PERGUNTE E RESPONDEREMOS 555/Setembro 2008

Santos e Místicos

Uma linguagem mais eloqüente:

 

AINDA HÁ MILAGRES?

 

Em síntese: Vai, a seguir, descrito o milagre que possibilitou a canonização do Bem-aventurado Daniel Comboni, apóstolo da África; uma senhora sudanesa, muçulmana, foi curada quando os médicos já a tinham desenganado, devendo-se a cura à intercessão de Dom Comboni. O pri­meiro Bispo de Captum, capital do Sudão.

*   *   *

As numerosas Beatificações e Canonizações de Santos ocorridas nos últimos anos supõem sempre milagres mediante os quais Deus dá a entender que a pessoa em foco merece ser proclamada Santa por causa da sua extraordinária fidelidade às moções do Espírito Santo.

Hoje em dia, porém, muitos fatos portentosos são explicados pela ciência de modo que a noção de milagre tem caído em descrédito. Apesar disto, a Igreja crê que Deus pode efetuar milagres e realmente os efetua. Por milagre, no caso, entende-se um fato real ou histórico, absolutamente inexplicável pela ciência e ocorrido num contexto digno de Deus (sem charlatanismo nem interesses comerciais):

Em PR já temos registrado milagres reconhecidos pela Comissão Médica da Santa Sé num exame objetivo e destituído do preconceito; ver PR 503/2004, pp. 378ss; 443/1999, pp. 187ss. Segue-se mais um relato de cura milagrosa que os médicos peritos reconheceram recente­mente.

 

O relato da ocorrência

Vem ao caso Mons. Daniel Comboni, falecido em Cartum (Sudão) aos 10 de outubro de 1881 como primeiro Bispo daquela cidade. Foi um grande Apóstolo do Sudão, país regido pela lei islâmica da charia. Dom Comboni tornou-se muito estimado a ponto de merecer o apelativo mutran es sudan, o pai dos negros. Teve a coragem de denunciar o tráfico de escravos sudaneses levados para a Europa e se empenhou pelo resgate dos mesmos. Foi beatificado pelo Papa João Paulo II a 17 de março de 1996, depois de ter sido reconhecido o milagre operado por sua interces­são em favor de uma menina "afro-brasileira", Maria José de Oliveira Paixão. Para a canonização era necessário o reconhecimento de um se­gundo milagre. - Por intercessão desse homem de Deus julga-se tenha ocorrido o fato abaixo.

Aos 11 de novembro de 1997 era internada no Saint Mary's Hospital de Cartum a sra. Lubna Abdel Aziz; muçulmana, com 38 anos de idade, casada com o general Khedir El Moubarak, funcionário do Governo de Omar Bashir. A paciente estava para ser submetida a uma operação ce­sariana da qual nasceria seu quinto filho.

A cirurgia ocorreu às 7h 30min; nasceu a criança, mas à tardinha desse mesmo dia estava muito mal a mãe; sofria de graves hemorragias causadas por um espessamento da placenta praevia. Assim afetada, a sra. Lubna foi submetida a mais duas intervenções cirúrgicas no intuito de conter a perda de sangue. Após a segunda cirurgia, os médicos verifica­ram que o sangue já não se coagulava e que de nada serviam as transfu­sões de sangue aplicadas à paciente. Em linguagem técnica, dizia o lau­do médico: "Houve uma CID (coagulação intravascular disseminada) e uma fibrinólise que acarretara um choque hipovolêmico irreversível, um colapso cardíaco e um edema pulmonar". Em poucas palavras: não havia mais esperança de recuperação. Concluíram os médicos: "Prognósticos funestos com desfecho próximo".

Eis como descreve o quadro a Irmã Maria Bianca Benatelli, respon­sável pelo serviço da Maternidade no Hospital:

"Às duas horas da tarde a sra. Lubna voltou da sala de cirurgia onde os médicos haviam tentado combater a causa das hemorragias. Às cinco horas a situação se agravou: o sangue escorria de toda parte como água, sem se coagular. Na urgência do tempo foi-lhe conferido um vaso de san­gue que não estava em boas condições e não fora submetido ao controle para evitar AIDS. O marido de Lubna, sendo pessoa de prestígio na re­gião, conseguiu duas ampolas de fibrinogênio, medicação que estimula a coagulação do sangue; todavia nem isto deu resultado. Então reuniram-se os médicos em torno da paciente e o Dr. Tadros exclamou: 'Hopeless! Sem esperança!'.

Lubna repetia: Ajudem-me!' Experimentei então uma viva compai­xão para com essa mulher mãe de cinco filhos e pensava comigo mesma: se ela fosse cristã, eu chamaria um sacerdote para ministrar-lhe os sacra­mentos e a teria recomendado ao Sagrado Coração de Jesus... Mas era muçulmana... Então lembrei-me de Mons. Comboni. Aqui no Sudão todos o conhecem, até mesmo os muçulmanos. Dirigi então meu apelo a Mons. Comboni, dizendo-lhe secretamente: 'Nada mais podemos fazer, mas tu o podes. É uma muçulmana. Fizeste tanto bem em favor dos sudaneses... tu lhes quiseste sempre as bênçãos de Deus. Obtém-lhe a cura: não a deixes morrer!'. Estava ao meu lado a Irmã Orlanda, a quem eu disse: 'Peçamos a Mons. Comboni que interceda por esta pobre mãe'. Com toda a pressa fui buscar uma imagem dele; enquanto eu caminhava, pedi a Mons. Comboni que me obtivesse a graça de falar adequadamente a tal mulher. Aproximei-me dela e disse:

'Lubna, os médicos dizem que teu estado é muito grave... Talvez tenhas ouvido falar de Mons. Comboni... Se não te opões, queremos con­fiar a ele o teu caso'. Perguntou Lubna: 'Comboni não é aquele que cons­truiu escolas em Cartum?' Respondi-lhe afirmativamente e acrescentei: 'Ele também é um amigo de Deus e, visto que está perto do Altíssimo, ele pode conseguir o que nós todos não conseguimos. Queres que eu deixe aqui uma fotografia dele?' - 'Sim', ressoou ela. A mãe de Lubna que esta­va presente ouviu e deu seu assentimento, embora também fosse muçul­mana. Coloquei então uma imagem de Mons. Comboni debaixo do tra­vesseiro de Lubna, enquanto eu lhe dizia no meu íntimo: 'É preciso que te mostres à altura"'.

Eis agora o depoimento da Irmã Silvana Orlanda, La Marra, uma das outras enfermeiras presentes ao processo:

"Lubna chegou a se tornar inconsciente. O seu coração batia de modo imperceptível. O marido entrou no quarto, dando a mão a um dos seus filhos. Os médicos lhe comunicaram que não havia esperan­ça de recuperação. Ficou em silêncio. Depois tomou a criança nos braços, aproximou-se de mim e disse: 'Irmã, peça ao seu Deus em favor da mãe dessa criança'. A Irmã respondeu com certa timidez: 'Se o sr. estiver de acordo, nós o faremos recorrendo a Mons. Comboni'. O marido sabia quem era Comboni, de modo que não foi necessário di­zer mais nada. Respondeu o general: 'Sim. Comboni foi um grande homem entre nós'.

Então todas as Irmãs missionárias do Hospital deram início a um triduo de orações para pedir a cura da paciente desenganada. Compare­ceram à capela do Hospital também o médico católico que operara Lubna, assim como os três médicos obstetras coptas da casa.

Embora não houvesse esperança, Lubna não exalou logo o último suspiro e atravessou a noite. Na manhã seguinte os médicos ficaram pro­fundamente surpresos por encontrá-la ainda em vida. Também continuou em vida após a terem submetido a uma nova cirurgia. Ao contrário do que se esperava, Lubna recuperou a consciência e começou a melhorar. As melhoras foram-se acelerando, de tal sorte que dentro de poucos dias Lubna obteve alta e deixou o Hospital totalmente curada. Dois médicos muçulmanos examinaram a paciente e reconheceram o fato da sua recu­peração".

Observa a Irmã Bianca Benatelli: "Quando vi que Lubna se restabe­lecera por completo, eu lhe disse: 'Deus muito te ama, Comboni te aju­dou. Muito rezamos por ti, pois és a mãe de cinco crianças e ninguém, melhor do que tu, pode educá-las".

As minuciosas Atas do prodigioso processo foram enviadas à Con­gregação para as Causas dos Santos em Roma e submetidas ao exame rigoroso de médicos peritos, que unanimemente reconheceram aos 11 de abril de 2002: "Cura subitânea, completa e duradoura, sem seqüelas de tipo algum, cientificamente inexplicável".

Aos 6 de setembro do mesmo ano a Comissão de Teólogos da mesma Congregação reconheceu unanimemente tratar-se de cura mila­grosa obtida por intercessão do Bem-aventurado Comboni. A Declaração que afirmava o milagre enfatizou ter este ocorrido em benefício de uma paciente muçulmana, fato muito importante num momento em que se procura dissipar a animosidade existente entre árabes e países ocidentais.

Por respeito à sua fé islâmica, Lubna e seu marido não foram cha­mados para depor perante algum tribunal eclesiástico. Não consta que Lubna se haja convertido à fé católica. Antes, sabe-se que o casal foi a Meca em peregrinação. A Irmã Assunta Sciota observa que o casal ficou sendo amigo das Irmãs, às quais agradecem com freqüência as suas orações e o zelo demonstrado em prol da família.

A leitura desta crônica põe em evidência o cuidado da Igreja Católi­ca desejosa de não confundir um fenômeno parapsicológico ou natural com um milagre. Várias instâncias são consultadas antes de um pronun­ciamento oficial da Igreja. Este só ocorre quando amadurecido e em con­dições de apontar um sinal de Deus apto a dissipar dúvidas, confirmar situações, avivar a fé...

A 20 de dezembro de 2002 o Papa João Paulo II reconheceu oficial­mente este fato como milagroso e a 5 de outubro de 2003 canonizou na Basílica de São Pedro a Daniel Comboni.

As notícias transmitidas nestas páginas foram colhidas na revista Le Christ au Monde: julho-agosto 2003, no 306-312.

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