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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 352 – setembro 1991

Prática Cristã

Mais uma vez o problema:

 

"Maturidade Sexual. A Solução Sexual para a AIDS"

por Jack Dominian

 

Em síntese: O autor do livro afirma que o combate à AIDS não se faz mediante falsos paliativos (camisinhas e outros preventivos), mas exige séria revisão do comportamento sexual da sociedade contemporânea. Nisto J. Dominian tem razão. Acontece, porém, que tal revisão é proposta sem critérios objetivos; J. Dominian sugere sentenças de Ética sexual derivadas de autores modernos, que exprimem opiniões pessoais e subjetivas; propõe também que se siga a opinião da maioria dos interessados — o que também é subjetivo e arbitrário. — Uma revisão do comportamento sexual só poderá ser válida e fecunda se adotar o critério objetivo da lei natural ou os critérios da natureza humana com suas leis biológicas. Sempre que o homem contraria a natureza, ele se pune e prejudica. Verdade é que a biologia vai sendo mais e mais estudada, mas isto não altera as normas básicas da natureza. A plena realização da personalidade jamais poderá ser obtida, se não houver consonância da vontade livre com as leis que o Criador incutiu ao homem quando o criou.

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Jack Dominian é psiquiatra e diretor do Central Middlesex Hospital (Londres); em 1971 fundou o Centro de Pesquisas Matrimoniais. Tem escrito algumas obras sobre casamento e ética sexual na qualidade de leigo católico, que teve uma certa formação teológica. Dentre seus escritos, interessa-nos o volume "Maturidade Sexual. A Solução para a AIDS", traduzido para o português e recém-publicado: (1) o autor critica as falsas soluções apontadas para a AIDS (camisinha, estabilidade de parceiro...) e propõe outra, mais radical e eficaz: a maturidade sexual. — Examinemos a proposta, para poder comentá-la.

 

 

1 Tradução do inglês por Barbara Theoto Lambert e Marcos José Marcionilo. - Ed. Loyola, São Paulo 1989, 135 x 210 mm, 141 pp.

 

1. O livro

1.1. A tese do autor

Com razão, o autor julga que os preventivos para combater a AIDS até agora propalados são de todo insuficientes; não impedirão a transmissão de tal doença:

"A camisinha tornou-se o símbolo da transigência com a qual se espera, pelo menos, que a saúde seja mantida. A boa saúde precisa de mais do que de camisinhas; precisa de atitudes adequadas que, mais cedo ou mais tarde, terão de ser redescobertas pela sociedade" (p. 73).

Por isto Dominian apregoa a "Maturidade Sexual". Que é isto?

— Diz o autor que sexo é expressão do amor. Deus é amor,... amor desligado das leis da biologia. Portanto o cristão, feito à imagem e semelhança de Deus, deve-se deixar mover pelo amor, e... pelo amor desligado das leis da biologia ou da lei natural; cf. pp. 18. 49. 132. O amor, no fiel catófíco, deve amadurecer levando em conta as afirmações da Igreja em matéria de ética sexual, mas estas são tidas pelo autor como falíveis, de modo que, em última análise, cada um há de seguir a sua consciência, "árbitro final em escolhas morais" (p. 137).

A consciência, como dito, não está ligada à lei ou ao direito natural; J. Dominian critica asperamente o magistério da Igreja por seguir as normas da lei natural, tida como lei do Criador ou de Deus. A pessoa, com sua liberdade e sua criatividade, é que deve ditar suas normas de comportamento sexual, sem se deixar prender pelas leis da biologia (perfodos férteis e períodos infecundos, amor e fecundidade, métodos naturais de regulação da natalidade...).

O autor lamenta que a Igreja prescreva uma ética sexual que destoa do comportamento de grande número de casais católicos. Assevera que, entre as normas da Igreja e os costumes discordantes dos casais católicos, ele se coloca do lado destes, contra o magistério da Igreja:

"Não posso, em consciência, seguir essa doutrina específica e, a esse respeito, tenho instado com a Igreja para reconsiderá-la. O modo mais simples de fazer isso é pedir às hierarquias de todo o mundo que verifiquem a opinião de seus rebanhos. É uma doutrina dada, mas não recebida, e, se a verdadeira doutrina faz algum sentido, deve expressar a vida da comunidade dos fiéis. Sem o povo de Deus, o magistério fica incompleto. Conquanto sua doutrina jamais possa basear-se na aprovação popular, o que ensina deve refletir a verdade do comportamento que descreve. Essa verdade não pode basear-se em abstrações teóricas, mas deve ser comprovada pela experiência humana. Em questões sexuais, deve refletir a sabedoria dos casais que então em muito melhor posição para verificar sua justeza. Embora eu não concorde com a opinião de que celibatários não são capazes de avaliar verdades conjugais, fico bastante preocupado quando a formulação da ética sexual ignora a voz persistente e clara dos casados. Será possível que a graça divina, o discernimento do Espírito Santo tenham feito desertar considerável número de casados, cujo sacramento faz com que sejam os maís perfeitos intérpretes do significado do amor sexual?" (p. 99).

"Quando tantos dos próprios filhos da Igreja e tão grande parte do resto do mundo discordam, é surpreendente que haja uma ignorância, em tão grande escala, dessa doutrina. Não seria mais apropriado refletir novamente? Afinal de contas, não fará nenhum mal confiar nos fiéis e, em última análise, expressar uma opinião que reflita toda a comunidade cristã. Não faz sentido descrever a Igreja como uma KOINONIA e depois tratá-la como se não existisse" (p. 100).

 

O autor pretende fundamentar sua posição no dogma mesmo da SS. Trindade: em Deus há sexualidade sem procriação — o que quer dizer que também nas criaturas humanas (feitas à imagem e semelhança de Deus), pode e deve haver uso do sexo sem procriação ou com exclusão voluntária de procriação:

 

"A presença dos anticoncepcionais é um óbvio prolongamento do dom divino ao homem para que ele subjugue a criação e revele mais claramente o desígnio e o propósito básico do coito — estabelecer e fortalecer vínculos e não meramente procriar.

 

Dessa forma podemos, em última análise, entender o mistério da sexualidade no próprio Deus. Deus, em cuja imagem fomos criados, não usa a sexualidade com o propósito de procriação, mas na Trindade a sexualidade é a força básica do amor, base de um relacionamento eterno de unidade dinâmica entre as três Pessoas da Trindade, enquanto respeita a singular individualidade delas, da mesma forma que o coito para o casal humano" (p. 141).

 

Cremos que o autor do livro, culto como é, não admite que Deus tenha corpo com seus diversos órgãos... É, porém, incompreensível e inadmissível que fale de "uso da sexualidade" em Deus.

 

Pergunta-se agora com mais precisão:

1.2. Quais as implicações concretas da Maturidade Sexual?

O autor tem seu código de Ética Sexual próprio, assaz subjetivo, como se poderá ver a seguir.

1.2.1. Relações pré-matrimoniais

 

Não são aceitas:

"A castidade pré-nupcial deve ser mantida tanto pelo homem como pela mulher. É um ideal que quase foi perdido nos últimos tempos e, em minha opinião, o advento da AIDS é uma ocasião apropriada para o seu reexame" (p. 61).

"Ainda há quem afirme ser impossível permanecer casto antes do casamento. Para mim e para milhões de minha geração que observaram o preceito da castidade pré-nupcial, a idéia de que os instintos são irresistíveis, que não podem ser contidos, é inédita" (p. 62).

Neste ponto o autor está com a Igreja. Esta afirma que toda relação sexual está, por sua própria índole, voltada para a união do homem e da mulher, união da qual procede, em certos períodos, um fruto que é a prole. Ora esta requer pai e mãe e um lar estável para poder ser educada. As relações pré-matrimoniais não oferecem tais condições, de modo que são antinatu-rais; vêm a ser a mais íntima união do homem e da mulher sem compromisso de parte a parte; por isto não raro se assemelham à manipulação e utilização do(a) parceiro(a) para gozo de prazer momentâneo e superficial.

 

1.2.2. Divórcio

 

O autor não o reconhece:

"Dedico a maior parte do tempo a fazer palestras e a trabalhar na prevenção do divórcio, um campo onde não há nenhum equívoco" (p. 137).

Também neste ponto Jack Dominian é fiel à Igreja. Esta, baseada nos escritos do Novo Testamento (Mc 10, 11 s; Lc 16, 18; 1Cor 7, 10s; Mt 5, 32; 19, 9), rejeita o divórcio, pois contradiz à índole mesma do matrimônio, que é a mais íntima e total união do homem e da mulher e, por isto, não admite restrições quanto à sua duração. Quem se doa até o convívio sexual, doa-se integralmente; essa integridade seria caricatura se o cônjuge reservasse a si a possibilidade de dizer: "Quando não me convier, retirarei a palavra empenhada". Para os casos de impossibilidade de convivência sob o mesmo teto, admite-se a separação (desquite, separação judicial), que isenta os cônjuges da vida comum, mas mantém vigente o vínculo matrimonial.

1.2.3. Homossexualismo

O autor não o julga pecaminoso e chega a estimulá-lo quando está baseado no amor fiel:

"Os católicos devem estar cientes da tradicional condenação da atividade genital homossexual, embora a tendência homossexual não seja pecaminosa. Todavia o comportamento do indivíduo deve ser, em última instância, a expressão de sua própria consciência. E essa consciência deve estar bem informada e não deve rejeitar levianamente os ensinamentos da Igreja. Os católicos devem dar atenção à voz da autoridade magisterial, mas é necessário lembrar que a doutrina não é infalível. Há espaço para o dissentimento legítimo; mas o dissentimento não deve ser adotado sem ponderada reflexão" (pp. 27s).

 

"É importante enfatizar que os homens e mulheres homossexuais precisam de um relacionamento amoroso tanto quanto os heterossexuais. Os homossexuais precisam relacionar-se, interagir, confiar, dar e receber afeição, solicitude, compreensão, perdão e se sentirem dignos de amor.

 

Devemos estimular os homossexuais a procurar relacionamentos monogâmicos. As lésbicas fazem isso muito melhor que seus colegas masculinos. Em minha opinião, essa deveria ser uma das principais preocupações do aconselhamento: tornar possível estabelecer relacionamentos de compromisso duradouro, estável, amoroso e fiel. A formação dessas ligações reduz consideravelmente o risco de relações sexuais promíscuas com o perigo crescente de transmissão do vírus da AIDS" (pp. 28s).

 

É óbvio que J. Dominian, neste ponto, está em oposição à doutrina da Igreja. O homossexualismo é evidente aberração contra a natureza. A fisiologia do homem e da mulher demonstra a índole antinatural dessa prática e assim a condena como união estéril não só no plano corporal, mas também no espiritual. Com efeito; geralmente as uniões homossexuais são descomprometidas e redundam em utilização do parceiro. — A Igreja, porém, distingue entre tendência homossexual e prática homossexual. Aquela pode ser congênita ou adquirida; não é culposa se não se exterioriza em relações homossexuais. O indivíduo homossexual deve ser tratado com o amor fraterno que merece, de modo que não se veja levado a formar um quisto na sociedade, endurecido na prática e na propaganda do homossexualismo.

 

1.2.4. Masturbação

 

O autor julga-a natural e nada lhe opõe:

"Em meu livro Proposals for a New Sexual Ethic (Propostas para uma nova ética sexual), baseado em uma antiga análise sobre o deslocamento da moralidade sexual da biologia para o amor pessoal, defendi o ponto de vista de que não há pecado envolvido na masturbação adolescente, ponto de vista também adotado de forma independente por outros moralistas e, desde então, nada me fez mudar de idéia. Na puberdade e adolescência, o jovem está descobrindo a própria sexualidade e, nessa fase, o propósito é aprender a ser uma pessoa sexuada. Nessa época, nem o desenvolvimento humano nem a moralidade sexual contemplam relacionamentos onde devesse ocorrer uma relação sexual. O jovem está-se familiarizando com a sexualidade, e uma forma de fazê-lo é a masturbação" (p. 60).

Também neste propósito o autor entra em conflito com a doutrina católica, que afirma ser a masturbação pecado grave se cometida consciente e voluntariamente, pois é contrária à natureza da sexualidade; vem a ser uma forma de narcisismo, que cria uma dependência do sujeito em relação às paixões. Admite-se, porém, que a masturbação possa, em alguns casos, ser uma reação nervosa pré ou quase pré-deliberada, que não é culposa ou quase não é culposa. Só é imputável como culpa a masturbação praticada de modo consciente e voluntário.

 

1.2.5. Continência periódica ou limitação natural da prole

J. Dominian a tem por inadequada e errônea. Não haveria por que rejeitar a contracepção artificial, visto que o coito não está por si naturalmente relacionado com a fecundidade biológica:

"Homens e mulheres experimentam a relação sexual como um encontro pessoal de amor, no qual os valores supremos são as características humanas, não as biológicas. Primordialmente, o que lhes importa é o bem-estar do esposo ou esposa, não sua fecundidade. Desde que sejam capazes de ter filhos, a fertilidade mútua não tem nenhuma importância. Na verdade, supondo-se que sejam fecundos e já tenham tido filhos, a presença continuada da fecundidade tem pouco valor, exceto após a possível morte de um dos cônjuges, e seu emprego em outro relacionamento" (p. 98).

J. Dominian, ao sustentar sua posição, impugna abertamente a doutrina católica, alegando que os pronunciamentos dos Papas a respeito não gozam de infalibilidade. Este ponto será comentado sob o subtítulo seguinte. — Sabe-se que a natureza feminina é, por si mesma, infecunda em muitos dias do mês. Isto não afeta a tese de que o amor é unitivo e fecundo; ele é fecundo por princípio, mas a natureza proporciona à mulher dias de pausa e repouso, sabiamente concedidos. 0 uso da genitalidade em tais dias é lícito, porque não violenta a natureza.

Como se pode ver, é assaz esdrúxula, subjetiva e arbitrária a "maturidade sexual" apregoada por J. Dominian. Reflitamos mais detidamente sobre a mesma.

2. Ponderando...

Proporemos observações gerais, às quais se seguirão considerações particulares.

2.1. Considerações gerais

1. É certamente válida a intenção fundamental, do autor, de mostrar que a AIDS deve provocar um despertar das consciências para a renovação da prática sexual em nossa sociedade. Aceitar livre relacionamento homo e heterossexual, indicando apenas cautelas (que na verdade são engodos ilusórios), não é a solução do problema. Às pp. 9-18 J. Dominian expõe o que seja a AiDS, como foi descoberta e como se tem propagado, evidenciando a gravidade desse flagelo, que exige séria reflexão da parte da humanidade.

2. Contudo o propósito, do autor, de elevar o nível moral da prática sexual em nossos dias é ineficaz pelo fato de que se guia por critérios meramente subjetivos e pessoais. Se para J. Dominian tais e tais costumes são lícitos e outros são ilícitos, outro pensador poderá encontrar racionalizações subjetivas que o habilitem a dizer justamente o contrário. Sabemos que, quando alguém quer ou não quer determinado objetivo, pode conceber justificativas ou sofismas que "legitimem" seu modo de pensar.

Na verdade, em matéria de sexualidade ou a Moral se baseia na lei natural, queé a mesma em todos os homens, anterior a qualquer cultura (porque decorrente do próprio "ser homem") ou perde toda baliza e todo referencial.

No caso de J. Dominian, pergunta-se: por que Sim ao homossexualismo inspirado por "amor duradouro" e Não as relações pré-matrimoniais? Se o comportamento da sociedade há de ser levado em conta para se estipularem as normas da moralidade e, por isto, o autor apóia a contracepção artificial (amplamente praticada), por que não aprova as relações pré-matrimoniais (também amplamente praticadas)? Por que Não ao divórcio quando hoje, conforme diz o autor, um sobre três casamentos se dissolvem? Por que Sim à masturbação, quando ela equivale a sexo sem amor ou a uma atitude narcisista de autosatifação?

 

Vê-se assim que Jack Dominian, embora apregoe uma réplica à devassidão sexual, não deixa de ser arauto do libertinismo sexual em nome do amor subjetivo.

 

Ademais pode-se dizer que é ridícula a fundamentação da tese do autor: "Deus não usa a sexualidade com o propósito de procriação, mas na Trindade a sexualidade é a força básica do amor" (p. 141). Haverá nesta sentença alguma falha de tradução? Deus é amor, sim, mas transcendental e não tem corporeidade. O princípio de analogia nos diz: Deus é Amor, sim; mas não é Amor como o homem é amor (amor oscilante, passional, caprichoso, sujeito à corporeidade...).

Passemos agora a pontos particulares da obra em pauta.

2.2. Considerações particulares

Teceremos três ponderações.

 

2.2.1. Consciência como "árbitro final"

A Teologia católica ensina que a consciência é o árbitro imediato da moralidade; é ela quem profere o ditame: "Deves ou não deves agir". Mas a consciência não é o árbitro último e supremo. Ela tem que levar em consideração a Lei de Deus, fonte da moralidade,... Lei de Deus que se manifesta

 

a) pela lei natural, inata em todo homem, e

b) pela Revelação Divina, a nós transmitida pela Tradição oral e a Tradição escrita (Bíblia).

Jesus prometeu à Igreja a sua assistência infalível para que defina com exatidão o sentido da Revelação (cf. Lc 22, 31 s; Mt 16, 16-19; Jo 14, 26; 16, 13-15). Por conseguinte, a Palavra de Deus interpretada por uma instância objetiva (a Igreja) é que constitui o referencial necessário para que a consciência possa emitir seus julgamentos morais.

Caso se despreze esta baliza, tem-se o existencialismo ético ou a Ética da situação, que relativiza toda norma moral e permite dizer: "Cada um na sua (verdade) ou na sua (Ética)". Gera-se assim o caos na sociedade, pois então cada indivíduo passa a proceder "segundo os seus próprios interesses".

 

2.2.2. O Magistério da Igreja

Quem lê os Evangelhos, verifica que Jesus não quis deixar sua mensagem ao léu ou ao vento, mas quis assegurar a incolumidade da mesma através dos séculos, garantindo à sua Igreja o poder de definir genuinamente o sentido de tal mensagem no decorrer dos tempos. Tenham-se em vista os textos já citados de Mt 16, 16-19; Lc 22, 31s; Jo 21, 15-17; 14, 26; 16, 13-15.

A função do magistério é imprescindível para evitar o que. ocorre no protestantismo: o esfacelamento da mensagem e do povo de Deus. — O magistério, para ser fiel, há de levar em conta, antes do mais, o depósito da Palavra revelada; considerará também os sinais dos tempos ou a marcha da história, para definir os termos exatos em que se há de aplicar a mensagem a cada época da história. Isto significa, sem dúvida, conhecer os costumes da sociedade, hão, porém, fazer deles o critério de decisões. A verdade e o bem não se definem pelo voto da maioria. O magistério tem o direito e a obrigação de contradizer a tais costumes sempre que destoem da mensagem do Evangelho; ele o faz para o bem da própria sociedade, pois é necessário que não se anestesie a consciência dos homens em relação às leis da natureza e da Revelação Divina.

Jack Dominian contesta o magistério da Igreja, citando um texto do Concílio do Vaticano II cuja fonte ele não indica (p. 137). — É uma passagem da Constituição Lúmen Gentium n? 37: este texto pede aos leigos competentes que levem ao magistério da Igreja as suas observações sobre os assuntos da fé "através dos órgãos para tal estabelecidos pela Igreja", ou seja, mediante recurso direto à hierarquia, e não através de livros entregues ao grande público, pois esta modalidade desconcerta e atordoa católicos e não católicos. Ver também a Instrução da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a Vocação Eclesial do Teólogo, de 24/05/1990:

"Não se podem aplicar à Igreja, pura e simplesmente, critérios de conduta que têm sua razão de ser na sociedade civil ou nas regras de funcionamento de uma democracia. Menos ainda se podem inspirar as relações no interior da Igreja à mentalidade do mundo circunstante (cf. fím 12, 2). Indagar da opinião da maioria o que convém pensar e fazer, recorrer, à revelia do Magistério, à pressão exercida pela opinião pública, aduzir como pretexto um consenso dos teólogos, sustentar que o teólogo é o porta-voz profético de uma base ou comunidade autônoma, que assim seria a única fonte de verdade, tudo isto revela uma grave perda do sentido da verdade e do sentido da Igreja" (n? 39).

Aliás, voltando ao texto conciliar de Lúmen Gentium n? 37, observamos que, após a secção citada atrás, continua a Constituição:

"Como todos os fiéis, aceitem os leigos prontamente em obediencia o que os Pastores sagrados, enquanto representantes de Cristo, como mestres e reitores, determinam na Igreja" (Lumen Gentium, n? 37).

 

2.2.3. O Concilio do Vaticano II: mudança de doutrina?

Alega Jack Dominian que a Igreja tem evoluído em sua doutrina, pois antigamente ensinava que o fim primordial do casamento era a procriação dos filhos; o fim secundário seria a mútua ajuda e complementação. "O Concílio do Vaticano II abandonou essa formulação e falou da família como sendo 'uma comunidade de amor' e uma íntima parceria de 'vida e amor'. Essas palavras enfatizam o amor" (p. 104).

Com efeito; o Concílio do Vaticano II já não enumera fim primeiro e fim segundo do matrimónio, isto é, evita o escalonamento das finalidades, mas afirma explicitamente: "O instituto do matrimônio e o amor dos esposos estão, pela sua índole natural, ordenados à procriação e à educação dos filhos, em que culminam como numa coroa" (Constituição Gaudium et Spes, no 48).

Estas palavras do Concílio não permitem dizer que a Igreja considera lícito o uso da sexualidade com exclusão artificial da procriação, pois pertence a índole mesma do amor humano ser unitivo e fecundo. Verdade é que J. Dominian põe-esta afirmação em dúvida, alegando que "a nossa compreensão do direito natural está sempre se desenvolvendo" (p. 96).

Aliás, é de notar que as alusões de J. Dominian a documentos da Igreja se ressentem de certa imprecisão. O Concílio do Vaticano II, o Santo Ofício, a Exortação Familiaris Consortio são citados de maneira vaga, sem indicação da fonte e da data.

Nem sempre o magistério da Igreja tem a intenção de definir verdades de fé ou princípios de Moral em seus pronunciamentos. Mas tem sempre em vista orientar os fiéis e mostrar-lhes o pensamento da Igreja, Mãe e Mestra. A respeito diz o Concílio do Vaticano II:

"Devem os fiéis acatar as sentenças sobre fé e moral proferidas por seu Bispo em nome de Cristo, e devem ater-se a elas com religioso obséquio do espírito. Esta religiosa submissão da vontade e da inteligência deve, de modo particular, ser prestada ao autêntico magistério do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra. E isto de tal forma que seu magistério supremo seja reverentemente reconhecido, suas sentenças sinceramente acolhidas, sempre de acordo com a sua mente e vontade. Esta mente e vontade constam principalmente ou da índole dos documentos ou da freqüente proposição de uma mesma doutrina ou de sua maneira de falar" fLumen Gen-tium, n? 25).

Donde se vê que o fiel católico deve acatar respeitosamente os documentos do magistério da Igreja, ainda que não sejam tidos como definições de fé e de Moral. Toda definição é ato do magistério extraordinário da Igreja, que só se pronuncia em ocasiões solenes de contestação da verdade. Ordinariamente a Igreja orienta seus fiéis por meio de documentos (Encíclicas, Exortações Apostólicas, Cartas Apostólicas, Instruções...), que tencionam guiar a conduta dos fiéis segundo o Evangelho nos pontos'controvertidos; tais documentos gozam de autoridade. Se alguém tem razões em contrário, peça luzes a Deus, reflita com sinceridade e, se lhe parecer oportuno, apresente seus argumentos diretamente a seu Bispo ou à Santa Sé; mas não se julgue facilmente dispensado de cumprir o que a Igreja, Mãe e Mestra, prescreve. Não em vão o Senhor Jesus garantiu à sua Igreja assistência infalível para transmitir fielmente a todos os homens as verdades reveladas. Considere-se outrossim que muitas das objeções hoje em dia levantadas contra a doutrina da Igreja provêm de premissas filosóficas heterogêneas ou de uma visão naturalista, racionalista ou mesmo hedonista do homem e do mundo. É de lamentar que muitos católicos, consciente ou inconscientemente, estejam impregnados de tal mentalidade. O Evangelho, já no tempo de São Paulo, era tido como loucura e escândalo (cf. ICor 1, 23), mas "para aqueles que são chamados, era e é a suma sabedoria de Deus" (cf. 1Cor 1, 24). Por conseguinte, a contestação de Jack Dominian não surpreende a quem conhece a história da Igreja, mas nem por isto pode ser aceita.

 

3. Conclusão

É salutar o princípio segundo o qual o combate à AIDS não se faz mediante falsos paliativos (camisinhas e outros preventivos), mas exige séria revisão do comportamento sexual da sociedade contemporânea. Esta revisão deve ter uma baliza ou um referencial objetivo, que não pode ser a opinião pessoal deste ou daquele estudioso, nem há de ser a preferência da maioria dos interessados, mas só pode ser a própria natureza humana, com suas leis biológicas; sempre que o homem contraria a natureza, ele se pune e prejudica... Verdade é que a biologia vai sendo mais e mais estudada, mas isto não altera as normas básicas da natureza.

Como exemplo de que os estudos evoluem e exigem mudança da Ética Sexual da Igreja, J. Dominian citaria o seguinte caso:

"A doutrina da Igreja exige no mínimo que cada relação sexual permita a ejaculação de sêmen na vagina sem nenhuma interferência no potencial criador da fusão do esperma com o óvulo. Desse modo é pura biologia e como tal deve ser avaliada. Tal visão é uma reversão à ignorância da fisiologia sexual, quando o esperma era considerado o agente da fecundação. É de origem recente a descoberta da indispensável necessidade do óvulo" (p. 97).

Pergunta-se: não estará mal traduzido este texto? Como pode o autor dizer que só recentemente se tem evidência de que o óvulo é necessário e indispensável à concepção de um novo ser? O esperma só pode fecundar um óvulo; sem óvulo não há fecundação — é o que a experiência de todos os tempos ensina.

Por conseguinte, é falho o exemplo aduzido por Dominian para impugnar a Ética da Igreja em nome da ciência contemporânea.

A plena realização da personalidade jamais poderá ser obtida, se não houver consonância da vontade livre com as leis que o Criador incutiu ao homem, quando o criou.

Possam, pois, os homens de nosso tempo compreender as exigências que a AIDS lhes sugere. E respeitem a natureza humana, em vez de a violentarem e se autodestruírem!

Dom Estêvão Bettencourt


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