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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 370 – março 1993

Ainda o artigo de "VEJA"

O Recenseamento sob César Augusto e Quirino (Lc 2, 1-5)

 

Em síntese: O texto de Lc 2,1-5, que menciona um recenseamento realizado na Palestina por ordem de César Augusto, quando Quirino era prefeito da Síria e Herodes rei da Judéia, tem suscitado dificuldades, porque não consta que Herodes e Quirino tenham governado simultaneamente regiões do Próximo Oriente.

O problema, levantado mais uma vez pela revista VEJA, já era conhecido dos estudiosos, que apontam rica documentação tirada de Tito Lívio, Suetônio, Flávio José, Strabo e de inscrições antigas..., documentação que permite reconhecer a historicidade do texto de Lucas: Quirino, que foi Governador da Síria entre 6 e 12 d.C, deve ter sido (como se depreende dos testemunhos antigos) administrador da política romana no Próximo Oriente desde o ano 12 a.C. Visto que Augusto três vezes promoveu o recenseamento dos cidadãos de seu Império entre 28 a.C. e 14 d.C, Quirino pode ter sido o executor de um desses recenseamentos nas regiões confiadas à sua jurisdição.

Também se aponta como solução o possível uso de prótos (= primeiro) no sentido de anterior, uso atestado por textos do Novo Testamento, de modo que se leria: "Este recenseamento ocorreu antes daquele que foi feito sob Quirino, Prefeito da Síria".

Donde se vê que a dificuldade, de novo levantada por VEJA, não é insuperável.

* * *

A revista VEJA, 23/12/92, pp. 48-59, publica um artigo sobre JESUS DA HISTÓRIA tendencioso e incorreto. Levanta problemas contra a historicidade dos Evangelhos, entre os quais o relativo a Lc 2,1 -5:

 

"Naqueles dias apareceu um edito de César Augusto, ordenando o recenseamento de todo o mundo habitado. Esse recenseamento foi o primeiro enquanto Quirino era Governador da Síria. E todos iam-se alistar, cada um na própria cidade. Também José subiu da cidade de Nazaré na Galiléa para a Judéia, na cidade de Davi, chamada Belém, por ser da casa e da família de Davi, para se inscrever com Maria, sua esposa, que estava grávida".

Comenta o articulista de VEJA:

"Lucas, quando dá suas coordenadas históricas, erra tudo. O rei Herodes da Judéia já havia morrido quando Quirino passou a governar a Síria. Portanto, pelo simples e bom motivo de que não houve simultaneidade entre ambos os governos, nada pode ter acontecido quando um e outro governavam simultaneamente. E mais: não se tem notícias de censo universal algum ordenado por Augusto. É fácil concluir que estamos no meio de um cipoal" (p. 48, coluna 2).(1)

 

(1)Para maior clareza, tenha-se presente que Herodes reinou na Judéia de 37a 4 aC, ao passo que Quirino foi Prefeito da Síria entre 6 e 12d.C. (mas talvez também antes do ano 8 a.C, como se dirá adiante).

 

As dificuldades assim formuladas são reconhecidas desde muito pelos comentadores do Evangelho, que se têm debruçado atentamente sobre a documentação historiográfica antiga, a fim de esclarecer a passagem de S. Lucas - estudo este que R. Pompeu de Toledo, tratando superficialmente do assunto, não chegou a fazer ou simplesmente ignora.

 

Apliquemo-nos, pois, ao exame da documentação antiga apta a elucidar o texto de Lucas.

 

São duas as questões levantadas pelo articulista:

 

1) Não se tem notícia de censo universal ordenado por Augusto;

2) Quirino não foi Governador da Síria no tempo do rei Herodes (tempo em que Jesus nasceu).

 

1. Censo Universal sob César Augusto

1.1. O fato

Alega-se que a história universal ignora tal recenseamento. - Ora a propósito três pontos merecem consideração:

1) Segundo o Monumentum Ancyranun (1), Augusto realizou três vezes o recenseamento dos cidadãos romanos em seu Império, a saber: nos anos de 726,746 e 767 da fundação de Roma, ou seja, nos anos 28 e 8 a.C. e 14 d.C.

2) Sabe-se também que, por ordem de Augusto, algumas províncias do Império foram submetidas a recenseamento:

A Gália foi assim tratada em 27 a.C, em 12 a.C. (sob o Governador Druso) e em 14 d.C. (sob o Governador Germânico). É Tito Lívio quem, na sua epístola 137, se refere ao tumulto ocorrido por ocasião do segundo censo na Gália, ao passo que Tácito dá notícia do terceiro censo, em seus Anais 1,31,33.

Em 1880 encontrou-se uma inscrição que refere um recenseamento realizado na Síria por obra de Emílio Segundo e por mandato de Quirino. Eis o texto latino respectivo:

"Q. Aemilius Q. F. Pai. Secundus... iussu Quirini censum egi Apamenae civitatis millium hominum, civium CXVH".

Tal recenseamento parece datar do ano 6 d.C. O texto latino se encontra no Corpus Inscriptionum Latinarum (Th. Mommsen...) Ill, 1, Suplemento n[1] 6687,9.

Os papiros atestam que no Egito, de 14 em 14 anos, se realizava um recenseamento, ao menos a partir de 5-6 d.C. (se não já em 10-9 a.C), até meados do século III.

Ver a propósito: Grenfell-Hunt, Oxyrhynchus II 254-256; U. Wilcken, Grundzüge und Chrestomathie der Papyruskunde I Leipzig-Berlin 1912, 192; M. Hombert-C. Préaux, Recherches sur le recensement dans l'Egypte Romaine, Leiden 1952.

3) Augusto efetuou o que chamava Breviarium Imperií (Estatística do Império), redigido pela própria mão do Imperador; desse documento constava a riqueza do Império: soldados, naves, reinos, províncias, tributos, impostos, doações..., como refere Tácito, Anais 1,11. Cf. F. Blumenthal, Zur zensorischer Tätigkeit des Augusts, em Klio-Bei-träge zur alten Geschichte. Leipzig 9 (1909), pp. 493-500.- Ora tal estatística não poderia existir sem o recenseamento da população do Império.

São estes testemunhos que explicam as palavras de S. Lucas 2,1: o decreto de César Augusto não deve ser necessariamente entendido como decreto relativo ao recenseamento simultâneo de todas as províncias do Império.

 

1.2. Objeções

Levantam-se, porém, objeções:

 

1.2.1. "José não devia recensear-se em Belém..."

Para confirmar a obrigação, de José e Maria, de irem a Belém para recensear-se, citam-se os seguintes documentos:

Um decreto de Gaio Víbio Máximo, Prefeito do Egito, datado de 104, impunha aos egípcios que "todos os que habitassem fora das suas regiões nativas, voltassem ao seu recanto natal para cumprir a disciplina habitual do recenseamento".

Este preceito vigente no Egito devia também aplicar-se à Palestina, visto que no Oriente a pertença à família ou estirpe era de importância capital; todo cidadão sabia a que estirpe pertencia. O povo de Israel constava de tribos e famílias bem definidas - o que muito facilitava a realização do censo segundo as normas habituais.

Maria acompanhou seu esposo a Belém, porque também ela era de estirpe régia (ou da casa de Davi); cf. Rm 1,3; Lc 1,31s. Além do quê, as mulheres deviam estar sujeitas ao recenseamento na Palestina como no Egito. Mais: pode-se crer que Maria era filha única e, por conseguinte, filha herdeira - o que mais a obrigava ao recenseamento.

 

1.2.2. "Augusto não podia prescrever recenseamento a Herodes"

Há quem chame a atenção para o fato de que Herodes era rei companheiro (rex socius), ou seja, um chefe privilegiado no Império

Romano; em conseqüência, não poderia receber ordem de recenseamento da parte de Augusto.

 

Respondemos que os privilégios dos "reis companheiros" dependiam dos Imperadores. Consta que alguns receberam ordem de censo. Ademais o fato de que Augusto tinha uma estatística do Império supõe que soubesse quantos súditos ele possuía em cada província ou reino dos seus territórios.

 

Também se deve observar que Herodes não era rei companheiro

em sentido estrito, mas, sim, por graça de Augusto e decreto do Senado; na verdade, era um Procurador que tinha o direito de trazer uma coroa na cabeça. Por isto também Herodes fazia muita coisa para agradar a Augusto: ergueu templos e estátuas em honra do Imperador, impôs aos seus súditos o juramento de fidelidade a Augusto, e coisas semelhantes.

 

A realização de recenseamento na Palestina sob Augusto ainda é confirmada pelo testemunho de Tertuliano (+ 220), autor cristão, que escreve:

"Consta terem sido efetuados recenseamentos, na Judéia sob Augusto por obra de Sêncio Saturnino, Prefeito da Síria entre 9 e 6 a.C." (Adversus Marcionem 4,19; 4,7).

 

O testemunho de Tertuliano é de particular valor, porque não depende de Lucas, mas, ao contrário, parece contradizer ao de Lucas (que fala de Quirino e não de Sêncio Saturnino). A fonte em que Tertuliano colheu a notícia, são os Archiva Romana (Arquivos Romanos); ver Adversus Marcionem  4,7.

 

Por último, é de notar que, após a morte de Herodes, estavam bem definidos os impostos anuais de cada província do Império - o que supõe recenseamento.

 

Outra dificuldade contra o texto de Lc 2,1s decorre da cronologia do Prefeito Quirino:

 

2. Públio Sulpício Quirino Prefeito da Síria, quando...?

Em Lc 2,2 lemos: "Esse recenseamento foi o primeiro enquanto Quirino era Governador da Síria".

O problema se deriva, em parte, do testemunho do historiador Flávio José (37-100), que só conhece um recenseamento feito na Palestina por Quirino nos anos 6-7 d.C. (Aníiquitates Judaicae 17,13.5; 18,1,1). Flávio José acrescenta que Quirino foi Procurador da Síria entre 6 e 12 d.C.

A dificuldade admite mais de uma solução:

1) Pode-se admitir que Quirino tenha sido duas vezes Prefeito ou Governador na Síria: não somente entre 6 e 12 d.C, mas também entre 12 e 8 a.C. Esta hipótese se baseia no testemunho de Tácito (55-120) e Strabo (60 a.C - 20 d.C), que referem o seguinte: entre 12 a.C. e 1 d.C. Quirino esteve na Cilicia (Turquia atual), que era parte da província da Síria, e promoveu a guerra naquela região; ora somente o Prefeito ou Governador tinha autoridade para fazer guerra mobilizando os seus súditos.

Se tal hipótese é verdadeira, vê-se que Quirino e Herodes podem ter governado na mesma época regiões do Próximo Oriente.

2) Pode-se também admitir que, nos anos anteriores ao nascimento de Cristo, Quirino, embora não fosse Prefeito da Síria, era comandante de exército ou Procurador sob o Governo do Prefeito da Síria. Será lícito então pensar que o Prefeito Sêncio Saturnino tenha prescrito um recenseamento, que o Procurador do Prefeito, Quirino, haverá executado.

Em outros termos: Quirino era encarregado da política romana no Oriente Próximo desde o ano 12 a.C, e, como tal, sob o mandato do Prefeito S. Saturnino, da Síria, terá efetuado um recenseamento. A palavra grega hegemoneuon utilizada por Lucas 2,1 e traduzida geralmente por Prefeito ou Governador, pode ter o sentido amplo de Administrador ou Procurador, como atestam os textos de Flávio José; Quirino fazia jus ao título de hegemoneuon na qualidade de Oficial de Governo do Império de Augusto, mesmo antes de ser Prefeito da Síria em 6-12 d.C.

3) A dificuldade se dissipa por completo se se traduz o texto grego do seguinte modo:

"Este recenseamento ocorreu antes daquele que foi feito na época em que Quirino era Governador da Síria".

Neste caso não haveria simultaneidade de governo entre Quirino e Herodes. Dispensar-se-ia qualquer das tentativas de solução até aqui arroladas. O fundamento para justificar tal tradução é o seguinte:

O adjetivo pratos, primeiro, em grego podia ter, na linguagem tardia, o sentido não superlativo, mas comparativo, a saber: em vez de "o primeiro (recenseamento)", dir-se-ia "o recenseamento anterior ao que foi feito sob Quirino".

Há exemplos bíblicos do emprego de prótos no sentido comparativa de anterior (antes de); assim, vejam-se no original grego Jo 1,15.30 (protos mou = primeiro que eu, antes que eu); Jo 15,18 (prótos hy-mon = antes que vós, primeiro que vós); Mc 14,12 (próte heméra -antes do dia, primeiro que o dia...).

Esta solução é aceitável.

Como se vê, o problema levantado por VEJA, problema, aliás, já conhecido pela exegese científica, tem solução, e em nada afeta a historicidade da narração de Lucas.

 

A propósito citamos:

WALDOMIRO PIAZZA S.J., Os Evangelhos, documento da Fé Cristã - Ed. Loyola, São Paulo 1991.

RENÉ LATOURELLE, Jesus Existiu? História e Hermenêutica. Ed. Santuário, Aparecida (SP) 1989.

 

Dom Estêvão Bettencourt



1Cf. D. Diehl, Res gestae Divini Augusti. Das Monumentum Ancyranum. Kleine Texte für theologische und philologische Vorlesungen und Hebungen (H. Lietzmann). BonnXXIXs 1918, 10-13.

J. Gagé, Res Gestae Divini Augusti Paris 1935.

F. Gottanka, Suetons Verhältnis zu der Denkschrift des Augustus. München 1904,25.

Suetônio, Augustus 27,5,101.


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