IMPACTO DA EDUCAÇÃO MONÁSTICA

“Assim como é suprema tolice exprimir uma verdade intempestiva, a pior das faltas de habilidade é ser sábio fora de hora’’

Erasmo de Rotterdam (1466-1536) - O Maior dos Humanistas

 

O princípio da rica educação monástica solucionaria uma boa parte da desordem e da violência de nossa sociedade se fosse vivenciado por muita gente.

 

Hoje, mais do que nunca, o ser humano cava a sua própria sepultura não com as mãos, mas com a língua e com o barulho.   “A morte e a vida estão em poder da língua’’ (Pr 18,21)”.

 

Está bem conectado o barulho da língua, das balas, dos golpes, do trânsito e da abertura das sepulturas. Esse é um tipo de zoada que causa dó, dor, doenças, depressão e morte.  “Quem guarda a boca e a língua guarda-se da angústia” (Pr 21,23).

 

O grande patriarca dos monges do Ocidente, São Bento de Núrsia (480-547), denominou a estupenda obra e a beleza do mosteiro de “Casa de Deus”. São Bento dá para Casa de Deus três poderosas colunas como fundamentos: a obediência, o silêncio e a humildade.

 

Desde os primeiros capítulos da sua santa Regra, São Bento toma como base essas três grandes virtudes para a vida santa de seus monges.

 

“É a você que se dirige minha palavra, quem quer que você seja que, renunciando às vontades próprias, assumindo as fortíssimas e gloriosas armas da obediência, para combater junto a Cristo Senhor, o verdadeiro Rei” (Prólogo da Santa Regra).

 

A obediência é a prática das ovelhas - os monges - para seu pastor - o abade. Na obediência fazemos a vontade de Deus e o progresso da nossa santificação.  O obediente sabe viver bem pelo bom senso do cumprimento da Lei e do amor.

 

“Não gostar de falar muito” (Regra, cap.4). “Os monges devem em todo o tempo esforçar-se por guardar o silêncio, mais principalmente nas horas noturnas’’ (cap.42)”.

 

O silêncio ensina tudo. “Até o tolo, quando se cala, será reputado por sábio; e o que cerrar os seus lábios, será respeitado. ’’

 

Verdadeiramente, o sábio aprende com o abissal silêncio’’. O silêncio preserva a vida e nos protege de muitos males. O que falta de silêncio em nossa sociedade sobra uma infinidade de desgraças...

 

Por último, a humildade.  “Portanto, irmãos se quiserem atingir o cume da suprema humildade e chegarmos rapidamente àquela altura celestial á qual se sobe na vida presente pela humildade” (cap. 7).

 

A quem perguntasse a São Bento qual das três ele julgava mais importante, a resposta seria: a humildade. Na santa Regra, São Bento enumera doze degraus da humildade (Cf. Cap. 7 ).

 

Nosso Senhor Jesus Cristo disse: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Quem aprende com Cristo e São Bento, vive bem, encontra equilíbrio e salvação. Quem não aprende com a humildade vive mal, perturbado, preso e perdido.

 

As três virtudes ensinadas por São Bento nos ensinam a perfeição da vida religiosa, como colocar a verdade em pontos complicados, complexos, polêmicos e nos ensina a sermos sábios na hora certa, com o assunto certo e com pessoas certas. Erasmo viveu essa realidade e como viveu...

 

 

TEMPO PARA CALAR E TEMPO PARA FALAR

 

“Há um momento para tudo e um tempo para todo propósito debaixo de céu. Tempo de calar e o tempo de falar “(Ecl 3, 1 e 7).

 

A rainha Vitória (1819-1901) passou por grandes provas: aos 42 anos perdeu sua mãe e seu marido, 16 anos mais tarde morreu sua querida filha Alicia e, por fim, em 1884, morreu seu filho, o duque de Albany. Certo dia, ela ficou sabendo que uma mulher havia perdido o filho e estava desconsolada. Quis expressar sua simpatia e foi visitá-la. Depois de um bom tempo, quando a rainha já tinha ido embora, os vizinhos perguntaram o que ela dissera:

 

Nada. Ela simplesmente colocou minhas mãos entre as dela e choramos juntas.

 

Admiramos esse comovente e humilde gesto dessa grande soberana inglesa. Talvez através das provas ela tenha experimentado o que as palavras são incapazes de expressar e consolar. Só Deus pode fazer isso: ‘’Eu vos consolarei... Te tomarei pela mão e te guardarei” (Isaías 66, 13; 42,6).

 

É o nosso dever orar muito pedindo sabedoria ao Divino Espírito Santo para calar no exato momento e falar no momento exato. Desejar ardentemente que a nossas palavras como o silêncio tenham a unção do Espírito Santo. O método eficaz é aprender com a educação monástica.

 

Que a nossa instrumentalidade esteja totalmente na direção do Santo Espírito de Deus.

 

 

O PODER DA PALAVRA

 

“Isso podeis saber com certeza, meus amados irmãos. Que seja cada um de vós pronto para ouvir, mas tardio para falar e tardio para encolerizar-se: Pois a cólera do homem não é capaz de cumprir a Justiça de Deus’’. “Aquele que não pecar no falar é realmente um homem perfeito, capaz de refrear todo o seu corpo” (Tg 1,19; 13,2)”.

 

“De todas as poderosas armas de destruição que o homem foi capaz de inventar, a mais terrível – e a mais covarde – é a palavra fora de hora”.

 

Punhais e armas de fogo deixam vestígios de sangue. Balas abalam edifícios e ruas. Venenos terminam sendo detectados.

 

“Mas a palavra destruidora desperta o mal sem deixar pistas. Crianças são condicionadas durante anos pelos pais, artistas são impiedosamente criticados, mulheres são sistematicamente massacradas pelos comentários dos maridos, fiéis são mantidos longe da religião por aqueles que se julgam capazes de interpretar a voz de Deus. Procure ver se você esta utilizando essa arma, e ver se estão utilizando essa arma em você”. “E não permita nenhuma das duas coisas”, escreve o escritor Paulo Coelho.

 

São Paulo Apóstolo de modo magistral exorta os cristãos de Éfeso: “Não saia de vossos lábios nenhuma palavra inconveniente, mas, na hora oportuna, a que for boa para edificação, que comunique graça aos que a ouvirem” (Ef 4,29). Diz mais: “Toda palavra pesada e injuriosa assim como toda malícia, sejam afastadas de entre vós” (Ef 4,31) dentro do sistema doutrinário monástico esse mal é cortado pela raiz. “Guardar sua boca das palavras más ou depravadas” (RB Cap. 04).

 

Também é abissal o ensinamento do patriarca dos monges do Oriente São Basílio Magno (329-379):

 

“É bom para os noviços também a prática do silêncio. Se dominam a língua, darão simultaneamente boa prova de temperança. Com o silêncio aprendeu junto dos que sabem usar da palavra, com concisão e firmeza, como convém perguntar e responder a cada um. Há um tom de voz, uma palavra comedida, um tempo oportuno, uma propriedade no falar, peculiares e adequadas aos que praticam a piedade” (Regra de São Basílio, questão 13).

 

Para São Basílio: “O monge há de ser o cristão autêntico e generoso, o cristão que se esforça por viver em plenitude o cristianismo e praticar com mais fidelidade todas as virtudes do Evangelho”.

 

 

ALMA E CÉREBRO

 

“Um claustro sem livros é um é um castelo sem arsenal”.

São Bernardo de Claraval (1090-1153)

Abade e Doutor da Igreja

 

Rezar, estudar e trabalhar é o lema monástico. Cada monastério deve ter sua biblioteca e cada monge uma pena e material para escrever. Consagrados aos ideais de piedade e estudo os monges foram os guardiões da civilização quando o mundo exterior foi devastado pela ignorância e selvageria dos bárbaros.

 

A Igreja e o mundo têm no monasticismo a rica escola da vida espiritual, intelectual, profissional e de uma vasta cultura.

 

O célebre François-René Chateaubriand (1768-1848), historiador, escritor, político e diplomata francês, considerado o fundador do romantismo na literatura francesa, afirmou com categoria: “Os conventos converteram-se numa espécie de fortaleza em que a civilização se abrigava debaixo da bandeira de um santo: ali se conservou o cultivo da inteligência”.

 

Realmente, olhando para os monges, podemos vê-los como os anjos. Nos monges contemplamos a firmeza da fé em Deus e as alegrias celestiais.

 

O Papa Pio XII em sua encíclica sobre São Bento (1947), recomenda que as normas de caridade e santidade com que São Bento iluminou a Europa em suas horas mais tenebrosas, fossem de novo aceitadas pelo mundo ferido pela guerra para sua salvação e reconstrução.

 

 

CONCLUSÃO

 

A nossa sociedade recebe muitas ideologias perniciosas e destruidoras, causando rebeldia em vários setores do segmento social. Poluição sonora e visual que agridem a moral e os bons costumes. O consumismo do capital financeiro com os pecados capitais são caminhos de perdição.

 

Fala-se muito em choque de ordem, revolução científica e tecnológica, ideias criativas e transformadoras, e inteligência emocional e espiritual. Com certeza, o sistema de educação monástica completa toda essa dimensão.

 

A sociedade precisa de choque para despertar e acordar no impacto tridimensional da oração, do trabalho e da intelectualidade monástica.

 

O resultado da riqueza da educação monástica é a sólida formação do ser humano para fidelidade ao Senhor Deus e o respeito pela dignidade da pessoa humana. A cultura de vida e da paz passa pelo sistema monástico.

 

No discernimento e na ação a tridimensionalidade monástica faz eliminar de nossa sociedade toda boçalidade, futilidade, banalidade, consumismo e relativismo.

 

Alma instruída pela educação monástica não abre e não tem espaço para as coisas medíocres, descartáveis e carnais.

 

Quantos belos mosteiros há no Brasil e no exterior, cuja espiritualidade está acima de todo o tesouro do mundo.

 

Monumental é a sua regra, sua história, sua arquitetura, seus santos, sua cultura, sua liturgia e sua educação. No entanto, muitos desconhecem e o prejuízo é enorme.

 

Vamos, discípulos e missionários de Jesus Cristo, propagar essa rica educação monástica! O mundo precisa conhecer a esplendida tradição da cultura monástica cristã para ser impactado.

 

 

Pe. Inácio José do Vale

Professor de História da Igreja

Instituto de Teologia Bento XVI

Sociólogo em Ciência da Religião

Fraternidade Sacerdotal Jesus Cáritas

E-mail: [email protected]

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

A Regra de São Bento, tradução: de D. Abade Basílio Penido, osb.

Mosteiro da Santa Cruz, Juiz de Fora – MG, 2000.

As Regras Monásticas de São Basílio Magno. Tradução: Ir. Hildegardis Pasch e Ir. Helena Nagem Assad, Petrópolis-RJ: Vozes, 1983.

Erasmo Rottherdam. Elogio da loucura, São Paulo: Martins Fontes, 1997.

Aquino, Felipe Rivaldo Queiroz de. Uma história que não é contada - o trabalho da Igreja Católica para salvar e construir a nossa civilização, Lorena–SP: Cléofas, 2008.

Rops, Henri-Daniel. A Igreja dos Tempos Bárbaros, vol. II, São Paulo: Quadrante, 1991.


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