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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS – 54 junho 1962

 

A INCREDULIDADE É SINAL DE PROGRESSO?

CIÊNCIA E RELIGIÃO

HOMEM DO SÉC. XX (RJ): «A fé não seria expressão de fraqueza humana? As mulheres, as crianças e os anciãos ainda costumam guardar a fé, ao passo que o homem adulto, principalmente o intelectual, em muitos casos é incrédulo. Que pensar do problema?»

 

A questão acima é frequentemente trazida à baila, e de tal modo apresentada que não raro as pessoas de fé se veem em situação embaraçosa. Vamos abordá-la com sinceridade, analisando o fato da incredulidade contemporânea, para poder perceber a sua raiz e o seu significado genuínos.

 

1. O fato da incredulidade moderna

 

É fenômeno comprovado que a falta de fé em nossos dias se tem acentuado não somente entre cristãos, mas também em todos os sistemas religiosos do mundo, prevalecendo entre as pessoas do sexo masculino, mormente entre os intelectuais. Até mesmo no Judaísmo e no Islamismo, que são sistemas religiosos ditos «de tipo varonil» (sistemas que valorizam especialmente o varão), a porcentagem de homens incrédulos é muito maior do que a de mulheres.

 

Também se verifica que entre os adultos em geral há muito mais falta de fé e de religião do que entre as crianças, nas quais o fenômeno da incredulidade poderia ser considerado como algo de anormal ou doentio.

 

Por fim, deve-se outrossim registrar que a incredulidade costuma retroceder nos anciãos, os quais muitas vezes, após uma vida alheia a Deus, terminam seus dias como fiéis fervorosos.

 

Quem toma consciência desta realidade, concebe espontaneamente a questão: será então que a fé (e, em particular, a que interessa de mais perto o ambiente ocidental:... a fé cristã) não é expressão de mentalidade inferior, mentalidade que as ciências e o pensamento amadurecido do séc. XX vão dissipando? Não teria razão o positivismo ao proclamar a sua lei dos três estados: o teológico, primitivo e rude, em que os homens admitiam deuses e ritos; o estado metafísico, medieval, em que os homens ainda acreditavam em «pretensos» valores invisíveis (alma, espíritos, vida eterna...), e o estado positivo, atual, em que o homem, feito adulto em seu pensamento, só professa aquilo que as ciências exatas lhe ensinam?

 

Estas dúvidas, embora combatidas por muitas pessoas religiosas, vão produzindo uma atmosfera em que a fé e o fervor religiosos se veem sufocados. Para não poucos dos nossos contemporâneos, o fato de ter fé é constrangedor; sentem-no principalmente os homens, que por suas crenças religiosas se julgam às vezes reduzidos a um nível feminino ou infantil. Embora não queiram renunciar à Religião, grande número de pessoas não sabem mais onde a colocar em sua vida.

 

Para reerguer os ânimos dos que creem, poder-se-ia lembrar que houve, e há, grandes sábios profundamente convictos da veracidade da fé, em particular, da fé católica, tais como Ampere. Pasteur, Branly, Secchi, Marconi e outros. O fato é inegável; contudo não basta para dissipar as dúvidas: quem opõe um fato a outro, não explica coisa alguma, nem dá contas do surto da incredulidade em nossos dias. Assim quem verifica que num país a mortandade infantil é assustadora, não resolve o problema asseverando que, apesar de tudo, há também muitos anciãos nessa região; resta aberta a questão; porque se dá a morte precoce de tantas crianças? Não é a longevidade dos adultos que a elucida.

 

Por conseguinte, para explicar porque há tantos homens, principalmente tantos ditos intelectuais, incrédulos em nossos dias. não basta apontar para muitos outros, que são adeptos decididos da fé católica. Será preciso investigar mais a fundo. É o que vamos fazer nos parágrafos subsequentes.

 

2. Alguns pressupostos errôneos

 

2.1. A própria ciência moderna, principalmente a psicologia contemporânea, fornece as premissas para explicar a incredulidade nos tempos atuais. Com efeito,

a) No que se refere à criança, julgavam os estudiosos de decênios passados que fosse um ser mais ou menos amorfo, como que matéria bruta a ser plasmada pela educação e a instrução. Seria uma prancha destituída de qualquer sinal (a «tabula rasa» muito cara aos cartesianos). Suas manifestações espontâneas nada teriam de valioso ou significativo para o homem de ciência. O adulto seria então uma criança burilada e enriquecida em sentido harmonioso.

b) A mulher não era tida em mais estima. Desde a época de Aristóteles (322 a. C.), repetia-se com certa frequência que a mulher não foi feita para pensar («em geral, não há sabedoria nas mulheres. — Sapientia communiter non viget in mulieri- bus»).

Herdeira de tal concepção, a ideologia nacional-socialista ainda recentemente confinava a mulher ao setor dos três K: Kirche, Kütche, Kinder — devoção, cozinha, pimpolhos.

c) Com referência aos povos primitivos, semelhante conceituação ia sendo propagada no decorrer do século passado. Julgava-se que viviam num estado pré-lógico, como se não tivessem inteligência; concebia-se a sua evolução como um processo retilíneo de enriquecimento. Em consequência, ninguém teria coisa alguma a aprender dos primitivos.

Disso tudo concluíam muitos estudiosos que a religião, sendo cultivada principalmente por mulheres, crianças e gente primitiva, constitui a expressão de mentalidade inferior à do homem adulto e intelectualmente maduro.

 

2.2. Eis, porém, que os progressos dos estudos, nos últimos trinta anos, vieram pôr em xeque tais idéias, mostrando que se deviam antes a preconceitos do que a uma análise fiel da realidade.

 

Os estudiosos tomaram consciência cada vez mais clara do seguinte: na natureza não há desenvolvimento ou enriquecimento que não seja acompanhado de certo depauperamento; a todo progresso num setor corresponde recuo ou estacionamento em outros setores; não há aquisição pura e simples.

A tese é ilustrada por vários exemplos: a flor só se torna fruto, perdendo suas pétalas, seu colorido, seu perfume e seu encanto próprios.

A descoberta da imprensa e o uso múltiplo de impressos privaram os homens modernos da estupenda tenacidade de memória de que gozavam os antigos.

A luz elétrica só ilumina melhor queimando paulatinamente os olhos do leitor.

A própria virtude só nasce e se sustenta na base do sacrifício e da renúncia.

De acordo com estas verificações (que sempre foram válidas, mas que passaram a ser mais focalizadas), os estudiosos voltaram-se atentamente para o que diz respeito ao ser humano.

 

a) Perceberam que o adulto não representa simplesmente o desabrochar das perfeições latentes na criança; esta não pode ser tida como página branca ou tábua lisa na qual o educador vai escrevendo. Ao contrário, mais e mais os psicólogos têm sublinhado a capacidade de intuição e de originalidade que caracteriza a criança antes que seja submetida ao retalhamento ou ao regime de «compartimentos» impostos pela educação. O pensamento da criança é altamente sintético; suas intuições e emoções por vezes possuem totalidade e frescor tais que só se encontram em grau igual nos grandes poetas e místicos (tenham-se em vista certos desenhos realizados imprevistamente na escola por crianças). Julga-se, pois, que não é em função do adulto quese deve procurar compreender a criança, mas, ao contrário, é à luz do comportamento da criança que se pode e deve muitas vezes entender a conduta do adulto (conduta já um tanto «estilizada»).

 

Poder-se-ia com certo propósito lembrar aqui que o S. Evangelho não exorta as crianças a se tornar semelhantes aos adultos, mas, sim, pede aos adultos que se tornem como crianças para poder conseguir a vida eterna; cf. Mt 183.

 

b) Semelhantes correções foram feitas na conceituação da mulher.

Testes meticulosamente aplicados no intuito de provar a índole inferior da inteligência da mulher ficaram destituídos de resultado. Averiguou-se que, embora a mulher difira psicologicamente do varão, nem por isto é menosprezível; ela tem mais capacidade de intuição e síntese; por isto compreende melhor o mistério da vida, que o homem, usando de frio raciocínio, vai contemplando parceladamente e vai classificando em «gavetas da mente». Por isto também, quando se trata de «lidar com a vida», isto é, de cuidar da existência frágil de uma criança, de pernoitar junto a um doente, amparar um ancião debilitado, arrumar um lar (tarefas em que a vida cotidiana se apresenta no que ela tem de mais concreto e típico), a mulher é, por sua natureza mesma, muito mais capacitada do que o homem. Isto se dá, não porque a mulher só tenha intuição e ternura, e não possua raciocínio ou lógica: na verdade, a reta intuição supõe sempre a luz da inteligência e do raciocínio. Acontece, porém, que na mulher a inteligência tende mais facilmente a realizar a síntese; ela possui estupenda capacidade de abranger num só relance um conjunto de elementos, não mediante teorias, mas imediatamente na própria realidade.

 

c) Também o homem primitivo foi sendo, nos últimos trinta anos, interpretado de maneira nova (em oposição ao evolucionismo extremado de algumas escolas do século passado).

 

Os etnólogos reconhecem atualmente que os povos primitivos possuíam cultura, e cultura muito digna de interesse. Os conceitos jurídicos vigentes entre eles exprimem apurado senso humanitário e equitativo (Paul Radin, após haver estudado atentamente os índios “pele-vermelha”, escreveu a obra «The Primitive Man as Philosopher»); o folclore dos primitivos traduz, naturalmente numa linguagem simples, mas intuitiva, um tesouro de observações psicológicas muito sábias: Em uma palavra: é pela capacidade de intuição e de se adaptar fielmente à realidade que o homem primitivo se distingue, ao passo que o moderno tende a abstrair do concreto e a parcelar a realidade em categorias especulativas.

 

Está assim rapidamente esboçada a índole psicológica própria da criança, da mulher e do homem primitivo. Vê-se que não podem ser tratados como entes retardados ou inferiores, mas devem ser tidos como criaturas dotadas de suas qualidades características, entre as quais um poder de síntese original, muito apto a captar a realidade. Dito isto, já se pode entender melhor o seu respectivo comportamento frente à Religião.

 

3. A explicação do enigma

 

3.1. No século passado, por influência dos enciclopedistas franceses do séc. XVIII e do materialismo, entrou em vigor um conceito de religião depreciativo; fizeram-se ouvir afirmações que caricaturavam e condenavam peremptoriamente a religião como sendo produto do temor e da covardia de homens incultos (eco da sentença de Lucrécio, romano do séc. I a. C.; «Primus In orbe deos fecit timor. — O temor foi o primeiro a criar deuses na terra»),... ou como sendo o resultado da exploração do povo por parte de sacerdotes ambiciosos (Dideroti ou como consequência de escrúpulos que entravam o desenvolvimento da personalidade (Reinach) ou como espécie de loucura coletiva (Binet- -Sanglé)... Hoje em dia historiadores e psicólogos, mesmo liberais, já entendem a Religião de outro modo; nela veem a forma de pensamento mais concentrada e sintética que o homem possa conceber, a forma de pensamento mais compreensiva de toda a realidade. Em outros termos: percebem que a Religião coloca o homem diante da vida tal como ela é, e solicita toda a vida, o empenho de toda a personalidade do homem; a Religião é um modo de ver o mundo e o homem que repercute em todos os atos do individuo; ela é capaz de mudar o sentido da existência de cada um dos seus adeptos, sugerindo os maiores sacrifícios, inclusive a própria morte (o martírio), a serem suportados com paz e alegria de alma; ela tem inspirado os poetas, músicos, arquitetos e pintores, em suma todos aqueles que possuem o dom de uma intuição mais profunda da realidade e de uma vibratilidade mais apurada.

 

Ora essa noção de Religião exigiu reforma da maneira de interpretar o ateísmo contemporâneo.

É precisamente a índole fortemente intuitiva da Religião que explica, tenham a mulher, a criança e o homem primitivo especial afinidade com ela. — É pela intuição que se percebem as grandezas e as finuras da Religião, mais do que pela abstração especulativa; doutro lado, como dizíamos, é principalmente pela faculdade de intuição que se caracterizam a criança, a mulher e o primitivo, ao passo que o varão, mormente o intelectual, se distingue mais pela abstração ou a faculdade de raciocinar especulativamente.

 

3.2. Note-se outrossim o seguinte: a incredulidade é o efeito de uma certa estreiteza do espírito. E a estreiteza do espírito, por sua vez, é frequentemente a consequência da disciplina que as ciências impõem ao intelectual.

 

Todo método científico tende naturalmente a classificar os elementos com que lida; tende a definir, colocar dentro de categorias ou «gavetas mentais». Principalmente a ciência moderna, a partir do séc. XVI. inspira-se na mecânica: Descartes, Newton, Leibniz, Pascal, Galileu procuraram, em grau maior ou menor, explicar a realidade deste mundo segundo as leis da física e da matemática; algo que não fosse máquina, ou redutível às leis da máquina, lhes devia parecer incapaz de existir; até mesmo os viventes eram enquadrados dentro das leis da máquina (hoje em dia, com o progresso da biologia, os estudiosos percebem muito melhor que a vida não se reduz ao mecanicismo, mas obedece a princípios diferentes e próprios, que as modernas escolas vitalistas têm estudado; vê-se hoje que, no setor da vida, os esquemas ou as linhas muito simétricas, traçadas de antemão, são falhas e não apreendem a realidade; deve-se contar com o fator «espontaneidade», quando se trata dos seres vivos).

 

Compreende-se então que a mentalidade dos cientistas de formação mecanicista, a partir do séc. XVI, tendesse a se alhear à Religião, pois esta é essencialmente vida, intuição de uma realidade que ultrapassa as estreitas categorias e leis da mecânica.

 

Shakespeare (+1616) atribuiu ao sou Hamlet um dístico muito sábio: “Há muito mais coisas no mundo do que aquelas que nós conseguimos abarcar com a nossa inteligência”.

 

Sem dúvida, a mentalidade mecanicista, que tende a esquematizar e estreitar, impera poderosamente nos bastidores dos cientistas contemporâneos, levando consequentemente muitos deles a não avaliar o significado da Religião.

Para ilustrar a incapacidade que o intelectual moderno ressente, de compreender os valores da fé, podem-se sugerir algumas significativas analogias.

 

Haja vista, antes do mais, a seguinte: um músico deseja comprar grande piano de cauda, cujas vantagens ele antevê com profundo deleite; um obstáculo, porém, parece frustrar decisivamente o seu intento: o artista habita um apartamento pequeno demais, no qual não há lugar para o grande móvel; é preciso então que renuncie ao piano, não porque este seja grande demais, mas porque a mansão do músico é demasiado estreita. Caso não se encerre em cubículos tão pequenos, afinar-se-á perfeitamente com o grande piano. — Algo de semelhante se dá com todo intelectual que se fecha ou se estreita na sua intelectualidade: inabilita-se para perceber os valores da vida e da realidade plena que, por serem ricos demais, não se deixam sempre encerrar dentro de definições ou classificações.

 

Toda especialização marca o especialista, chegando mesmo a deformá-lo, pois desenvolve um aspecto do físico ou do psíquico da personalidade, muitas vezes com detrimento para outros aspectos da mesma. Leve se em conta, por exemplo, um marujo veterano acostumado a caminhar de maneira cadenciada ou balançada sobre o tombadilho agitado do seu navio: este homem conservará em toda parte, até mesmo em salão de gala, o seu andar especializado (que no caso é deformado). Considerem-se outrossim os dedos ágeis e sutis de um pianista, os punhos grossos de um pugilista (ou «boxeur*), a musculatura possante dos braços de um ferreiro, etc. — E compreender-se-á que, de maneira análoga, quem se deixa «moldar» pelos métodos da ciência moderna mecanicista, incorre, talvez sem o saber, no perigo de se deformar ou depauperar perante a realidade da vida.

 

3.3. Justamente por estarem estreitados dentro dos sistemas das ciências modernas (contra as aspirações espontâneas da natureza humana) é que muitos cientistas incrédulos (desde que sejam sinceros) experimentam uma certa nostalgia dos seus anos passados outrora na fé ou, no mínimo, uma certa inquietude e insatisfação. Eles sofrem do fato de ter mutilado algo de si mesmos ou de ter rejeitado para longe de si elementos que são insubstituíveis.

 

Estas considerações dão claramente a ver que não é a ciência como tal que leva o homem à incredulidade, mas é o cultivo unilateral da ciência, é a «especialização» em sentido exclusivo, tal como ela é praticada em nossos dias. Pode-se asseverar com segurança que, para que os homens tenham Religião, não é preciso vedar-lhes a ciência e a civilização (uma Religião que só se sustentasse à custa de ignorância e de civilização rudimentar seria, antes, uma caricatura de religião). Ao contrário, o ideal da sabedoria consiste no cultivo simultâneo da ciência e da religião, pois estes dois valores se atraem e completam mutuamente (a inteligência humana devidamente aplicada ao estudo denuncia a presença do mistério no mundo ou a presença dos vestígios de Deus,... de Deus que a Religião cultua).

 

De resto, em «P.R.» 19/1959, qu. 1, ficou exposto como a Religião sempre inspirou as grandes realizações da cultura e da civilização do gênero humano.

 

3.4. A atitude do intelectual moderno que, em nome da sua ciência, nega a Deus, pode ser ilustrada pela seguinte analogia:

 

Imagine-se um homem que possui seu relógio de bolso... Nunca se interessou pela técnica da fabricação de relógios; apenas sabe que esse instrumento tem um fabricante (Cyma, Omega, Diehl... ), como. aliás, qualquer objeto deste mundo visível tem sua causa. — Um dia, porém, tal homem foi iniciado na técnica da relojoaria; começou a entender algo da engrenagem das peças internas do relógio, percebeu a distribuição e a sistematização das funções parciais que concorrem para o funcionamento do conjunto «relógio»; viu a concatenação que há entre ponteiros, molas, manivelas e rodas no relógio. Em consequência, pôs-se a explicar o funcionamento de cada uma das peças pelo funcionamento das vizinhas, ótimo! Assim enriqueceu seu patrimônio científico. — Mas, se esse homem, por conhecer a engrenagem do maquinismo, viesse a negar a existência do fabricante ou da inteligência que concebeu tal maquinaria, não estaria tomando posição absurda? Ficar-lhe-ia sempre por explicar «por que é que tal peça depende de tal outra, por que a engrenagem é tal quando ela poderia ser outra ou poderia nem sequer existir».

 

Assim se comporta o intelectual moderno que, depois de conhecer melhor as leis da física e da mecânica, julga poder descrer de Deus. Esse homem se depaupera pela sua ciência, perde a visão da Causa Suprema, que ainda é mais nobre do que as causas parciais e que subsiste sempre, quer o homem ignore, quer conheça os princípios das «ciências exatas».

 

De modo nenhum se deveria desejar criar e conservar a fé «em estufa», isto é, uma fé simplória, ignorante dos valores humanos. Nem, doutro lado, mereceria estima a ciência arrogante, que recusasse de antemão o sobrenatural, pretendendo por si explicar o mundo e saciar o homem.

 

«Não se trata de condenar a ciência como se fosse inimiga da fé, nem de a fazer recuar... para que ela não abale a crença. Trata-se, ao contrário, de alargá-la; é preciso que a ciência compreenda que a realidade a ultrapassa de todos os lados e que há em toda especialização científica uma simplificação, da qual corremos o risco do ser vítimas, principalmente quando parece surgir um conflito entre a ciência e a sua sistemática, de um lado, a fé e o seu mistério, do outro lado. (P. Charles. L’Eglise Sacrement du monde. IMO. 31».

 

Em consequência do que foi dito, vê-se também que o homem de fé nada deve ao que não tem fé; de modo nenhum está em posição inferior frente a este. Antes, com santo garbo professe a sua crença religiosa, e certamente estará assim beneficiando o próximo que precise de ser moralmente revigorado.

 

Aquele que crê, não é prisioneiro. É, antes, o incrédulo que forja para si cadeias imaginárias. A fé traz consigo alegria, como, aliás, a traz tudo aquilo que faz eco à imensidade. (P. Charles, ob. cit. 36).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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