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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 370 – março 1993

Preconceituoso e falso:

"Jesus: Quem era Ele?"

(VEJA, 23/12/92)

 

 

Em síntese: O artigo de VEJA, 23/12/92, pp. 48-59 é infeliz, pois se deve a um autor imperito que entra em assunto altamente complexo; vale-se de livros de uma única orientação e de só um idioma, desconhecendo a ampla bibliografia de outras correntes e línguas que tem sido publicada sobre a temática. O autor faz sensação, afirmando que a figura de Jesus histórico é diferente das concepções clássicas que a respeito existem. Na verdade, refere-se aos manuscritos de Qumran (N.O. do Mar Morto), já comentados em PR 367/1992, pp. 530-542; são, porém, patentes as diferenças de doutrina que ocorrem entre Jesus e os Evangelhos, de um lado, e tais manuscritos, de outro lado, como reconhece uma crítica objetiva. O autor do artigo repete objeções levantadas contra as proposições de fé do Cristianismo, sem levar em conta a refutação e os esclarecimentos já muitas vezes prestados por autores cristãos. Assim procede no tocante aos "irmãos de Jesus", à fidelidade histórica dos Evangelhos, aos milagres ("atos mágicos") de Jesus... Principalmente o autor ignora as descobertas de O' Callaghan efetuadas em Qumran a respeito do Evangelho de S. Marcos e sua origem muito antiga (em 50 ou antes terá sido escrito, segundo o pesquisador).

É lamentável que a revista VEJA aborde tão levianamente assunto de tal importância; ela se desacredita junto ao público que conhece um pouco mais a temática do que o respectivo articulista, interessado mais em sátira e sensação jornalística do que na apresentação da verdade.

* * *

 

A revista VEJA, 23/12/92, pp. 48-59 publicou o artigo intitulado "O Jesus da História", assinado por Roberto Pompeu de Toledo, que pretende projetar luz sobre a figura de Jesus a partir de "novas descobertas sobre a sua vida e a sua época". O artigo aborda diversos tópicos relativos aos Evangelhos e à história do tempo de Cristo com a inépcia de quem não conhece bem a matéria ou de quem preconceituosamente a considera para poder fazer ironia. O articulista diz basear-se em seis livros recentes, todos de língua inglesa, ignorando por completo a vasta bibliografia que em outras línguas (e em inglês mesmo) se tem publicado. O trabalho de R. Pompeu de Toledo carece de valor científico, vista a superficialidade e o tom sarcástico em que escreve, procurando muito mais fazer "sucesso" do que apresentar a verdade objetiva. Como quer que seja, dada a perplexidade que o artigo suscitou nos leitores, dedicar-lhe-emos as páginas subseqüentes, passando em revista os pontos vulneráveis do trabalho.

 

 

1. As Grandes Falhas

 

1.1. "O que se conclui... é falso"

Logo no seu primeiro parágrafo, o articulista afirma ser falso o que se sabe sobre Jesus através dos Evangelhos e da Tradição (ver. p. 48, coluna 1). Tal afirmação é muito grave... Como o autor a justifica? - Dá alguns exemplos que lhe parecem significativos:

Assim "Em Mateus José é avisado por um anjo do próximo e auspicioso nascimento. Em Lucas é com Maria que isso acontece" (p. 48). - Ora o autor parece não ter lido o texto dos Evangelhos, pois não observa que o anjo anuncia a Maria que ela está para ter um filho sem contato com varão (cf. Lc 1,30-38), ao passo que em Mateus o anjo anuncia a José o fato predito e já ocorrido (cf. Mt 1,18-23); trata-se, pois, de dois eventos diferentes.

Diz ainda Toledo: "Em Mateus o menino recém-nascido é visitado por reis magos... Já em Lucas quem o visita são pastores" (p. 48).- Mais uma vez o autor atesta não saber de que está tratando. Os pastores, conforme Lc 2,8-14, são chamados ao presépio na noite do nascimento de Jesus, ao passo que os magos são guiados a ver Jesus em ocasião posterior; cf. Mt 2,1-12 (Herodes mandou matar meninos de dois anos para baixo, a fim de atingir Jesus).

1.2. A autoridade de Rudolf Bultmann

Pompeu de Toledo classifica Rudolf Bultmann como sendo "um dos maiores estudiosos do Novo Testamento neste século, senão o maior" (p. 48, col. 2). - O autor ignora que Bultmann já foi ultrapassado; existe a escola pós-bultmanniana representada por W. Marxsen, E. Kà-semann, G. Bornkamm, como também a chamada "Escola Sueca" (H. Ri-senfelde e B. Gerhardsson), que têm Bultmann na conta de extremado e radical preconcebido discípulo de Martin Heidegger. Este filósofo existencialista negava o valor objetivo do conhecimento humano; donde resultou que R. Bultmann tivesse como premissa filosófica, assumida a priori (preconcebidamente), a "convicção" de que os Evangelhos não apresentam história real, mas o modo de pensar subjetivo dos antigos cristãos. Esta tese tem sido amplamente refutada por críticos católicos e não católicos, que julgam impossível explicar o fenômeno "Cristianismo" sem que nas suas origens haja um personagem impressionante por sua santidade e majestade moral. Ver a propósito:

WALDOMIRO PIAZZA S.J., Os Evangelhos, Documentos da Fé Crista. Ed. Loyola, 1991.

RINALDO FABRIS, Jesus de Nazaré. História e Interpretação. Ed. Loyola 1988.

VÁRIOS AUTORES, Jesus Cristo. Ed. Cidade Nova 1983.

1.3. Onde e Quando nasceu Jesus?

Conforme o evangelista S. Lucas (2,4-7), Jesus nasceu em Belém, pois era descendente de Davi, cuja cidade natal era Belém. A profecia de Mq 5,1 já previa o privilégio de Belém, cidade "da qual sairia um chefe, que apascentaria Israel, o povo do Senhor". A arqueologia confirma os dados bíblicos, mostrando em Belém o lugar da natividade de Jesus; S. Jerônimo (+ 421) viveu e estudou a S. Escritura nas proximidades desse local, atendendo assim a uma tradição antiga.

No século presente, alguns estudiosos julgam que Jesus, por ser chamado Nazareno, nasceu em Nazaré na Galiléia. Ademais o recenseamento sob César Augusto lhes parece inverossímil, de modo que Jesus não terá nascido em Belém. Os cristãos o terão feito cidadão de Belém para poder apresentá-lo como Filho de Davi e Rei Messias. - Ora tais conjeturas são gratuitas e derivadas de preconceitos; nenhum argumento positivo as pode fundamentar. A questão do recenseamento, que parece ser o ponto mais firme para apoiar a conjetura, é resolvida por várias vias, como se depreende do artigo respectivo às pp.134-140 deste fascículo.

A data em que Jesus nasceu, não é explicitamente indicada pelos Evangelhos. Alguns autores tentaram calculá-la a partir de certos dados cronológicos genéricos apontados pelos evangelistas (cf. Lc 2,1; 3,1), mas não chegaram a conclusões unânimes. A datação hoje vigente, que assinala o início da era cristã no ano 753 de Roma, é devida ao monge Dionísio o Pequeno (século VI) e reconhecida como errônea; Jesus deve ter nascido quatro a seis anos antes do início oficial da era cristã. Na verdade, isto pouco importa para a mensagem religiosa e a identidade do Cristianismo. A respeito encontram-se mais pormenores em PR 300/1987, pp. 204-211.

 

1.4. Os "irmãos" de Jesus

Pompeu de Toledo repete a velha tese de que Jesus teve Irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Tal hipótese resulta de leitura unilateral do texto bíblico e já tem sido refutada repetidamente; ver PR 358/1992, pp. 119-123.

" Em resposta sumária, deve-se dizer que a palavra 'ah em hebraico tem o sentido de parentesco em geral; não significa apenas irmãos; ver Gn 13,8; 29,12.15; 31,23; 1Cr 23,21-23; 2Cr 36,10; 2Rs 10,13.

Ademais é de notar que Jesus, aos doze anos, parece ser filho único (cf. Lc 2,41 -50). Se teve irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe, eram, no mínimo, 12/13 anos mais jovens do que Jesus - o que não condiz com a atitude autoritária assumida por tais "irmãos" frente a Jesus (cf. Jo 7,3-5). Por último, sabemos que Jesus, ao morrer, entregou sua mãe a João, filho de Zebedeu e Salomé, e não aos "irmãos" - o que, mais uma vez, insinua que Jesus era filho único; cf. Jo 19,25-27.

De resto, a autêntica interpretação dos Evangelhos é-nos fornecida pela antiga e persistente tradição cristã, que afirmou a perpétua virgindade de Maria. O parentesco dos "irmãos" com Jesus pode ser explicado de duas maneiras:

-  ou tratava-se de filhos de S. José, nascidos em anterior casamento de José; este teria esposado Maria em idade mais avançada, na qualidade de viúvo. Tal hipótese é atestada pelo Evangelho apócrifo de Tiago, mas carece de fundamento na própria S. Escritura,

-  ou eram filhos de Cleófas ou Alfeu, irmão de S. José, casado com certa Maria; cf. Jo 19,25; Mt 27, 55s; Mc 15,40s. Tal explicação é geralmente adotada pela exegese católica: os "irmãos" eram primos de Jesus.

A questão "Onde esteve Jesus dos doze aos trinta anos?" já teve longa resposta em PR 321/1989, pp. 82-95. Além de lembrarmos que Jesus era conhecido como carpinteiro em Nazaré (cf. Mc 6,3s), devemos dizer que os Evangelhos não são biografia, de modo que se possa esperar encontrar neles um retrato contínuo da vida de Jesus. Os Evangelhos são apenas o eco escrito da pregação oral dos Apóstolos; ora esta se interessava pela Páscoa (morte e ressurreição) de Jesus e por sua vida pública, deixando em silêncio os acontecimentos anteriores ao Batismo ministrado por João; tal foi o caso de S. Marcos, que nada diz sobre a infância e a juventude de Jesus, mas escreveu autêntico Evangelho. Mateus e Lucas acrescentaram ao relato evangélico alguns dados esparsos atinentes à infância de Jesus, porque o quiseram; trata-se de flashes esporádicos, que, precisamente por serem esporádicos, não fazem continuidade entre si e com o corpo do Evangelho, deixando margem à fantasia dos leitores para preencher as lacunas cronológicas assim oriundas. E a mera fantasia, sem base real, que conjetura tenha estado Jesus na índia, no Tibete, no Egito...; as correntes esotéricas e, em parte, as espíritas favorecem tal tipo de devaneios.

1.5. Jesus "operador de curas"

O articulista de VEJA, pouco conhecedor do assunto, vale-se do livro de John Domnic Crossan "The Historical Jesus" para dizer que Jesus se destacou por ser um "operador de curas": "Operando curas, sentando-se à mesa com as pessoas, assim Jesus desconcertou a Galiléia" (p. 56) (1). Essas curas efetuadas por Jesus são por Crossan chamadas magia e não milagres; os milagres seriam curas praticadas e reconhecidas pelas autoridades judaicas, ao passo que magia seriam intervenções realizadas "por fora", associadas ao perdão dos pecados, sem cobrança de dinheiro.

(1) Em latim diz-se: "Timeo virum unius libri - Tenho medo do homem que lê um livro só". O autor do artigo de VEJA, se não leu um livro só, leu apenas livros de uma tendência ou preconcebidamente racionalistas.

Segundo Pompeu de Toledo e seus informantes, a tradição judaica julgava que o recurso à medicina era ilícito, pois só Deus poderia e deveria curar as doenças, tidas como conseqüências do pecado. Ora Jesus estaria derrogando a tal concepção, fugindo dos canais oficiais de cura. Infelizmente a proposição de Toledo é falsa: embora o livro do Gênesis associe a morte ao pecado (cf. Gn 2,17; 3,19), os judeus, especialmente nos séculos mais próximos de Cristo, conheciam e estimavam muito a medicina científica da época. É o que se depreende do elogio que o Eclesiástico faz do médico em 38,1-3:

"Rende ao médico as honras que lhe são devidas, por causa de seus serviços, porque o Senhor o criou. Pois é do Altíssimo que vem a cura, como um presente que se recebe do rei. A ciência do médico o faz trazer a fronte erguida; ele é admirado pelos grandes".

O texto de 2Cr 16,12, citado por Toledo, refere que "o rei Asa teve uma doença muito grave nos pés; mesmo então, na doença, não recorreu ao Senhor, mas aos médicos". Estes dizeres não implicam proibição de recorrer à medicina. Explica oportunamente a Bíblia de Jerusalém em sua nota relativa ao citado texto bíblico: "Na época a medicina era muitas vezes contaminada pela magia, mas o texto quer dizer sobretudo que Asa recorreu somente aos médicos para um mal que era castigo de lahweh (cf. v. 10)". O livro de Jó bem mostra, de princípio a fim, que a doença nem sempre é devida a pecado pessoal; Jó sofre inocente e contradiz, com razão, à suposição de seus amigos, que o acusavam de haver pecado gravemente para merecer a sua penosa moléstia.

Donde se vê que a figura de Jesus como "curandeiro não autorizado" e, por isto, suscetível de ódio das autoridades judaicas é simplesmente fantasista e falsa.

 

1.6. Os Manuscritos do Mar Morto

O artigo de VEJA pretende basear-se em manuscritos e descobertas arqueológicas como fonte de reinterpretação da figura e da vida de Jesus. Quem não conhece bem o assunto, pode imaginar que uma revolução papirológica e arqueológica se deu nos últimos anos, de modo a se ter uma concepção de Jesus diferente da clássica. Aliás, é isto que Toledo quer insinuar: Jesus não foi aquilo que sempre se pensou.

 

Todavia um conhecimento mais preciso do assunto em pauta leva a averiguar, no estilo de Pompeu de Toledo, o homem da sensação que se interessa principalmente pelo sucesso "novelístico". Um cientista nunca diria as inverdades que o articulista ousou apresentar ao público de VEJA.

 

Afinal os tais manuscritos e as descobertas arqueológicas citados por Toledo são os famosos textos encontrados nas grutas de Qumran (a N. O. do Mar Morto), entre 1947 e 1958. Pertenciam a uma comunidade de monges judeus chamados (como se crê) "essênios". Viviam no deserto, na expectativa da vinda iminente do Reino de Deus e, para se alimentar em sua espiritualidade, possuíam manuscritos bíblicos, uma Regra de vida comunitária e outros escritos de ascese e mística.

 

O fundador dessa instituição monástica é chamado, nos documentos respectivos, "o Mestre de Justiça"; este foi certamente um personagem de grande valor moral, que marcou profundamente a história da comunidade. Pouco se sabe a seu respeito; todavia pode-se dizer que tinha um adversário - o Sacerdote ímpio -, que devia oficiar em Jerusalém, em conivência com os costumes helenizantes ali introduzidos.

Como dito, os habitantes de Qumran viviam na expectativa ardente da vinda do Reino de Deus; julgavam ser eles os únicos israelitas incontaminados, os filhos da luz em meio aos filhos das trevas. O seu isolamento topográfico no deserto significava também isolamento de espírito; em virtude de sua mentalidade estreita, particularista, não queriam intercâmbio com os moradores das cidades (neste ponto iam, pois, muito mais longe do que os fariseus). Ao lado disto, porém, nutriam concepções religiosas bastante elevadas, estimando os bens invisíveis, a vida póstuma e afastando-se do ideal de um messianismo político; os maus, para eles, não coincidiam propriamente com os romanos ou pagãos, mas com os seus compatriotas representantes da religião oficial de Israel, os quais lhes pareciam pactuar com os costumes pagãos.

Este fundo de idéias já nos dá a ver que entre os essênios e os cristãos não há apenas pontos de contato, mas há também pontos de divergência.

a) A mentalidade essênia ou a mentalidade apregoada pelo Mestre de Justiça parte de um pressuposto bem diferente do que Cristo apregoa. Ao passo que o Mestre de Justiça se retirava no deserto com seu grupo de discípulos para evitar o contato com os homens imundos, Jesus fazia questão de comer com os pecadores, de dizer que viera salvar as ovelhas perdidas,... que não são os sadios, mas os doentes, que precisam de médico (cf. Mc 216; Lc 5,30). Fazendo isto, destoava dos fariseus e os escandalizava; muito mais teria escandalizado os essênios, cuja Regra mandava "odiar todos os filhos das trevas" (I 10); Cristo pregava o amor extensivo até mesmo aos inimigos (cf. Mt 5,44; 22,40). Por conseguinte, já se vê quão despropositado seria querer fazer de Jesus uma "segunda edição" do Mestre de Justiça ou um discípulo dos essênios, um continuador da mentalidade destes.

 

Outros tópicos concorrem para realçar as diferenças:

b) Ao passo que o Mestre de Justiça aguardava o fim dos tempos e a instauração do Reino de Deus por obra de dois Messias, Jesus tinha consciência de ser o Messias pelo qual estas realidades se iniciaram no mundo: "Eu sou o Messias, que te falo" (Jo 4,26); "E agora o julgamento do mundo" (Jo 12,31); "O Reino de Deus está em meio a vós" (Lc 17,21).

c) Além disto, o Mestre de Justiça afirmava repetidamente sua distância em relação a Deus, confessando-se indigno pecador; Jesus, ao contrário, não manifestava em absoluto a consciência de pecado (cf. Jo 8,46). Ele mesmo perdoava as culpas com desassombro, provocando voluntariamente a surpresa dos fariseus, que exclamavam: "Quem pode perdoar os pecados se não Deus"? (Mc 2,7). Se a consciência do pecado é a marca dos santos, a falta desta consciência em Jesus, que não obstante possuía uma alma profundamente religiosa, constitui um enigma para quem o observa à luz da mera razão.

d) Em Jesus não se encontram vestígios do esoterismo ou ocultismo que caracterizava os essênios em geral. Nada há de mais oposto à doutrina de Cristo do que uma iniciação reservada a poucos; Ele mesmo pregou às claras, em público, e mandou aos discípulos anunciassem sobre os telhados o que tivessem ouvido em cubículos (cf. Mt 10,26s; Jo 18,20).

2. Apesar de todas estas divergências de mentalidade, há quem diga que Jesus foi discípulo dos essênios no período que vai dos doze aos trinta anos de idade; teria então vivido no deserto ou no monte Carmelo, iniciando-se no esoterismo... Sem dúvida, os manuscritos do Mar Morto não somente não oferecem base para esta hipótese, mas, como se depreende das comparações acima, levam a rejeitá-la. Por seu lado, o texto do Evangelho é contrário a tal suposição, pois refere que, quando Jesus começou a pregar em Nazaré, sua pátria, os seus concidadãos exclamavam:

"Qual é essa sabedoria que lhe foi dada e que grandes milagres são esses que se fazem por suas mãos? Não é o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E suas irmãs não habitam conosco?" (Mc 6,2s).

Como se vê, os conterrâneos de Jesus conheciam perfeitamente sua identidade; sabiam o que fizera até se manifestar em público: fora carpinteiro, bem notório a eles; daí a surpresa que experimentaram, quando de seus lábios ouviram uma sabedoria não adquirida em escola humana.

Contudo os fautores da identidade entre Jesus e o Mestre de Justiça (nomeadamente Wilson e Allegro) julgam poder apelar para analogias, que eis aqui:

a) O Mestre de Justiça pregava como Doutor inspirado, reagindo contra o falso espírito religioso de seu povo; em conseqüência, sofreu perseguição por parte dos dirigentes da nação. Nestes pontos coincide com Jesus Cristo.

Não consta, porém, que haja sido condenado à morte; ao contrário, os textos de Qumran dizem que "se reuniu a seus pais" - expressão que designa a morte tranqüila dos Patriarcas. Em parte alguma é anunciada a sua ressurreição. Quanto à sua volta no fim dos tempos para julgar o mundo, só pode ser defendida na base de contestáveis interpretações dos textos. Numa reflexão serena verifica-se que os traços característicos do Mestre de Justiça coincidem com os que os israelitas atribuíam a Elias e aos profetas; só o assemelham a Jesus na medida em que Jesus se assemelhou aos profetas.

b) Os monges de Qumran, distanciando-se um tanto do judaísmo oficial, celebravam uma ceia sagrada à noitinha, em que consumiam pão e vinho bentos. Essa refeição era considerada a antecipação do banquete a que o Messias de Aarão havia de presidir no fim dos tempos. Ora Jesus, dizem, celebrou ceia análoga com seus discípulos e mandou repeti-la em seu nome...

Para avaliar o significado de tal analogia, tenha-se em vista que ceias sagradas são rito muito freqüente no culto religioso como tal. Além disto, note-se que, apesar da semelhança de ritual, Cristo deu à ceia cristã (eucarística) um sentido novo, sentido de consumação em relação à ceia essênia; afirmou, sim, que o pão e o vinho são a sua própria carne e o seu sangue imolados em sacrifício para selar uma nova e definitiva Aliança de Deus com os homens, em substituição da Aliança travada por intermédio de Moisés; os essênios em absoluto não tinham a idéia de um sacrifício redentor do Messias, muito menos a idéia de participar desse sacrifício mediante uma ceia sacramental. - Sendo assim, reconhecer-se-á que o gesto de Cristo na última ceia podia ter uma força de evocação muito particular para os seus discípulos, pois não era inédito em seu aspecto exterior; era, porém, portador de realidade totalmente nova...

1.7. A Fidelidade dos Evangelhos

O assunto tem sido abordado com freqüência em PR. Ver, por exemplo, PR 336/1990, pp. 194-210; PR 309/1988, pp. 50-66.

Mais e mais em nossos dias são superadas as posições de R. Bultmann e outros autores racionalistas, que negavam a autenticidade dos Evangelhos. Tenham-se em vista as obras de

RENÉ LATOURELLE, Jesus Existiu? - Ed. Santuário, Aparecida 1989. Cf. PR 336/1990, pp. 194-210.

FRANÇOIS DREYFUS, Jesus sabia que era Deus? Ed. Loyola, São Paulo, 1987, Cf. PR 309/1988, pp. 50-66.

F. LAMBIASI, Autenticidade histórica dos Evangelhos. - Ed.

Paulinas, São Paulo.

JOÃO EVANGELISTA MARTINS TERRA, Jesus, - Ed. Loyola, São Paulo.

JEAN GUITTON, Jesus.- Ed. Itatiaia, Belo Horizonte.

VITTORIO MESSORI, Hipóteses sobre Jesus. - Ed. Paulinas, São Paulo.

JOÃO MOHANA, Jesus Cristo Radiografado. - Ed. Agir, Rio de Janeiro, 1980.

A propósito deter-nos-emos apenas sobre dois tópicos do artigo de VEJA atinentes à historicidade dos Evangelhos:

1) P. 49, coluna 2: "Nunca se tem certeza das atribuições de autoria, mesmo no caso dos quatro evangelistas consagrados".

Para contraditar esta afirmação, basta consultar a papirologia e os pergaminhos dos textos do Novo Testamento para se verificar que, desde o início da tradição, há referência clara ao autor de cada livro do Evangelho. No século II deu-se ao texto do Evangelho o título de Evangélion kathà Matthaion, kathà Markon, kathà Loukan, katà loannen (segundo Mateus, Marcos, Lucas, João). - Além do testemunho dos manuscritos antigos, temos o dos escritores cristãos que desde os primeiros tempos conhecem o nome do autor de cada Evangelho. Assim,

Papias, bispo de Hierápolis (Ásia Menor), por volta de 130: "Mateus, em dialeto hebraico, coordenou os dizeres; a seguir, cada qual os interpretou como pôde" (cf. Eusébio, História da Igreja III 39,16).

O mesmo Papias escreve: "Eis o que costumava dizer o presbítero: Marcos, que se tornou intérprete de Pedro, escreveu com exatidão (não, porém, segundo a ordem) tudo de que se recordava dentre os ditos e feitos do Senhor. Ele não ouviu o Senhor, nem foi seu discípulo; mais tarde, porém, fez-se discípulo de Pedro. Este ministrava o seu ensinamento segundo a necessidade, sem tencionar pôr em ordem os sermões do Senhor, de sorte que Marcos não incorreu em falta, escrevendo certas coisas como delas se recordava. Só se preocupava com um objetivo: nada omitir do que ouvira e não referir senão a verdade" (cf. Eusébio, História da Igreja II 39,5).

A respeito de Lucas, escreve um Prólogo latino anteposto ao terceiro Evangelho em fins do século II:

"Lucas foi sírio de Antioquia, de profissão médica, discípulo dos Apóstolos; mais tarde, seguiu Paulo até a confissão (martírio) deste, servindo irrepreensivelmente ao Senhor. Nunca teve esposa nem filhos; com oitenta e quatro anos morreu na Bitínia, cheio do Espírito Santo. Já tendo sido escritos os Evangelhos de Mateus, na Judéia, e de Marcos, na Itália, impelido pelo Espírito Santo, redigiu este Evangelho nas regiões da A caia, dando a saber logo no início que os outros (Evangelhos) já haviam sido escritos" (texto editado por D. de Bruyne, em Revue Bénédictine 40 (1928), p. 197).

A propósito de São João, refere S. Ireneu, nativo de Esmirna (Ásia Menor) em 130 e discípulo de São Policarpo e dos presbíteros que haviam convivido com o Apóstolo São João:

"João, o discípulo do Senhor, que repousou sobre o peito de Jesus, publicou o Evangelho durante a sua estada em Éfeso na Ásia" (Contra as Heresias III 1, 1).

Poder-se-iam multiplicar as citações - o que ultrapassaria o âmbito deste nosso comentário. - O que hoje se admite, como novidade, é que os Evangelhos foram escritos por etapas, havendo primeiramente folhas avulsas (uma série de parábolas, uma série de milagres, um sermão programático, a história da Paixão); esses fragmentos foram compilados e completados por cada evangelista, talvez com a colaboração de discípulos, de modo que hoje se fala de Escola de São Mateus, Escola de São João...; isto porém, não afeta a identidade do autor de cada Evangelho ou do patrono da respectiva Escola.

Verdade é que sobre algumas cartas atribuídas a São Paulo pairam dúvidas, ora mais, ora menos plausíveis. Por exemplo, no tocante à epístola aos Hebreus, pode-se dizer com certeza que não é da pena de Paulo, mas, sim, da inspiração do Apóstolo, sendo o redator um discípulo (Apolo ou Barnabé). A autoria da carta aos Efésios também é discutida, mas isto não afeta a credibilidade do texto, que fica sempre dentro do âmbito dos Apóstolos no século I.

Ainda é digna de nota em favor da credibilidade dos Evangelhos a descoberta do Pe. O'Callaghan S. J. mencionada em PR 288/1986, pp. 194-200; 321/1989, pp. 50-54; 354/1991, pp. 482-494. Julga este papirólogo ter encontrado em Qumran um fragmento do Evangelho segundo S. Marcos, que deve datar do ano 50 aproximadamente; a tese de O'Callaghan foi proposta aos estudiosos do mundo inteiro e vem encontrando a adesão de respeitáveis nomes de cultores da ciência. Caso seja verídica tal conclusão, ter-se-á dado mais um passo para comprovar a fidelidade histórica dos Evangelhos; a redação dos mesmos não está distanciada de Jesus, como queriam os críticos racionalistas, a fim de poder admitir acréscimos subjetivos e "místicos" à figura de Jesus Cristo, mas está muito próxima do Senhor, fazendo eco à pregação dos Apóstolos nos primeiros anos do Cristianismo. É lamentável que o articulista de VEJA tenha ignorado tal fato.

2) "Os apócrifos são coletâneas de histórias inventadas, algumas em meios populares, onde a religião ainda mal se separava da feitiçaria" (p. 50, coluna 1).

Na verdade, o nome "apócrifo" (apókryphon, em grego) quer dizer "oculto, não lido na leitura pública ou litúrgica". Trata-se de escritos redigidos do século I ao século IV, que tentam completar os relatos evangélicos; hoje os estudiosos reconhecem que há três tipos de narração na literatura apócrifa:

-   narrações de índole histórica, fidedignas, que não entraram na redação dos escritos canônicos, pois estes não pretendem conter tudo quanto Jesus disse e fez; cf. Jo 20,30s; 21,25;

-   narrações de natureza fantasiosa, que tendem a fazer de Jesus um ser "maravilhoso" desde os seus primeiros anos (o maravilhoso não se identifica necessariamente com feitiçaria, pois esta consta de receitas para obter prodígios aparentes);

-   narrações de fundo heterodoxo, visto que algumas correntes heréticas queriam prevalecer-se do estilo dos Evangelhos para mais facilmente incutir suas concepções.

Donde se vê que nem tudo é desprezível nos escritos apócrifos. Ao contrário, tais livros são hoje em dia tidos como valiosos pelo fato de referir alguns traços de história e conceitos que os cristãos alimentavam em relação a Jesus. E certo, porém, que os apócrifos são prevalentemente imaginosos e, por isto, bem se distinguem da literatura canônica, que é sóbria e tendente à brevidade.

Estas poucas observações sejam suficientes para fornecer espécimes do modo como o artigo de VEJA procede, desmerecendo a confiança do público.

De modo geral, verifica-se que Roberto Pompeu de Toledo foi infeliz, pois entrou em área extremamente rica de matizes, sem ter preparo e perícia para tanto.

 

2. Conclusão

À guisa de conclusão, seja aqui publicada uma carta de leitora de VEJA, carta enviada a tal revista, mas não publicada. Com a licença da autora, vai abaixo transcrita, pois bem resume o pensamento de muitos leitores:

 

"Brasília, 22 de dezembro de 1992

 

Prezados Senhores,

Faço referência ao artigo publicado na revista VEJA no 52, de 23 de dezembro, intitulado "O Jesus da história", em que fica bem evidente a total e absoluta ignorância e incompetência do autor, Roberto Pompeu de Toledo, no que se refere ao tema "cristianismo".

Uma vez que a direção dessa revista recentemente veiculou um anúncio na televisão afirmando que o seu lema principal é o de dizer a verdade, lamento profundamente verificar que a intenção desse lema tem a fragilidade de um pedaço de papel exposto à água: apaga-se, desfaz-se, não valendo nada!

Diz o velho ditado popular: "cada macaco no seu galho". Sempre que a VEJA quer apresentar um assunto sobre física, procura um especialista para expor sobre física; se o tema for sociologia, procura um sociólogo para se referir ao assunto; se for sobre medicina, procura um médico e assim por diante, nos mais variados temas, garantindo assim a necessária credibilidade à matéria apresentada. Pergunto agora: por que a VEJA também não procura um especialista em cristianismo, leigo ou religioso, para desenvolver um assunto de tamanha seriedade? Que interesse tem essa revista em, com bastante freqüência, publicar artigos sobre religião (entenda-se: cristianismo) escritos sempre por um jornalista que nada entende do tema? Qual a razão desse prazer leviano que beira o sadismo em procurar achincalhar, blasfemando e denegrindo a fé cristã?

Que o autor e a direção dessa revista não se iludam: quem têm fé, jamais a terá abalada diante do esparrame de tamanha ignorância como o visto no referido artigo".

 

O público cristão e não cristão de bom senso não pode deixar de agradecer à Sra. Maria Helena Diogo (Brasília)... E levantar a questão: não será que muitos outros temas abordados por VEJA não são tratados também por articulistas imperitos e despreparados, que lançam areia nos olhos do público?

 

Dom Estêvão Bettencourt

 


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