Os muros da intolerância

 

Sergio Sebold

Economista e Professor Independente

[email protected]

 

O fascínio pela criação de muros não terminou com o muro de Berlim. Embora se comemore com toda pompa os 25 anos de sua queda, houve neste período a criação de meia dúzia de outros muros pelo planeta afora, a espera por um dia das picaretas para sua destruição. Infelizmente por mais desculpas e justificativas, ainda há povos que se dividem, que se odeiam, ou se protegem da invasão, usando a força do cimento e dos arames farpados, como arma passiva poderosíssima.

 

No caso de Berlim, todos sabem que o muro foi um atestado da incompetência política de um regime que ninguém o aceitava livremente. Criou-se um muro para evitar a fuga do paraíso socialista para o “inferno capitalista”. O paradoxo era que todos da esfera comunista queriam viver as delícias daquele inferno. Como através da  consciência, a elite política não conseguiu convencer a sociedade, a única saída para conter a horda dos descontentes foi usar a maneira passiva dos muros de contenção; tudo para justificar a ideologia comunista.

 

O velho jogo do poder, da oferta da igualdade para todos, onde os pobres teriam sua oportunidade e os ricos rebaixados de sua opulência, foi a cartilha de sua justificativa. Agora está se vendendo esta mesma falácia, no Brasil. Quanta ingenuidade. Todos sabem que o engenho político socialista caiu de maduro, ou melhor, de podre.

 

Passado este quarto de século a lição ainda não surtiu seu efeito. Um dos mais emblemáticos e polêmicos, “muros de Berlim”, é o chamado Muro da Cisjordânia, iniciado em 2002, que divide o território pelo o ódio e intolerância entre Israelenses e Palestinos. Infelizmente toda uma sociedade, sofre de um lado e de outro, por causa de meia dúzia de fanáticos e intolerantes terroristas. Aqui não mais por razões ideológicas, mas por força religiosa; ranços que vem desde os tempos bíblicos. Neste empenho mais de 450.000 pessoas palestinas sofrem esta trágica humilhação. Para os moradores de Israel é uma “parede de segurança”, para os palestinos o “muro do apartheid”.

 

Por ironia do destino, os EUA eram o país que mais vociferava contra o muro de Berlim; hoje detém o maior muro da história contemporânea (1000 km de fronteira), entre eles e o México, com a justificativa da invasão clandestina de pessoas, - chamada de imigração ilegal - desesperadas em busca de uma oportunidade de trabalho naquele país; embora autoridades americanas aleguem que é para o controle do narcotráfico.

 

Há referência de outro muro que se está construindo entre a Índia e Bangladesh, pelo argumento da invasão ao seu território de grandes massas de muçulmanos e miseráveis em busca de uma oportunidade pelo progresso que vem ganhando a Índia.

 

Pasmem, no Brasil também temos um muro que separa o complexo de favelas da rocinha dos bairros mais nobres. O governo do Rio de Janeiro alega que vem construindo um muro de contenção das encostas, tanto para proteger dos deslizamentos, como proteger da invasão das áreas nativas da mata atlântica. No total são contabilizadas 13 favelas rodeadas de muros;  para as autoridades sutilmente gera oportunidade de pontos de controle, para entrada do narcotráfico. Para alguns críticos, os muros teriam como objetivo separar a parte mais pobre, da sociedade mais rica; hipótese que se teria mais um cenário nas ciências sociais, o “apartheid social”. A polêmica até hoje está aberta.

 

A Europa toda está protegendo suas “fronteiras” contra a invasão dos famintos da África e da Ásia particularmente dos muçulmanos. Destaca-se, pela parte física, o muro criado pela Grécia com a Turquia, para se proteger da invasão clandestina, como mais um ponto de entrada para toda Europa, uma vez que a Grécia faz parte da União Europeia. Outro ponto é a barreira conhecida como Muro de Celta, que separa a Espanha da África (Marrocos) da cidade de Ceuta, com intuito de conter a imigração ilegal e o contrabando. Em situação idêntica à Alemanha está a separação das duas Coreias.

 

Para completar este quadro, se criou recentemente com apoio de toda a comunidade europeia, um muro imoral com base na tragédia. Todos os imigrantes ilegais que vierem por via marítima e sofrerem o naufrágio, não haverá mais socorro; irão enfrentar os muros de Netuno no fundo do mar.

 


Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
5 1
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL -  FACEBOOK 

:-)