pdr 3,20), e o que não apresenta em confronto com Judas (por exemplo, Jud 9,14) e outras particularidades de estilo, devemos dizer (como opina a maior parte dos autores) que a 2Pdr é mais extensa e melhorada e, portanto, posterior à de Judas. Isto possui uma certa importância para as questões da canonicidade, autenticidade e data da presente epístola.

Nos séculos II e III, a 2Pdr era pouco conhecida, ao menos fora do Egito, e a sua canonicidade, ou caráter sagrado, era posta em dúvida, quando não negada. Mas no século IV começou a ser mais bem conhecida no Ocidente e, simultaneamente, foram-se desvanecendo as dúvidas a respeito do seu valor de livro sagrado. Entre o IV e o V século ocupou um lugar definitivo no cânon das Igrejas da Europa e da África, enquanto que na Síria continuou a ser ignorada por mais alguns séculos.

O mesmo não se deu com o reconhecimento da sua autenticidade, isto é, de que S. Pedro é verdadeiramente o seu autor. S. Jerônimo não registrava senão os fatos quando afirmava, no ano 392, que Pedro "escreveu duas epístolas denominadas católicas, a segunda das quais muitos afirmam não ser de sua autoria, porque lavrada em estilo diferente da primeira (De viris 111. c. 1). Partilhando da opinião de que ambas eram genuínas, ele explica as diversidades de linguagem e de estilo pelo fato de S. Pedro as ter ditado a dois tradutores ou redatores gregos diversos (Carta 120, a Edibia, c. 9). É uma hipótese provável, que agrada ainda hoje a muitos dos que sustentam a genuinidade da 2Pdr, como o fazem a grande maioria dos católicos e alguns protestantes. Os que a negam, exageram demasiadamente as diferenças entre as duas epístolas e não consideram, como deveriam, a influência das fontes e das circunstâncias. O c. 2, por exemplo, sendo modelado, como ficou dito acima, sobre a epístola de Judas, é óbvio que não pode assemelhar-se à 1Pdr. Afora isso e poucas outras coisas, no resto da 2Pdr encontrar-se-á uma semelhança tal com 1Pdr e com os discursos de S. Pedro nos Atos, como não se encontra em nenhum outro escrito do Novo Testamento.

Por outra parte, não é necessário ir, como se pretende, além do ano 70 d.C, para situar, na história da Igreja, os aberrantes doutores de que se fala no c. 2 ou os novos sentimentos em relação à "parusia" (3,4), ou a alusão às cartas de S. Paulo (3,15-16). Em poucas palavras, pode-se sustentar muito bem, até mesmo com argumentos internos, que a 2Pdr foi mesmo ditada pelo príncipe dos apóstolos, cujo nome ela traz.

Dado que o autor anuncia, também por revelação divina, como próximo o fim da sua existência terrena (1,14), a composição da epístola pode ser colocada aproximadamente no ano 67, cerca de três anos após a 1Pdr. O lugar em que foi escrita não é referido expressamente. A única hipótese provável é que tenha sido escrita em Roma, como a primeira, pois aí S. Pedro pôs fecho, com um nobre martírio, ao seu glorioso apostolado.


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