PERGUNTE e RESPONDEREMOS 052 – abril 1962

SUCESSOS DA CIÊNCIA E RELIGIÃO

CIÊNCIA E RELIGIÃO

 

VICTORIO (São Paulo): «O Professor A. Buzzati-Traverso, no periódico 'Espresso' de 25-IV-61, atribuía o sucesso de Yuri Gagarin ao fato de estar emancipado do medo que as crenças religiosas incutem. Na verdade, não seria o bom êxito dos cientistas russos uma prova de que o ateísmo engrandece o homem?»

 

A fim de possibilitar aos nossos leitores um juízo adequado sobre a questão, vamos, antes do mais, transcrever as principais afirmações do Prof. Buzzati-Traverso.

 

Segundo este autor, Gagarin personifica «o homem de ciência, o homem que tem confiança em si mesmo e que não impõe limites preconcebidos à esfera das suas pesquisas». Continua o citado Professor:

 

«Ao passo que outrora o homem, por falta de outra solução, sé via constrangido a professar que o seu destino pessoal e os acontecimentos mais importantes dependiam do capricho dos deuses ou dos desígnios insondáveis de entidades transcendentes, hoje ele está consciente de que muitos desses acontecimentos podem ser relacionados com fatos dos quais ele possui conhecimento. Destarte as suas possibilidades se ampliaram imensamente; em nossos dias, não há mais motivo para não crer que o homem se possa tornar cada vez mais livre, caso assim prossiga a sua caminhada... A miragem de uma vida futura professada por efeito de revelação foi substituída por um sistema no qual se diz ao homem: 'Podes criar para ti o mundo que quiseres, desde que ponhas mãos à obra*; esta substituição pode desencadear na sociedade intenso dinamismo em demanda de um mundo novos».

 

As palavras do Prof. Buzzati-Traverso equivalem a um brado de emancipação do homem frente à Religião ; esta seria um motivo de «alienação», ou seja, de escravização da criatura humana.

 

Vejamos como conceituar tal atitude, estabelecendo um confronto entre aquilo que a verdadeira Religião e aquilo que a verdadeira Ciência significam para o homem.

 

1. O que a Religião oferece e o que ela não oferece

 

O Prof. Buzzati-Traverso, colocando em lugar da Religião a Ciência como motivo de engrandecimento do homem, baseava-se em estranhos (para não dizer errôneos) conceitos de Religião e Ciência.

 

Importa, portanto, verificar como se comporta a Religião frente à sede de liberdade e bem-estar que o homem traz espontaneamente em si.

 

1) A Religião não promete nem garante ao homem felicidade temporal.

 

Religião significa, sim, entrega total do homem a Deus, Princípio e Fim de todos os seres; praticando essa entrega, o homem não pode deixar de se engrandecer e nobilitar, pois assim toma ele o lugar que o Criador lhe assinalou no conjunto dos seres; e esse lugar é o de representante de Deus em relação às criaturas inferiores. Aderir a Deus, portanto, ou servir a Deus vem a ser, para o homem, o mesmo que reinar.

 

Visto que a Religião tenciona erguer o homem até Deus ou até o Eterno, entende-se que ela o leve a ultrapassar os bens temporais que o cercam e a atribuir a estes valor meramente relativo. A criatura humana não poderia neste mundo, precário e exíguo como é. encontrar a saciedade de suas aspirações. A vida presente assim é tida como peregrinação, que cada qual realiza em sobriedade e disciplina, com o olhar fixo na meta póstuma.

 

O individuo religioso não se deixa acariciar ilusoriamente pelos prazeres que este mundo lhe possa oferecer. Mais ainda: as crenças religiosas em geral sempre inculcaram que nesta vida é necessário à criatura humana renunciar a si e padecer, a fim de se purificar de suas paixões desregradas e nutrir amor mais puro, menos egoísta, a Deus e ao próximo.

 

O homem deve perder a si mesmo para encontrar devidamente a Deus; encontrando, porém, a Deus, ele não pode deixar de se encontrar realizado (consumado) em Deus (isto é, por amor a Deus).

 

Essas proposições são bem compreensíveis: na verdade, o homem é menor e Deus é maior ; ora a grandeza do menor só pode consistir em se entregar humildemente ao Maior e deixar-se encher por Ele; é pela humildade — não humildade simplória, mas humildade consentânea com a reta ordem das coisas — que o ser humano cresce.

Eis a mensagem que a verdadeira Religião propõe ao homem.

 

Ao lado desta concepção, encontra-se em vários matizes um tipo de religiosidade deformada: a magia ou a superstição (cf. «P.R.» 27/1960). Esta visa colocar a Divindade a serviço do homem e da felicidade temporal; mediante suas artes e receitas, o mago tende a captar e dominar os poderes divinos; em vista disto, recorre a meios que por si são inadequados ou mesmo ridículos, mas que ele julga portadores de eficácia misteriosa revelada a ele e a poucos «iniciados». Naturalmente tais concepções constituem uma caricatura de Religião e não podem ser confundidas com esta. O que os racionalistas atacam, é geralmente esse tipo de religião, que se reduz a um interesseiro comércio com os «poderes divinos», a fim de garantir aos devotos saúde, emprego, casamento, êxito nos negócios, etc.

 

2) A Religião, que não promete necessariamente ao homem bem-estar temporal, também não lhe proíbe procurar tal felicidade.

 

O Criador, que deu ao homem inteligência e poder de domínio sobre a natureza (cf. Gên 1, 28), de modo nenhum lhe proíbe que faça uso desses seus talentos para conquistar o mundo visível. Pode-se mesmo dizer que, no decorrer da história, a Religião foi geralmente o grande motivo para que os povos dominassem a natureza e realizassem obras de cultura (cf. «P.R.» 19/1959, qu. 1) ; a própria penetração da matéria (dos átomos), dos oceanos e dos ares, tão heroicamente empreendida em nossos dias, não contradiz aos preceitos da Religião.

 

Apenas uma diferença separa o cientista religioso do não religioso: aquele não considera os resultados de seus estudos como valores absolutos, valores com os quais tenderia a saciar-se; ao contrário, não perdendo de vista a plenitude de felicidade que só Deus lhe pode dar, procura fazer de todas as criaturas um veículo para melhor chegar ao Criador.

 

O sábio francês Ampère exprimia com muito acerto a sua atitude no estudo, consignando as seguintes normas:

«Trabalha em espírito de oração. Estuda as coisas deste mundo, porque é este o dever de teu estado. Mas observa-as com um olho apenas, e faze que o teu outro olho esteja constantemente fixo na luz eterna. Escuta os sábios, mas não os escutes senão com um ouvido, e conserva o outro pronto para acolher os suaves acenos da voz do teu Amigo Celeste.

Escreve com uma mão só, e com a outra conserva-te preso ao manto de Deus, como uma criança se conserva agarrada ao manto de seu pai.

Hei de me recordar sempre do que diz São Paulo: 'Usa este mundo como se não o usasses'. E, a partir deste instante, fique a minha alma unida a Deus e a Jesus Cristo!».

 

Pelo fato de assim pensar e viver, Ampère de modo nenhum se viu inabilitado ou menos capacitado para os estudos; ao contrário, merece ser contado entre os grandes expoentes da ciência humana.

 

Ao invés do homem de fé, o materialista é inconscientemente levado a se iludir, procurando encontrar nas coisas visíveis a resposta à demanda de felicidade. Sua atitude quase desesperada fornece a única explicação possível para as invectivas sarcásticas dos cientistas bolchevistas, que querem comprovar, por exemplo, a não-existência de Deus peio fato de não haverem achado um paraíso suspenso no espaço... Tais argumentos já não parecem provir de seres inteligentes; são, antes, inspirados por preconceitos que obcecam e depauperam a inteligência.

 

Também acontece, como dizíamos atrás, que o cientista muitas vezes ataca não a Religião, mas a pseudo-religião ou a religião contaminada de magia. Na magia, o homem emprega ritos por ele inventados, com o fim de dobrar segundo os seus desejos os «poderes desconhecidos» que dominam o mundo; em vários casos a magia não passa de uma técnica primitiva, recoberta de uma auréola de mística obscurantista (na verdade, o mago geralmente é um técnico, ou seja, alguém que, por sua sensibilidade ou constituição física, aproveita as forças da natureza, sem saber como nem por quê). Pois bem; a essa técnica primitiva e ilógica se opõe naturalmente a técnica iluminada e segura do homem moderno ; em tais circunstâncias, entende-se que a Ciência destrua a religião (isto é, a pseudo-religião, a magia), como a luz destrói as trevas.

 

Contudo tenha-se por certo que somente as caricaturas de Religião são assim dissipadas. — Vejamos agora

 

2. O que a Ciência oferece e o que ela não oferece

 

1) A Ciência fornece ao homem as explicações imediatas de certos fenômenos.

 

O homem antigo julgava só poder explicar determinados fenômenos admitindo a intervenção direta da Onipotência Divina ou de forças invisíveis. O homem moderno dispensa muitas dessas explicações; vê melhor a concatenação de causas é efeitos neste mundo; verifica assim que Deus se serve da colaboração das suas múltiplas criaturas, fazendo-as agir umas sobre as outras a fim de realizarem um só plano ou a ordem do universo. O reconhecimento de que Deus não age sempre imediatamente por si, não deve desconcertar, mas, ao contrário, deleitar o estudioso; a unidade na multiplicidade é muito mais bela do que simplesmente a unidade. — A Religião, portanto, só pode estimar os progressos da Ciência.

 

A titulo de ilustração, fique aqui consignado o fato de que em agosto de 1961 o Santo Padre João XXIII recebeu como membros da Pontifícia Academia das Ciências dez sábios de fama mundial. Dentre eles, dois possuem o prêmio Nóbel de Física : Chandrasckhara Raman, Diretor do Instituto de Pesquisas Raman em Bengalore (Índia), e Paul-Adrien-Maurice Dirac, Professor de Matemáticas em Cambridge (Inglaterra). A Pontifícia Academia das Ciências conta atualmente vinte detentores de Prêmio Nobel, sendo seus membros originários de 27 nações diferentes.

 

Contudo ninguém negará que

 

2) A Ciência deixa abertas certas questões às quais a mente humana jamais se pôde subtrair.

 

O estudioso, averiguando causa por causa dos fenômenos que o cercam, chega espontaneamente à questão: qual seria a suprema razão de ser deste mundo? E para que existe? O próprio homem donde vem? Para onde vai?

 

A tais questões a Ciência não dá, nem pretende dar, resposta, pois ela professa só se aplicar ao estudo do material e ponderável, ou seja, daquilo que o microscópio e o telescópio podem, direta ou indiretamente, atingir. É a Religião que atende a tais quesitos, rematando assim a função da inteligência.

 

Eis o testemunho valioso de Max Planck (1857-1947), autor da famosa teoria dos «quanta», condecorado com o Prêmio Nobel de Física em 1918:

 

«A Ciência leva a um ponto além do qual ela não nos pode guiar... Ciência e Religião não se opõem, mas precisam uma da outra para se completar no espírito de todo homem que reflita seriamente. Não é por acaso que os maiores pensadores de todos os tempos foram personalidades profundamente religiosas» (La connaissance du monde physique, trad. italiana. Turim 1943, 137s).

 

Desenvolvendo tais ideias, observaremos que este mundo, que o cientista estuda, não seria compreensível se não houvesse uma Primeira Causa ou Primeira Inteligência, capaz de abarcar numa só intuição toda a ordem do universo, ordem que o homem só aos poucos, e com muita surpresa, vai penetrando; o simples acaso não explicaria a existência do cosmos.

 

Mais ainda: a própria ciência, formulando suas verdades parciais, careceria de firmeza se não houvesse uma Verdade Absoluta ou um Ser Absoluto, que comumente chamamos «Deus». Com razão, o filósofo e matemático francês Descartes (+1650) asseverava que o ateu coerente consigo mesmo não teria o direito de ser geômetra, porque, embora a geometria não estude a noção de Deus, ela é abalada em sua raiz, caso se queira suprimir o Absoluto, garantia suprema de toda verdade.

 

Por isto a posição do ateu que, de um lado, nega Deus e, do outro lado, quer cultivar a ciência, é, em última análise, contraditória; supõe, sim, a existência da Verdade Absoluta (se não, o ateu seria cético, e não estudaria), Verdade Absoluta, que é Deus.

 

Chesterton (+1936) caracterizava essa contradição do ateu, asseverando em seu estilo paradoxal que «o louco é aquele que perdeu tudo, exceto a razão». Sim; há a loucura dos ateus que pretendem só seguir a razão e que não estimam valor algum fora do seu racionalismo; esses chegam a perder até mesmo a razão (pois a existência de Deus é atingível e demonstrável pela própria razão humana).

 

Expressão eloquente dessa loucura são os seguintes dizeres (desencontrados e perplexos) do filósofo alemão F. Nietzsche (+1900), que proclamou ao mundo a «morte de Deus»:

 

«Onde está Deus, como está Ele, eu vo-lo direi: nós o matamos, vós e eu; somos todos seus carrascos! mas como foi que conseguimos esgotar a água do mar? Quem deu a esponja para apagarmos todo o horizonte? Que fizemos nós, quando separamos esta terra do seu sol? Para onde se dirige ela atualmente? Para onde caminhamos nós? Longe de todo e qualquer sol, não estamos incessantemente a cair?... Não percebemos algo do alarido que fazem os coveiros de Deus? Nada sentimos da putrefação de Deus? Pois os deuses também apodrecem. Deus morreu e nós o matamos. Como nos havemos de consolar nós, os assassinos dos assassinos?» (La Gaie Science pág. 125).

 

Em conclusão, lembraria Pascal (+1662) que «há dois excessos: o de excluir a razão (atitude do mago) e o de só admitir a razão (atitude do racionalista incrédulo)». Evitando essas duas aberrações, o autêntico homem religioso serve-se de sua razão e, por via de raciocínio, vai além do mundo sensível, verificando que os seres relativos e contingentes que nos cercam, não se explicariam se não houvesse o Absoluto e Imutável que a Religião professa.

 

«Longe de temer as descobertas dos homens (de ciência), por mais audaciosas que sejam, a Igreja julga, ao contrário, que todo ingresso na posse da verdade acarreta um desabrochar da personalidade humana, constitui um passo a mais em demanda da Primeira verdade assim como uma glorificação da obra criadora de Deus... Sem dúvida, acontece por vezes, Senhores, que deixeis cantar em vosso íntimo, no entusiasmo da pesquisa e da descoberta, o magnífico cântico: Louvai ao Senhor, todas as obras do Senhor' (Dan 3, 57)» (palavras do Sto. Padre João XXIII aos membros da Pontifícia Academia das Ciências, proferidas em 28 de outubro de 1961).

 

Dom Estêvão Bettencourt z(OSB)


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