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Artigo

CIÊNCIA CRISTÃ

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 065 – maio 1963

 

MARANHENSE (São Luís): «Poderia expor em que consiste a chamada “Ciência Cristã” (Christian Science)? Qual a sua mensagem?»

 

Para se entender devidamente a «Ciência Cristã», importa, antes do mais, considerar a vida e a personalidade de sua fundadora, a Sra. Mary Baker-Eddy. É o que faremos abaixo.

 

 

1. Vida e personalidade da fundadora

 

Mary Baker nasceu aos 16 de junho de 1821 na região de New-Hampshire (USA), mostrando desde os seus primeiros anos acentuada têmpera religiosa bem como precária saúde (vítima de histeria com convulsões, angústias, estados de dureza cataléptica, etc.). Aos 22 anos, casou-se com o coronel Glover, que faleceu um ano após o enlace, deixando-lhe um herdeiro. Mary entregou essa criança a uma ama e nunca mais o viu a não ser sessenta anos depois, dando provas então de absoluto desinteresse pelo filho.

 

Dedicou sua inteligência (que era notória) e sua capacidade de trabalho e organização (também extraordinária) à prática do espiritismo e à luta pela emancipação dos escravos. Passava grande parte do seu tempo prostrada no leito, em virtude das crises nervosas que a acometiam, tornando-a pessoa de trato extremamente difícil e um tanto tirânico.

 

Formosa como era, conseguiu casar-se de novo em 1849, esposando um dentista ambulante, Daniel Patterson. O casamento, porém, foi infeliz, terminando com divórcio em 1873.

 

Entrementes deu-se um acontecimento que devia revolucionar a vida de Mary e, consequentemente, a de milhões de indivíduos. De fato, a doente caiu num estado de paralisia completa, ficando totalmente inválida, dependente dos bons préstimos de outras pessoas, a quem suas reações nervosas facilmente exasperavam. Somente um milagre a podia salvar dos males físicos e psíquicos. Ora foi o que ocorreu em 1866.

 

Os livros oficiais da «Christian Science» referem que Mary foi restabelecida quase instantaneamente após ter lido no Evangelho segundo Mateus (9,1-8) a cura do paralitico.

 

Os autores críticos, porém, relatam o acontecimento de modo diverso: os Estados Unidos da América eram então percorridos por numerosos curandeiros, entre os quais se destacava um antigo relojoeiro chamado Phineast Pankurst Quimby. Este curava pelo sonambulismo, incutindo aos seus clientes a ideia de que as respectivas doenças eram meramente imaginárias; dava ao seu sistema o nome de «Christian Science». Mary Baker, dizem, haverá sido curada pelo sugestionismo desse «médico» ambulante.

 

O fato é que, dias após o portento, Mary se pôs a estudar assiduamente a Bíblia Sagrada assim como alguns escritos de Quimby, a ela emprestados pelo próprio autor. Sem demora, também começou a difundir o maravilhoso método de curar «pelo espírito» utilizado por Quimby. Apresentando-se ao público como «professora de Ciência Moral», formava curandeiros na base de cem dólares por doze aulas. Auxiliada por alguns discípulos, elaborou sua doutrina própria e em 1875 a publicou no livro que lhe devia granjear grande fama : «Ciência e Saúde com a chave das Escrituras», obra que, sucessivamente retocada, devia chegar à forma definitiva e oficial em 1907. — O volume atinge 700 páginas e, para os discípulos de Mary, goza de importância igual à da Bíblia, pois é o comentário obrigatório das Escrituras Sagradas; os estudiosos, porém, julgam-na assaz confusa ou mesmo incompreensível, pois justapõe, sem muito critério, textos bíblicos e proposições tiradas das diversas fontes do esoterismo. Como quer que seja, tal obra é apresentada como «a mensagem do Amor Divino ao gênero humano, mensagem que cura os doentes, consola os aflitos e reforma os pecadores».

 

Em 1876, Mary, em terceiras núpcias, esposou um de seus clientes, a quem curara: Gilbert Eddy. Este havia de morrer seis anos mais tarde, em consequência de uma crise cardíaca e apesar de todos os esforços da consorte, esta chegou a satisfazer ao mais desconcertante desejo do marido, chamando um médico para tratar dele!

 

No ano mesmo em que se casou (1876), Mary Baker-Eddy fundou com seis discípulos a «Christian Scientist Association» (Associação Cientista Cristã). Pouco depois alugou em Boston suntuoso prédio, no qual instalou a sua primeira Universidade — o «Metaphysical College»—, onde se formam até hoje os práticos da «Ciência Cristã». Em 1883 apareceu o periódico «Christian Science Journal», ao qual se seguiu em 1890 o «Christian Science Quarterly».

 

Conforme os biógrafos oficiais, a Sra. Eddy a princípio não pensava em fundar uma nova Religião; esperava, sim, que as suas descobertas fossem reconhecidas e adotadas pelas instituições religiosas existentes. Desiludida, porém, pelo indiferentismo destas diante da mensagem da «Ciência Cristã» e impulsionada pelo vulto crescente do movimento que ela iniciara, resolveu em 1892 constituir uma religião própria, inaugurando em Boston a primeira igreja do «Cristo Cientista», igreja-mãe da qual todas as demais não são senão filiais. A fundadora tomou o título de «Pastor Emeritus». Tendo-se tornado, sem demora, pequena demais, essa matriz foi substituída por um edifício com lugar para 5.000 pessoas, todo recoberto de mármore e ouro; a respectiva construção foi possibilitada por uma subscrição pública, que em alguns dias arrecadou a quantia de dois milhões de dólares. À inauguração desse templo afluíram mais de 30.000 pessoas, devendo, em consequência, ser a cerimônia repetida seis vezes.

 

A fama de Mary Eddy foi extraordinária, mesmo durante a vida da «taumaturga»; «sem dúvida alguma, nenhuma mulher exerceu poder mais tirânico e mais humildemente aceito pelos seus» (M. Colinon, Faux prophètes et sectes d'aujourd'hui. Paris 1953,126). O templo de Boston, um santuário revestido de mármore, ônix e ouro, está consagrado à memória da vidente, cuja efígie aparece iluminada pela estrela de Belém; a multidão aí desfila, aos grupos de doze pessoas; como dizem os seus discípulos, a sua «Leader» é, de certo modo, comparável a Cristo; é «o Consolador anunciado pelos profetas»; as revelações por ela feitas continuam e completam as de Jesus; os seus escritos foram postos em versos e vêm citados como textos sagrados.

 

Enfim, no ano de 1910, com 89 anos de idade, Mary morreu ou, segundo os textos oficiais, «deixou a mansão terrestre para entrar em outra fase de existência, em que prosseguirá a sua tarefa individual e poderá ainda continuar a progredir»; «foi unir-se ao Princípio-Amor-Deus».

 

A Sra. Eddy chegou a formar em seus institutos mais de 4.000 discípulos, que ela enviou à conquista do mundo; seus desejos eram tidos como ordens e executados sem demora; foi a tenacidade de sua vontade, associada ao poder de influir, que lhe garantiu a realização de empreendimentos árduos, merecendo-lhe por fim o título, dado pela imprensa, de «Maomé do Ocidente».

 

Nos Estados Unidos a Ciência Cristã muito se desenvolveu; possui atualmente nesse pais um total de dez a quinze mil templos ou lugares de reunião. Encontram-se templos filiais na Suíça (39 casas), na Suécia (3 casas), na Itália (3 casas), na Áustria (2 casas), na Bélgica (2 casas), na Dinamarca (1 casa), na Noruega (1 casa), assim como na ilha de Java, no território de Ruênia, em Hong-Kong, nas ilhas Molucas.

 

Pergunta-se agora:

 

 

2. Qual a mensagem da «Ciência Cristã» ?

 

1. Resume-se em poucas palavras, densas de significado e consequências: a Sra. Baker-Eddy «descobriu» que o mal não existe; o sofrimento sob qualquer de suas formas, a doença e a morte são apenas aparências que não encobrem realidade alguma. E, já que a doença está muito ligada com o corpo e a matéria, Mary Baker-Eddy não hesitava em dizer que a própria matéria não existe. Portanto o mal e a matéria só têm realidade na nossa mente, correspondem a estados do espírito e a ilusões ou miragens falsas dos nossos sentidos.

 

E como provariam os adeptos da «Ciência Cristã» tão ousadas afirmações?

 

Lembrar-nos-iam que Deus é Espírito. Ora o homem foi feito à imagem de Deus. Disto se segue que é inteiramente espiritual, e não, como parece, um mortal corpóreo. Mais ainda: o homem possui a dignidade de filho de Deus ; por conseguinte, é perfeito.

 

Caso alguém não se dê por satisfeito com tal resposta e peça ulteriores argumentos para provar que a matéria e o mal não existem, respondem os discípulos de Baker-Eddy que a sua doutrina é uma revelação, e que revelação não se discute, mas se vê; basta que ela seja eficaz ou produza bons resultados na realidade prática para poder ser aceita. A «Ciência Cristã» pretende então provar que o mal não existe apontando casos práticos e, em particular, as doenças. O «cientista cristão», despertando a consciência de que a matéria e as moléstias do corpo não existem, liberta das doenças e dos sofrimentos os seus adeptos. Assim raciocina um «cientista» fiel: «para que procurar receitas e remédios que curem tal ou tal pretensa enfermidade do corpo? A doença de que o paciente se quer emancipar, simplesmente não existe!». Assim está eliminado o problema, solucionado o caso; «a Sra. Eddy resolveu o enigma do universo». «A Ciência Cristã não cura a matéria, pois esta é irreal, e o irreal não precisa de cura». O único tratamento aplicável consistirá em «fazer ver a irrealidade da doença» a todo indivíduo que se julgar afetado por alguma moléstia. Nem a dor, nem a moléstia têm consistência fora da imaginação; por conseguinte, há um proceder muito fácil para as eliminar: tomar consciência (e fazer que outros tomem consciência) da sua irrealidade.

 

Para a Sra. Eddy, «admitir a doença equivale a negar que Deus seja soberano e que o homem seja perfeito, incapaz de manifestar a imperfeição».

 

Assim julgava Mary ter descoberto a chave das curas praticadas por Cristo; estas podem ser reproduzidas por qualquer indivíduo. Basta convencer o paciente de que sua crise de apendicite é mero produto da imaginação ou de que sua perna não está quebrada (a «Ciência Cristã», aplica-se a todo e qualquer tipo de enfermidade); basta também persuadir tal pessoa aflita de que ela não perdeu sua carteira portadora de dinheiro e documentos ou de que sua casa não está sendo devorada por um incêndio, como lhe parece. Os «milagres» assim obtidos não contrariam as leis da natureza; o que as contraria, é crer que existem doenças e desgraças.

 

A Sra. Eddy chegava a afirmar que um homem «poderia muito bem viver sem pulmões, caso tivesse consciência de que isto é possível». A vidente aconselhava outrossim aos doentes que não mandassem diagnosticar as suas enfermidades, pois «isto concorreria para produzir o mal ou para o agravar». Em consequência,, os praticantes da «Ciência Cristã» evitam cuidadosamente proferir o nome de alguma moléstia, a fim de não dar a esta a realidade que ela não tem. O mal dos que se julgam doentes, está em indagar donde vêm as doenças, quais as causas de tal ou tal moléstia, como fazer para debelá-las, etc. Estas perguntas estão baseadas em ilusórias imagens da fantasia. .. A «Ciência Cristã», ensinando a remover tais imagens, elimina o problema e incute ao indivíduo aflito a alvissareira consciência do que ele é,na verdade, um filho perfeito de Deus. A quem jaz nas trevas, a «Ciência Cristã» traz a luz. O único mal é crer no mal!

 

Por fim, será oportuno notar que, consequentemente aos seus princípios, a Sra. Mary Baker-Eddy negava também a existência do pecado. Para que alguém seja puro, ensinava ela, basta que se convença de que o pecado não existe ; se deixarmos de crer no pecado, este morrerá por inanição.

 

2. Eis, porém, que algumas objeções, aparentemente graves, se podem formular contra a doutrina da «Ciência Cristã».

a)    Dirá, por exemplo, alguém: mas então como se explica que um veneno sempre acarrete a morte, ainda que ingerido por engano, sem que a vítima saiba que é um mal?

Responde simplesmente a «Ciência Cristã»: a grande maioria dos homens crê que tal droga é veneno mortal... e é essa maioria das opiniões que influi sobre a vítima.

b)      Insistirá o oponente: e os animais domésticos, que não pensam nem refletem, como podem ser afetados por moléstias?

O «cientista cristão», sem embaraço, responderia: «os animais são controlados pelos pensamentos dos homens, seus senhores e proprietários; fomos nós que corrompemos os cavalos e as vacas, e os ensinamos a sofrer de pneumonia e cólicas».

c)    Resposta análoga seria dada a quem ainda quisesse objetar que também as crianças sofrem, embora não raciocinem nem tenham culpa alguma, como os adultos. — É verdade, diria o «cientista cristão»; mas os adultos que cercam as crianças, alimentando conceitos errôneos a propósito do mal, provocam semelhantes ideias nos pequeninos.

 

Assim a «Ciência Cristã» removeria as principais objeções que se lhe fizessem.

A fim de completar a exposição doutrinária acima, seguem-se

 

 

3. Alguns casos práticos

 

No fim de cada reunião de culto da «Ciência Cristã», costumam as pessoas agraciadas narrar os benefícios que obtiveram seguindo os conselhos da seita. Nem os dirigentes da assembleia nem os simples fiéis examinam de perto os episódios maravilhosos, a fim de os submeter a controle e crítica ; aliás, qualquer intervenção de médico é peremptòriamente rejeitada pela «Ciência Cristã».

 

Muitas de tais narrativas são publicadas nos periódicos oficiais «cientistas». Destas fontes foram extraídos os casos abaixo; servirão para ilustrar a mentalidade dos «cientistas».

 

Narra alguém: «No alto da escada, veio a faltar-me o equilíbrio, e cai de cabeça para baixo, resvalando por dez ou doze degraus. Enquanto eu era assim precipitada, acudiu-me claramente ao espírito este pensamento: não existem acidentes no Reino de Deus. Ao pé da escada, detive-me prostrada, imóvel, pensando com alegria no alcance dessa bela mensagem, sem acreditar que eu tivesse sofrido um acidente. Após alguns minutos, lembrei-me de que minha mãe ficara no alto da escada e talvez estivesse inquieta a meu propósito. Rapidamente então levantei-me, subi os degraus às carreiras e nos precipitamos nos braços uma da outra, dizendo : 'Nada aconteceu!'

 

Era realmente o caso. As enquimoses desapareceram em algumas horas» (Boston Massachussets, «Herald of Christian Science»; citação de M. Colinon, Les Guérisseurs. Paris 1957, pág. 65).

 

Sem querer descer a comentários, perguntamos: que acidente é esse que, destituído de realidade, não obstante deixa enquimoses?

 

Em outra ocasião, uma mulher narrou o seguinte: estando afetada de hemofilia, lançou imprevistamente os olhos numa passagem de «Ciência e Saúde com a chave das Escrituras» : «Deve-se dizer ao doente cuja palidez leve a crer esteja depauperado por anemia perniciosa (deve-se-lhe dizer) que o sangue jamais comunicou a vida e jamais será responsável pela perda da mesma. A vida é espírito; há mais vida e imortalidade em uma boa intenção e em uma boa ação do que em todo o sangue que jamais tenha corrido nas veias dos mortais, simulando um sentido corpóreo da vida». Estes pensamentos foram para a enferma raios de luz. Ela então corrigiu suas ideias e removeu sua falsa concepção a respeito do próprio «eu». Foi melhorando espiritualmente. Três anos mais tarde, por ocasião de um exame médico, veio a saber que estava curada (cf. a mesma revista, maio de 1949, pág. 110).

 

Não somente curas de doenças, mas também outros portentos, são evocados:

 

«Recentemente numa igreja cientista cristã, um homem que dava seu testemunho, disse o seguinte: durante treze anos procurava vencer a inclinação para o fumo, utilizando, para isto, seus esforços e os de outras pessoas; em vão, porém. Já havia trinta anos que fumava; este hábito o deprimia; mas ele o tinha na conta de muito real. Um dia, fez-se luz em sua mente: pôde ver que, como filho de Deus, jamais fumara. Por conseguinte, não precisava de ser curado de uma coisa da qual, em verdade, ele não se tornara culpado. A libertação foi então imediata» (Today's demands»).

 

«Acompanhado por sua esposa, que, como ele, estudava zelosamente a Ciência Cristã, um jovem engenheiro das minas foi penetrando em vasta floresta na zona NO dos Estados Unidos... Um dia, tremendo incêndio irrompeu naquela parte da floresta; em breve viram-se cercados por um anel de chamas, do qual parecia que não poderia escapar. Por fim, tomaram consciência de que, sendo imagem e semelhança de Deus, o homem real é tão invulnerável quanto Deus mesmo; e reivindicaram para si a invulnerabilidade do próprio Deus. Naquele mesmo instante, a situação mudou. Conceberam a certeza da vitória e, sem demora, encontraram, eles e seus companheiros, estreita passagem que as chamas haviam deixado aberta; seguiram-na, e acabaram saindo da zona do incêndio» (La divine ioi d'ajustement, citado por Colinon, Les Guérisseurs pág. 66).

 

Digno de nota é que os “cientistas cristãos” não vejam contradição entre um incêndio que não pode causar dano e a necessidade de se encontrar estreita passagem através das chamas, nem... entre «o homem que deixa de fumar» e a afirmação de que «nunca fumara».

 

«Há anos atrás, conversava eu com um dos membros da nossa família em serão; observaram então que um dos ossos do meu punho apresentava uma protuberância em consequência de fratura ocorrida na meninice. Ambos concordamos em afirmar que, se não tivéssemos conhecimento dos acidentes, estes não nos deixariam marcas. Quando mais tarde voltei a pensar nisso, verifiquei que já não tinha protuberância no punho.

Outros males desapareceram de mim, sem que eu tivesse consciência disso: por exemplo, unhas encravadas e calos, que por muito tempo me haviam feito sofrer. Hoje posso calçar sapatos elegantes e caminhar longamente sem dor. É este um grande benefício» («Herald of Christian Science», outubro de 1952, citado por Colinon, Faux prophètes et sectes d'aujourd'hui. Paris 1953, 132s)

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Não se peça aos arautos da «Ciência Cristã» um exame clínico das pessoas que assim se dizem libertadas. Conforme os «cientistas», os médicos só poderiam prejudicar a saúde dos crentes; eles nada entendem dessas curas; basta ter a fé. Que o leitor aceite essa mesma norma!

 

 

4. Uma apreciação final

 

1.     Em última análise, a «Ciência Cristã» vem a ser um processo de psicoterapia, que utiliza a fé e temas religiosos como fatores sugestionantes. É o que, com a máxima clareza, se depreende não só da exposição das doutrinas «cientistas», mas também e principalmente dos relatos de curas acima apresentados. O sugestionismo é o ponto de partida assim como o termo da chegada das práticas da «Ciência Cristã»; apenas se deve lamentar que a Sra. Eddy tenha dado aspectos de Religião a esta sua técnica. O sugestionismo como tal pode ser perfeitamente aceitável desde que o sugestionador o utilize de acordo com as normas da consciência e não pretenda fazer da Religião um mero departamento da Psicologia.

 

2.     Na verdade, a «Ciência Cristã» está muito longe das verdades básicas do Cristianismo. E isto, por dois motivos principais:

 

a) Não reconhece Cristo como Deus, mas apenas como terapeuta espiritual ou como o primeiro dos «cientistas» cristãos; nele estava em grau eminente Deus (que é «Tudo em todos»). A «Ciência Cristã» trazida por Cristo ao mundo foi ofuscada no decorrer dos tempos até que a Sra. Eddy (1821-1911) de novo a descobrisse aos homens. Não se pode dizer que Cristo tenha feito milagres, pois o milagre não existe propriamente; Cristo apenas aplicou o método de cura mediante a revelação da verdade (... desta verdade em particular: não é preciso pensar em cura, porque não há doença). Jesus pode ser dito nosso Redentor pelo fato de que, por sua Paixão, ele nos ensinou a desprezar o sofrimento e a morte.

b) A oração não é propriamente uma súplica ou um diálogo do homem com Deus, mas, sim, uma meditação. «Orar sem cessar», conforme a doutrina da Sra. Eddy, significa «pensar constantemente em Deus, na sua presença e no seu poder», «lembrar-se de que o homem foi feito à semelhança do Criador, que é invulnerável».

 

Ao «cientista» cristão incumbe o dever de pensar nos resultados benéficos da sua «prece» antes de os obter, e de os verificar, uma vez obtidos; mas ele não os pede. Ora tal atitude muito difere da atitude de prece que Cristo quis incutir aos seus discípulos, por todo o decorrer do S. Evangelho. A verdadeira oração cristã coloca o homem na posição de filho do Pai Celeste, filho que pede e espera receber, todas as graças de que precisa para poder dar a devida glória a Deus.

 

Dom Estêvão Bettencourt (O.S.B.)


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