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EPÍSTOLAS A TITO E A TIMÓTEO


As epístolas que se seguem, uma a Tito e duas a Timóteo, inter-relacionam-se estreitamente pelo assunto, pela data e pelas características formais de que se revestem. Daí o uso moderno de apresentá-las sempre enfeixadas, com a denominação geral de "epístolas pastorais", por versarem sobre as qualidades requeridas nos pastores da Igreja, bem como sobre os deveres que lhes incumbem no governo das comunidades cristãs que lhes são confiadas.

Muitos críticos protestantes, liberais e racionalistas, puseram em dúvida, desde o início do século XIX até aos nossos dias, a autenticidade do Apóstolo dos gentios das referidas cartas. Numa modalidade um tanto diversa, críticos recentes quiseram ver nelas uma espécie de florilégio, formado com fragmentos autênticos compilados de cartas de S, Paulo. Encontram-se, todavia, citações dessas cartas e alusões a elas, já nos escritos dos Padres Apostólicos, a partir do fim do século I e do início do século II. Daí por diante a sua autenticidade aparece claramente afirmada pelos santos Padres, pelos escritores e pelos documentos eclesiásticos. Tudo isso evidencia a tradição constante da Igreja.

Examinando-as com atenção, verifica-se que tudo quanto está escrito nelas concorda exatamente com o que consta, por outras fontes acerca da vida de S. Paulo, de Timóteo e de Tito e com as condições das comunidades cristãs nos últimos anos da vida do Apóstolo.

Paulo encontra em Listra, por ocasião de sua primeira viagem apostólica, a Timóteo e o converte. Por ser ele filho de pai pagão e de mãe judia convertida ao cristianismo, e sendo, por conseguinte, considerado judeu, ele o submeteu, no decorrer de sua segunda viagem, à circuncisão e o leva consigo através da Ásia Menor à Macedônia (At 16,1-4), e ainda, com toda a probabilidade, a Filipos e a Tessalonica. Deixa-o em Beréia (At 17,14), donde Timóteo parte para se encontrar com ele em Atenas. Envia-o em missão a Tessalonica (1Tes 3,2), e ao seu regresso, o recebe em Corinto (At 18,5). Na terceira viagem apostólica encontramos Timóteo em companhia do Apóstolo em Éfeso (At 19,22) e na Macedônia (2Cor 1,1). Sabemos ainda que acompanhou Paulo a Trôade, na Ásia Menor (At 20,4). Reencontramo-lo em Roma, durante a primeira prisão de S. Paulo (Col 1,1; Flp 1,1; Fim 1). Finalmente, ei-lo radicado em Éfeso (ITim 1,3), onde recebe duas cartas do Apóstolo.

Quanto a Tito, grego de origem (Gál 2,3), foi também convertido por S. Paulo, de quem veio a ser fiel colaborador. Acompanhou-o na viagem a Jerusalém, por ocasião do Concílio Apostólico (Gál 2,1). Na terceira viagem missionária acompanhou o Apóstolo a Éfeso. Foi enviado a Corinto, com a incumbência de amainar as discórdias e restabelecer a paz naquela Igreja, e, com toda a probabilidade, foi ele o portador de uma severa epístola de S. Paulo, que se perdeu. Foi encontrar-se com Paulo na Macedônia, onde consolou o Apóstolo com as boas notícias que trazia de Corinto (2Cor 2,13). Foi enviado novamente a essa cidade, a fim de fazer a coleta destinada aos pobres de Jerusalém (2Cor 8,16). Notícias posteriores a seu respeito não as possuímos, até que o vamos encontrar em Creta, como destinatário da epístola de Paulo.

Note-se que essas indicações relativas a Timóteo e a Tito são confirmadas nas cartas pastorais. O mesmo pode-se dizer de outras informações de pessoas que já conhecemos através dos Atos dos Apóstolos e das demais epístolas de S. Paulo. Além disso, as condições da Igreja descritas nas cartas pastorais, coincidem com as normas que os apóstolos observavam. Se bem que Timóteo e Tito houvessem recebido a sagração episcopal, não eram, contudo, bispos, respectivamente, da Igreja de Éfeso e da de Creta, no sentido atual do vocábulo "bispo" e sim, delegados dos apóstolos, com a missão de supervisionar as referidas Igrejas por um certo período de tempo. Tudo isso é reflexo do estado ainda fluido da organização e da terminologia eclesiástica, que foi lembrado a propósito dos Atos. Aparece em 1Tim 3,8.12 o termo "diácono" para indicar os adidos à administração e à beneficência (cf. At 6,1-6), mas o mesmo termo encontra-se já em Flp 1,1.

O conjunto das observações precedentes constitui um poderoso sustentáculo da autenticidade das "epístolas pastorais", negadas, em geral, hoje em dia, por heterodoxos, pelo fato de apresentarem, como alegam, linguagem e estilo diversos dos escritos autênticos de S. Paulo. Observam, por exemplo, que nelas ocorrem cerca de 300 vocábulos não empregados nas epístolas do Apóstolo. Todavia, devemos lembrar que a diversidade de tema e outras circunstâncias trazem naturalmente consigo variações de vocabulário e aqui entra, além disso, a liberdade do autor, que não está obrigado a lançar mão sempre dos mesmos termos. Ademais, o estilo e o temperamento podem modificar-se com a idade, sendo que Paulo escreveu as pastorais, especialmente a 2Tim, quando já era velho, estando próximo à morte, pela qual deu testemunho de Cristo. O estilo das pastorais é simples e familiar, dada a índole das questões tratadas, que não são dogmáticas nem polêmicas, pelo que se assemelha ao estilo da parte moral das outras cartas de S. Paulo.

Emprega-se ainda como objeção a referência (1Tim 6,20; 2Tim 2,16) a erros e conversas fúteis, próprios do gnosticismo, que surgiram no século II. Entretanto, esses erros não são peculiares dos gnósticos do século II, pois já haviam sido difundidos pelos judeus ou judaizantes, que preludiaram o gnosticismo. Tais erros consistem em fábulas judaicas, proibição de alimentos, hostilidade ao matrimônio com o fim de adquirir ciência superior.

Feita essa introdução geral, só nos resta antepor a cada uma das três epístolas o respectivo sumário.


PRIMEIRA EPÍSTOLA A TIMÓTEO

Cabeçalho e saudação (1,1-2).

Corpo da Epístola (1,3-6,19): ordens e conselhos para a boa administração da Igreja.

1.   Luta contra as falsas doutrinas e vãs especulações, a fim de conservar íntegra e pura a doutrina e a moral de Jesus Cristo (1,3-20).

2.   Regulamento para a oração pública: deve-se orar por todos os homens, a fim de que todos obtenham a salvação (2,1-7); como se deve orar (2,8); traje feminino e atitude das senhoras em família e na sociedade (2,9-15).

3.   Virtudes e predicados exigidos nos ministros sagrados, quer os de grau superior (3,1-7), quer os de grau subalterno

(3,8-13). Grandeza admirável da Igreja (3,14-16).

4.   Erros contra os quais é preciso preparar-se para lhes dar combate (4,1-10). Timóteo deve mostrar-se modelo de virtude (4,11-16).

5.   Como devem ser tratados os homens idosos e os jovens (5,1-2); solicitude especial para com as viúvas (5,3--16); desvelos devidos aos presbíteros (5,17-22); solicitude pelas enfermidades do próprio Timóteo (5,23-25); deveres dos servos (6,1-2).

6.   Alerta contra novidades doutrinais e contra o perigo das riquezas; bom uso dessas últimas (6,3-19).

Epílogo: Guarda ciosa do depósito sagrado da fé (6,20-21).


 

SEGUNDA EPÍSTOLA A TIMÓTEO


Cabeçalho e saudação (1,1-2); agradecimento a Deus, com elogio a Timóteo (1,3-5).

Corpo da Epístola (1,6-4,18).

1. Exortação à coragem e à constância. Timóteo deve professar a fé com generosidade (1,6-8), recordando os benefícios recebidos (1,9-10), o exemplo de Paulo (1,11-12) e o modelo, que é Cristo (1,13-14), e deve defender a fé contra os adversários (1,15-2,13).

2. Como se deve proceder em face dos inovadores: pregar corretamente a verdade, evitando questões inúteis (2,14-26), prevenir-se contra os futuros disseminadores de escândalos (3,1-9), desmantelar o erro com o exemplo de vida santa e cumprir o próprio dever solicitamente até o fim (3,10-4,8).

Epílogo: diversas recomendações e notícias (4,9-18); saudações e bênção (4,19-22).

EPÍSTOLA A TITO

Cabeçalho, com a afirmação de sua autoridade, como apóstolo de Jesus Cristo, para a salvação dos homens (1,1-4).

Corpo da epístola (1,5-3,11).

1.   Qualidades dos presbíteros: dotes que se requerem para os que vão ser sacerdotes e vícios de que devem estar isentos (1,5-16).

2.   Reforma dos costumes: deveres peculiares a serem inculcados aos homens de idade, às senhoras idosas, aos jovens esposos, aos moços e aos escravos (c. 2).

3. Deveres gerais dos cristãos: a submissão às autoridades constituídas, a caridade para com o próximo, a prática das boas obras; exortação para prevenir os cristãos contra as novidades vãs e contra os mestres do erro (3,1-11).

Epílogo (3,12-15): recomendações, avisos (3,12-14), saudações e augúrio final (3,15).


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