BíBLIA (6671)'
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Artigo

INTRODUÇÃO A LUCAS

O Evangelho de S. Lucas ocupa o terceiro lugar entre os Evangelhos canônicos, e isso em ordem de lugar e de tempo também, segundo a tradição mais certa. As poucas notícias que dizem respeito à vida deste evangelista tiram-se sobretudo dos Atos dos Apóstolos, escritos por ele.

Nascido em Antioquia, segundo uma antiga e autorizada tradição recolhida por Eusébio (Hist. Ecles., III, 4-6), de família pagã, grego de estirpe e por educação, possuía, além do domínio da língua grega que aprendera na infância, também uma boa cultura, como se pode ver pelos seus escritos, dedicando-se à profissão de médico, como no-lo atesta S. Paulo (Col 4,14). Conheceu e abraçou a religião de Cristo, talvez por obra dos primeiros pregadores do Evangelho em Antioquia (At 11,19-24).

Com S. Paulo, que jamais diz tê-lo gerado para Cristo, encontramo-lo, pela primeira vez, em Trôade, na segunda viagem missionária do grande Apóstolo, que então (pelo ano 50 d. C.) estava para fazer a travessia da Ásia, com destino à Grécia. Daí por diante, esteve quase continuamente ao seu lado (executando, nas várias ausências, missões confiadas pelo próprio Paulo), qual discípulo afeiçoado e colaborador zeloso no ministério sagrado da palavra. "Somente Lucas está comigo", escreve tristemente o Apóstolo, prisioneiro pela segunda vez, em Roma, na 2? Epístola a Timóteo (4,11) que é como que o seu testamento espiritual. Não se sabe pois com certeza onde nem até quando o evangelista viveu depois do martírio de S. Paulo.

O próprio Lucas diz-nos (1,3) ter realizado indagações e ter recolhido informações a respeito dos atos e das palavras de Jesus, justo dos que os haviam presenciado. Dentre esses informantes, sobretudo nos primeiros capítulos do seu Evangelho, pode-se ouvir ainda a voz suave da própria mãe de Jesus. Mas o Evangelho de S. Lucas recebeu de S. Paulo, senão o primeiro impulso, certamente sua característica: a universalidade da salvação, as portas da salvação abertas aos gentios, a inexaurível misericórdia divina, o perdão dos pecados, a oração e a perseverança são os temas que de mais relevância se revestem neste Evangelho, que, pela suavidade de afetos de que ê impregnado e péla graça da expressão, é de todos o mais atraente.

É também sua especialidade o prólogo de sabor clássico, com a dedicatória a um ótimo cristão de nome Teófilo e a disposição peculiar da matéria, como se pode ver pelo sumário abaixo, no qual nos estão indicados, em caracteres normandos, as partes peculiares de Lucas.

Prólogo. - Motivo, modo e finalidade que o levaram a escrever o Evangelho (1,1-4).

I parte - Infância e vida privada de Jesus (1,5-2,52).

Um anjo anuncia o próximo nascimento do Precursor (1,5-25). O anjo anuncia a Maria o nascimento do Salvador, Jesus (1,26-38). Maria vai visitar Isabel (1,39-56). Nasce o Precursor e recebe o nome de João (1,57-80). Nasce e é circuncidado o Salvador (2,1-21). Jesus é oferecido no templo na purificação de Maria (2,22-39). Jesus fica perdido e é encontrado no templo (2,40-50). Sua vida oculta em Nazaré (2,51-52).

II parte - Vida pública de Jesus (3,21). A preparação (3,1-4,3): João, o Precursor, prega o batismo de penitência (3,1-19). Jesus (sua genealogia, 3,23-28) é batizado por João, retira-se para o deserto e é tentado pelo demônio (3, 21-4,13).

O ministério: pregação e milagres (4, 14-21,38) em três regiões distintas:

1. Na Galiléia (4,14-9,50), em três fases:

A)    Até à escolha dos apóstolos (4,14--6,11). Sermão infrutífero e perigo que corre em Nazaré (4,14-30); pregação e curas de doentes em Cafarnaum (4,31--44); pregação feita de dentro da barca de Pedro e pesca milagrosa (5,1-11); cura do leproso (5,12-16) e do paralítico (5,17-26); o chamamento do publicano (Levi-Mateus), nova vida e novos costumes (5,27-39); observância do sábado (6,1-11).

B)     Até à missão dos apóstolos (6,12--8,56). Jesus escolhe doze e chama-os de apóstolos (6,12-16); profere-lhes o sermão ou discurso do monte (6,17-49); cura do servo do centurião (7,1-10); ressuscita o filho da viúva de Naim (7, 11-17); recebe os discípulos de João, do qual faz o elogio (7,18-35); recebe e louva a pecadora arrependida (7,36-50); as piedosas mulheres que o seguem (8,1-3); parábola do semeador (8,4-18); os parentes de Jesus (8,19-21); a tempestade acalmada (8,22-25); curas de endemoninhados (8,26-39), da hemorroíssa (8,40-48); ressuscita a filha de Jairo (8,49-56).

C) Até à partida da Galiléia (9,1-50). Jesus envia os apóstolos a pregar e a curar os doentes (9,1-9); com poucos pães sacia 5000 pessoas (9,10-17); responde a Pedro, (que o reconhece como Messias) predizendo a própria paixão e recomendando a abnegação de si mesmo (9,18-27); transfigura-se no monte (9, 28-36); cura um menino possesso (9,37-42); dá lição de humildade e de moderação (9,43-50).

2.   Em viagem para Jerusalém, na Peréia (9,51-19,28). Jesus envia os discípulos na frente e dá-lhes diversas instruções (9,51-10,24); parábola do bom samaritano (10,25-37); em casa de Marta e Maria (10,38-42); força da oração (11,1-13); o poder de expulsar demônios (11,14-26); a verdadeira bem-aventu-rança (11,27-28); o sinal de Jonas (11, 29-36); censura os fariseus e os escribas (11,37-54); advertências às turbas contra a vanglória, o respeito humano, a avareza, a solicitude excessiva dos bens temporais (12,1-34); vigilância (12,35-48); sinais e tempo para fazer penitência (12,49-13,9); curas em dia de sábado, o reino de Deus e sua obtenção (13, 10-14,24); disposições para seguir a Jesus (14,25-35); alegria por um pecador convertido (15,1-10); parábola do filho pródigo (15,11-32); do feitor infiel (16,1-18); do rico glutão (16,19-31), outros avisos (17,1-10); cura dos dez leprosos (17,11-19); preparação para a vinda do reino de Deus (17,20-37); parábolas do juiz e da viúva (18,1-8); do fariseu e do publicano (18,9-14); condições para entrar no reino de Deus (18,15-30); Jesus em Jericó prediz sua paixão (18,31-34); cura um cego (18,35-43); entra em casa do publicano Zaqueu e converte-o (19, 1-10); parábola dos servos e das dez minas (19,11-28).

3.   Em Jerusalém (19,29-21,28). Jesus entra festivamente em Jerusalém (19, 2940) e chora sobre sua sorte (19,41-44); expulsa os mercadores do templo (19,45-48); responde às queixas dos invejosos (20,1-8); parábolas dos maus vinhateiros (20,9-19); o tributo a César (20,20-26); e ressurreição dos mortos (20,27-40); Davi e Cristo (20,21-44); contra a vanglória (20,45-47); o óbolo da viúva (21,1-4); Jesus prediz a destruição do templo e de Jerusalém (21,5- I 24) e, aludindo ao fim do mundo (21, 25-28), exorta à vigilância (21,29-38).

III parte - Paixão e ressurreição de Jesus (22-24).

Nesta parte são especiais a Lucas: a primeira distribuição do cálice na ceia pascal (22,15-17); a discussão entre os apóstolos por causa da promessa e da missão confiada a Pedro (22,24-32); as duas espadas (22,35-38); o suor de sangue no horto (22,43-44); o olhar de Jesus a Pedro (22,61); o conciliábulo da manhã (22,66-71); Jesus no tribunal de Herodes (23,6-12); suas palavras às piedosas mulheres (23,27-31); o bom ladrão (23,39-43); aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos de Emaús (24,13--35); a ascensão de Jesus ao céu (24, 44-53).

Que o médico Lucas, companheiro de S. Paulo, seja o autor deste Evangelho, não pode haver dúvida nenhuma, pelo testemunho constante e unânime de todos os antigos, quer aqueles dos manuscritos ou versões do texto, quer os dos escritores de todos os quilates, tanto hereges (como Marcião) quanto católicos, testemunhos estes confirmados pelo exame intrínseco deste Evangelho. De fato, como obra de um grego de nascimento, ele não contêm (caso único entre os Evangelhos) nenhuma palavra aramaica, nem mesmo o comuníssimo "rabi", e entre todos os escritos do Novo Testamento (exceção feita da Epístola aos Hebreus) é o que tem a locução mais conforme ao gênio da língua grega.

Escreveu Lucas o seu Evangelho antes dos Atos dos Apóstolos, que são como que a continuação daquele (At 1, 1) e, por isso, provavelmente não só antes da morte de S. Paulo (ano 67), que nos Atos é ignorada, mas também antes do fim da prisão do Apóstolo (ano 63), com a qual se encerra esse último livro. Em suma, por volta do ano 60.


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