PERGUNTE e RESPONDEREMOS 063 – Março 1963

MÁQUINAS e INTELIGÊNCIA

CIÊNCIA E RELIGIÃO

ESTUDANTE (São Paulo) : «Há máquinas  que traduzem textos, até mesmo livros inteiros, de uma língua para outra, e com muito maior rapidez do que a de um tradutor humano. Não seria isto mais um indicio de que não existe distinção entre máquina e inteligência humana ou entre matéria e espírito?»

 

Em «P. R.» já mais de uma vez foram abordadas questões concernentes aos «cérebros eletrônicos» (robôs) e à distinção entre matéria e espírito; cf. n. 5/1958, qu. 1; 15/1959, qu. 1; 60/1962, qu. 1.

 

Não obstante, tais assuntos ultimamente têm voltado à baila, porque em nossos dias se apresentam dentro de modalidades novas, que muito impressionam o público. Com efeito, enquanto as máquinas eletrônicas se destinavam apenas a calcular, não constituíam algo de totalmente inédito, pois já anteriormente existiam máquinas mais simples para somar. Tratando-se, porém, de traduzir línguas, tem-se a impressão de entrar num setor propriamente humano; a máquina faz — e faz mais velozmente — aquilo que só o homem parecia poder realizar. Daí a questão filosófico-religiosa : onde fica a distinção entre o homem e à máquina, entre «espírito» e matéria?

Na resposta à pergunta, referiremos primeiramente o modo como funcionam as máquinas de traduzir; a seguir, compará-lo-emos com o da inteligência humana. A fim de não incorrer em demasiadas repetições, suporemos em grandes linhas o que já foi explanado sobre o assunto nos citados números de «P. R.».

 

1. O «segredo» das máquinas de traduzir

 

1. Na verdade, as máquinas de traduzir não dependem de novos princípios de eletrônica ou de técnica, mas obedecem às mesmas normas que regem o funcionamento das máquinas de cálculo. De fato, elas supõem sempre um operador humano,... operador que reflete sobre determinado problema e finalmente o equaciona... Os dados da equação são, a seguir, colocados dentro da máquina sob a forma de furos feitos numa fita de papel.

 

É então que a máquina começa a trabalhar...; a sua função consiste unicamente em desencadear os efeitos ou as conclusões encerradas dentro da equação concebida pelo homem; tais conclusões não constituem algo de novo, uma vez que esteja formulada a equação. A máquina eletrônica apenas aumenta a velocidade da operação que o homem faria lentamente, e preserva essa operação dos erros que a mente humana, por vezes cansada, não consegue evitar.

 

A diferença entre a máquina de traduzir e a de calcular consiste tão somente no seguinte: na máquina de traduzir, os dados do problema não são números nem quantidades, mas palavras, ... palavras para as quais se quer encontrar o equivalente em outra língua. A fim de realizar isto, a máquina recebeu do fabricante um «dicionário cifrado», ou seja, um catálogo de vocábulos pertencentes a duas línguas diversas, mas equivalentes uns aos outros. O proceder da máquina consiste apenas em fazer a transposição de um equivalente para outro equivalente, de acordo com os dispositivos concebidos pelo fabricante e o operador humanos (o trabalho da máquina é como o de quem, num dicionário português-inglês, corre os olhos da palavra «mesa» para a palavra equivalente «table», que lhe foi posta ao lado pelo inteligente autor do dicionário).

Algumas comparações clássicas ilustrarão melhor tal funcionamento:

 

Imagine-se, de um lado, uma chave e, de outro lado, uma série de portas dotadas das respectivas fechaduras. Sabe-se que a chave foi fabricada para uma dessas portas; todavia não se sabe para qual delas. Em consequência, alguém põe-se a experimentar todas as fechaduras até encontrar a adequada; inserida dentro desta, a chave gira, a porta abre-se e descortina-se ao observador uma cena talvez nova e imprevista para ele (um quarto, um escritório, uma loja...), mas cena cuidadosamente concebida e planejada por um arquiteto, um decorador ou, em uma palavra, uma inteligência humana. A chave não inventou a cena, nem é consciente dessa cena; ela apenas a manifesta mecanicamente, pelo fato de que os contornos da chave encontraram os contornos de uma fechadura que lhe correspondiam exatamente.

 

Pois bem; a chave é tal ou tal vocábulo de determinada língua, representado por um ou mais furos feitos em uma fita magnética. A série de portas é a série de furos correspondentes às palavras de outra língua, para a qual se quer fazer a tradução. A procura de ajuste da chave na respectiva fechadura é o processo da máquina eletrônica, que percorre os furos do seu «dicionário» até que os furos feitos na fita pelo operador humano encontrem os seus equivalentes nesse dicionário.

 

A chave gira na fechadura, e a porta se abre, dando a ver, do lado de lá, um panorama novo correspondente ao do lado de cá... Isto quer dizer: a máquina, em consequência do ajuste, anuncia ao operador o vocábulo da outra língua que traduz o vocábulo do texto original...

 

Pode-se também recordar o que se dá quando procuramos a tradução de uma palavra num dicionário. Seja, por exemplo, o vocábulo RUA, que desejássemos traduzir para o inglês: folhearíamos então o dicionário, procurando primeiramente a classe (ou o «furo») R: a seguir, procuraríamos a classe ou o furo U; finalmente,... a classe ou o furo A. Encontrando a configuração RUA, estaríamos imediatamente diante do vocábulo STREET. Porque? — Porque a inteligência do autor do dicionário teria confeccionado essa relação e porque a nossa inteligência estaria a par desse dispositivo; quanto ao dedo da mão que desliza sobre as páginas do dicionário, percorrendo as palavras respectivas até encontrar o vocábulo que procure., tal dedo não tem mérito algum; ele executa apenas o trabalho que a inteligência humana lhe assinala. Pois bem; o dedo, no caso da tradução eletrônica, corresponde à máquina; esta não é a inteligência nem tem inteligência, mas supõe a inteligência do homem, da qual é mero agente mecânico.

 

Imagine-se ainda outra figura ilustrativa: existem «manuais de conversa» ou dicionários de bolso destinados a viajantes e excursionistas. Trazem um repertório de frases de primeira necessidade («Que horas são? Onde fica a estação? A que horas parte o trem? Quanto custa?...») acompanhadas da respectiva tradução para língua estrangeira. Folheando esses dicionários, o viajante encontra automaticamente as frases de que precisa no estrangeiro, sem aprender algum idioma, sem mesmo poder justificar por que assim e assim se fala em tal idioma.

 

Assim o viajante brasileiro, querendo despedir-se com um «até a vista, até mais, até logo», fica sabendo que deve proferir «au revoir». em francês, «Auf Wiedersehen» em alemão, «do svidanjà» em russo, «nãdemãan asti» em finlandês, sem que todavia possa dar contas destas expressões.

 

O papel desse viajante, ao pronunciar tais expressões, é meramente mecânico; não é o trabalho inteligente de um tradutor. O viajante supõe o inteligente tradutor que, no caso, é o autor do «Manual de conversa». Ora tal viajante que inconscientemente profere sons (sons que um tradutor inteligente lhe indica) ilustra bem o que seja a máquina de traduzir; o .seu proceder não é o de uma inteligência humana.

 

2. Acontece, porém, que, ao se tratar de tradução, entram em jogo questões de sintaxe (ordem e colocação das palavras) que variam de uma língua para outra... Em consequência, não se podem transpor simplesmente os vocábulos do idioma A para o idioma B sem cometer possíveis absurdos ou construções inadequadas.

 

Também acontece que determinada palavra, numa língua, tem vários matizes, que em outra língua se exprimem por vocábulos diversos. Há sutilezas de expressão que muitas vezes não dependem de lógica, mas são puramente arbitrárias.

 

Como poderia então a máquina perceber as consequências daí decorrentes para uma boa tradução?

É claro que a máquina não as percebe. Daí se pode concluir que as suas probabilidades de êxito ou de eficácia sofrem detrimento. — Contudo há, de certo modo, remédio: o operador, ao traçar o programa ou o roteiro da máquina, terá que levar em conta as circunstâncias e as situações variadas do roteiro. Terá que preparar e ajustar a máquina para proceder como se ele lhe dissesse: «Traduzirás a palavra A pela palavra A', caso ela se encontre em tal posição da frase. Mas, se no contexto ocorrer o vocábulo B, darás ao vocábulo A o sentido C. Haverá, uma exceção, porém: se na frase precedente não se encontrar isto ou aquilo...».

 

Tais previsões e cautelas, comunicadas à máquina mediante dispositivos automáticos, são úteis, sem dúvida, para evitar muitos dos possíveis defeitos de tradução. Não conseguem, porém, prover a todos os casos de modo a ocasionar uma tradução sempre correta e adequada.

 

3. Perguntar-se-á então: se os tradutores automáticos estão sujeitos a tais vicissitudes, para que servem? Pode-se ter confiança no texto que transmitem?

 

Em resposta, observaremos que as máquinas eletrônicas não são utilizadas para traduzir peças de literatura (romances de Tolstoi, autos de Shakespeare, poesias de Vítor Hugo...); o seu uso se restringe geralmente a escritos ou obras de ciência, visando dar aos cientistas de diferentes partes do mundo uma noção daquilo que se vai escrevendo em determinado país. Mediante traduções eletrônicas, o estudioso interessado ganha, sem dúvida, acesso à bibliografia e à documentação publicadas em línguas estrangeiras. Não lhe é necessário ter ante os olhos um texto de linguagem castigada e puritana; basta-lhe que as frases sejam inteligíveis, ou ao menos deem suficientemente a ver «aquilo de que. se trata». Caso o cientista se interesse a fundo por tal ou tal obra conhecida mediante tradução eletrônica, poderá mandar fazer uma tradução humana da mesma, a qual levará em conta os matizes de expressão do texto original.

 

É preciso, por exemplo, que os médicos ingleses estejam a par dos trabalhos dos médicos japoneses,... que os atomistas americanos possam acompanhar as publicações dos atomistas russos...

 

Conscientes disto, os norte-americanos dedicam-se intensamente às traduções de obras estrangeiras por meio de linguistas humanos. Contudo só conseguem traduzir a centésima parte das obras técnicas que se vão publicando no mundo inteiro. Quanto aos textos russos, sòmente a milésima parte é traduzida nos Estados Unidos — o que representa certa lacuna, pois a bibliografia técnica soviética aumenta, todos os anos, de várias centenas de milhões de linhas.

 

Na Rússia, contam-se 2.600 tradutores que dedicam tempo integral a diversos institutos de tradução; 26.000 outros tradutores consagram ao menos parte do seu tempo a semelhante tarefa. Produzem por ano cerca de 500.000 resumos de artigos ou livros.

 

Dai ver-se a grande necessidade de tradutores e traduções na vida moderna. Ora, sem dúvida, a máquina eletrônica pode contribuir eficazmente para prover a tal indigência.

 

Ademais, a fim de diminuir ainda as imprecisões das traduções eletrônicas, têm-se fabricado máquinas especializadas para cada uma das principais ciências modernas, isto é, máquinas cujos dicionários ou cujos «furos» são adaptados ao vocabulário próprio ou da Física ou da Química ou da Biologia ou da Farmácia... — É claro que dentro de cada um desses determinados setores o vocabulário é mais rígido, admitindo menos possibilidades de oscilação e ambiguidade.

 

4. A máquina eletrônica mais complexa que atualmente se conheça, é a de Mohansic (Estado de Nova Iorque, U.S.A.). Foi lançada em junho de 1959 e destina-se a traduzir textos russos para o inglês. Trabalha com 55.000 raízes russas, abrangendo um setor de 500.000 palavras. Prevê-se que o número de raízes (que se tem progressivamente acrescido) poderá chegar a 400.000.

 

A rapidez da tradução é de 1.800 vocábulos por minuto, resultado este que em breve ainda se tornará mais vantajoso, podendo atingir o índice de 2.400 palavras por minuto.

 

Tendo assim considerado os portentos da máquina de traduzir, passemos a um confronto entre

 

2. Tradutor eletrônico e tradutor humano

 

1. Após uma primeira comparação, não se pode deixar de reconhecer a velocidade impressionante com que a máquina trabalha, suplantando as melhores perspectivas de um tradutor humano. Não há dúvida, o homem, nesta linha, não pode competir com a máquina. — Verifica-se, porém, que o fator «velocidade» não é característico da inteligência como tal; a velocidade pode ser qualidade de muitos trabalhos especificamente diversos.

 

O que marca inconfundivelmente a inteligência, é a capacidade de perceber proporções e relações, ou seja, a razão de ser (o «porque») e a concatenação dos fenômenos; apreendendo isso, a inteligência pode corrigir suas falhas e progredir ou melhorar em sua atividade.

 

Ora tal se dá com o homem e não se dá com o tradutor eletrônico. Este não concebe o roteiro a percorrer para chegar ao texto traduzido, mas depende sempre do operador humano. Caso este se engane ao fazer o programa da máquina, o tradutor eletrônico se enganará «certeiramente»; não corrigirá nem melhorará o trabalho humano. Aqui conviria lembrar o que já foi dito em «P. R.» 60/1962, qu. 1; a fim de não repetir, mas antes corroborar de maneira nova tais considerações, segue-se um exemplo que bem ilustra como a máquina de traduzir é cega ou destituída de inteligência.

 

O cientista francês Êmile Delavenay escreveu um livro a respeito de tradutores eletrônicos intitulado «La machine à traduire».

 

A obra foi traduzida para o inglês por um cérebro humano... Para a edição inglesa, porém, o autor escreveu em francês um prefácio próprio, que ele quis fosse traduzido para o inglês mediante um cérebro eletrônico. O texto inglês desse prefácio foi publicado tal como saiu da máquina de traduzir. — Ora nota-se que no original francês do prefácio ocorre o adjetivo feminino «future»; o aparelho eletrônico o traduziu por «futide», palavra que não existe em inglês. Como explicar tal falha?

 

Não se deve propriamente a um erro da máquina. Esta obedeceu fielmente ao programa que lhe foi incutido. Aconteceu, porém, o seguinte:'a única máquina disponível no mundo para traduzir do francês para o inglês é a da Universidade de Georgetown. Tal máquina foi especializada para o vocabulário da Química. Ora os compostos de metais e metaloides em francês tomam o sufixo «ure» (assim, «carbure, iodure, bromure, chlo- rure»...); a esta desinência na linguagem química inglesa equivale o sufixo «ide» (assim, «carbide, iodide, bromide, chloride»...). Por conseguinte, a máquina foi fabricada e preparada de modo a suprimir o sufixo «ure» nas palavras que o apresentassem e substituí-lo pela terminação «ide». Não sabendo o «porque» dessa operação, a máquina a efetuou também com o adjetivo «future»; sem propósito, porém. Como se vê, o erro se deve não à máquina, mas à imprevisão do operador humano ou do programador.

 

Se a máquina fosse inteligente, não teria sido tão fiel ou tão certeira nesse caso...

 

2. A fim de favorecer a clareza de conceitos em tal setor, lembraremos que o cérebro e a inteligência são duas realidades bem distintas entre si. Não será necessário insistir neste ponto, já que foi recentemente explanado em «P. R.» 60/1962, qu. 1 pág. 492s. — Aqui limitamo-nos a reproduzir a doutrina em esquema

 

 

 


Parte corpórea

CÉREBRO

Comum aos homens e aos animais sensitivos. Espécie de central telefônica da vida sensitiva, na qual vão terminar as impressões colhidas pelos sentidos externos.

 

 

Parte espiritual

ALMA INTELECTIVA

 (tronco) —

Principio vital do homem, o qual desempenha também as funções da vida vegetativa e sensitiva.

 

 

 

 

INTELECTO ou

INTELIGÊNCIA ou RAZÃO

 (antena)

Faculdade característica da alma humana; abstrai dos dados concretos ou materiais; é imaterial ou espiritual



As distinções acima contribuirão para se evitarem lamentáveis mal-entendidos, entre os quais a expressão «animal irracional inteligente (cão inteligente, macaco inteligente...)». O irracional não possui inteligência (pois não percebe proporções e relações), mas, sim, instinto (que é sempre limitado a casos concretos e incapaz de estabelecer comparações a fim de progredir); cf. «P.R.» 44/1961, qu. 1 (distinção entre inteligência e instinto).

 

O termo «razão» tem sentido um pouco mais restrito que «inteligência». A razão é, sim, a inteligência tal como ela se encontra no homem, isto é, sujeita a progredir lentamente, de etapa a etapa, sem poder abarcar de uma só vez todas as conclusões de determinado principio.

 

O anjo tem uma inteligência que não precisa de raciocinar, mas compreende num só relance intuitivo tudo que está incluído em determinada proposição.

 

Dom Estevão Bettencourt (OSB)


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