PERGUNTE e RESPONDEREMOS 052 – abril 1962

 

O “ZINJÂNTROPO” E ADÃO

SAGRADA ESCRITURA

 

QUINTANISTA (São Paulo): «Poderia fazer um confronto entre a recente descoberta do «Zinjântropo», homem que terá vivido há 1.750.000 anos atrás, com a história bíblica de Adão e Eva? Não haverá incompatibilidade entre uma e outra?»

 

Antes do mais, importa referir brevemente os dados concernentes ao Zinjântropo; feito isto, estabeleceremos o confronto com as afirmações bíblicas.

 

1. O Zinjântropo

 

Uma certa revolução nas concepções dos estudiosos se deu quando, aos 22 de julho de 1961, foram publicadas as conclusões de pesquisas empreendidas em torno de um fóssil recém-descoberto e denominado «o Zinjântropo» (Zinjanthropus Boisei) ou «o homem que quebra nozes».

 

O Zinjântropo e Adão

Eis o trâmite da descoberta:

 

1.    Em julho de 1959, o sábio inglês L.B.S. Leakey, do Museu Coryndon, trabalhando no vale de Olduvai (território de Tanganika, África), defrontou-se com uma ossada craniana que parecia pertencer a um homem pequenino, não muito gracioso, mas em aparência muito mais antigo do que os fósseis até então conhecidos.

 

Transferidos para a Califórnia, esses achados foram entregues aos professores Jack F. Evernden e Garniss H. Curtiss, que lhes procuraram determinar a idade. Já que não há meios para identificar ossos que tenham mais de 50.000 anos, os pesquisadores resolveram analisar as rochas encontradas imediatamente acima e abaixo dos fósseis de Olduvai. Essas rochas eram provenientes de larvas vulcânicas e continham potássio. A fim de conseguir conclusões seguras, os estudiosos investigaram não menos de dez amostras de tais pedras, submetendo-as ao método recentíssimo «do potássio-argon» (o potássio 40 se decompõe regularmente, dando árgon 40). Averiguaram assim que os ossos de Olduvai contam a idade média de 1.750.000 anos, podendo esta cifra variar entre 1.600.000 e 1.900.000 anos (há probabilidades maiores para as datas mais antigas)'. Perto do crânio do «Zinjântropo», mas em camada inferior, o mesmo Prof. Leakey descobriu em 1960 outras ossadas, às quais os exames químicos atribuíram cerca de 50.000 anos mais que ao Zinjântropo; tais outros fósseis tomaram o nome de «Pré-Zinjântropo»; parecem ter pertencido a uma criança de 11 a 12 anos.

 

2.    Uma vez determinada a idade dos detritos ósseos, restava adquirir a certeza de que haviam realmente pertencido a seres humanos; não seriam talvez ossadas de antropoides, ou seja, de animais semelhantes ao homem quanto ao corpo, mas destituídos de alma humana (inteligente, racional)?

 

A dúvida se resolveu com suficiente clareza. Com efeito; junto ao Zinjântropo foram encontrados ossos de pequenos animais (os únicos, aliás, que o Zinjântropo poderia atacar) assim como instrumentos de pedra lascada, intencionalmente adaptados a cortar à guisa de facões; eram indícios da «pebble culture» ou da civilização do seixo, civilização tipicamente humana, pois, embora seja extremamente rudimentar, atesta uma inteligência, ou seja, a apreensão das proporções existentes entre «tal meio» e «tal fim».

 

Como se sabe, em muitos casos da pré-história é difícil definir se determinado osso pertenceu a um homem primitivo ou a um macaco aperfeiçoado. A questão se resolve geralmente pela observação dos objetos que se possam encontrar junto aos fósseis; os antropologistas julgam que os fósseis representam verdadeiros homens todas as vezes que junto a eles se encontram:

 

a)    instrumentos intencionalmente burilados em vista de determinada atividade ou determinado objetivo a atingir. Este «burilar» é indicio seguro de inteligência, pois implica em reconhecimento das relações que associam tal meio a tal fim (perceber as relações entre meio e fim é prerrogativa da inteligência; por sua vez, a inteligência é característica inconfundível do homem; no animal irracional só há instinto; cf. «P. R.» 33/1960, qu. 2);

 

b)    indícios de produção do fogo e detritos de cozinha (sem dúvida, somente o homem sabe produzir o fogo e fazer cozinha);

 

c)     sepultura e culto dos mortos (o animal infra-humano ou irracional não cuida dos mortos).

 

O Zinjântropo é, por conseguinte, o mais antigo tipo de homem pré-histórico que se conheça. A sua descoberta nos obriga a recuar por mais de um milhão de anos o aparecimento do homem sobre a terra: ao passo que até julho de 1961 se atribuía ao gênero humano a idade de 500 ou 600 mil anos, de julho para cá já se lhe assinalam cerca de 1.750.000 anos de existência. Daí a extraordinária importância da descoberta do Zinjântropo. Mas daí também as dúvidas que têm surgido na mente daqueles que querem estabelecer um confronto entre

 

2. O Zinjântropo e a Bíblia

 

Procuraremos resolver essas dúvidas recordando algumas proposições, das quais a maioria já foi estudada em anteriores artigos de «P. R.».

 

2.1) Não há incompatibilidade entre a Bíblia e o evolucionismo do corpo humano.

 

Resumindo quanto já foi dito em «P. R.» 4/1957, qu. 1, lembramos: a Sagrada Escritura não apresenta tese alguma sobre a formação do corpo humano. Quando diz que este foi tomado do barro (cf. Gên 2, 7), serve-se de uma figura de linguagem assaz comum na literatura dos antigos povos: os antigos costumavam apresentar a Divindade sob os traços de um Oleiro, querendo com isto dizer que, assim como o oleiro é sábio, poderoso e carinhoso senhor dos seus artefatos, assim também Deus é sábio, poderoso e carinhoso Senhor do homem; é a Deus que o homem deve a sua existência. Disto não se segue que tenha formado o corpo humano a partir do barro nem tampouco que o tenha plasmado diretamente, prescindindo da evolução da matéria. Deus pode ter incutido à matéria primitiva leis de evolução que a tenham feito chegar aos poucos, por etapas sucessivas, até o grau de complexidade e organicidade de um corpo humano. A essa matéria assim evoluída terá então infundido uma alma espiritual, racional, tipicamente humana; a partir desse momento então começou o gênero humano a existir sobre a terra.

 

Portanto, apenas com relação à origem da alma humana, tem a fé cristã (apoiada, aliás, na Bíblia e na própria razão natural) uma tese bem definida: a alma foi (e é) criada diretamente por Deus, pois ela não é material, mas pertence a um nível de ser superior. Ora, como ninguém dá o que não tem, a matéria não pôde (nem pode) por suas virtualidades próprias produzir o espírito. Deus teve que criar a alma do primeiro homem, como cria a de qualquer criança que nasça no decorrer dos séculos. Não se procurem nas rochas e nos fósseis vestígios diretos da infusão da alma humana. Esta, sendo espiritual, não deixa marca material de sua passagem ou de si mesma. Por isto os cientistas jamais poderão contradizer às ressalvas que fazemos no tocante à evolução da alma humana, alegando eles que não se encontram vestígios da sua entrada no corpo animal.

 

O darwinismo é rejeitado pela Igreja não por ser evolucionismo, mas por constituir uma forma de evolucionismo mecanicista, sem finalidade, regido apenas pela lei do mais forte, sem dar lugar à ação da Providência Divina, que tudo prevê e tudo governa.

 

A aceitação do evolucionismo para o corpo humano não quer dizer que se deva considerar a existência de Adão como algo de lendário ou figurado; tal conclusão não está contida naquela premissa; Adão e Eva foram personagens reais, constituindo o primeiro e único casal do qual depende o gênero humano atual (explicações mais amplas do assunto encontram-se em «P. R.» 20/1959, qu. 4).

 

2.2) Ou plenamente homem ou plenamente macaco.

Cf. «P. R.» 29/1960, qu. 1.

 

Admitindo a evolução, a fé cristã (em nome também da própria razão) lembra que não há meio termo entre o macaco e o homem; o antropoide é ou 100% macaco ou 100% homem, quanto à sua essência. A razão desta afirmação é o principio seguinte: a essência de cada ser é algo de imutável ou (como diz a linguagem filosófica) «indivisível»; ora o homem e o macaco constituem seres essencialmente diferentes um do outro; portanto a essência de um não se pode misturar com a do outro.

 

Dir-se-á: mas há ossadas que denunciam transição lenta entre o macaco e o homem; os fósseis se vão aperfeiçoando gradativamente. — Sim. Leve-se em conta, porém, que o que caracteriza o homem e o macaco, não são os ossos, mas o princípio vital; ora o princípio vital (a «forma», conforme os filósofos) é imutável ou indivisível: ou é de macaco simplesmente dito (macaco talvez dotado de corpo mais evoluído) ou é de homem (alma humana, espiritual, racional, colocada dentro de um corpo ainda rude e primitivo; contudo 100% alma humana.

 

As ossadas e o corpo podem evoluir, mas o principio vital que os anima não evolui, isto é, não muda a sua essência (se era de macaco, fica sendo de macaco, ora mais aperfeiçoado, ora menos aperfeiçoado, de geração em geração).

 

A essência do homem (que, repitamo-lo, é caracterizada pela alma, e não pelo corpo) não se confunde nem mistura com a do macaco.

 

Vê-se, pois, que o Zinjântropo era ou verdadeiro macaco ou verdadeiro homem. Se os cientistas estão de acordo em agregá-lo ao gênero humano, deve-se-lhe atribuir íntegra natureza humana, igual à nossa quanto à essência, diferente da nossa apenas por seus traços somáticos ou sua configuração externa, material (é claro que o Zinjântropo pode ter tido inteligência menos aguda do que a do homem moderno, mas, em qualquer caso, teve inteligência ou capacidade de apreender relações, proporções, valores abstratos, coisa que o macaco, em hipótese alguma, possui).

 

2.3) A Bíblia não apresenta cronologia dos primeiros tempos da pré-história.

Cf. «P. R.» 17/1959, qu. 5.

 

A cronologia bíblica só começa a partir do Patriarca Abraão, que viveu por cerca de 1800 a. C. (cf. Gênesis c. 12). Os onze primeiros capítulos da Sagrada Escritura apresentam apenas «pinceladas» ou quadros avulsos e esquemáticos, que têm por fim explicar a vocação de Abraão, chamado de Ur da Caldeia para a terra de Canaã. Dizem-nos, pois, esses capítulos que há um só Deus, ... Deus bom e sábio, ao qual o mundo e o homem (por via e modos que o livro sagrado não quer descrever) devem a sua existência; Deus não fez o mal; foi o homem quem, abusando da sua liberdade, introduziu a desordem e, por conseguinte, o sofrimento e a morte, no mundo. Ora, para remir da desordem e da morte o gênero humano, Deus sequestrou Abraão e o povo de Abraão, donde haveria de sair o Salvador para a humanidade. Estes poucos traços não estão acompanhados de indicação de datas (excetuada apenas a narrativa da vocação de Abraão).

 

Replicar-se-á: mas a Bíblia assinala quantos anos viveram Adão e cada um dos antigos Patriarcas, de modo que a soma dessas cifras sugere a duração aproximada de 5.000 anos para o gênero humano desde Adão até Cristo... — Na verdade, os números que parecem indicar a idade dos referidos Patriarcas são números meramente simbólicos, que não significam quantidades (duração de vida), mas qualidades (isto é, venerabilidade e autoridade). Com efeito; estudos modernos de linguística e literatura antigas deram-nos a saber que muito frequente era outrora o uso simbolista dos números: para indicar, por exemplo, o respeito e a reverência que alguém merecia da posteridade, atribuía-se-lhe imaginariamente uma longa vida; esta significava experiência, maturidade e, por conseguinte, venerabilidade e autoridade; ninguém, ao ler tais cifras, as tomava ao pé da letra como se indicassem real duração de vida. Errôneo, portanto, seria atribuir hoje em dia valor matemático ou cronológico a essas cifras; deixemo-las no seu sentido simbólico, como expressão da venerabilidade que toca aos Patriarcas bíblicos, sem querer dai deduzir alguma conclusão referente à idade do gênero humano. A Bíblia, neste particular, aceita tão bem a suposição de 600000 anos como a de 1.750.000 anos; a sua mensagem (que é religiosa, e não arqueológica ou biológica) não sofre alteração após a descoberta do Zinjântropo e do seu recuo nos séculos da pré-história.

 

2.4) As Escrituras nada afirmam a respeito do aspecto ou do semblante de Adão.

 

Há quem se desconcerte ao imaginar que Adão tenha tido uma configuração rude ou primitiva, semelhante à do Zinjântropo ou à de outros fósseis. Não há razão de ser, porém, para essa perplexidade.

 

1.    Não há dúvida, é costume crer que Adão tenha tido um aspecto físico belo e gracioso, reflexo da graça sobrenatural que estava em sua alma. Esta tese é antiga e tradicional; nada impede que seja sustentada ainda hoje: Adão constituiu um caso único em toda a história do gênero humano; tendo perdido a graça santificante pelo pecado, terá perdido também o esplendor físico que manifestava essa graça interior; seus descendentes então terão caído no estado de primitivismo que a paleontologia revela, ficando sujeitos às leis do aperfeiçoamento paulatino e difícil que regem todos os seres vivos.

 

Note-se bem que a ciência de modo nenhum pretende ter encontrado o crânio de Adão; ela não diz estar de posse das ossadas do primeiro entre os primeiros homens; em outros termos: ela não assegura ter atingido a estaca zero da história do gênero humano; não se vê mesmo como se poderia distinguir o primeiro dos primeiros seres humanos. Isto torna vã qualquer tendência a confrontar com muito rigor os dados da Bíblia concernentes a Adão com as características de determinado fóssil, mesmo com as do Zinjântropo.

 

2.    Pode-se também admitir que Adão não tenha feito exceção em relação ao aspecto dos demais homens primitivos. Terá tido então um corpo e uma aparência semelhantes aos que os fósseis atestam. Apenas em sua alma haverá possuído uma riqueza espiritual e invisível (a graça santificante e os dons preternaturais), riqueza que, por disposição do Criador, só se deveria manifestar através do corpo, caso Adão se comprovasse fiel aos desígnios de Deus ou obedecesse ao preceito dado no paraíso. Já que de fato não obedeceu, nunca se terão refletido no corpo humano os dotes extraordinários da alma de Adão.

 

Tanto a sentença mais tradicional como esta outra, mais recente, são compatíveis com os dados da Revelação bíblica. Inútil seria insistir nas probabilidades de uma e de outra.

 

Também não nos deve surpreender a possibilidade de que Adão tenha sido, humanamente falando, pouco civilizado e tenha vivido em condições de cultura rudimentar, tais quais as apresentam os documentos da pré-história. Adão podia ter em sua alma o dom da ciência infusa concernente à sua missão religiosa ou à sua responsabilidade de pai do gênero humano, sem ter necessariamente uma ciência profana referente à indústria ou à técnica das coisas deste mundo. A grandeza de Adão se situava exclusivamente no plano religioso, e não dependia do grau de cultura ou civilização em que ele se encontrava.

 

5) A Sagrada Escritura não exclui a existência de pré-adamitas.

 

Os pré-adamitas seriam verdadeiros homens, dotados de corpo e de alma racional, semelhantes a nós (como dissemos, não há criatura que seja apenas 50, 70 ou 90% homem). Haveriam constituído uma estirpe humana que se teria extinguido com o aparecimento de Adão e Eva, de tal modo que toda a humanidade hoje existente deva ser tida como «adamitica» ou descendente de Adão.

 

Dizemos que a Sagrada Escritura não exclui a existência de tais pré-adamitas porque ela não indica a data em que viveu Adão; ela não nos afirma que Adão é o genitor de todos os homens cujas ossadas vão sendo encontradas nos estrados da crosta terrestre. Pode ser que algumas ou muitas dessas ossadas tenham pertencido a homens anteriores a Adão, homens cuja linhagem desapareceu, com os quais portanto não poderiam ser confrontados Adão e o gênero humano atualmente existente.

 

Aplicando tais observações ao estudo do Zinjântropo, dever-se-á dizer: este fóssil pode ser da linhagem de Adão, como também, a rigor, poderia ser anterior a Adão; neste caso, vão seria comparar as características do Zinjântropo com os dados da Bíblia concernentes a Adão.

 

Claro está que a existência dos pré-adamitas fica no plano das meras hipóteses. Por isto, ocioso seria desenvolver os seus pormenores, cedendo a vãs conjeturas. Trata-se de hipótese destituída de fundamento positivo na S. Escritura (a ciência lhe fica de todo indiferente); apenas se pode dizer que não entra em conflito com a Bíblia. Poderá ser adotada por quem a julgar oportuna (pergunta-se, porém: haverá argumentos suficientes para que alguém julgue oportuna tal hipótese?).

 

Eis o que convinha recordar a propósito do Zinjântropo e das dúvidas que ele veio despertar na mente de muitos estudiosos que desejam viver uma religião esclarecida, digna da sabedoria de Deus e da inteligência do homem.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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