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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS – 061, janeiro 1963

 

RECENTES (1963) CONFLITOS RELIGIOSOS NA ESPANHA

«Como se explicam os casos recentes de atitudes e declarações de católicos hostis aos protestantes na Espanha?»

 

Analisaremos abaixo sucessivamente os principais desses casos, procurando, por fim, formular algumas conclusões sobre o assunto.

 

Experimentamos profundo desagrado ao consignar notícias do tipo das que aqui se seguem. Fazemo-lo, porém, movidos apenas pela intenção de informar os nossos leitores e permitir-lhes que avaliem com mais conhecimento de causa a situação religiosa espanhola. Limitar-nos-emos a transcrever dados de fonte fidedigna — a «Herder-Korrespondenz» VI-XI, prontos a corrigir qualquer tópico que menos condiga com a verdade.

 

1. O Seminário Evangélico de Madrid

 

Aos 23 de janeiro de 1956, a Polícia Espanhola fechou o Seminário Teológico Unido de Madrid (de confissão evangélica), que funcionava à «Calle Murillo 85» (edifício do antigo Ginásio Evangélico «Porvenir»); fechou outrossim o pensionato para estudantes que tinha sede na mesma casa, deixando, porém, intactas as habitações particulares e a capela doméstica do edifício.

 

O fato provocou veementes protestos por parte do Conselho Mundial das Igrejas (confissões evangélicas e orientais ortodoxas) assim como de Igrejas Evangélicas Nacionais. Foi mesmo debatido nos Parlamentos da Alemanha, da Inglaterra,... submetido ao julgamento do Governo norte-americano e do Ministério francês do Exterior. A celeuma obteve que aos 3 de abril do mesmo ano o Governo Espanhol concedesse licença para reabertura do Seminário mediante o preenchimento de certas cláusulas.

 

Quais terão sido os motivos do episódio?

 

O Seminário Evangélico de Madrid foi aberto no ano de 1947, sem que os seus diretores tivessem pedido às autoridades civis a licença exigida por lei. Sua existência foi sendo tacitamente tolerada até que em 1955 um oficial do Governo intimou a direção do Seminário a obter a necessária permissão para funcionar. A intimação, porém, ficou sem efeito, dando ocasião a que a Polícia resolvesse fechar o estabelecimento em 1956...

 

Para se entender ainda melhor o conflito, será preciso levar em conta que parece não se tratar apenas de um caso de infração da lei civil espanhola (por parte do Seminário); o episódio parece ser outrossim a expressão de uma animosidade pessoal assaz antiga que os chefes do Protestantismo na Espanha vêm entretendo em relação ao Governo civil e à população católica (o comportamento pessoal dos líderes evangélicos na Espanha tem sido pouco apto para suscitar um clima de convivência pacífica com as autoridades governamentais e os concidadãos católicos). É o que vamos ver abaixo.

(De novo afirmamos aqui a nossa intenção de ser objetivos e de fazer um trabalho meramente informativo na base das fontes que pudemos consultar).

 

A situação atual do Protestantismo na Espanha deve ser considerada à luz de tais precedentes:

 

O primeiro bispo da «Iglesia Espaniola Reformada» foi um sacerdote católico apóstata, denominado Cabrera, da Congregação dos PP. Scolopianos (das «Escolas Pias»). Isto não podia deixar de criar uma situação desagradável entre católicos e Reformados na Espanha.

O segundo bispo da mesma «Iglesia Reformada» foi o filho do anterior: Francisco Cabrera Latorre, o qual faleceu em 1953 como membro da Maçonaria.

 

Sucedeu-lhe o bispo Santos M. Molina Zurita, o qual desde 1928 pertencia à Loja Maçônica Isis-Osiris de Sevilha e após a guerra civil de 1936 fôra condenado a doze anos de prisão por causa de suas atividades maçônicas (os autores chamam a atenção para o fato de que a Maçonaria na Espanha sempre foi fortemente voltada contra a Igreja Católica).

 

Por ocasião da República na Espanha (1931-1936), tornou-se notória a colaboração do Protestantismo com os líderes da esquerda. Em 1936, pouco antes das eleições de fevereiro, o Presidente da Aliança das Igrejas Evangélicas na Espanha, através do seu periódico oficial «Espana Evangélica», exortou os irmãos na fé a votar em favor da esquerda.

 

No que se refere diretamente ao Seminário Evangélico de Madrid, parece que o conflito depende não pouco das atitudes pessoais do respectivo Diretor, o Pastor Teodoro Fliedner-Funke.

É este, aliás, o testemunho que se lê no jornal suíço «Der Bund» (Berne, no 59, 1956), jornal independente, que de modo nenhum poderia ser tido como hostil ao Protestantismo:

 

«Hoje tem-se motivo para crer que o conflito não visava desferir um golpe contra a Igreja Evangélica como tal, mas, sim, atingir a pessoa do Diretor do Seminário, o Pastor alemão Fliedner... Parece que se deve entender o repentino fechamento do Seminário como mais uma das enérgicas medidas adotadas contra o seu respectivo Diretor. Como quer que seja, os círculos informados a respeito do desenrolar dos acontecimentos esperam que se trate apenas de determinação provisória e que o Seminário venha a ser reaberto nos próximos tempos».

 

Na verdade, o Pastor Teodoro Fliedner-Funke, Diretor do Seminário, é neto do Sr. Friedrich, evangélico alemão, que no século passado se transferiu para a Espanha. Teodoro passou no cárcere os anos de 1923 a 1927 por haver introduzido na Espanha livros e publicações subversivas da França. Sob o governo republicano espanhol era amigo de maçons e marxistas reconhecidos, como Azafta, Barcia, de los Rios, Albornoz. Entrementes, não deixava de se manifestar abertamente infenso à Igreja Católica.

Eis, por exemplo, como escrevia em um periódico estrangeiro («Blätter aus Spanien») no mês de junho de 1936:

 

«Neste país (a Espanha) a Igreja Romana foi sempre aos olhos do povo, o compêndio de toda tirania; o que infelizmente é verdade. Em Madrid incendiaram-se duas igrejas: a de S. Inácio e a de S. Luis. No tocante à primeira, torna-se supérfluo qualquer comentário, desde que se tenha em vista o seu nome, que é o do fundador da odiada Companhia de Jesus. Quanto à segunda, era tida como lugar de refúgio dos jesuítas...»

O mesmo jornal publicava a notícia abaixo, que em parte explica as restrições feitas às escolas protestantes na Espanha:

«Os socialistas e comunistas, tanto nas cidades como no interior da Espanha, mandam seus filhos para as escolas evangélicas».

 

Leve-se em conta também o seguinte: no mês de janeiro de 1956, o Pastor Fliedner, na Alemanha, proferiu declarações pouco simpáticas à situação religiosa da Espanha. Um jornalista as publicou em um periódico alemão de Wuppertal, que naturalmente chegou ao conhecimento do Governo espanhol. Em consequência, quando o Rev. Fliedner voltou à Espanha, as autoridades civis .resolveram negar-lhe a licença para que continuasse a exercer suas atividades no país. Contudo Fliedner prometeu retratar os pontos de suas afirmações considerados ofensivos ao Governo, e obteve, em troca, a permissão para prosseguir no seu posto.

 

Na realidade, porém, o Reitor do Seminário Evangélico não cumpriu essa sua promessa nem se rendeu à intimação que lhe foi dirigida no sentido de que legalizasse a existência do Seminário. A consequência de tal relutância foi finalmente o decreto de supressão do estabelecimento. — Considerados estes precedentes, percebe-se que a medida não foi fruto de sectarismo ou ódio, mas, sim, de uma situação ilegal em que se colocou o Rev. Fliedner.

 

Dentre os demais professores do Seminário, sobressaem os três irmãos Carlos, Elias e Adolfo Araújo, caracterizados por suas tendências marxistas: Carlos Araújo, por exemplo, tornou-se notório como Presidente da Esquerda Republicana, função em virtude da qual foi despedido do cargo de professor das Escolas Secundárias do Estado. O filho de Adolfo Araújo — German — foi, durante a guerra civil de 1936, comandante de um batalhão esquerdista. Quanto ao administrador do Seminário Evangélico, Manuel Velázquez José, foi após a guerra civil condenado, como agitador maçon, a doze anos de prisão.

 

Estes elementos de história merecem atenção para se poder avaliar devidamente o significado do fechamento do Seminário Protestante de Madrid. Embora este gesto ainda possa parecer drástico ao observador, certamente ele não parecerá tão injustificado ou arbitrário quanto à primeira vista se diria. — Deve-se outrossim observar que nem a Santa Sé (o Vaticano) nem a Nunciatura Apostólica na Espanha nem o bispo-patriarca de Madrid foram previamente consultados pela Polícia espanhola a respeito do fechamento do Seminário; nem foram, depois do fato, informados oficialmente a propósito do acontecimento; a responsabilidade do episódio, por conseguinte, não há de ser atribuída à Igreja Católica, mas, sim, às autoridades civis, que, por mei0 do Subsecretário do Ministério da Justiça, fizeram saber ao jornalista Felix A. Plattner, do periódico suíço «Orientierung», que o fechamento do Seminário devia ser considerado como «medida meramente administrativa».

 

2. A confiscação de edições da Bíblia

 

Em fins de abril de 1956 a Polícia Espanhola resolveu confiscar 35.000 exemplares da S. Escritura, que se encontravam no depósito da Sociedade Bíblica de Madrid...

O caso naturalmente provocou celeuma na imprensa estrangeira.

Por que se terá dado?

 

É preciso notar, em primeiro lugar, que ao menos 5.000 dos exemplares sequestrados haviam sido, sem autorização legal, impressos na Tipografia Izaguirre (Calle de Magallanes 24, Madrid); não obstante, traziam a apresentação de livros impressos no estrangeiro... Quanto aos demais exemplares, a sua existência era ilegal aos olhos da legislação espanhola, pois não apresentavam licença alguma:... nem a licença para ser impressos na Espanha, nem a licença para ser importados do estrangeiro (caso houvessem sido impressos fora da Espanha). A confiscação efetuada pela Polícia tinha destarte seu fundamento na legislação vigente na Espanha.

 

Por que terão os evangélicos recorrido a tais violações da lei?

 

Certamente não foi porque precisem de edições da Bíblia e não as possuam para o seu próprio uso. Em Madrid, Calle Flor Alta, 2, tem sede a «Sociedad Bíblica», que é Casa Editora evangélica; além disto, três livrarias protestantes funcionam na capital. Observa-se que o número de publicações evangélicas (livros e folhetos) na Espanha ultrapassa em proporção o número de cidadãos protestantes; muitas das pequenas comunidades evangélicas chegam a ter- sua folha periódica própria.

 

Os protestantes, portanto, na Espanha não carecem de exemplares da Bíblia para seu uso. Contudo o que eles desejam, é penetrar entre os católicos, espalhando não somente a Escritura Sagrada, mas também as suas doutrinas. Ora, já que o proselitismo é proibido aos protestantes » na Espanha, entende-se que .recorram a meios clandestinos para o exercer (inclusive à multiplicação de edições da Bíblia, sem a devida licença das autoridades civis). Não raro as edições protestantes da S. Escritura apresentam-se com a aparência das respectivas edições católicas; também acontece que escritos protestantes, às vezes contrários à fé católica, são espalhados entre o povo com rótulo católico, e até mesmo com «Imprimatur» falsamente atribuído às autoridades católicas. É principalmente o «domingo da Bíblia», celebrado pelos católicos em todas as dioceses da Espanha, que os protestantes aproveitam para difundir suas edições bíblicas. Calcula-se que de 1944 a 1947 os evangélicos tenham espalhado cerca de 29.000 exemplares da S. Escritura na Espanha: em 1944, 6.025 exemplares; em 1945, 7.581 exemplares; em 1946, 12; 144 exemplares; em 1947, 3.467 exemplares (notícia colhida no periódico «De Linie», Amsterdam, 31/X/1947).

 

Muito significativo é o seguinte episódio: em 1956 uma estação de rádio suíça transmitiu em espanhol um programa, por ocasião do qual o locutor convidou seus ouvintes a enviarem os respectivos endereços para a emissora a fim de ser contemplados com um presente... Um sacerdote espanhol, então, usando de pseudônimo, resolveu corresponder a esse convite. E realmente recebeu o presente... Que era? — Não um artigo de fabricação suíça, mas um exemplar do Novo Testamento impresso em Madrid e portador do endereço de um templo evangélico situado perto do domicílio do ouvinte contemplado.

 

Para difundir as suas edições bíblicas e as respectivas interpretações, os evangélicos alegam que os exemplares católicos da Bíblia na Espanha são poucos e caros. Ora tal alegação não parece corresponder à realidade.

 

Com efeito. Em 5/VII/1956 o jornal «Osservatore Romano» comunicava que de 1946 a 1956 foram espalhados na Espanha 1.411.363 exemplares católicos da S. Escritura, o que corresponde aproximadamente a um exemplar para cada grupo de 20 habitantes. As principais entidades católicas difusoras da Bíblia na Espanha são a AFEBEH e a «Editorial Católica».

 

A AFEBEH em 1956 contava trinta e três anos de existência, sempre dedicada ao apostolado bíblico. Em virtude das contribuições de seus sócios e amigos, já espalhou gratuitamente quantidade notável de edições (parciais ou totais) da Bíblia; está mesmo disposta a intensificar suas atividades de modo a fornecer gratuitamente a S. Escritura a todos os fiéis. De 1952 a 1956, a AFEBEH publicou edições dos SS. Evangelhos, num total de 300.000 exemplares, estando em 1956 para dar a lume a sexta edição com 80.000 exemplares.

 

Na Espanha há cinco traduções católicas da Bíblia completa, sendo que duas (a de Bover-Cantera e a de Nácar-Colunga) apareceram após a guerra de 1945 na coleção «Biblioteca de Autores Cristianos» (BAC) da «Editorial Católica». Os respectivos preços de venda têm sido intencionalmente mantidos em nível módico.

 

Como se depreende dos fatos mencionados, não é uma pretensa atitude restritiva da Igreja frente ao uso da S. Escritura que pode dar ensejo ao avanço protestante no setor do apostolado bíblico. Este avanço, doutro lado, fica sendo proibido pelas leis do Estado, que se opõem a qualquer propaganda religiosa não-católica no território nacional. É o que explica os «conflitos bíblicos» atrás registrados.

 

Aliás, o jornal católico espanhol «Ya> em 1952 lembrava aos missionários protestantes que, a fim de satisfazer ao seu desejo de pregar o Evangelho, deveriam procurar as terras pagãs da Ásia e da África assim como os setenta milhões de ateus norte-americanos, em vez de tentar penetrar na Espanha, país de cultura e tradição cristãs muito caras ao povo.

 

3. Outros fatos...

 

O ano de 1952 foi um tanto agitado na vida religiosa da Espanha.

Em meados de fevereiro desse ano, o Presidente Truman dos Estados Unidos declarou publicamente à imprensa que não concebia simpatia para com a situação religiosa desse país... Qual o motivo de tal pronunciamento?

 

Supõe-se o seguinte: Truman é batista. Ora no início de 1952 o Ministro da Justiça espanhol resolveu proibir a solenidade de inauguração de um templo construído por batistas canadenses em Madrid. E por que? — Porque o respectivo pastor do templo havia anunciado a festividade espalhando folhas volantes entre o povo; fôra destarte considerado como infrator da lei nacional que proíbe propaganda religiosa não católica. Diante desta atitude do pastor, a Polícia só permitiu a entrada no templo para fins de oração particular e abriu um processo contra o missionário batista. — O episódio terá desagradado a Truman.

 

Pouco depois, apareceu uma carta pastoral do Emo. Sr. Arcebispo, de Sevilha, Cardeal Segura y Saenz, referente ao valor da fé e aos perigos da heresia; S. Em., entre outras coisas, apontava a existência de um panfleto protestante em que a Virgem Maria era tida como adúltera!

 

Mais ainda: aos 3 de março do mesmo ano, registrou-se em Sevilha desagradável incidente. Um grupo de jovens invadiu uma capela evangélica, enquanto os crentes lá cantavam; clamando «Abaixo os protestantes!», atearam fogo aos livros de leitura e canto dos evangélicos e usaram de violência para com o pastor, que queria impedir o ato...

 

A sucessão de tais acontecimentos muito chamou a atenção da imprensa internacional, provocando debates calorosos, assim como, da parte de pensadores católicos, alguns estudos sobre o verdadeiro sentido de «Estado civil católico» e «tolerância religiosa».

 

Poder-se-iam registrar aqui ainda outros choques (de menor vulto) entre católicos e protestantes na Espanha. Foram, até certo grau, devidos a mesquinhez e fanatismo de parte a parte. Não nos interessa defender o que esses episódios têm de reprovável. Importa-nos, antes, pôr em realce que não foram as autoridades nem as instruções oficiais da Igreja que determinaram tais conflitos. É o que vamos considerar no parágrafo abaixo, analisando a genuína mente do Catolicismo no tocante à tolerância religiosa.

 

Conclusão: verdade religiosa e tolerância

 

A caridade não se opõe à verdade nem ao reconhecimento da verdade. Donde se vê que não se pode, nem mesmo sob o. pretexto de ser caridoso, negligenciar a distinção entre verdade e erro no setor religioso: o verdadeiro cristão, por mais inflamado .que esteja do amor a Cristo, jamais tomará uma posição de relativismo religioso, como se todos os credos fossem equivalentes entre si. O fiel católico, portanto, afirma a verdade e repudia o erro, não somente no plano das ciências profanas, mas também em matéria de religião (pois existe a verdade também em religião e a mente humana foi feita para apreender a verdade e viver desta). Querer encobrir a distinção entre a verdade e o erro significa suicídio ou degradação da natureza humana.

 

Afirmando isto, porém, a Igreja não hesita em acrescentar: o reconhecimento nítido da verdade e do erro não quer dizer que o católico deva empregar coação e violência ao tratar os irmãos que não pensam como ele; a afirmação da verdade não deve acarretar perseguição para quem quer que seja.

 

É o que o S. Padre Pio XII lembrava em uma alocução a juristas proferida aos 6/XII/1953:

«O dever de reprimir os desvios morais e religiosos não pode ser tomado como norma suprema de ação. Deve ser subordinado a normas mais elevadas e mais gerais, que em certas circunstâncias permitem que se imponha... como o melhor alvitre o de não impedir o erro, a fim de se promover um bem maior...

 

Um olhar para a realidade das coisas... mostra que o erro e o pecado se encontram no mundo em larga escala. Deus os reprova; não obstante, permite que existam. De outro lado, verifica-se que mesmo à autoridade humana Deus não impôs um preceito absoluto e universal (de repressão violenta), nem no setor da fé nem no da moral. Tal preceito não se encontra nem na convicção comum dos homens, nem na consciência cristã, nem nas fontes da Revelação nem na praxe da Igreja. Para não falarmos aqui de outros textos da S. Escritura..., Cristo na parábola do joio fez a advertência seguinte : “No campo do mundo deixai crescer o joio juntamente com a boa semente por causa do trigo” (Mt 13, 24-30)».

 

Donde conclui o S. Padre : «Primeiramente: o que não corresponde à verdade e à lei moral, não tem objetivamente direito à existência nem à propaganda nem à atividade. Em segundo lugar: não obstante, em vista de um bem superior e maior, pode-se justificar o fato de não se impedir por leis do Estado e meios coercitivos a existência do mal acima apontado».

 

Está claro que estes princípios gerais obrigam também os filhos da Igreja e os legisladores católicos da Espanha. Caso se hajam mostrado intolerantes ou violentos num ou noutro contato com os protestantes do seu pais, fica-lhes a obrigação de levar em conta as diretivas formuladas pelo Sumo Pontífice.

 

Doutro lado, é preciso outrossim afirmar que tolerância por parte da maioria supõe e exige naturalmente fidelidade e lealdade por parte da minoria: tolerância de uns e lealdade ou fidelidade de outros são elementos que se condicionam mutuamente, tornando-se absolutamente indispensáveis para que se salvaguarde o bem comum da sociedade. Ora, se na Espanha alguns indivíduos ou grupos católicos têm carecido de tolerância para com os irmãos evangélicos, parece que da parte destes têm faltado a fidelidade e a lealdade desejáveis «as relações com os católicos. Com efeito, o Protestantismo espanhol tem-se mostrado habitualmente infenso tanto à Igreja Católica quanto ao Governo civil do país.

 

Para corroborar esta afirmação, poder-se-iam registrar ainda os seguintes tópicos:

Em 1937 o Pastor Brutsch publicou em Genebra o escrito «L'Evangile du Christ; l'Espagne meurtrie et nous», livro em que se lê : «Uma das características do Protestantismo espanhol é a sua índole anticatólica».

O Boletim dos protestantes espanhóis publicado em 1946 traz a seguinte observação: «Somos os primeiros a reconhecer como realidade inegável e glória das igrejas protestantes o fato de que o Protestantismo significa ameaça da 'Paz Romana'».

 

Até os últimos anos, as publicações protestantes na Espanha não deixaram de lançar invectivas contra a Igreja Católica : assim o «Escudrifiador Bíblico» de outubro de 1947 tachava-a de «Igreja Apóstata»; chamava a prática das indulgências «armadilha do demônio»; apresentava o celibato sacerdotal como «instituição e perversão satânica»; e, a todos os homens que se queiram salvar, dirigia, em nome de Deus"; insistente apelo a fim de que abandonem a Igreja Católica.

 

Como se compreende, tais pronunciamentos são suficientes para explicar (embora não... para justificar) certas reações violentas do povo católico contra os protestantes...

 

Em conclusão : parece que se poderia resumir nas duas seguintes proposições um juízo sobre a situação religiosa da Espanha :

 

a)         o povo espanhol, em sua quase totalidade e desde muitos séculos, professa a Religião Católica. É lógico, pois, que as autoridades civis procurem defender esse patrimônio religioso, impedindo o proselitismo que outras crenças desejariam fazer em meio à população da Espanha. Aos adeptos dessas outras crenças a Constituição garante liberdade de pensamento e de culto, proibindo, porém, qualquer movimento de propaganda. Não se poderia dizer que tal medida seja injusta.

b)         Na prática, têm-se verificado alguns atritos violentos entre católicos e protestantes, atritos devidos ao fervor pouco esclarecido dos fiéis de ambos os lados. Sem querer julgar as consciências, interessa-nos apenas frisar que não é às autoridades da Igreja Católica que se deve atribuir a responsabilidade de tais conflitos. A Igreja, pelo magistério de seus Papas Pio XII e João XXEU, tem-se mais e mais pronunciado no sentido da tolerância e da conciliação. São esses pronunciamentos, e eles só, que representam a genuína mente do Catolicismo.

 

Por fim, não poderíamos deixar de notar mais uma vez que só relatamos as notícias atrás em vista de informar o leitor, procurando comunicar-lhe um panorama imparcial da situação religiosa da Espanha.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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