BíBLIA (3013)'
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Artigo

INTRODUÇÃO A JÓ


O livro, que recebe o título de Jó, do nome de um protagonista, pode ser considerado com toda justiça um dos mais belos poemas da literatura mundial. Tema apaixonante, drama a um só tempo profundamente humano e divinamente sublime, é desenvolvido com tal riqueza de colorido, vigor de afeto e tantos artifícios de forma, que ê permitido afirmar que nele o idioma hebraico exauriu a sua facúndia, e a arte, o seu estilo.

 

Na verdade, a ação é simples. Um homem de proceder irrepreensível é alvo de infortúnios de toda sorte, ao ponto de não lhe restarem senão poucas carnes semicorrompidas a cobrir-lhe o esqueleto. Alguns de seus amigos, vindos para consolá-lo, vêem nesse cúmulo de sofrimentos a prova tangível de gravíssimos pecados, pelos quais ele o teria merecido, e o exprobam. Jó, paciente, protesta a sua inocência, sem, porém, conseguir vencer os preconceitos dos seus acusadores. O próprio Deus parece surdo aos brados dilacerantes do infeliz Jó, cujo espírito é torturado ainda mais do que a sua carne. Contudo, sua fé na bondade da própria causa e na justiça de Deus não desfalece, e, superada a prova, Deus intervém para defendê-lo e para restituir-lhe a antiga prosperidade. A conclusão é que, embora por uma misteriosa e sábia disposição divina, às vezes também os justos sofrem sem culpa nenhuma; e que, finalmente, Deus recompensa a virtude desconhecida pelos homens.

 

O objetivo do livro é a discussão, concretizada num fato, em tomo da razão e da origem ontológica da dor. A discussão, desenvolvida em forma de diálogo entre e seus amigos, e em versos de esmerada feitura, constitui a parte principal e como que o corpo da obra, o poema propriamente dito (3-41). Precede a introdução em prosa (1-2) e encerra-o um epílogo, também em prosa (42), à guisa de coroamento.

Esse o grandioso drama, no qual uma rara profundidade de sentimentos, unida a uma incomparável beleza literária, mantém-se até ao toque final.

A diferença entre o paciente e resignado (1-2) e o queixoso e agressivo (3-31) explica-se pelos gêneros literários diferentes das seções. Os discursos de Eliú (32-37) podem ter sido inseridos posteriormente, para completar o assunto, deixado sem solução nos capítulos anteriores. O mesmo se diga quanto à teofania (38-41).

 

Quem foi o autor desta obra maravilhosa? Ante o silêncio completo do próprio texto, as conjeturas não tem conta. Um dos grandes profetas pré-exílicos? Estariam a seu favor o estilo e a linguagem. Um dos sábios doutores da lei pós-exílicos? O assunto e o modo de dialogar justificariam essa suposição. Seja como for, o autor foi um dos grandes representantes da língua e do pensamento do povo hebraico.

Da natureza poética do livro se segue que não se deve insistir na veracidade histórica de cada passo da discussão. Além disso, a própria índole do diálogo supõe que o autor não tenha querido aprovar todas as idéias expressas pelos interlocutores. A chave da composição conexa está em 42,1-8: Jó, embora tendo um conceito elevado de Deus, pecou por presunção e violência; aos seus amigos, pelo contrário, faltou o conceito adequado de Deus e de sua Providência.

O prólogo e o epílogo são ficções literárias. Discute-se a historicidade da pessoa de Jó; a opinião mais plausível é a de que também seja uma personagem fictícia, pois o objetivo da obra não é contar a história de um sofredor, e sim, oferecer uma solução e um consolo a todos os que sofrem. A cena passa-se nas fronteiras entre a Idumêia e a Arábia. A antigüidade cristã venerava a terra de nas vizinhanças de Carnaim, hoje Cheh Sa'ad, na Batanéia (cf. IMac 5,26), onde subsistem reminiscências na toponomástica local.

 

raras vezes é mencionado no resto da Sagrada Escritura. Em Ez 14, 14.20 é posto entre os homens renomados pela sua justiça e virtude. Em Tob 2,12-15 (segundo a Vulgata) e em Tg 5,11 é proposto como exemplo de paciência heróica. Com efeito, a paciência de tornou-se proverbial. Se hoje, à luz da doutrina evangélica, encontramos motivos de conforto bem mais eficazes do que os que podia encontrar na luz imperfeita da razão e mesmo da antiga lei, tanto mais valem a sua heróica resignação e constância sob o peso de tamanhas desgraças.


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