PERGUNTE e RESPONDEREMOS 051 - março 1962

 

REENCARNAÇÃO e POVOS ANTIGOS

HISTORIA DAS RELIGIÕES

 

FILIPE (São Paulo):  «A doutrina da reencarnação parece ter sido comum entre os povos pagãos anteriores a Cristo. Sendo assim, deve naturalmente gozar de grande autoridade. Que se pode apurar a respeito?»

 

O tema da reencarnação já foi abordado em «P. R.» 3/1957. qu. 8 (do ponto de vista bíblico e filosófico) e «P. R.» 26/1960, qu. 3 (diferença entre reencarnação e ressurreição da carne). Consideramo-lo de novo neste número de «P. R.», a fim de elucidar alguns aspectos históricos do assunto.

 

Entendemos, na presente resposta, analisar a posição dos principais povos pagãos frente à doutrina da reencarnação; a seguir, procuraremos averiguar como esta pode ter surgido na mente humana.

 

1. O testemunho dos povos pagãos

 

Às vezes se lê que a doutrina da reencarnação «teve origem nas primeiras idades do mundo» e que foi professada «em todos os tempos, em todas as regiões e em todas as seitas». É o que lhe parece dar um cunho de veracidade. Pois bem; um exame objetivo da documentação histórica revela que tais afirmações são gratuitas ou mesmo contrárias à realidade.

 

Passemos, pois, em revista sumária os principais ensinamentos dos antigos povos com referência ao assunto.

 

1) Índia. É nesta região que se vai encontrar o mais remoto testemunho em favor da reencarnação; acha-se nos hinos religiosos ditos «Upanishads», dos quais os mais antigos datam dos séc. VII/VI a. C.

 

Esta verificação é importante, pois mostra que a tese da reencarnação era estranha à primitiva religião dos hindus, cujas crenças estão documentadas na coleção de textos do «Rig-Veda». Foram os brâmanes (que professavam uma forma de religião relativamente tardia na Índia) os primeiros arautos da reencarnação.

 

Eis precisamente o teor do mais antigo texto que ensina a volta dos defuntos à carne mortal:

 

«Todos aqueles que deixam este mundo, vão-se para a lua. Na primeira parte do mês a lua se incha com os seus sopros vitais; na segunda metade, ela os concita a renascer. A lua é a porta da região dos céus. Deixa passar quem saiba responder às suas perguntas; quem não lhe responde, é por ela rejeitado para a terra sob forma de chuva. Os seres rejeitados renascem, de acordo com as suas obras e o seu saber, sob forma de vermes, traças, peixes, pássaros, leões, porcos, asnos selvagens, tigres, homens ou outros entes» (Kaushitaki-Brahmana-Upanishad).

 

E como justificavam os brâmanes a sua crença na reencarnação?

 

Conforme o hinduísmo, cada alma humana é a mesma substância que a Alma do universo; em outros termos: cada «eu» humano se identifica com o mundo. Contudo os homens, ao nascer, não sabem disto; ao contrário, julgam-se distintos do mundo que os cerca, e tendem a conservar a sua individualidade; querem sobreviver com a sua personalidade inconfundível; ora, enquanto nutrem tais desejos, estão fora da via e, por conseguinte, longe da felicidade; só conseguirão bem-aventurança perdendo consciência de si e dissolvendo a sua individualidade ou personalidade na substância comum do universo. Já, porém, que o homem não renuncia a si mesmo ou ao próprio «eu» no decorrer de uma só vida terrestre, a natureza provê a sucessivas encarnações, constituindo a roda da vida (o «Samsara») ou o ciclo dos renascimentos; no decurso de cada existência terrestre, o homem deve ir extinguindo em si o desejo de viver em sua individualidade; procure mais e mais entrar em estado de renúncia, que equivale à paralisação de todo «querer», a fim de que o «querer» do indivíduo se torne idêntico com o «querer» da Alma Cósmica ou da Alma Suprema. É na total despersonalização ou absorção do indivíduo no grande Todo (Brahma ou Nirvana) que consiste a felicidade do homem.

 

As sucessivas encarnações das almas são regidas por uma lei inquebrantável, dita «do Karma» : cada ato desprende de si mesmo como que uma força misteriosa, a qual assinala a cada um a respectiva sanção: a recompensa ou o castigo (vida futura mais feliz ou menos feliz do que a presente). O sistema das retribuições póstumas toma assim um caráter extremamente rígido.

 

O budismo que, oriundo no séc. VI a. C., representa por sua vez uma nova fase da evolução religiosa da Índia, acentuou a doutrina da reencarnação (do Karma e do Nirvana). Passando para a China no séc. IV d. C.. esse sistema religioso aí propagou a teoria da transmigração das almas, teoria que até tal época lá era desconhecida. Em 372 d.C., o pregador Choentan levou o budismo para a Coréia, donde finalmente se estendeu até o Japão, que nos séculos anteriores ficara alheio às idéias da reencarnação.

 

Pergunta-se agora: tal doutrina, oriunda na índia em época relativamente tardia, representará a evolução natural de princípios religiosos mais antigos do próprio povo hindu ou terá sido importada de outra região? A esta questão, difícil é dar resposta segura: as origens da doutrina da reencarnação estão envolvidas em trevas, pois não se pode dizer por quem, quando ou como tal teoria foi introduzida na ideologia religiosa dos hindus.

 

2) Egito. A religião dos egípcios parece ter desenvolvido aos poucos as suas idéias, adotando crenças de outros povos, crenças às vezes contrárias às primitivas concepções do Egito mesmo.

 

Apesar de quanto atesta Heródoto, os estudiosos modernos afirmam que a religião egípcia nos seus primórdios ignorava a tese da reencarnação.

 

Com efeito, os antigos egípcios julgavam que a alma, após a morte do indivíduo, percorre três etapas póstumas:

- vida solitária no túmulo,

- vida bem-aventurada no «Amentb. ou seja, num novo Império egípcio existente debaixo da terra, em regiões indeterminadas, governado diretamente pela divindade Osíris,

- vida perfeita com os deuses no céu.

 

Este itinerário não prevê reencarnações. Contudo os devotos julgavam que as almas dos defuntos gozavam da liberdade de circular por onde lhes aprazia; por isto voltavam à terra de maneira invisível para ver o seu túmulo e fazer uso tanto dos alimentos como dos animais e utensílios que os familiares e amigos lhes pusessem à disposição.

 

Todavia, ao lado desta concepção, aparecem, nos monumentos egípcios, vestígios de teorias heterogêneas. Assim note-se o chamado «Livro dos Mortos», uma das mais antigas peças da literatura egípcia: constitui o «vade-mecum» da alma que deixa este mundo; descreve o que a aguarda no Além e ensina-lhe o que deve fazer; revela os cânticos que é preciso cantar, as orações que hão de ser pronunciadas e as fórmulas que a alma deve proferir para se libertar dos obstáculos na caminhada póstuma. Ora, em meio a tais normas, encontram-se as instruções para que a alma possa realizar as metamorfoses que deseja, isto é, para que se possa transformar em falcão (cc. 77 e 78), em fênix (c. 83), em andorinha (c. 86), em serpente (c. 87), em pássaro com cabeça humana (c. 85), em crocodilo (c. 88), em planta de lótus (c. 81), etc. Essas transformações se diferenciam das reencarnações dos hindus por serem espontâneas e voluntárias da parte da alma, nada tendo que ver com castigo ou expiação ou com a lei do karma.

 

Apenas esporadicamente se encontra algum traço de metempsicose infligida à alma como punição: é o caso, por exemplo, da cena reproduzida na sepultura do faraó Ramsés III e no sarcófago de Setos, em que se vê a alma condenada a tomar o corpo de um porco na terra. Essa pintura, porém, não constitui argumento suficiente para se provar que os egípcios admitiam a doutrina da reencarnação como elemento básico da sua religião. Tal doutrina, na medida em que ela é professada no Egito, é tida pelos estudiosos como elemento relativamente tardio e importado da Índia.

 

3) Mesopotâmia. Os povos da Assíria e da Babilônia nos consignaram famoso poema que narra «a descida da deusa (mesopotâmica) Istar aos infernos (ou às regiões subterrâneas)». Esse documento descreve a sorte das almas após a morte do respectivo indivíduo: vão para um lugar subterrâneo, governado pelo deus Nergal e a deusa Eriszkigal, senhora da «Grande Região»; em tal lugar há trevas impenetráveis (donde o nome de «Casa das Trevas» que lhe é dado). Duras são as condições de existência aí vigentes : a alma se vê rodeada por sete muralhas, que lhe impossibilitam o regresso à terra. Somente raríssimos indivíduos, após dilatado prazo, conseguem um dia a permissão de sair da Casa das Trevas, a fim de continuar a vida em circunstâncias menos penosas.

 

Como se vê, fica estranha a tais concepções a doutrina da reencarnação.

 

4) Irã. Os livros sagrados dos povos do Irã (Medos, Persas, Partênios) — livros intitulados «Avesta» ou (menos adequadamente) «Zend-Avesta» ou simplesmente «Zend» — ensinam que a alma do defunto, após a morte deste, é levada ao tribunal dos deuses Mitra, Raxnu e Szaosha; seus méritos e deméritos são rigorosamente pesados numa balança, após o que a alma passa para um lugar de felicidade ou é condenada a justas penas. O local da bem-aventurança ou o paraíso é, nessa literatura, ornado com tapeçarias feitas dos mais preciosos fios e metais; refulge com luzes brilhantes e cores admiráveis...

 

A Sra. Annie Besant, uma das fundadoras da Teosofia, que no século passado muito se empenhou por encontrar testemunhos da crença na metempsicose entre os antigos povos, reconhecia verbalmente:

 

«A reencarnação não parece ter sido ensinada nas obras (persas) até o presente traduzidas; nem entre os persas modernos se encontra essa crença» (La sagesse antique. Paris 1912, 41).

 

5) Grécia. Verificam os historiadores que os mais antigos textos e monumentos da Grécia desconhecem a migração das almas. Reverência e culto dos mortos, por exemplo, são atestados sem vestígio de reencarnacionismo; Homero (séc. VIII a. C.), por sua vez, dá testemunho da fé dos seus contemporâneos referente à sobrevivência das almas, sem menção de metempsicose.

 

O introdutor da tese da reencarnação na Grécia é Pitágoras (+ 496 a. C.), o qual depende de uma corrente filosófico- -religiosa dita «o Orfismo». Ora uma das narrativas básicas do Orfismo assim explicava o sentido da existência do homem sobre a terra:

 

No mundo dos deuses, Dionísio Zagreu incorreu na ira dos Titãs, aos quais procurou escapar transformando-se sucessivamente em animais diversos; quando, porém, estava revestido da forma de um touro, foi apreendido, despedaçado e devorado pelos Titãs. Contudo aconteceu que Pallas salvou o coração de Dionísio, órgão do qual veio a nascer um novo Dionísio. Este conseguiu vingar-se dos Titãs, fulminando-os. Das cinzas dos Titãs saiu o gênero humano, no qual dois elementos antitéticos se combatem mutuamente: o elemento titânico, que é principio do mal, e o elemento dionisíaco, derivado do sangue de Zagreu, que é principio do bem. Em consequência, a todo homem cabe a tarefa de se libertar do elemento mau para fazer triunfar em si o princípio bom ou dionisíaco; isto só se pode obter mediante uma série de purificações através de existências sucessivas aqui na terra. Na etapa final, ao homem puro é dado ouvir a palavra salvadora de Persefonas : «Feliz e afortunado, serás deus e não mais mortal».

 

A escola órfica admitia assim um «ciclo de nascimentos» ou uma «rota de gerações» para cada indivíduo humano. Asseverava outrossim que esse ciclo de gerações estendia o seu ritmo à natureza inteira, pois, conforme o orfismo, o mundo se devia renovar periodicamente, de sorte que em cada período se repetiriam identicamente todos os acontecimentos já registrados nos anteriores.

 

As idéias do Orfismo não parecem oriundas da Grécia mesma, mas, sim, da Trácia (Bálcãs)... O fato é que, entre os gregos, tomaram impulso por obra de Pitágoras. Este é, ..por excelência, o «varão dos renascimentos», o qual, por concessão dos deuses, tinha a recordação exata de suas encarnações anteriores. Com efeito, seu pai Hermes dera-lhe a escolher o privilégio que ele quisesse, exceto o de não morrer; Pitágoras então pedira e obtivera o dom de se poder lembrar de tudo que lhe tivesse acontecido tanto nesta vida quanto nas antecedentes. Conta Xenófanes, contemporâneo de Pitágoras, que este mestre, assim ilustrado, certo dia ao ver um cão que, espancado, urrava de dor, terá exclamado : «Parem, não batam mais; pela voz desse cão reconheci a alma de um dos meus amigos» (Diógenes Laércio VIII 36). Segundo Pitágoras, tanto os animais quanto as plantas possuem alma semelhante à do homem; só lhes faltam os órgãos necessários à manifestação de sua vida psíquica superior. Em consequência, os Pitagóricos rejeitavam, total ou ao menos parcialmente, o consumo de carne, ovos, peixe, favas, etc., pois receavam prejudicar a alma humana que talvez estivesse vivendo em tais seres inferiores.

 

A doutrina órfica e pitagórica foi ulteriormente cultivada por Empédocles de Agrigento. Quem. porém, na Grécia lhe deu a sua aparência científica, foi Platão (+349 a.C). Este filósofo utilizou os seus talentos de agudo psicólogo e poeta para expor e defender a teoria da metempsicose; contudo é difícil dizer até que ponto as imagens literárias propostas por Platão correspondem às suas convicções íntimas; certo é que nem sempre devem ser tomadas ao pé da letra.

 

De Platão, a doutrina da metempsicose passou à escola platônica e à neoplatônica, sendo esta representada principalmente por Plotino (+270 d. C.) e Porfírio (+233 d. C.). Plotino julgava que as reencarnações sucessivas obedecem estritamente à lei do talião, de tal modo que, por exemplo, quem é patrão cruel numa existência, renasce como escravo; quem é ricaço avarento, volta ao mundo como mendigo; quem matou, torna-se vítima de assassínio; o filho que tire a vida de sua mãe, vem a ser mãe que sucumbe aos golpes de seu filho (cf. Eneada III II 13); as almas que se purificam, são, ao contrário, transformadas em estrelas e, do alto dos céus, contemplam o espetáculo do universo (DI IV 2). Por fim, as almas mais puras vão-se fundir com a divindade (m IV 6).

 

Como se vê, todas estas especulações datam de época tardia entre os gregos. O que interessa aqui relevar, é que a tese da reencarnação não faz parte das concepções primitivas deste povo, mas constitui algo de novo e heterogêneo.

 

6) Roma. A religião dos romanos professava desde os seus primórdios a sobrevivência da alma. É o que prova o culto dos antepassados domésticos (Manes, Larvas, Lemúrios), os quais ou eram honrados com piedade férvida ou afugentados como hóspedes importunos. Tais atitudes não supõem, antes excluem, a crença na reencarnação.

 

Esta aparece, sim, na literatura latina, mas como algo de esporádico e tardio. Assim o poeta Ênio (+169 a. C.), da Calábria, narra, nos seus «Annales», ter visto em sonho Homero...; este lhe haverá declarado que a mesma alma que animara Homero e animava Ênio, fôra numa encarnação remota alma de um pavão!

 

Contudo os romanos eram em geral mais inclinados a seguir as tendências de Lucrécio (o qual professava puro materialismo) do que a adotar as teses e os mitos referentes à metempsicose.

 

Surge agora espontaneamente a questão:

 

2. Gomo terá tido origem na mente humana a idéia da reencarnação?

 

Os estudos modernos dão a ver que o conceito de reencarnação não se encontra nos mais antigos testemunhos da literatura ou da religião dos povos; constitui, antes, uma tese relativamente tardia, pois é, pela primeira vez, atestado em um documento hindu dos séc. VII/VI a. C., documento que põe termo à época védica ou primitiva da religião na Índia.

 

Levanta-se assim uma questão: poder-se-ia de algum modo explicar o surto dessa idéia na mente dos homens?

A isto respondem os estudiosos, apontando alguns fatores que terão exercido a sua influência no caso:

 

1) O homem primitivo dificilmente conseguia abstrair de conceitos concretos e sensíveis, de sorte que árduo problema se tornava, para ele, imaginar como uma alma poderia viver separada do corpo. A carne parecia ser o meio necessário para entrarmos em contato com outras almas e mesmo com a natureza que nos cerca.

 

«A mentalidade do homem primitivo se acha mui próxima da criança. Assim como a criança, o primitivo não apreende com facilidade a vida profunda do espírito, suas .alegrias íntimas, suas dores mudas : alegria ou tristeza, nele, natural e espontaneamente, assumem a ruidosa feição dos gritos, das lágrimas, dos espasmos. O discípulo do Avesta adorna o paraíso com a mais brilhante luz, com as mais deslumbrantes cores, com tapeçarias feitas dos mais esquisitos, dos mais preciosos materiais. Homero faz consistir a ventura de além-túmulo em viver «nos Campos-Eliseos, lá no fim da terra», «onde a vida mais agradável è oferecida aos humanos, onde, sem neve, sem rigoroso inverno, sempre sem chuva, apenas se sentem os zéfiros, cujas brisas cantantes sobem do Oceano para refrescar os homens» (Odisseia p. IV 562-568). Ora não eram sensivelmente mais elevadas as idéias religiosas das outras nações nem suas concepções da felicidade e da punição no além.

 

Compreende-se portanto que fascinação devia, nessa mentalidade grosseira, exercer a idéia da reencarnação, que de modo tão simplista resolve as dificuldades há pouco assinaladas: à alma, dar-se-á um corpo novo — humano, animal ou vegetal, pouco importa; o essencial é que se torne concebível a existência do homem na outra vida, que lhe sejam possíveis a felicidade e a punição» (Paulo, Siwrèk, A reencarnação dos espíritos. São Paulo 1946, Introdução n. 2).

 

A medida, porém, que se esmeraria o pensamento filosófico da humanidade, evidenciar-se-ia a inconsistência da solução reencarnacionista para justificar a imortalidade da alma e explicar as sanções da justiça divina. A humanidade percebeu melhor que pode haver autêntica vida, dotada de profundo conhecimento e amor, mesmo fora da matéria.

 

Outra razão que nos antigos terá sugerido o reencarnacionismo é, conforme alguns estudiosos, a seguinte:

 

2) Os povos primitivos observavam que o cadáver humano é muitas vezes consumido pelos animais irracionais (sejam os vermes da terra, sejam as aves do céu, sejam os quadrúpedes carnívoros). Ora era comum admitir entre os antigos que o consumo do cadáver comunicava aos consumidores as qualidades do defunto destruído (daí a prática da antropofagia e do canibalismo em muitos povos primitivos).

 

Destas premissas se derivava (por efeito da imaginação antes que por rigor da lógica) que os corpos de certos animais irracionais (répteis, aves, quadrúpedes) constituíam as mansões das almas de homens defuntos (justamente a alma é o princípio vital característico da personalidade).

 

Em particular, o culto da serpente, muito comum entre os povos primitivos, se explicaria à luz dessa teoria: verificando que são geralmente os vermes da terra que devoram o cadáver do defunto, os antigos homens haveriam concebido a idéia de que um desses vermes era escolhido pelos deuses para se desenvolver em réptil maior ou serpente e ser assim a mansão da personalidade do defunto; a alma deste habitaria no corpo da serpente. Afirmavam então uma espécie de parentesco entre certas serpentes e determinadas famílias humanas; em consequência, a serpente veio a ser um dos animais mais venerados na religião popular dos antigos (em menor escala, era atribuído semelhante culto também a moscas, abelhas e a animais de rapina ou carnívoros).

 

De modo especial no Egito, antigos textos afirmam que as serpentes constituíam a mansão das almas de todos os deuses, isto é,... dos antepassados divinizados. As serpentes nas quais os homens julgassem que os defuntos habitavam, eram proclamadas «protetoras da família»; por extensão de tal praxe houve até serpentes protetoras de cidades, províncias e mesmo da nação inteira do Egito.

 

3) O fenômeno dos sonhos, por sua vez, sugeria a teoria da reencarnação. Com efeito; em sua imperfeita psicologia, os primitivos explicavam os sonhos como sendo verdadeiras histórias vividas pela alma da pessoa adormecida: logo que o corpo caísse em estado de sono, a alma o abandonaria e, encarnando-se em outro corpo, começaria a percorrer as diversas aventuras registradas pelos sonhos. Os antigos julgavam que a alma escapava pelas narinas, pela boca ou pelos poros da pele; por isto atribuíam-lhe forma esguia, comparando-a com uma borboleta ou com uma ave (de preferência, uma pomba) ou ainda com uma serpente, um camundongo, um inseto...

 

O desenvolvimento de tais concepções (muitas vezes inspirado por mitos e superstições) levou, como se compreende, certos povos primitivos a admitir a transmigração da alma de um corpo para outro após a morte do individuo; o novo corpo poderia ser o de uma pessoa humana, o de um irracional ou mesmo o de uma planta!

 

Assim algumas tribos de Assam (índia) julgavam que as vespas, traças e outros insetos que se instalavam na madeira de estatuetas de personagens defuntos, eram almas humanas, que destarte se reencarnavam. Também se sabe que certas tribos antigas se recusavam peremptoriamente a dar a seus filhos o nome de um parente ainda vivo; a duplicação do nome implicaria duplicação, ou seja, divisão, dilaceração, da personalidade, pois a mesma personalidade teria que viver simultaneamente em dois corpos; tal fenômeno acarretaria finalmente a morte de um dos dois membros homônimos da família (esta crença mostra que até o nome era, de certo modo, considerado como encarnação ou reencarnação de uma alma).

 

Além das três premissas que acabamos de expor, devem-se outrossim assinalar, entre os motivos que terão sugerido a tese da metempsicose.

 

4) O fenômeno das semelhanças ou analogias que por vezes se podem observar entre uma pessoa falecida e uma criança recém-nascida;

 

5) O problema da desigualdade de sortes ou do sofrimento, que parece depender do comportamento de cada indivíduo em uma vida anterior à presente, vida anterior na qual cada um terá merecido o destino que ele ora possui.

 

Contudo nenhuma destas razões (nem o conjunto de todas elas) faz da hipótese da reencarnação uma doutrina lógica e necessária ou uma conclusão que se imponha ao estudioso.

 

Em verdade, as três primeiras premissas são evidentemente sugeridas por mentalidade infantil e rude, de sorte que sobre elas nenhuma doutrina segura se poderia arquitetar.

 

Quanto ao fenômeno das semelhanças ou analogias, é demasiado vago para poder ser firme suporte de alguma tese doutrinária.

 

A quinta observação, a das sortes desiguais, não exige como explicação única e necessária a teoria da reencarnação. Tal assunto já foi abordado em «P. R.» 3/1957, qu. 8; 32/1960, qu. 3 e 4. Aqui apenas interessa lembrar que Deus é livre para criar os seres humanos de acordo com o seu sábio e soberano beneplácito; o Senhor a ninguém deve coisa alguma; por isto concede a cada criatura um quinhão variável de perfeições (a infinita perfeição divina pode ser expressa de variadíssimas maneiras) . Dispensa outrossim a cada uma dessas criaturas os auxílios proporcionais para que possa conseguir o seu Fim Supremo ou a sua bem-aventurança eterna. Cada criatura, portanto, recebe, dentro do setor das suas possibilidades, todos os subsídios necessários para chegar à suma bem-aventurança; não há, pois, injustiça da parte de Deus, que chama igualmente a todos para a visão face a face no céu. Se nem todos conseguem este Supremo Objetivo, se muitos falham, a raiz da falha não está no Criador, mas na criatura ou, mais precisamente, na liberdade de arbítrio humano, que nem sempre se acha disposta a aceitar e utilizar o magnânimo dom de Deus. O Criador, tendo dado livre vontade ao homem a fim de que este seja mais digno do que um autômato, não retoca nem mutila o seu dom; apenas trata de dispensar à livre criatura todos os auxílios necessários para que possa fazer bom uso da sua liberdade e assim conseguir o seu Fim Último.

 

Portanto, nem os testemunhos da história nem as considerações da filosofia dão à teoria da reencarnação a autoridade que alguns escritores contemporâneos lhe querem atribuir.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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