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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 352 – setembro 1991

Encíclicas

A nova Encíclica:

"Centesimus Annus"

 

Em síntese: A nova Encíclica de João Paulo II comemora o centenário da Rerum Novarum (Das coisas novas), de Leão XIII, recordando primeira­mente os grandes traços doutrinários deste documento (que conserva até ho­je a sua atualidade); a seguir, procura desenvolver tais princípios a fim de os aplicar ao mundo de hoje, que tem também suas "coisas novas". Especial­mente significativos são os acontecimentos de fins de 1989; evidenciam quão sábias eram as advertências de Leão XIII relativas à propriedade parti­cular e ao socialismo; a propriedade particular é direito inerente a toda pes­soa humana; contudo é meio ou instrumento para fazer que os homens cres­çam em solidariedade e sentimentos fraternos; o lucro obtido honestamente por uma empresa de mercado é um valor reconhecido, mas valor subordina­do a finalidades humanitárias, pois o ser ainda vale mais do que o ter.

Vê-se, pois, que o modelo alternativo para o socialismo real, que im­plodiu na Europa Central e Oriental, não é o capitalismo selvagem nem o consumismo, mas a sociedade onde haja economia de mercado orientada pelos valores éticos ou pelo respeito à pessoa humana, que tem dignidade inalienável.

O texto da Encíclica considera numerosas facetas da vida contempo­rânea com profunda sabedoria, merecendo atenta leitura de cristãos e não cristãos.

* * *

A 1o de maio de 1991 (memória litúrgica de São José Operário), o Santo Padre João Paulo II assinou a Encíclica Centesimus Annus, come­morativa do centenário da Rerum Novarum de Leão XIII. Esta inaugurou a série de Encíclicas Sociais da Igreja aos 15/05/1891 e foi desenvolvida pelos Papas subseqüentes, que foram acrescentando novos e novos dados aos princípios firmados pela Rerum Novarum.

O texto de João Paulo II compreende, além da Introdução, seis capí­tulos, que olham para o passado (as coisas novas do fim do século XIX), pa­ra o presente (as coisas novas do fim do século XX) e para o futuro (as coi­sas novas do terceiro milênio). Eis a seqüência da Encíclica Centesimus Annus: 1) Traços característicos da Rerum Novarum; 2) Rumo às "coisas novas" de hoje; 3) O ano de 1989; 4) A propriedade privada e o destino universal dos bens; 5) Estado e Cultura; 6) O homem é o caminho da Igreja.

Percorreremos estas seis etapas em termos sintéticos, pondo em relevo o que elas têm de mais significativo.

1. Traços característicos da "Rerum Novarum"

Leão XIli quis voltar-se para o que se chamava, na época, "a questão operária", ou seja, a triste condição dos trabalhadores sujeitos às arbitrarie­dades dos patrões no tocante a salários, horas e condições de trabalho, re­pouso, etc. — Com efeito; a revolução industrial vivida por capitalistas libe­rais, cujo grande interesse era o lucro, sacrificava os operários.

A título de solução para o problema, o socialismo propunha a coletivização dos meios de produção ou a transferência do capital para o Estado — o que mais prejudicaria e despojaria os operários. Após o brado de alerta e as intervenções de clérigos e leigos do século XIX, Leão XIII resolveu pro­por na sua Encíclica o pensamento católico sobre o assunto: o trabalho não é mercadoria, mas é expressão da pessoa humana, que tem dignidade incon­fundível; por isto merece salário justo, suficiente para manter o operário e sua família; merece repouso correspondente à fadiga acarretada; o trabalha­dor deve poder associar-se aos seus colegas de labuta em organizações poste­riormente ditas "sindicatos"; o Estado há de favorecer a classe operária, garantindo o respeito aos seus direitos.

Conclui João Paulo II: "A ninguém escapa a atualidade destas refle­xões. Será conveniente. . . ter presente que aquilo que serve de linha condu­tora da Encíclica e de toda a doutrina social da Igreja é a correta concepção da pessoa humana e do seu valor único" (n? 11).

2. Rumo às "coisas novas" de hoje

"A comemoração da Rerum Novarum não seria adequada se não olhasse também para a situação de hoje" (no 12).

1. Leão XIII de certo modo já previa os acontecimentos que marcaram os últimos cem anos, entre os quais se destacam os dos últimos meses de 1989 e dos primeiros meses de 1990, quando se deu a queda do socialismo nos países da Europa Central e Oriental. Mesmo sem conhecer um Estado socialista forte e poderoso, o Papa predisse o malogro do socialismo. E por que terá este desmoronado?

 

"O erro fundamental do socialismo é de caráter antropológico... Considera cada homem simplesmente como um elemento e uma molécula do organismo social, de tal modo que o bem do indivíduo aparece totalmen­te subordinado ao funcionamento do mecanismo econômico-social" (no 13).

Por sua vez, essa errônea concepção do homem tem sua causa primeira no ateísmo. E o ateísmo se prende ao racionalismo ou Iluminismo do século XVIII, quando os pensadores conceberam o homem de maneira mecanicista.

Da mesma raiz ateísta deriva-se a escolha dos meios de ação própria do socialismo, que é a luta de classes. Esta é condenável por desrespeitar a dignidade da pessoa humana, abstraindo de considerações éticas e jurídicas, sem excluir o uso da mentira e o recurso ao terror.

O ateísmo que levou ao desprezo de Deus e do próximo, atingiu as suas conseqüências extremas no trágico ciclo das duas grandes guerras mun­diais de 1914-18 e 1939-45:

 

"Foram guerras ditadas pelo militarismo e pelo nacionalismo exacer­bado, e pelas formas de totalitarismo a esses ligadas, e guerras derivadas da luta de classes, guerras civis e ideológicas. Sem a terrível carga de ódio e ran­cor, acumulada por causa de tanta injustiça..., não seriam possíveis guerras de tamanha ferocidade..., em que não se hesitou em violar os direitos hu­manos mais sagrados e foi planificado e executado o extermínio de povos e grupos sociais inteiros. Recorde-se aqui, em particular, o povo hebreu, cujo destino terrível se tornou um símbolo da aberração a que pode chegar o ho­mem quando se volta contra Deus" (no 17).

 

Verdade é que desde 1945 as armas silenciam no continente europeu. Mas o que se registra, é uma situação de não guerra mais do que de paz ver­dadeira. A paz tem sido mantida à custa de louca corrida aos armamentos, que absorve os recursos necessários para o equilíbrio da economia e para au­xiliar as nações mais desfavorecidas. O progresso científico e tecnológico, que deveria contribuir para o bem-estar do homem, acaba-se transformando num instrumento de guerra. Sobre o mundo inteiro pesa a ameaça de guerra atômica, capaz de provocar a extinção da humanidade.

 

2. Na história dos povos contemporâneos, registram-se, além do socia­lismo e de sua odisséia, três outras configurações da sociedade:

a)  Tencionando afastar o socialismo marxista, alguns povos criaram o Estado de "Segurança Nacional", visando a controlar de modo capilar toda a sociedade. Exaltando o poder do Estado, correram o grave risco de destruir a liberdade e os valores dos cidadãos;

b)  Outra réplica ao marxismo é a sociedade do bem-estar ou do consu­mo, que pretende mostrar como o livre mercado pode melhor atender ao ho­mem do que a economia do comunismo. Peca, porém, por negar os valores da Moral, do Direito, da cultura e da religião, reduzindo o homem ao plano da satisfação das necessidades materiais.

c)  Tem-se desenvolvido notável processo de "descolonização". Vários países adquirem ou reconquistam a independência, mas ainda estão no iní­cio do caminho para a autêntica soberania; ainda são controlados por potên­cias estrangeiras nos setores da economia, da tecnologia e da política.

3. Tentando contribuir para a reestruturação da ordem social após a segunda guerra mundial, os povos se aproximaram entre si na "Organização das Nações Unidas", que tem procurado despertar no mundo inteiro a cons­ciência dos direitos dos indivíduos e dos povos. Todavia "as Nações Unidas ainda não conseguiram construir instrumentos eficazes, alternativos à guerra, na solução dos conflitos internacionais, e este parece ser o problema mais urgente que a comunidade internacional tem para resolver" (no 21).

3. O ano de 1989

O capítulo 3o da Encíclica é todo dedicado à reflexão sobre os aconte­cimentos que marcaram o final de 1989, ou seja, a queda do marxismo no Centro-Leste europeu.

Antes do mais, o Papa nota um fator ponderoso dessa implosão:

 

"Contributo importante, mesmo decisivo, veio do empenho da Igreja na defesa e promoção dos direitos do homem: em ambientes fortemente ideologizados, onde a filiação partidária ofuscava o sentimento da dignidade humana comum, a Igreja, com simplicidade e coragem, afirmou que todo homem — sejam quais forem as suas convicções pessoais —, traz gravada em si a imagem de Deus e, por isso, merece respeito. Com esta afirmação, mui­tas vezes, se identificou a grande maioria do povo, o que levou à procura de formas de luta e de soluções políticas mais respeitadoras da dignidade da pessoa" (no 22).

Entre os direitos violados pelos regimes marxistas, estavam os direitos do trabalho e do trabalhador. Os operários se uniram entre si em solidarieda­de, como se verificou especialmente na Polônia e, baseando-se nos princípios da doutrina social da Igreja, desautoraram a ideologia que pretendia falar em nome deles. A grande reviravolta se deu sem derramamento de sangue, sustentada apenas pelas armas da verdade e da justiça. Enquanto o marxismo apregoava a solução dos problemas sociais mediante embates violentos e mi­litaristas, o marxismo mesmo foi derrubado pelo testemunho da verdade dos não marxistas e pela procura da negociação e do diálogo.

A violação dos direitos dos trabalhadores acarretou a ineficácia do sis­tema econômico marxista, em conseqüência da qual também se deu a implo­são do regime.

Mais: o achatamento dos cidadãos e de sua cultura tradicional provo­cado pelo marxismo foi ainda outro fator de queda do regime. Com efeito; todo homem se questiona sobre o sentido do nascimento, do amor, do trabalho, do sofrimento, da morte. . . Ora tal questionamento não encontra resposta satisfatória nos sistemas filosóficos materialistas; é somente numa perspectiva de transcendência ou num olhar sobre Deus que ele pode ser elu­cidado.

Vê-se, pois, que, em última análise, a causa profunda das mudanças na Europa de 1989 está no vazio espiritual provocado pelo ateísmo; este dei­xou as jovens gerações privadas de orientação e induziu-as, em diversos ca­sos, a redescobrir as raízes religiosas da sua cultura e a própria pessoa de Cristo, numa resposta adequada aos anseios de bem, verdade è vida que mo­ram no coração de cada homem. "Esta procura encontrou guia e apoio no testemunho de quantos, em situações difíceis e até na perseguição, permane­ceram fiéis a Deus. O marxismo tinha prometido desenraizar do coração do homem a necessidade de Deus, mas os resultados demonstram que não é possível consegui-lo sem desordenar o coração" (no 24).

É digno de nota ainda o seguinte inciso:

"Os fatos de 1989 oferecem o exemplo do sucesso da vontade de ne­gociação e do espírito evangélico, contra um adversário decidido a não se deixar vincular por princípios morais: eles são uma advertência a quantos, em nome do realismo político, querem banir o direito e a moral da arena política. É certo que a luta que levou às mudanças de 1989, exigiu lucidez, moderação, sofrimentos e sacrifícios; em certo sentido, aquela nasceu da oração, e teria sido impossível sem uma confiança ilimitada em Deus, Se­nhor da história, que tem nas suas mãos o coração dos homens. Só unindo o próprio sofrimento pela verdade e pela liberdade ao de Cristo na Cruz é que o homem pode realizar o milagre da paz e discernir a senda freqüente­mente estreita entre a covardia que cede ao mal, e a violência que, na ilusão de o estar combatendo, o agrava ainda mais" (no 25).

 

Em conseqüência da reviravolta de 1989, alguns povos estão no início da sua reconstrução. Esta fase sugere duas observações:

a)  não permitam que ódios e rancores acumulados durante os anos de regime marxista se traduzam atualmente em vingança e represálias, mas ce­dam ao espírito de paz e de perdão;

b)  os países recém-libertados precisam da ajuda das nações mais aquinhoadas. Estas não lhes recusarão seus préstimos indispensáveis, todavia sem esquecer as carências que também afetam o Terceiro Mundo. A redução de armas facilitará esse serviço de colaboração.

4. Propriedade privada e destino universal dos bens

Este capítulo é o mais denso de toda a Encíclica. Os seus tópicos po­dem ser assim arrolados:

1.  O exercício da propriedade privada é direito natural de todo ho­mem, como já dizia Leão XIII em consonância com toda a Tradição cristã. Todavia a propriedade particular deve frutificar em favor não só do respec­tivo proprietário, mas em prol de outros homens.

2.  A primeira forma de propriedade particular é a da terra. Mas em nossos dias existe outra modalidade de propriedade particular, tão importan­te quanto a da terra: é a propriedade do conhecimento, da técnica e do sa­ber. A riqueza das nações industrializadas funda-se muito mais sobre este tipo de propriedade do que sobre a dos recursos naturais. — A propriedade do saber e da técnica é que dá ao trabalho e, por conseguinte, à matéria pri­ma maior valor, pois quem possui um saber técnico pode avaliar as carências dos homens e projetar o trabalho de modo a produzir exatamente aquilo de que o mercado necessita. Assim têm origem as empresas com as suas iniciati­vas cada vez mais esmeradas e eficientes.

3.  A Igreja reconhece a honestidade e a justa função do lucro que de­corre do bom e reto funcionamento da empresa. Quando esta dá lucro, po­de-se dizer que os fatores produtivos foram adequadamente usados e as cor­relativas necessidades humanas foram devidamente preenchidas.

Todavia o lucro não é o único indicador das condições de uma boa empresa. Pode acontecer que seja satisfatório, enquanto os homens, que constituem o patrimônio mais precioso da empresa, são humilhados e ofen­didos na sua dignidade. Além de ser moralmente inadmissível, isto não pode deixar de repercutir negativamente na própria eficiência econômica da em­presa. Com efeito; o objetivo não é simplesmente o lucro, mas a própria exis­tência da empresa como comunidade de homens, que, de diversos modos, procuram a satisfação de suas necessidades fundamentais e constituem um grupo especial a serviço de toda a sociedade. O lucro é um regulador da vida da empresa, mas não o único; a ele se deve associar a consideração de outros fatores humanos e morais que, a longo prazo, são igualmente essenciais para a vida da empresa.

4.  Acontece, porém, que muitos trabalhadores não têm possibilidade de adquirir o saber técnico por falta de escola ou de capacidade pessoal; daí serem eles marginalizados ou excluídos das empresas de certo porte; não raro procuram as grandes cidades do Terceiro Mundo, vivendo na sua perife­ria em condições precárias, visto que estão desenraizados e sem possibilidade de integração. Para tais casos, é de desejar especial atenção das autoridades civis, que procurarão oferecer aos trabalhadores as condições de habitação necessárias para se poderem inserir na comunidade de trabalho.

5.  Vê-se também que o capitalismo liberal, cujo único objetivo é o lu­cro, não é a alternativa para o socialismo real que implodiu nos países ex-co­munistas. Requer-se nítido escalonamento de valores em todos os povos: to­dos têm o direito de querer uma vida melhor, mas não a devem avaliar ape­nas segundo os critérios do ter, esquecendo que o ser está acima do ter; po­de-se desejar ter mais para ser mais, e não para consumir a existência no pra­zer, tido como finalidade em si. A propósito diz textualmente o Santo Padre:

 

"Pode-se porventura dizer que, após a falência do comunismo, o siste­ma social vencedor é o capitalismo e que para ele se devem encaminhar os esforços dos países que procuram reconstruir as suas economias e a sua so­ciedade? É, porventura, este o modelo que se deve propor aos países do Ter­ceiro Mundo, que procuram a via do verdadeiro progresso econômico e civil?

 

A resposta aparenta-se obviamente complexa. Se por 'capitalismo' se indica um sistema econômico que reconhece o papel fundamental e posi­tivo da empresa, do mercado, da propriedade privada e da conseqüente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no setor da economia, a resposta é certamente positiva, embora talvez fosse mais apropriado falar de 'economia de empresa' ou de 'economia de merca­do' ou simplesmente de 'economia livre'. Mas, se por 'capitalismo' se enten­de um sistema onde a liberdade no setor da economia não está enquadrada num sólido contexto jurídico que a ponha a serviço da liberdade humana integral e a considere como uma particular dimensão desta liberdade, cujo centro seja ético e religioso, então a resposta é, sem dúvida, negativa" (no 42)

.

6.  A Igreja não tem modelos a propor para a estruturação da socieda­de e do trabalho. Ela oferece, como orientação indispensável, a sua Doutri­na Social; esta reconhece o valor positivo do mercado e da empresa, mas aponta, ao mesmo tempo, a necessidade de que estes sejam orientados para o bem comum; ela reconhece também a legitimidade dos esforços dos trabalha­dores para conseguirem pleno respeito da sua dignidade e espaços maiores de participação na vida da empresa, de modo que eles, trabalhando em conjun­to com outros, possam em certo sentido trabalhar por conta própria, exci­tando a sua inteligência e liberdade.

7.  Neste capítulo 4o, O Papa também fala da família fundada sobre o matrimônio, no seio da qual o homem recebe as primeiras e determinantes noções da verdade e do bem, aprende o que significa amar e ser amado e, conseqüentemente, o que quer dizer concretamente ser uma pessoa. Cf. no 39.

8.  Há também referência à questão ecológica; o homem é por Deus chamado a respeitar a obra do Criador, levando-a à condição de ser digno habitat do homem e motivo de louvor ao Criador; não se substitua o homem a Deus, provocando a revolta da natureza, mais tiranizada que governada por ele (cf. no 37).

 

5. Estado e Cultura

Este capítulo considera o totalitarismo do Estado, que arroga a si isenção de erro ou infalibilidade de decisões e exercício de poder absoluto.

 

"A cultura e a práxis do totalitarismo comportam também a negação da Igreja. O Estado, ou então o partido, que pretende poder realizar na his­tória o bem absoluto e se arvora por sobre todos os valores, não pode tolerar que seja afirmado um critério objetivo do bem e do mal, para além da vonta­de dos governantes, critério que, em determinadas circunstâncias, poderia servir para julgar o seu comportamento. Isto explica por que o totalitarismo procura destruir a Igreja ou, pelo menos, subjugá-la, fazendo-a instrumento do próprio aparelho ideológico.

 

O Estado totalitário tende, ainda, a absorver em si próprio a Nação, a sociedade, a família, as comunidades religiosas e as próprias pessoas. Defen­dendo a própria liberdade, a Igreja defende a pessoa, que deve obedecer an­tes a Deus que aos homens (cf. At 5, 29), a família, as diversas organizações sociais e as Nações, realidades essas que gozam de uma específica esfera de autonomia e soberania" (no 45).

 

A Igreja respeita o regime de Governo democrático:

"Após a queda do totalitarismo comunista e de muitos outros regimes totalitários e de 'segurança nacional', assistimos hoje à prevalência, não sem contrastes, do ideal democrático, em conjunto com uma viva atenção e preo­cupação pelos direitos humanos. Mas, exatamente por isso, é necessário que os povos que estão reformando os seus regimes, dêem à democracia um au­têntico e sólido fundamento mediante o reconhecimento explícito dos refe­ridos direitos. Entre os principais, recordem-se: o direito à vida, do qual é parte integrante o direito a crescer à sombra do coração da mãe depois de ser gerado; o direito a viver numa família unida e num ambiente moral favo­rável ao desenvolvimento da própria personalidade; o direito a amadurecer sua inteligência e liberdade na procura e no conhecimento da verdade; o di­reito a participar no trabalho para valorizar os bens da terra e a obter dele o sustento próprio e dos seus familiares; o direito a fundar uma família e a acolher e educar os filhos, exercitando responsavelmente a sua sexualidade. Fonte e síntese desses direitos é, em certo sentido, a liberdade religiosa, en­tendida como direito a viver na verdade da própria fé e em conformidade com a dignidade transcendente da pessoa" (no 47).

Esses direitos democráticos permitem ao homem desenvolver a sua cultura. A Igreja favorece a verdadeira cultura:

"Ela promove as qualidades dos comportamentos humanos que favo­recem a cultura da paz, contra os modelos que confundem o homem na massa, ignoram o papel da sua iniciativa e liberdade e põem a sua grandeza nas artes do conflito e da guerra. A Igreja presta este serviço, pregando a ver­dade relativa à criação do mundo, que Deus pôs nas mãos dos homens para que o tornem fecundo e mais perfeito com o seu trabalho, e pregando a ver­dade referente à Redenção, pela qual o Filho de Deus salvou todos os ho­mens e, simultaneamente, os uniu entre si, tornando-os responsáveis uns pe­los outros. A Sagrada Escritura fala-nos continuamente do compromisso ati­vo a favor dos irmãos e apresenta-nos a exigência de uma co-responsabilida­de que deve abraçar todos os homens" (no 51).

6. O Homem é o Caminho da Igreja

"Nos últimos cem anos, a Igreja manifestou repetidamente o seu pen­samento, seguindo de perto a evolução contínua da questão social. Não o fez para recuperar privilégios do passado ou para impor a sua concepção so­cial. O seu único objetivo era o cuidado e a responsabilidade pelo homem, a Ela confiado pelo próprio Cristo: por este homem que, como o Concílio do Vaticano II recorda, é a única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma, e para a qual Deus tem o seu projeto, isto é, a participação na salvação eterna. Não se trata do homem abstrato, mas do homem real, con­creto, histórico; trata-se de cada homem, porque cada um foi englobado no mistério da Redenção e Cristo uniu-se com cada um para sempre através desse mistério. Disto se segue que a Igreja não pode abandonar o homem e que este homem é o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer na realiza­ção da sua missão... o caminho traçado pelo próprio Cristo, caminho que invariavelmente passa pelo mistério da Encarnação e da Redenção" (no 53).

O S. Padre não perde a ocasião de referir-se à opção preferencial pelos pobres, explicitando o autêntico sentido que esta expressão deve ter na mente dos fiéis católicos:

"A Igreja está consciente, hoje mais do que nunca, de que a sua men­sagem social encontrará credibilidade primeiro no testemunho das obras e, só depois, na sua coerência e lógica interna. Desta convicção provém também a sua opção preferencial pelos pobres, que nunca será exclusiva nem discri­minatória relativa a outros grupos. Trata-se, de fato, de uma opção que não se estende apenas à pobreza material, dado que se encontram, especialmente na sociedade moderna, formas de pobreza não só econômica, mas também cultural e religiosa. O amor da Igreja pelos pobres, que é decisivo e pertence à sua constante tradição, impele-a a dirigir-se ao mundo no qual, apesar do progresso técnico-econômico, a pobreza ameaça assumir formas gigantescas. Nos países ocidentais, existe a variada pobreza dos grupos marginalizados, dos anciãos e doentes, das vítimas do consumismo, e ainda de tantos refugia­dos e migrantes; nos países em vias de desenvolvimento, desenham-se no ho­rizonte crises dramáticas se não forem tomadas medidas internacionalmente coordenadas.

 

O amor ao homem — e em primeiro lugar ao pobre, no qual a Igreja vê Cristo — concretiza-se na promoção da justiça. Esta nunca poderá realizar-se plenamente, se os homens não deixarem de ver no necessitado, que pede aju­da para a sua vida, um importuno ou um fardo, para reconhecerem nele a ocasião de um bem em si, a possibilidade de uma riqueza maior" (no 57s).

Os parágrafos finais do capítulo 6o e da Encíclica lançam um olhar para o terceiro milênio:

 

"Ao concluir, quero agradecer a Deus onipotente por ter dado à sua Igreja a luz e a força para acompanhar o homem no seu caminho terreno pa­ra o destino eterno. A Igreja, também no Terceiro Milênio, permanecerá fiel no assumir como próprio o caminho do homem, sabendo que não caminha só, mas com Cristo, seu Senhor. Foi Ele que fez Seu o caminho do homem, e o guia mesmo quando ele disso não se dá conta.

Maria, a Mãe do Redentor, que permanece ao lado de Cristo no seu ca­minho ao encontro dos homens e com os homens, e precede a Igreja na pere­grinação da fé, acompanhe, com sua maternal intercessão, a humanidade em direção ao próximo milênio, na fidelidade Àquele que ontem como hoje é o mesmo e o será para sempre (cf. Hb 13, 80), Jesus Cristo, Nosso Senhor, em nome do qual a todos abençôo" (n° 62).

 

Refletindo...

Eis os principais traços de belo e rico documento da Igreja de nossos dias. Merece ser lido na íntegra e com vagar, dando-se especial atenção aos capítulos 3 e 4.

O capítulo 3o (O ano de 1989) é interessante, porque faz uma análise, em profundidade, dos fatores que motivaram a surpreendente e brusca im­plosão do comunismo na Europa. Aponta os valores espirituais, fielmente professados e mantidos por cristãos e homens de boa vontade, como força que impulsionou os povos a revirar a situação de esmagamento em que se achavam. Não houve derramamento de sangue. Este fato, que pôs termo a quarenta ou mais anos de perseguição aos cristãos, lembra os primeiros sécu­los da Igreja: os cristãos eram perseguidos e não tinham como arma de defe­sa senão a fé e a coragem que o amor a Cristo lhes suscitava; apesar de total­mente despojados de recursos humanos (dinheiro, prestígio, proteção...), venceram o Império Romano perseguidor, pois este em 313 lhes decretou a liberdade (paz de Milão). O paralelo entre os primeiros séculos e o século XX evidencia nitidamente o poder dos valores morais e espirituais que o Cristianismo traz em seu bojo; são valores que puderam e podem vencer a agressividade dos adversários. A história assim lida torna-se para os fiéis ca­tólicos eloqüente lição; filhos dos Santos, herdeiros de mártires, saibam honrar um patrimônio espiritual tão precioso; bem vivido, o Cristianismo é fermento na massa e luz no mundo, podendo hoje em dia superar também, pela coerência dos seus adeptos, a problemática de desânimo e desespero em que se encontra boa parte da sociedade contemporânea.

O capítulo 4o (A propriedade particular e o destino universal dos bens) é rico em alusões a desafios da vida contemporânea que não puderam ser explanados nas páginas deste artigo. Procura pôr em relevo as implicações da propriedade particular na construção de uma sociedade mais humana e fra­terna.

Em poucas palavras: o mundo atual tem na encíclica de João Paulo II fecunda mina de observações e reflexões relativas à tormentosa realidade de nossos dias.

 

Dom Estêvão Bettencourt


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