BíBLIA (3119)'
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Artigo

INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS


Evangelho, do grego evangelion, que significa "alegre notícia", "boa-nova", é como foi chamada, com vocábulo adequado, a mensagem de salvação e de redenção que Jesus Cristo trouxe ao mundo. Depois, por extensão, o mesmo vocábulo passou a designar o livro portador da narração dessa mensagem.

Jesus, o verdadeiro autor, sob qualquer aspecto, do Evangelho, pregou, e não escreveu, mas a primeira origem do Evangelho escrito data, pode-se dizer, do primeiro dia em que o Mestre divino foi arrebatado ao céu. Ao pregarem, os apóstolos, instruindo os novos fiéis, contavam os fatos e as palavras de Jesus. Essas instruções, tão freqüentemente repetidas, tomaram, com o tempo, uma forma que diríamos estereotipada; imprimiram-se na memória dos fiéis, que as transmitiam nas reuniões públicas ou nas conversas particulares. Nasceu, deste modo, o primeiro regato que concorreu para formar os Evangelhos, a tradição que remonta aos apóstolos. Com efeito, não tardou muito a se sentir a necessidade ou, ao menos, a utilidade de se fixar e, mais largamente, propagar, com a escrita, a mensagem evangélica. S. Lucas (1,1) fala de "muitos" que antes dele (pelo ano 60 d.C.) haviam resolvido escrever uma narração do "que Jesus fez e ensinou" (At 1,1). Nesse "muitos" ou "vários" estão, ao certo, incluídos alguns a mais do que os nossos dois primeiros evangelistas (Mateus e Marcos), anteriores a Lucas; mas é pelo menos duvidoso que aqueles lógia (palavras de Jesus não contidas nos Evangelhos canônicos), que o Egito, recentemente, restituiu à luz com os seus papiros, sejam fragmentos ou restos de alguns dos escritos visados aqui pelo evangelista. Podem, porém, remontar àqueles primeiros tempos, pelo menos quanto ao núcleo, alguns evangelhos, como o chamado dos hebreus, dos ebionitas, dos doze ou dos egípcios, dos quais os Padres da Igreja, principalmente S. Jerônimo e Sto. Epifânio, nos transmitiram alguns trechos. Não assim outros evangelhos, dos quais nos chegaram quase que só os nomes (e precisamente nomes de apóstolos: de Pedro, de Tomé, de Bartolomeu etc.) os quais são todos de origem posterior (séculos II ou III d. C; cf. Altaner, Patrologia, § 9). De toda essa floração de evangelhos, quatro somente a Igreja reconheceu como inspirados por Deus e dignos de serem equiparados, por autoridade inigualável, aos livros sagrados do Antigo Testamento. São os Evangelhos que, por cadeia ininterrupta de testemunhos, a qual, de elo em elo, remonta aos discípulos imediatos dos apóstolos, nos são atestados como obras dos apóstolos Mateus e João e dos discípulos Marcos e Lucas.

De fato, Papias, bispo de Hierápolis na Frigia, que viveu nos primeiros decênios do II século, nos cinco livros de Esclarecimentos (ou Explicações), lembrando com quanto cuidado, na juventude, ele procurava interrogar os discípulos dos apóstolos sobre o que tinham dito aqueles anciãos, afirma que "Marcos, intérprete de Pedro, escreveu cuidadosamente tudo o que recordava das suas instruções", que "Mateus compôs em língua hebraica os discursos (tá lógia) *, que "o Evangelho de João foi publicado e comunicado às Igrejas pelo próprio João, ainda vivo". Destarte três dos nossos Evangelhos recebem já um testemunho explícito. Irineu, bispo de Lião, de uma geração apenas posterior a Papias, no terceiro dos livros Contra as heresias (c. 9-11), acrescentando-lhes Lucas, dá-lhes a série completa e, com energia, adverte expressamente que, nem mais nem menos de quatro são ou podem ser os Evangelhos (ib. 11). Ou melhor, com mais exatidão, tendo em conta que a "boa-nova" é propriamente uma: a mensagem de Jesus Cristo, e que esses quatro livros são redações ou aspectos diversos daquele Evangelho único (donde o uso constante, na Igreja, de dizer "Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus, segundo Marcos" etc), criou a feliz e expressiva locução de "Evangelho tetramorfo", isto é, "quadriforme".

Pelo tempo de Irineu, como revelam estudos recentes (veja Revue bénédictine, 1928, pp. 193-214), um católico desconhecido, provavelmente romano, compôs, contra a serpeteante heresia de Marcião, os mais antigos prólogos aos Evangelhos com notícias inéditas sobre cada um dos evangelistas. Dentro ainda do mesmo II século, narra-nos o chamado Cânon muratoriano, fragmento de um escrito a nos atestar a crença comum da Igreja romana, a origem e difusão dos quatro Evangelhos e precisamente na ordem tradicional e comuníssima de Mateus, Marcos, Lucas e João. Taciano, na Síria, por volta do ano 180, funde os Evangelhos numa narração única e intitulada "diatessáron", isto é, resultante de quatro, professando deste modo, no próprio nome da obra, o número fixo quaternário dos verdadeiros Evangelhos. O mesmo afirmam, em seus escritos, pelo mesmo tempo, no Egito, Clemente Alexandrino e, em Cartago, Tertuliano. No século seguinte, o III, com os escritores Origines, Hipólito, Cipriano, Vitório de Petau, com as versões latinas, coptas, siríacas, com o número crescente dos manuscritos do texto, é o coro de todas as Igrejas do Oriente e do Ocidente que se forma e proclama unanimemente os quatro Evangelhos segundo Mateus, segundo Marcos, segundo Lucas e segundo João, sem se erguer uma voz sequer em contrário até ao século XIX. Que outro escrito da antigüidade pode ostentar aprovação tão abundante, tão variada e tão próxima das origens?

Os próprios Evangelhos, apenas consultados e examinados, apresentam um testemunho concorde com a tradição. O de Mateus (para tocar aqui somente alguns passos mais notáveis) apresenta-se dirigido aos judeus, para os persuadir, com as contínuas chamadas às profecias do Antigo Testamento, de que Jesus de Nazaré é verdadeiramente o Messias prometido à nação escolhida. O de Marcos, reflexo das instruções de S. Pedro aos fiéis de Roma, é o mais entremeado de vocábulos e construções latinas, e a respeito de S. Pedro, mesmo omitindo certos fatos que mais o honram (caminhar sobre as águas, o primado, a taxa paga juntamente com a de Jesus), sabe dizer-nos mais do que os outros evangelistas. Em Lucas, além da maior pureza da língua e do estilo gregos, encontramos idéias, frases, relatórios (por exemplo, sobre a instituição da Eucaristia, cf. Lc 22,19-20 e 1Cor 11,24-25), que se conformaram com os de S. Paulo, de quem foi, durante anos, companheiro fiel. O quarto Evangelho mostra-se-nos claramente escrito por um dos doze que mais perto estiveram de Jesus, por alguém que sempre se acha presente nos acontecimentos, mas que nunca se nomeia e oculta-se sob a circunlocução "aquele discípulo que Jesus amava". Posto em confronto com os outros Evangelhos, deduz-se, por exclusão, que aquele "discípulo que Jesus amava" só pode ser João. Além disso, em muitos pontos da sua estrutura, esse Evangelho supõe claramente a narração dos três outros, e está inteiramente preocupado em apresentar as provas da divindade de Jesus, posta em dúvida ou negada pelas heresias, que germinaram na Ásia Menor, como sabemos pela História Eclesiástica. São precisamente as circunstâncias e os motivos aduzidos ou supostos pelos testemunhos acima citados. Atestações externas e qualidades intrínsecas confirmam-se, portanto, e sustentam-se reciprocamente para escoimar de qualquer dúvida ponderável a autenticidade dos quatro Evangelhos canônicos.

Por que quatro, e não mais? E por que precisamente esses e não outros são os Evangelhos reconhecidos e aceitos pela Igreja? A razão verdadeira e essencial é que só esses, e não outros, foram compostos por inspiração divina e foram comunicados à Igreja como palavra de Deus escrita. Esse é o sentido claro dos testemunhos antiquíssimos acima citados. A origem apostólica, isto é, o terem por autores apóstolos (Mateus e João) ou discípulos dependentes dos apóstolos (Marcos e Lucas) era uma garantia para eles, mas não constituía o seu motivo próprio e adequado. Estabelecido, porém, o fato da inspiração divina e, por isso, da canonicidade desses quatro somente, nada impede que descubramos, para esse número, outras razões de conveniência, como já fêz Sto. Irineu, no lugar acima citado (III, 11), e entrevermos algum símbolo nas próprias Escrituras divinas do Antigo e do Novo Testamento. Entre todos, célebre é um que teve imensa ressonância na literatura e nas artes: os quatro seres das quatro faces ou rostos, de homem, de leão, de touro e de águia, que sustentavam e puxavam o carro divino visto por Ezequiel (Ez 1,4-10) e pelo evangelista S. João, em êxtase (Apc 4,2-7). Encontram-se, outrossim, interessantes analogias e comparações entre cada um desses animais e um dos nossos Evangelhos, de modo que o homem se tornou símbolo de Mateus; o leão, de Marcos; o touro, de Lucas e a águia, de João. Pode-se afirmar que as suas figuras são reproduzidas em todas as igrejas cristãs e em cada exemplar ilustrado da Bíblia.

Literariamente, os Evangelhos pertencem ao gênero histórico. Não são propriamente uma história, pois concentram toda a atenção sobre uma única pessoa: Jesus de Nazaré. Não são, tampouco, apenas uma biografia propriamente dita, pois não pretendem narrar toda a vida e atividade de seu herói, com o intuito de informação. Têm por objetivo narrar a mensagem da renovação moral e religiosa que Jesus trouxe ao mundo, e mostrar a sua obra redentora em atuação. Fazem, por isso, uma seleção entre o muito que podiam dizer e aproximam-se, destarte, do gênero dos "fatos e ditos memoráveis", mas com referência específica à finalidade mencionada.

Seja qual for, porém, o modo com que se queira determinar ou não o gênero próprio dos Evangelhos, o certo é que, do gênero histórico, eles possuem o que constitui o seu supremo e primeiro valor, a finalidade própria e suprema: a veracidade da relação e a realidade objetiva dos fatos registrados. Do historiador verdadeiro e perfeito, os evangelistas possuem o amor da verdade na indagação, e a sinceridade e imparcialidade no referir. Não foram paixões políticas, nem preconceitos ideais, nem interesses pessoais que os moveram e sustentaram ao escrever. Não há vestígios desses sentimentos, que poderiam ofuscar o juízo sereno do escritor, em sua prosa límpida e serena. Simples e desataviado, claro e popular é o seu estilo. Pessoalmente, quanto eles amam o divino Mestre, mostrá-lo-ão mais tarde ao darem por ele o sangue e a vida. Ao escrever, porém, essa chama eles a conservam encerrada no coração, não permitindo que se exteriorize e lhe inflame a pena. Narram os milagres do Nazareno sem se admirarem com eles. Referem os aplausos e o entusiasmo populares, mas não compartilham das aclamações; registram, apenas, fatos, Não silenciam os insucessos do Mestre e a nenhum período de sua vida narram com tanta difusão como sua dolorosa e humilhante paixão. Entre tantas amarguras e ultrajes, porém, que relatam pormenorizadamente, não lhes foge um só gemido de compaixão pelo inocente torturado, nem um grito sequer de indignação contra os seus cruéis crucificadores. Dir-se-ia que são impassíveis, mas é a impassibilidade do historiador integral. E como é próprio do historiador narrar o que vê e o que ouve, o que cai sob a esfera dos seus sentidos e pode ser afirmado, os evangelistas, em seus depoimentos, jamais ultrapassam o limite dos fatos sensíveis e como tais atestados. Da própria ressurreição de Jesus, fato da maior importância por numerosas razões, eles não nos dizem quando nem como se deu, porque nenhum deles esteve presente. Falam do sepulcro aberto encontrado vazio, porque assim o viram os discípulos e as piedosas mulheres, falam das aparições de Jesus redivivo, porque as pessoas favorecidas com tais aparições afirmaram concorde e repetidamente que o tinham visto, tinham falado com ele, tinham comido e bebido em sua companhia, depois da sua ressurreição (At 10,41). Não se poderia desejar atitude mais objetiva e mais própria num puro historiador. Nada falta aos evangelistas daquilo que se pode referir aos fatos que narram, nem que se relaciona com a imparcialidade e exatidão em os referir como haviam chegado ao seu conhecimento. Somente isto, mesmo prescindindo da assistência do Espírito Santo que os animava, confere à narração toda a garantia da verdade. Não é sem razão que o próprio termo "evangelho" tornou-se, no uso, sinônimo de verdade evidente. Nossa fé, que tem suas raízes no Evangelho, também humanamente falando, apóia-se sobre as mais sólidas bases. Intenção sinceramente desejosa de verdade e coração dócil para a abraçar tal qual ela é, são as disposições mais adequadas para a leitura proveitosa do Evangelho.


 

 


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