PERGUNTE E RESPONDEREMOS 344 – janeiro 1991

Perguntam as Testemunhas de Jeová:

Deve-se Crer na Trindade?

 

Em síntese: As Testemunhas de Jeová, na sua tendência a voltar ao Antigo Testamento, com detrimento do Novo, negam a SS. Trindade e a Divindade de Cristo. Julgam que as Escrituras não apresentam a revelação do dogma trinitário;este terá sido oficialmente professado no século IV apenas, em conseqüência de helenização e deturpação da mensagem cristã. — Verifica-se, porém, que já o Antigo Testamento prepara de algum modo a revelação da SS. Trindade, que não podia ser manifestada aos judeus, dado o ambiente de povos pagãos que os cercavam. No Novo Testamento há várias fórmulas trinitárias, analisadas nas páginas deste artigo; tais fórmulas encontraram eco nos escritos da Liturgia e dos teólogos dos séculos ll-IV. — Pro curando ilustrar como em Deus possa haver três pessoas sem quebra da unidade de natureza ou substância, os teólogos recorrem ao instrumental da filosofia grega, de reconhecido acume lógico; tal recurso é legítimo, contanto que não afete o conteúdo das verdades reveladas. Por conseguinte, a profissão de fé na SS. Trindade não é algo de heterogêneo dentro do Cristianismo, mas é a genuína explicitação do depósito revelado, que o magistério da Igreja reconheceu e sancionou sob a guia do Espírito Santo (cf. Jo 14,26; 16,13).

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As Testemunhas de Jeová, embora se derivem do protestantismo, já não são cristãs) pois não admitem a Divindade de Jesus Cristo nem o mistério da SS. Trindade. Periodicamente lançam fascículos que tendem a mostrar que a crença na Trindade resulta da helenização ou paganização da primitiva mensagem cristã. Com a data de 18/01/1985 foi impresso um número da revista "Despertai!" que negava a SS. Trindade; ao que respondemos em PR 283/1985, pp. 486-496.

 

Mais recentemente, ou seja, em 1989, a Sociedade Torre de Vigia publicou o caderno intitulado "Deve-se crer na Trindade?", em que repete a habitual argumentação antitrinitária. A pedido de leitores, exporemos de novo a doutrina católica, acrescentando alguns dados ao texto de PR 283.

1. O fascículo das Testemunhas

Quem lê o fascículo "Deve-se crer na Trindade?", pode ficar impressionado com a volumosa explanação de motivos. Em grande parte, trata-se de sofismas, textos isolados do seu contexto e preconceitos. Em primeira abordagem, desejamos observar o seguinte:

1) A propalada paganização do Cristianismo é destituída de fundamento. Os cristãos morreram mártires precisamente para não aderir às crenças e aos costumes dos pagãos. O problema já foi considerado em PR 336/ 1990, pp. 220-225.

2) O fascículo apresenta numa mesma página imagens de tríades pagãs e representações iconográficas da SS. Trindade. . . A propósito diremos adiante que o número 3 era muito estimado pelos antigos povos, mas o dogma trinitário tem significado radicalmente diverso do das tríades não cristãs. Ademais a Igreja proibiu que se represente a Trindade mediante um busto com três cabeças (a de um ancião, a de um adulto e a de um jovem) ou mediante uma cabeça com três faces. Tais imagens, que insinuam monstruosidades, contribuem para ridicularizar a SS. Trindade, como querem as Testemunhas de Jeová ao apresentá-las em seu fascículo.

3) Tem-se a impressão de que somente em fins do século XIX a mensagem bíblica do Antigo e do Novo Testamento foi bem entendida, pois os cristãos sempre professaram a fé trinitária. — Ora é preciso ter muita coragem para admitir que durante dezenove séculos ninguém tenha entendido a doutrina do Novo Testamento; era necessário que viesse Charles Taze Russell (1852-1916) para que o mundo entendesse o Evangelho e os escritos neotestamentários! Russell, assim distante, sabia mais e melhor do que os cristãos mais antigos a respeito da Palavra de Cristo? — Seria absurdo admiti-lo.

 

Passemos agora ao exame mais detido da problemática.

 

2. A argumentação das Testemunhas

 

Segundo a corrente em foco, o Novo Testamento não apresenta a palavra Trindade nem a doutrina explícita da SS. Trindade; Jesus e seus seguidores não tencionaram abandonar a fórmula do Antigo Testamento: "Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus é um só" (Dt 6,4). A doutrina trinitária ter-se-á desenvolvido gradualmente no decorrer dos séculos, enfrentando muitas controvérsias.

Mais precisamente: segundo tal escola, a doutrina bíblica, que não reconhece a SS. Trindade, foi adaptada à filosofia grega nos primeiros séculos. Havia nas concepções religiosas e filosóficas não cristãs muitas tríades, que correspondiam a aspectos do Deus Supremo; de modo especial, Platão (427-347 a.C.) terá inspirado os "apóstatas pais da Igreja" para que concebessem Pai, Filho e Espírito Santo como três pessoas num só Deus. Uma das formulações do "novo dogma" terá sido "Pai, Mãe ( = Espírito Santo) e Filho", pois a palavra ruach ( = espírito, em hebraico) é de gênero feminino.

Nos primeiros séculos, teólogos unitários e trinitários, como dizem as Testemunhas, se confrontaram ardorosamente, acabando por prevalecer estes últimos. No Concílio de Nicéia I (325), foi formulado o Símbolo de fé trinitária, que o Concílio de Constantinopla I completou em 381, professando a trindade de pessoas e a unidade de substância em Deus.

Assim é que, segundo as Testemunhas, os cristãos católicos, ortodoxos e protestantes adoram um Deus que não compreendem. Somente a partir de 1874, mediante os estudos de Charles T. Russell e seus companheiros, foi denunciado o erro de dezesseis séculos de Cristianismo; em conseqüência somente as Testemunhas entendem adequadamente a doutrina bíblica referente a Deus, cujo nome autêntico seria Jeová.

 

Perguntamos: que dizer a propósito?

 

Procederemos por partes.

 

3. A doutrina bíblica

A Bíblia ensina estritamente a unidade e unicidade de Deus. Qualquer fórmula politeísta é aberração não só no plano da fé cristã, mas no da lógica; não pode haver mais de um só Deus ou mais de um Ser Absoluto e Eterno.

 

Dito isto, consideremos de per si o Antigo e o Novo Testamento.

3.1. O Antigo Testamento

No Antigo Testamento, visto que o povo de Israel estava cercado de nações pagãs politeístas, a Lei de Moisés e os Profetas insistiram sobre a unicidade de Deus; não havia como revelar ao povo de Israel toda a riqueza da vida de Deus, que, sem perder a sua unidade, se afirma três vezes, como Pai, Filho e Espírito Santo respectivamente.

Todavia não podemos deixar de observar a tendência, dos autores do Antigo Testamento, a conceber como pessoas ou a personificar certos atributos ou propriedades de Deus; é o que se dá especialmente em relação à Sabedoria, à Palavra e ao Espírito de Deus. Examinemos de mais perto como isto se dá.

 

3.1.1. A Sabedoria

 

A sabedoria como tal é um atributo de Deus e do homem. Todavia nos livros sapienciais ela foi sendo concebida como pessoa; assim em Jó 28,1-28; Br 3,4-4,4; Pr 8, 12-36; Eclo 24,5-32; Sb 7,22-26.

A sabedoria "sai da boca do Altíssimo, e, como a neblina, cobre a terra. . . reina sobre todos os povos e nações" (Eclo 24,3-6). Só Deus sabe onde ela habita; só Deus conhece o caminho que leva a ela (cf. Jó 28,23). Desde a eternidade, ela foi estabelecida; antes das montanhas e dos mares, foi gerada; assistia a Deus, como mestre-de-obras, na criação do mundo; todo o tempo ela brincava na presença de Deus e se alegrava com os homens (cf Pr 8, 22-31). Ela apareceu sobre a terra e no meio dos homens conviveu (cf. Br 3,38). É um espírito inteligente, santo, imaculado, amigo do bem, todo-poderoso... É um reflexo da luz eterna, um espelho nítido da atividade de Deus, uma imagem da sua bondade (Sb 7,22-26).

Embora estes textos insinuem ser a Sabedoria uma pessoa distinta de Deus, sabemos que a mentalidade judaica não os podia entender senão como figuras literárias, que personificavam poeticamente um atributo de Deus. No Novo Testamento, porém, São Paulo alude a esses textos e identifica a sabedoria com a segunda Pessoa da SS. Trindade ou o Cristo Jesus:

ICor 1,24: "Cristo é o poder e a sabedoria de Deus";

Hb 1,3: "Cristo é o resplendor da glória de Deus e a imagem da sua substância; sustenta todas as coisas pela sua palavra poderosa";

 

Cl 1,15: "Cristo é a imagem do Deus invisível".

O apóstolo, ilustrado pela revelação cristã, releu os textos do Antigo Testamento de modo a descobrir neles uma revelação da segunda Pessoa da SS, Trindade.

3.1.2. A Palavra

A palavra (dabar), para os semitas, tinha mais importância do que para nós. Atribuíam-lhe eficácia própria, que durava para além do momento em que era proferida.

 

Assim a palavra de Deus é tida como criadora:

Gn 1,3.6.9.11.14s. 2024: "Deus disse. .. E assim se fez."

SI 32,6: "O céu foi feito pela Palavra do Senhor".

Sb 9,1: "Deus dos Pais, . . . que tudo criaste com tua palavra".

SI 147,4: "O Senhor envia suas ordens à terra e sua palavra corre velozmente".

A eficácia atribuída à Palavra de Deus explica tenha sido ela concebida como pessoa ao lado do próprio Deus; assim, por exemplo, nos seguintes textos:

Is 55,10s: "Como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam sem ter regado a terra, ... tal ocorre com a palavra de minha boca; ela não torna a mim sem fruto; antes, ela cumpre a minha vontade e assegura o êxito da missão para a qual a enviei".

Sb 18,14s: "Quando um silêncio envolvia todas as coisas e a noite mediava o seu rápido percurso, tua palavra onipotente precipitou-se do trono real dos céus".

Sb 16,12: "Não os curou nem erva nem ungüento, mas a tua palavra. Senhor, que a tudo cura".

Nestes textos não há, segundo os judeus que os escreveram, senão personificação poética ou figura literária. Todavia o Apóstolo S. João desenvolveu a concepção judaica, apresentando a segunda pessoa da SS. Trindade como Palavra (Lógos, em grego). Cf. Jo 1,1: "No princípio existia o Lógos, e o Lógos estava com Deus e o Lógos era Deus. . . E o Lógos se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai" (ver também 1,14).

3.1.3. O Espírito de Deus

O termo hebraico ruach, (em latim, spiritus, espírito) significa "vento, brisa silenciosa, tempestade. . ." Está associado à idéia de vida. Em conseqüência, as intervenções de Deus em favor do seu povo na história são atribuídas à ruach (força vivificante) de Deus. É esta quem transforma os homens, tornando-os capazes de façanhas excepcionais; tenha-se em vista o caso de Sansão (Jz 13,25; 14,6).

O Messias prometido pelos Profetas seria portador do ruach: Is 11,1-5; 42, 1-3; 61,1s; Jl 3,1-3. Essa força vivificante de Deus seria dada a todos os homens: Is 32,15-20; 44,3-5. E produziria novas criaturas: Ez 11,19; 18,31; 36,26; 37,1-10.

Nota-se também a tendência a personificar o Espírito entre os judeus; cf. Is 63,10s; 2Sm 23,2. Isto, porém, sem ultrapassar os termos de uma figura poética. — O Novo Testamento mais uma vez desenvolveu o pensamento judaico, apresentando o Espírito como a terceira Pessoa da SS. Trindade; cf. Jo 14,25; 16,7.13; At 2,1-22.

 

3.2.2. O Novo Testamento

Jesus explicitou as noções judaicas, falando abertamente do Pai e do Espírito, que com o Filho constituem um só Deus em três Pessoas.

 

A SS. Trindade aparece em algumas fórmulas marcantes:

 

Mt 28,18s: "Ide e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo". — Temos aqui a fórmula tal como era aplicada na liturgia do Batismo; a justaposição mediante a preposição e significa a igualdade de natureza das três Pessoas Divinas.

Mt 3,16; Mc 1,11; Lc 3,22; Jo 1,32: no Batismo de Jesus, o Pai se faz ouvir apontando o Filho, e o Espírito Santo se manifesta sob a forma de pomba (a pomba era, nas literaturas antigas, um sinal que servia para identificar).

Lc 1,30-35: na anunciação do anjo a Maria, o Pai é dito "o Altíssimo, o Senhor Deus"; o Espírito Santo é identificado com "o Poder do Altíssimo". Este recobre Maria com a sua sombra, como as asas de um pássaro recobrem uma criatura, simbolizando a ação divina fecundante e vivificante (cf. SI 16 [17], 8; SI 56 [57] 2; Gn 1,2); em conseqüência, Maria recebe em seu seio o Filho de Deus, ao qual ela deverá dar a natureza humana, para que Ele nasça como Filho de Deus e (enquanto homem) como Filho de Maria.

2Cor 13,13: "A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunicação do Espírito Santo estejam com todos vós!" - Nesta fórmula. Deus (Pai) é tido como o Amor (pois, na verdade, foi como Amor que Ele quis identificar-se no Novo Testamento; cf. Jo 4,16). Esse Amor tem um sorriso (graça) para os homens, que é o Filho feito homem, manifestação do Pai. Essa graça se comunica a cada homem mediante o Espírito Santo, ao qual, portanto, é atribuída a comunhão.

Gl 4,6: "Porque sois filhos, enviou Deus em nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abbá, Pai!" (cf. Rm 8,15). Este texto nos diz que o Espírito Santo nos faz filhos no Filho e, conseqüentemente, com o Filho nos leva a clamar a palavra por excelência: Abbá, Pai. Somos assim inseridos na vida trinitária; a consciência deste fato era tão viva para os antigos cristãos que aprendiam a dizer Abbá desde os primeiros dias da sua conversão, ficando essa palavra aramaica, mesmo fora da Palestina, como a palavra mais típica e fundamental da mensagem cristã.

Ef 2,18: "Por Cristo. . . num só Espírito temos acesso ao Pai". — Neste texto é apresentado o papel de cada uma das Pessoas trinitárias na obra de salvação do homem: o Espírito Santo é sempre aquele que nos faz filhos ou aquele que nos atinge em nosso íntimo. Ele nos leva ao Pai (que é o Princípio e o Fim, o Primeiro e o Último) mediante o Filho (que é o nosso Pontífice ou Mediador). "Ao Pai pelo Filho no Espírito Santo" é a fórmula clássica da piedade cristã, geralmente reassumida pela Liturgia. Vivemos "no Espírito Santo" (cf. 1Cor 12,3; Rm 8,9.11), pois é o Espírito que anima e vivifica o Corpo de Cristo que é a Igreja.

Tt 3,4-6: "Quando a bondade e o amor de Deus, nosso Salvador, se manifestaram, . . . fomos levados pelo poder regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele ricamente derramou sobre nós por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador". — Como se vê mais uma vez, o Pai é o Amor, que tem a iniciativa de nos salvar, o Filho é o Pontífice ou Mediador, e o Espírito Santo é a força de Deus que nos recria, fazendo-nos consortes da vida trinitária.

Hb 2,3s: "A salvação começou a ser anunciada pelo Senhor. Depois foi-nos fielmente transmitida pelos que a ouviram, testemunhando Deus juntamente com eles, . . . pelos dons do Espírito Santo distribuídos segundo a sua vontade". . . — Deus (Pai) é o princípio de toda a salvação; o Filho é a Palavra, que na terra anuncia essa Boa-Nova do Pai; o Espírito Santo é Aquele que em nossos corações explana e interpreta a mensagem.

 

Tal é a doutrina dos escritos do Novo Testamento.

 

Vê-se, pois, que não se pode dizer que no Novo Testamento não há declarações trinitárias ou que a doutrina da SS. Trindade é alheia aos escritos bíblicos. É certo que tal doutrina se encontra expressa, nos textos citados, de maneira vivencial, sem preocupações especulativas e sistemáticas. Os textos bíblicos enfatizam o significado salvífico das verdades da fé, pois a Bíblia foi escrita como mensagem de salvação; todavia foi redigida em termos suficientemente claros, que a Tradição cristã foi aos poucos desenvolvendo de forma homogênea.

4. A antiga Tradição

Na geração que se seguiu imediatamente aos Apóstolos, há testemunhos de fé trinitária em continuidade com os do Novo Testamento. Tenham-se em vista, por exemplo, os seguintes:

1) o rito batismal era ministrado em nome das três Pessoas Divinas, em conformidade com Mt 28,19. Assim atesta a Didaqué, catecismo da Igreja nascente redigido no fim do século I:

"No que diz respeito ao Batismo, batizai em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo em água corrente. . . Derramai três vezes água sobre a cabeça em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (no 7).

S. Justino (+165 aproximadamente) escreve:

"Os que devem ser batizados, são levados por nós a um lugar onde haja água, e são regenerados da mesma maneira como nós fomos regenerados. Com efeito; é em nome do Pai de todos e Senhor Deus e de nosso Salvador Jesus Cristo e do Espírito Santo que recebem a loção na água. Este rito nos foi entregue pelos Apóstolos" (Apologia I, no 61).

Tertuliano (+220): "Foi estabelecida a lei de batizar e prescrita a fórmula: 'Ide, ensinai os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo' (Mt 28,19)" (De Baptismo c 13).

2) Os escritores mais antigos expressam a sua fé trinitária em passagens como:

"Um Deus, um Cristo, um Espírito de graça" (S. Clemente Romano, +100 aproximadamente, Aos Coríntios 46,6).

"Como Deus vive, vive o Senhor e vive o Espírito Santo" (S. Clemente Romano, ib. 58,2).

 

"Vos sois as pedras do templo do Pai, elevado para o alto pelo guindaste de Jesus Cristo que é sua Cruz, com o Espírito Santo como corda" (S. Inácio de Antioquia, 1107, Aos Efésios 9,1). •

 

"Mantende-vos. . . na fé e na caridade, no Filho e no Pai e no Espírito, no princípio e no fim. . . Sede submissos ao Bispo e uns aos outros, como Cristo segundo a carne se submeteu ao Pai, e os Apóstolos a Cristo e ao Pai e ao Espírito, a fim de que a unidade seja, ao mesmo tempo, carnal e espiritual" (Aos Magnésios, 13,1s).

 

"Eu te louvo, Deus da verdade. Te bendigo, Te glorifico por teu Filho Jesus Cristo, nosso eterno e sumo Sacerdote no céu; por Ele, com Ele e o Espírito Santo, glória seja dada a Ti, agora e nos séculos futurosl Amém" (S. Policarpo, 1/56, Martírio, 14,1-3).

 

"Já temos mostrado que o Verbo, isto é, o Filho esteve sempre com o Pai. Mas também a Sabedoria, o Espírito estava igualmente junto dele antes de toda a criação" (S. Ireneu, acerca de 202, Adversus Haereses IV 20,4).

 

Muito significativo é o texto do apologista cristão Atenágoras, +180:

 

"Como não se admiraria alguém de ouvir chamar ateus os que admitem um Deus Pai, um Deus Filho e o Espírito Santo, ensinando que o seu poder é único e que sua distinção é apenas distinção de ordens?" (Súplica pelos Cristãos, c 10).-,

 

3) A palavra "tríade" ou "trindade" (triás, em grego) aparece pela primeira vez nos escritos de Teófilo de Antioquia (+ após 181), exprimindo de maneira mais sistemática a doutrina consagrada pela S. Escritura; com efeito, ao referir-se aos dias da criação em Gn 1, diz o autor: "Os três dias que precedem o aparecimento dos luzeiros, são tipos da Trindade: de Deus, de seu Verbo e de sua Sabedoria" (A Autólico, I. II, c. 14). O fato de que Teófilo usa a palavra triás como um termo corrente, sem necessidade de explicação, leva a crer que tal vocábulo não foi introduzido por Teófilo, mas já era usual antes dele.

 

No século III, como se compreende, a fé dos cristãos na SS. Trindade se manifesta ainda mais eloqüentemente. Os dados bíblicos suscitaram nos teólogos da Igreja o desejo de penetração sistemática, pois a teologia é fides quasrens intellectum, fé que procura compreender. Registrou-se então o debate teológico, do qual vão, a seguir, reproduzidos os principais traços.

 

5. As controvérsias trinitárias

As primeiras tentativas de conciliar unidade e trindade em Deus foram falhas: tendiam a subordinar o Filho ao Pai (o Espírito Santo era menos estudado). Tal teoria nos séculos II e III tomou o nome de monarquianismo (defendia a monarquia divina).

No século IV, o subordinacionismo foi representado por Ario de Alexandria a partir de 315: afirmava ser o Filho a primeira e mais excelente criatura do Pai. Tendo sido concedida a paz aos cristãos em 313, compreende-se que a controvérsia tenha tomado vulto que nunca tivera. Em conseqüência, reuniu-se o primeiro Concílio Ecumênico da história em Nicéia (Ásia Menor) no ano de 325, o qual redigiu uma profissão de fé, que afirmava:

"Cremos. . . em um só Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido do Pai como Unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, luz da luz. Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial com o Pai, por guem foi feito tudo que há no céu e na terra" (DS 125 [54]).

Vê-se que o texto acentua a identidade de substância do Pai e do Filho para afirmar que o Filho não foi criado (quem cria, tira do nada), mas gerado (quem gera se prolonga no filho gerado); o Filho é Deus de Deus, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.

Todavia a disputa não se encerrou em 325. Entre outras questões, restava a das relações do Espírito Santo com o Pai e o Filho. Após decênios de debates, reuniu-se o Concílio de Constantinopla I em 381, que acrescentou à profissão nicena de fé os dados referentes ao Espírito Santo:

"Cremos no Espírito Santo, Senhor e fonte de vida, que procede do Pai (cf. Jo 15,26), com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, o qual falou pelos Profetas" (DSn° 150 [86]).

Afirmando que o Espírito Santo é adorado com o Pai e o Filho, os padres conciliares queriam incutir a identidade de substância (ou a Divindade) do Espírito Santo com o Pai e o Filho. Não há, pois, subordinação do Espírito ao Filho ou ao Pai.

Só foi possível aos teólogos chegar à formulação exata do dogma após recorrerem à distinção entre ousía (essência, natureza) e hypóstasis (pessoa). Aquela é única (a Divindade); as pessoas, porém, são três, sem esfacelar nem retalhar a natureza divina, como três são os ângulos de um triângulo sem esfacelar a superfície do triângulo.

A filosofia grega, que primava pelo seu acume lógico, forneceu aos teólogos cristãos o instrumental necessário para que pudessem elaborar a reta fórmula da fé. Não há inconveniente na utilização da razão e dos seus conceitos para se ilustrarem as verdades da fé, contanto que se preserve incólume o conteúdo de Revelação divina. O recurso à filosofia grega não implicou em helenização do Cristianismo; os cristãos eram muito ciosos da identidade da sua fé, a ponto de morrerem como mártires para não a trair. De resto, o estudo objetivo e sereno das Escrituras do Antigo e do Novo Testamento bem mostra que a doutrina da SS. Trindade é genuinamente bíblica; foi professada na Igreja antes de qualquer apelo à filosofia grega.

O mistério da SS. Trindade estará sempre acima do alcance da razão humana, como, aliás, a vida do próprio Deus em sua unidade é "algo que o olho não viu, o ouvido não ouviu, o coração do homem jamais percebeu" (1Cor 2,9). Isto, porém, não quer dizer que a razão humana não possa descobrir nos seus conceitos e na imagem das criaturas noções que ilustrem de algum modo o mistério de Deus; é precisamente esta a tarefa da teologia. Como todos os estudiosos, os teólogos procedem lentamente, formulando teorias e hipóteses, que o debate vai eliminando e purificando; assim preparam a via para o magistério oficial da Igreja, que não raro mediante Concílios foi definindo nos primeiros séculos as genuínas fórmulas da fé católica.

Podemos aqui referir ainda a objeção que as Testemunhas levantam contra o dogma trinitário, ao dizerem que 1 + 1 + 1 = 3, ou seja, se o Pai é Deus, se o Filho é Deus, se o Espírito Santo é Deus, temos três deuses. Ao que respondemos na mesma linguagem popular: 1x1x1 = 1; vê-se, pois, que a trindade não exclui a unidade desde que o fiel cristão a entenda devidamente: em Deus as três pessoas não multiplicam a natureza e a substância divina, como os três ângulos de um triângulo não multiplicam a figura geométrica.

Quanto à tendência a identificar o Espírito Santo com a Mãe do Filho, ao lado do Pai, na SS. Trindade, deve-se a uma corrente judaica representada pelo apócrifo "Evangelho dos Hebreus" (datado dos séculos I/II). Teve origem em uma seita judeo-cristã dita dos "Nazarenos de Beréia", que estavam distantes das linhas doutrinárias dos demais cristãos; queriam, por exemplo, eliminar do Novo Testamento as epístolas de S. Paulo, tido como apóstata da Lei de Moisés; menosprezavam os Evangelhos canônicos para se aterem somente ao Evangelho segundo os Hebreus. Tal corrente não encontrou ressonância no Cristianismo; em conseqüência, também a interpretação aí dada ao Espírito Santo e à SS. Trindade não teve continuidade.

6. Jeová ou Javé?

 

As Testemunhas de Jeová têm como fundador Charles-Taze Russell (1852-1916), nascido em Pittsburg (U.S.A.) de família presbiteriana. Em 1870 tornou-se adventista. Como tal, refez os cálculos referentes à segunda vinda de Cristo, que os adventistas tinham previsto para 1843/44; Russell assinalou-a para 1914 e, finalmente, para 1918. Infelizmente, porém, Russell faleceu em 1916.

O sucessor foi o juiz Rutherford, que, tendo ido à Europa em 1920, aí anunciou o início da idade de ouro para 1925. Esse novo líder da seita, até então dita "dos Estudiosos da Bíblia", fez que tomasse o nome de "Testemunhas de Jeová". Rutherford morreu em 1942.

Atualmente as Testemunhas têm seu centro principal em Brooklyn (Nova Iorque), onde são editados dois jornais também traduzidos para o português: 'Torre de Vigia" e "Despertai-vos!"

As Testemunhas acentuaram o retorno ao Antigo Testamento, que os Adventistas já tinham iniciado. Chegam ao ponto de negar a SS. Trindade; chamam Deus pelo apelativo Jeovah, forma tardia e errônea do nome Jahweh. — Com efeito; o nome com que Deus se revelou a Moisés é Vahweh (cf. Ex 3,13-17). Tal era a reverência tributada a este apelativo que os judeus não o ousavam pronunciar a partir do exílio (século VI a.C). Era tido como "o nome que se escreve, mas não se lê". Ao encontrarem escrito tal nome, os Israelitas pronunciavam Adonay (1) (= meu Senhor). Em conseqüência, após o século VI d.C. os rabinos fizeram a fusão das consoantes de I H W H com as vogais de E d O n A y; donde resultou JEHOWAH. Notemos, porém, que ainda no início da Idade Média a pronúncia do vocábulo assim oriundo era sempre Adonay. A pronúncia Jeová é, pela primeira vez, atestada por Raimundo Martini, autor da obra "Pugio Fidei" no ano de 1270; parece, porém, que já estava em uso nas escolas rabínicas anteriores. Só foi adotada pelos cristãos no século XVI; principalmente os protestantes, tendo à frente o calvinista Teodoro Beza de Genebra, lhe deram voga, de modo que as Bíblias protestantes de língua inglesa freqüentemente aduzem o nome Jeová.

Além disto, para as Testemunhas de Jeová, Jesus Cristo é apenas criatura. Esta afirmação faz cair por terra todo o edifício do Cristianismo.

Vê-se, pois, como é infundada a posição antitrinitária das Testemunhas: nem na Bíblia, nem na Tradição encontra apoio; faz, antes, parte da tendência das Testemunhas a retornar ao Antigo Testamento em detrimento da Revelação de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

(1) O primeiro a era mudo, correspondendo a um e.

 

7. A SS. Trindade e as fórmulas pagãs

O estudo das religiões comparadas mostra que em algumas correntes religiosas aparecem tríades.

1. A mais simples é a de Pai, Mãe e Filho, ocorrente no Egito antigo sob a forma de Osíris, Isis e Horus. - Ora tal concepção antropomórfica está bem distante da Revelação cristã; o Espírito Santo não é a Mãe de Deus Filho nem é a Esposa de Deus Pai. Ademais a noção do Filho de Deus feito homem e crucificado é totalmente estranha às tradições do Egito e dos povos antigos em geral.

2. Na Índia existe a Trimurti. Tri lembra o no 3, ao passo que murti, em sânscrito e em híndi, quer dizer: corpo sólido, matéria, forma e, principalmente, estátua ou imagem. Designando imagem, murti significa também uma manifestação divina. Trimurti seria, portanto, a tríplice manifestação da Divindade.

Há diversas Trimurti ou manifestações da Divindade na Índia. Assim, por exemplo, existe a Tríade:

Brahma, princípio criador do mundo (ou princípio donde emana o mundo, visto que a noção de produzir a partir do nada ou criar era estranha à Índia); Vishnu, princípio protetor do mundo; Shiva, princípio destruidor do mundo.

Todavia na concepção do hinduísmo não há igualdade entre essas três manifestações da Divindade: Brahma é o deus supremo, impessoal, que no plano dos fenômenos ou das aparências, se manifesta em três deuses diferentes. Brahma assim pode aparecer como a Divindade em seus três aspectos de Criador, Conservador e Destruidor do mundo. Quase não há templos dedicados a Brahma, ao passo que os templos e oratórios consagrados a Vishnu e Shiva se contam aos milhares.

O pensamento filosófico hinduísta pode também dizer que Brahma é, ao mesmo tempo, Existência (Sat), Consciência (Cft) e Felicidade (Ananda) ou Sacádanandabrahma. Estas concepções se distinguem bem da noção cristã de Pai, Filho e Espírito Santo.

A índia é o berço de uma multidão de concepções religiosas, de modo que na mitologia e na iconografia shivaítas, Brahma e Vishnu são algumas vezes um tanto ridicularizados. A tendência do pensamento hinduísta não é a de fazer alternativas e exclusivismos, mas, antes, prefere as sínteses e as complementações (em lugar das oposições).

Encontram-se na índia outras tríades:

Agni, o deus Fogo; Vayu, o deus Vento; Surya, o deus Sol, cada qual reinando no seu próprio setor, ou respectivamente sobre a terra, os ares e o céu.

Sejam mencionados outrossim: os três Vedas ou tipos de escritos sagrados, os três fogos do sacrifício, o tríplice mundo, os três gumas ou qualidades constitutivas do universo .. .

O número 3 é tão estimado pelos antigos e, por isto, tão utilizado na Mística, porque lembra o triângulo eqüilátero, que é imperturbável ou inderrubável e invencível. Três, em conseqüência, era tido como símbolo de perfeição.

A SS. Trindade cristã, embora pareça corresponder à tendência meramente humana de valorizar o número 3, tem um significado e conteúdo teológico que a distanciam de qualquer tríade não cristã, como se verá às pp. 16-21 deste fascículo.

Não nos surpreende o fato de que a SS. Trindade seja considerada um mistério. . . Trata-se da essência do próprio Deus, que definimos como sendo a máxima perfeição; por conseguinte, há de ultrapassar, em riqueza de vida, os limites da inteligência humana. Ultrapassa, porém, sem contradizer as verdades racionais ou a lógica.

A própria fé é um ato racional. Com outras palavras: quem crê, não está renunciando à sua racionalidade. Ao contrário, está a exercê-la, pois a própria razão humana afirma ao homem que a verdade não acaba onde os horizontes do raciocínio acabam. A lógica nos leva a crer; é inteligente ter fé.

A propósito ver

CURSO DE INICIAÇÃO TEOLÓGICA POR CORRESPONDÊNCIA, Módulos 6 e 7, Rua Benjamin Constant, 23, 39 andar. Caixa Postal 1362, 20001 Rio de Janeiro (RJ).

 

GOMES, CIRILO FOLCH, Riquezas da Mensagem Cristã, 1979.

PATFOORT, ALBERT, O mistério, do Deus Vivo, Ed. Lumen Christi, Caixa Postal 2666, Rio de Janeiro (RJ).

 

Dom Estêvão Bettencourt


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