DEUS ESCOLHE OS HUMILDES

 

“Humildade de Jesus: imitemo-Lo. Busquemos o último lugar”.

Bem-aventurado Charles de Foucauld (1)

 

“... Tendo-o ouvido, Priscila e Áquila tomaram-no consigo e, com mais exatidão, expuseram-lhe o Caminho.” (At 18,26). Priscila e Áquila foram expulsos de Roma pelo imperador Cláudio porque eram Judeus (At 18,2). Eles foram vítimas de perseguição religiosa e se tornaram refugiados. Priscila e Áquila eram fabricantes de tendas (At 18,3), e tinham uma comunidade Cristã localizada em sua casa (Rm 16,5). Marido e mulher não tinham nenhuma representação de acordo com os padrões do mundo. Eram somente duas pessoas obscuras, oprimidas pela máquina política de Roma e ignoradas pelo mundo.

No entanto, aos olhos de Deus, e como consequência de suas vidas, Priscila e Áquila estavam entre as pessoas mais importantes da história. Eles ajudaram  o apóstolo Paulo a se recuperar da sua fracassada missão em Atenas (At 17,32-18,3). Eles levaram para sua casa o grande professor e orador Apolo e o conduziram para a fé em Jesus Cristo e para a vida no Espírito Santo (ver At 18,25-28). Paulo disse a Priscila e Áquila “que para salvar [sua] vida expuseram sua cabeça. Não somente eu [Paulo] lhes devo gratidão, mas também todas as Igrejas da gentilidade.” (Rm 16,4).

Priscila e Áquila viveram seu matrimônio e sua vida na unção do Espírito Santo. Onde quer que fossem, produziam muitos frutos em tudo o que faziam. O Senhor Jesus continua a escolher “... o que no mundo é vil e desprezado, o que não é ...” (1Cor 1,28) para produzir muitos frutos e renovar a face da terra com o poder do Espírito Santo (SI 104,30).  Que a nossa vida esteja sempre na iluminação do Espírito Santo (2).

Charles de Foucauld, o mestre da espiritualidade de Nazaré, nos ensina caminhar numa vida de humildade e de fazermos pequenos e ocuparmos o último lugar. Sua vida ensina melhor do que suas palavras.

 

OBCECADO POR CLASSIFICAÇÃO

        “... Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e o servo de todos.” (Mc 9,35).

Equiparações! Classificações! Votações! Pesquisas! Categorias! A nossa cultura cresce e se desenvolve nessas medidas. Nós, constantemente, perguntamos quem é mais importante (Mc 9,34). Nós temos votações para aprovação política, pesquisas de opinião, entrevistas, estatísticas esportivas, indicação de melhor jogador, IBOPE, melhores artistas, melhores empresas, e até mesmo programas de televisão que vão escolhendo quem deve permanecer mais uma semana e quem deve ser eliminado. Porém, a nossa cultura moderna não é a primeira a ser obcecada por classificação. Os apóstolos em várias ocasiões caíram na armadilha da rivalidade. Isso é parte da nossa natureza humana decaída (Tg 4,5). Se continuarmos a viver pelos padrões competitivos do mundo, destruiremos a nós mesmos ou, no mínimo, nos eliminaremos uns aos outros (GI 5,15). Precisamos de uma nova natureza para escapar dessa armadilha diabólica. Precisamos de conversão.

No nosso Batismo, Jesus Cristo nos dá uma nova natureza que nos leva ao Seu reino. O reino de Jesus não é como os reinos deste mundo; viver sob o senhorio de Jesus é completamente o oposto (Tg 4,4). Devemos proceder em “nada fazendo por competição e vanglória...” (Fl 2,3). Jesus nos adverte: “Entre vós não deverá ser assim...” (Mt 20,26). Jesus molda as pessoas de modo a que se complementem (1Cor 12,12 ss), não como competidores. Devemos ser unidos e não rivais (1Cor 1,10). Devemos proceder “... com humildade, julgando cada um os outros superiores a si mesmo.” (Fl 2,3). Fazer tudo em comunhão para o bem de todos.

 

O ÚLTIMO LUGAR

No começo de novembro de 1897, o monge Charles de Foucauld faz um longo retiro durante o qual irradia sua alegria por se encontrar finalmente em Nazaré, na vocação que Deus desejava para ele. Escreve no fim deste retiro algumas resoluções. “Abraçar a humildade, a pobreza, o desamparo, a objeção, a solidão, o sofrimento de Jesus em seu presépio. Não ligar nenhuma importância à grandeza humana, à elevação. À estima dos homens, tendo consideração para com os mais pobres como para com os mais ricos. Quanto a mim, buscar sempre o último dos últimos lugares”. “A humildade é o ornamento de todas as virtudes, é necessária para que sejam agradáveis a Deus. O orgulho as destrói todas...”. “Clamar o Evangelho sobre os tetos, não por sua palavra, mas por sua vida...” (3).

 

CONCLUSÃO

O bom Deus escolhe os humildes para sua obra e os tais se dão totalmente ao serviço da missão pelo amor ao próximo. São despojados de bens materiais e do estrelismo. Os soberbos fingem a humildade e se escolhe para ser servido na obra de Deus. Os tais enganam muita gente, no entanto, suas vidas gananciosas e de vaidades revelam que são lobos cruéis. Esses lobos buscam sempre os primeiros lugares e muitos conseguem. Ocultam seus patrimônios e parecem santos diante dos inocentes e boçais.

Muitos buscam a espetacularização sem consciência da perdição. Faz-se de tudo para aparecer. Se mostrar e a busca de holofotes são  loucuras do nosso tempo. Que estejamos despidos desse teatro infernal. Longe de nós a hipocrisia. Nosso serviço seja pela graça e pelo amor do evangelho libertador em prol da nossa salvação e do mundo inteiro. O escondimento, o último lugar e a busca radical de fazer sempre a vontade de Deus, seja assim toda a nossa jornada.

 

Pe. Inácio José do Vale

Professor, escritor e conferencista

Sociólogo em Ciência da Religião

Religioso dos Irmãozinhos da  Visitação de Charles de Foucauld

E-mail: [email protected]

 

Fontes:

(1) FOUCAULD, Charles de. Meditações sobre o Evangelho. Lisboa: Círculo do Humanismo Cristão, 1962, p.112.

(2) UM PÃO, UM CORPO, 07/05/2016, pp. 38 e 48.

(3) FOUCAULD, Charles de. Cartas e anotações. São Paulo: Paulinas, 1970, pp. 58 e 60.

 

 

 


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