Igreja, Doença e Fuga de Fiéis

O sociólogo italiano e mestre em psicopedagogia Piero Cappelli escreve: “Na Igreja Católica, encontramos um mal-estar não somente junto aos leigos, mas também em numerosos expoentes do clero, angustiados por problemas pessoais, eclesiais, eclesiásticos, sociais, sexuais. Estamos diante de um autêntico “burnout” psicoeclesial nas comunidades religiosas masculinas e femininas, diocesanas, interparoquiais (vicariais) e paroquiais. A Síndrome de Burnout (do inglês “to burn out”, queimar por completo) é um distúrbio psíquico de caráter depressivo, precedido de esgotamento físico e mental intenso, definido por Herbert J. Freudenberger no início dos anos 1970 como “(...) um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada á vida profissional”. A dedicação exagerada à atividade profissional é uma característica marcante de Burnout, mas não a única. O desejo de ser o melhor e sempre demonstrar alto grau de desempenho é outra fase importante da síndrome: o portador de Burnout mede a autoestima pela capacidade de realização e sucesso profissional. O que tem início com satisfação e prazer termina quando esse desempenho não é reconhecido. Nesse estágio – necessidade de se afirmar – o desejo de realização profissional se transforma em obstinação e compulsão” (1).

O padre católico, estudioso da psicologia religiosa e psicoterapeuta Dr. Eugen Drewermann, afirma: “nas minhas análises psicoterapêuticas, vejo como as pessoas têm uma imagem de Deus, transmitida pela Igreja, cheia de repressão, de angústia, de sentimentos de culpa, de dependência e de despersonalização (...) quando os homens começam a falar de Deus, imediatamente nascem angústias infantis ligadas ao pai, à mãe, símbolos que a Igreja que pretende ainda hoje fixar a verdade das pessoas e da sua salvação em fórmulas administrativas, em jogos de razão moderna e a fé é considerada a mais perigosa ameaça. Por isso, o mal é grave: a um Deus objetivado num discurso frio, opressor, corresponde um homem-sujeito do sistema burocrático e moralista da Igreja” (2).

Diz o Papa Francisco: “A Igreja precisa curar as feridas, aquecer o coração dos fiéis, estar próxima do povo e com os pobres, ser como o bom samaritano”. Exortação aos bispos: “A atitude do pastor autêntico não é a do príncipe ou do mero funcionário. O povo de Deus que lhe foi confiado tem necessidade de que o bispo vele sobre ele, assumindo, sobretudo o cuidado por aquilo que o mantém unido e que promove a esperança nos corações” (3).

Há muita gente ferida, doente, desanimada, afastada e tombada das comunidades eclesiais. A falta de caridade é gritante. O Evangelho de Cristo é pisoteado pelo contratestemunho de falsos cristãos.

Quando o clérigo sofre de psicastenia, fica opilado da mente e da espiritualidade, pode passar como um “teurgo” em prol da sustentação do seu sacerdócio, dos seus vícios e do seu autoritarismo; daí, torna-se um “verdugo” para os fiéis. Eis aqui a causa de tantos fiéis doentes, mortos na fé e o esvaziamento de muitas comunidades!

“Não adianta nada sermos bispos, cardeais ou papa se não formos discípulos do Senhor. Temos que evitar a doença espiritual de uma igreja autoreferencial”, afirma o Papa Francisco (4).

A verdadeira Comunidade de Jesus Cristo é vida e vida abundante. Ela é terapêutica, salutar em profundidade, missionária da felicidade e promotora da paz e da justiça. Por ela tudo se realiza em prol da salvação das almas!

Pe. Inácio José do Vale

Professor de História da Igreja- Instituto de Teologia Bento XVI - Sociólogo em ciência da Religião

Mestre em Psicanálise Educacional

E-mail: [email protected]

 

Notas:

(1) Cappelli, Piero. O cisma silencioso: da casta clerical à profecia da fé. São Paulo: Paulus, 2010, pp. 173,174.

(2) Idem.

(3) L’osservatore Romano, 21/11/2013, p. 3.

(4) Revista de Aparecida, julho de 2013, p. 15.

 


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