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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS – novembro de 1961

 

INDIVÍDUOS NORMAIS e SANTIFICAÇÃO

CIÊNCIA E RELIGIÃO

AUGUSTO (Rio de Janeiro): «A pessoa psiquicamente anormal poderá pretender santificar-se? Não há indivíduos que, por sua constituição psicossomática, estão fadados a ser medíocres ou mesmo viciados durante a vida inteira?»

 

Em nossa resposta, deveremos examinar primeiramente o que, neste setor de estudos, se entende por «pessoas anormais»; a seguir, consideraremos as maneiras como, de fato, se podem santificar.

 

1. Normais e anormais

 

O conceito de «pessoa anormal» não é sempre definido do mesmo modo pelos autores. Por isso torna-se necessário, antes do mais, delimitar com clareza o que entenderemos por «anormal» no presente artigo. É o que vamos fazer por etapas.

 

1.1) Numa primeira aproximação, conceitua-se o indivíduo anormal como sendo o contrário do normal.

Que vem a ser então a pessoa normal ?

 

Pessoa normal é aquela na qual todas as funções físicas e psíquicas se exercem de modo regular ou de maneira consentânea com a natureza. O estado normal, portanto, é o de harmonia ou de equilíbrio mais perfeito possível entre as faculdades do corpo e da alma de uma pessoa; já se disse com razão que esse estado consiste «na espiritualização mais elevada do que é carnal, e na encarnação mais profunda do que é espiritual» dentro do homem (B. Haering, La Loi du Christ III 321).

 

Pode-se afirmar que o indivíduo normal é muito raro ou simplesmente não existe; cada qual tem sua inclinação preponderante, um tanto desequilibrada. Como quer que seja, toma-se o indivíduo normal como padrão para avaliar os tipos humanos que na realidade ocorrem.

 

E quais seriam esses tipos que na realidade ocorrem ?

 

1.2) Existe o indivíduo totalmente alheio ao uso da razão, o qual vive em ininterrupta demência... Claro está que tal pessoa fica abaixo do plano da moralidade, pois é irresponsável por seus atos e, por conseguinte, incapaz de mérito. Caso tal pessoa nunca tenha tido o uso da razão, ela se salva como as criancinhas que morrem antes de chegar à idade do juízo; dado, porém, que alguma vez tenha usufruído do seu raciocínio, será julgada por Deus na base do último ato livre e responsável que tenha praticado.

 

Não é em torno desse tipo de anormais que versa a questão proposta no cabeçalho deste artigo. A questão só tem cabimento caso se possa supor no sujeito anormal um mínimo de responsabilidade moral, condicionado pelo conhecimento de Deus e da sua Lei, pelo discernimento do bem e do mal, assim como pelo gozo de certa liberdade de arbítrio...

 

1.3) Pois bem; os anormais que ainda possuem esse mínimo de pré-requisitos, se enquadram com muita probabilidade dentro de uma das seguintes categorias (a enumeração abaixo ainda poderia ser prolongada):

a)        Pessoas psiquicamente retardas, cujas faculdades não se desenvolveram até o nível médio comum. Esforçam-se por fixar a atenção, mas dificilmente o conseguem; só se deixam atrair por objetos concretos e sensíveis; têm entendimento muito exíguo, memória falha; e isto,... seja por efeito de uma tara congênita, seja em consequência de moléstia ou acidente. Essas pessoas são, por vezes, ditas «imbecis». Em sua conduta de vida, mostram-se geralmente impulsivas ou movidas por seus instintos, já que são pouco capazes de refletir e deliberar. Tal anormalidade admite muitos matizes. Não poucos desses indivíduos ainda podem receber certa formação moral e religiosa; aplicando-se-lhes métodos adaptados à sua compreensão mental, obtêm-se deles amor a Deus, prática de virtudes e correspondência à graça dos sacramentos, mormente da S. Eucaristia. Em consequência, são capazes de santificar-se; tendo recebido um talento, fá-lo-ão frutificar na proporção do possível.

b)       Pessoas ditas histéricas. Sendo esta designação suscetível de mais de uma interpretação, entendemo-la aqui em sentido amplo, compreendendo:

- os indivíduos sugestionáveis, aos quais se podem incutir, por via de autoridade, convicções, emoções e mesmo alucinações;

- os megalomaníacos ou mitomaníacos, propensos a tomar atitudes e desempenhar papeis totalmente alheios aos que lhes competem por natureza; vivem num mundo irreal, enganando a si e tentando ludibriar a sociedade (note-se, porém, que esse tipo de simulação ou mentira é, em última análise, doentio, instintivo, pouco ou nada tendo de consciente; na grande maioria dos casos, portanto, não constitui mentira moral ou pecaminosa).

 

Esta segunda modalidade de histeria está, de resto, intimamente ligada com a primeira, pois a megalomania é produto de sugestão... e, não raras vezes, de autossugestão.

 

Que dizer da capacidade de santificação dessas pessoas ?

 

Várias delas atravessam fases em que parecem possuir o domínio de suas faculdades e a devida lucidez da mente: dir-se-ia que então praticam a virtude, mostrando-se dedicadas, humildes, piedosas, etc.; nos seus colóquios com o diretor espiritual, dão a impressão de usar de franqueza, protestando horror a toda espécie de mentira. Pode-se crer que em tais ocasiões exerçam realmente obras meritórias pelas quais se vão santificando.

 

Contudo será sempre muito difícil definir o estado de alma dessas pessoas; sofrem inconscientemente a fascinação do maravilhoso; são, muitas vezes sem o saber, vítimas da necessidade de chamar a atenção para si mesmas, apresentando-se ou como santas ou como presas do demônio ou como seres de algum modo excepcionais. O seu comportamento prorrompe não raro em flagrantes contradições, pois em meio a veementes crises de megalomania acontece que imprevistamente aflore a sua verdadeira personalidade. Quem as considera nessas situações, é inclinado a julgá-las possessas do demônio (uma das duas personalidades que nelas se manifestam, seria a do Maligno); a hipótese, porém, seria errônea, pois se trata de mero fenômeno patológico.

 

Na prática, não será lícito desconhecer a aptidão dessas pessoas para santificar-se, de sorte que seus diretores e mestres deverão sempre empregar os meios oportunos para induzi-las ao exercício das virtudes e levá-las pelo caminho da perfeição cristã. Tais almas assim poderão realmente ir subindo para Deus nas fases em que possuírem lucidez de mente e domínio sobre si mesmas.

 

c) Pessoas dadas ao delírio sistemático.

Que é propriamente o delírio?

 

Delírio é o pulular doentio de imagens fantásticas e juízos absurdos na mente de determinado paciente. Por vezes, estes fenômenos carecem de concatenação entre si. Outras vezes, são, ao contrário, coordenados, versando sobre um tema único e preciso; tem-se então o delírio sistemático, que se apresenta sob três modalidades:

- delírio alucinatório: o doente, por exemplo, ouve vozes correspondentes a um ou vários personagens, que muitas vezes ele «identifica», dando-lhes nomes;

- delírio interpretativo: o doente nada ouve de irreal, mas interpreta os acontecimentos reais de modo a construir um enredo de perseguição exacerbada da qual ele se julga vítima;

- delírio imaginativo: a pessoa imagina cenas irreais, nas quais ela é geralmente a principal figura ou o herói.

 

O indivíduo que delira, não está consciente da sua anomalia; permanece envolvido no seu mundo imaginário, sem poder emergir; é um «alienado» no sentido próprio da palavra. Acontece, porém, que dentro desse mundo imaginário o delirante pode conservar as noções do bem e do mal, distinguindo-as nitidamente entre si, temendo pecar e procurando amar a Deus; guarda também a liberdade de agir e não agir. Por conseguinte, não lhe é impossível praticar a religião, nem há de ser considerado inepto a aproveitar dos meios de santificação que esta lhe proporciona. Mas, como se compreende, também no caso de delírio, a escala dos graus de lucidez mental e de liberdade de arbítrio é variada, podendo-se encontrar delirantes alucinados que não possuem clareza de juízo ou domínio sobre si.

 

d) Pessoas cujo temperamento é afetado por tendência perversa.

 

Há, sim, doentes que sofrem de propensão espontânea a certos atos perversos ou certo vício, mas, fora de tal setor, parecem possuir um psiquismo intato. Sem poder deliberar nem escolher livremente, são impelidos a praticar atos nocivos ao próprio sujeito e ao próximo, ou, na melhor das hipóteses, atos desarrazoados, ridículos, ociosos.. . Tal fenômeno pode ocorrer sob diversas modalidades:

 

Alguns, movidos por impulso irresistível, procedem mal como se fossem meros autômatos; o seu instinto cego e desenfreado desencadeia determinados atos, após os quais não conservam recordação do que fizeram. Assim certos epiléticos durante suas crises. Tais pessoas não estão impossibilitadas de levar vida moral e religiosa; esta contudo fica sujeita a interrupções, devendo-se fazer o desconto dos períodos de inconsciência e cega obsessão, durante os quais se pode supor que os doentes se tornam totalmente irresponsáveis.

 

Outras pessoas, ao contrário, cedem aos instintos sem perder a consciência do que estão cometendo. É o que se dá com os pervertidos ou, em certo grau, tarados de nascença: mentem, roubam, espancam... unicamente pelo prazer de cometer o mal e ver os outros sofrer; também se entregam com a máxima calma a atos impúdicos de toda espécie. Tais indivíduos sabem, sim, o que estão fazendo, mas não o reconhecem como ato mau; depois de o cometer, não experimentam horror nem arrependimento; carecem de senso moral ou estão totalmente anestesiados para as categorias da moralidade. Em uma palavra: constituem o tipo do «criminoso nato». Qualquer esforço para os elevar ao nível da moral e os santificar resulta vão (suposto que tais indivíduos pertençam plenamente à categoria de anormais que acabamos de analisar).

 

Eis ainda um terceiro tipo de pessoas a enunciar nesta série: há doentes cujas faculdades mentais se comportam todas normalmente, exceto apenas o livre arbítrio (em certas fases e ao se tratar de determinados assuntos). Tenha-se em vista, por exemplo, o caso de um adulto muito digno, sinceramente religioso e piedoso, que uma ou outra vez se sinta tomado por verdadeira paixão sexual. O atrativo lhe parece irresistível, de modo que se entrega ao pecado. Ao ceder, ele conserva a lucidez de espírito; nesse momento, porém, acontece que ou não vê a índole viciosa do ato que está cometendo (a sua consciência moral é encoberta, enquanto a consciência psicológica permanece intata), ou reconhece perfeitamente a imoralidade do seu ato e a ele assiste como testemunha impotente, desolada, envergonhada... a qual é logo acometida de veemente consternação. — Algo de semelhante pode-se dar quando alguém profere blasfêmias, injúrias, imprecações, etc.

 

Em geral, os moralistas recomendam que não se admita com facilidade ser tal ou tal impulso irresistível, de modo a atribuir à vitima uma atitude meramente passiva e de todo inculpada; os casos em que isto se dá, são relativamente raros. Mais frequentes são os casos de responsabilidade atenuada ou de consentimento semi-deliberado; em última análise, só Deus sabe julgar o íntimo das pessoas que se encontram em tais circunstâncias.

 

Como quer que seja, não se tirará a essas almas a esperança de se santificar. O que lhes compete fazer, é lutar para que não se repitam as quedas e, caso ainda se renovem, não se renovem por negligência ou moleza da pessoa; procure esta eximir-se de qualquer conivência com as desordens da sua natureza, e estará sendo sincera para com Deus. Tal sinceridade dará entrada franca à graça do Senhor, a qual é capaz de fazer aquilo que a criatura não consegue realizar por si. A Providência pode permitir que as almas retas sejam até o fim da vida acometidas por veementes tentações e caiam mesmo em faltas; estas, associando-se a grande fervor e à prática heroica de muitas virtudes, vêm a ser a garantia providencial da humildade dos justos (contanto que não sejam faltas voluntárias nem remotamente provocadas); elas fazem ver aos bons que todo mérito é graça ou dom do Céu.

 

Para ilustrar essa situação, pode-se citar o caso imaginário descrito por Graham Greene no seu romance «O poder e a glória»: ai aparece um sacerdote de humildade heroica, invencível espírito de fé, caridade pronta a todo sacrifício, mas... dado à bebida. É o «wisky-priest» !

 

Os moralistas, ao comentar esta figura literária, não negam que ela se possa encontrar na vida real, mas lembram que, aos olhos da Moral, ela representa um «caso-limite» (se não é um caso inteiramente patológico, no qual já não há nem responsabilidade nem culpa moral): com efeito, a fé, a renúncia caridosa e a humildade, no elevado grau que Greene atribui ao seu herói, costumam corroborar o domínio do indivíduo sobre si mesmo, de tal modo que não é comum, numa alma, tão estridente contraste entre o notável progresso das virtudes em geral e a deficiência de uma virtude em particular (a temperança, no caso). O adiantamento no caminho das virtudes em geral não pode deixar de ir amortecendo paulatinamente as paixões dominantes da pessoa.

 

e) Por fim, ainda devem ser levados em consideração na presente lista

- os psicastênicos: pessoas desconfiadas, Inquietas, escrupulosas, mais ou menos obcecadas;

- os hiperemotivos: pessoas que riem ou choram por motivos insignificantes; transpiram e enrubescem por nada;

- os impulsivos: pessoas instáveis, inconstantes, como, por exemplo, o jovem que tenta sucessivamente vários tipos de vida religiosa e sacerdotal;

- os neurastênicos: pessoas que facilmente sucumbem ao esgotamento, estão sempre cansadas e moralmente deprimidas;

- os abúlicos: pessoas sempre indecisas, que precisam de ser impelidas para agir.

 

Essas pessoas têm, não raras vezes, uma inteligência muito viva, uma pronunciada delicadeza de afetos, assim como agudo sentido do dever. Não há dúvida, atravessam fases em que a lucidez do raciocínio e a liberdade de arbítrio lhes escapam, em parte ou por completo. Ao lado dessas fases, porém, conhecem suas horas de controle sobre si mesmas, horas em que se podem consagrar ao serviço de Deus e do próximo sacrificando-se e praticando o bem; podem então merecer algo e santificar-se (como também pecariam, caso nessas horas violassem deliberadamente a Lei de Deus). Existem estudos criteriosos de psicologia e espiritualidade que permitem a um diretor ministrar a essas almas uma orientação segura, a fim de que, através mesmo das suas vicissitudes, elas mais e mais se vão aproximando de Deus.

 

Por conseguinte, nem mesmo as pessoas neurastênicas estão impossibilitadas de chegar à santidade!

 

É claro que, na realidade concreta, os tipos de anomalias que enunciamos (e ainda outros mais, que não foram aqui apresentados) podem aparecer combinados entre si segundo proporções variadas. Não interessa prolongar a enumeração acima; faz-se, antes, mister frisar a conclusão otimista a que nos levam as considerações propostas:

 

Nem mesmo as pessoas que sofrem suas crises nervosas e conhecem seus amargos momentos de depressão, fazendo a experiência concreta do que é a miséria humana, estão de antemão excluídas do ideal da santidade. Na verdade, Deus não lhes pede mais do que podem dar; entreguem então generosamente ao Senhor aquilo de que são capazes, aproveitando com zelo os poucos ou muitos momentos de domínio sobre si mesmas que venham a ter. A santidade admite feitios diversos; ela se amolda a cada indivíduo, pois consiste apenas em um «sim» proferido com magnanimidade pela alma do justo, todas as vezes que este perceba a inspiração da graça em seu coração.

 

Note-se bem: quem inspira as obras boas, quem faz o programa concreto de santificação, é a graça de Deus ou o próprio Deus. Ora o Senhor não inspira coisas impossíveis. Se a criatura julga que não O pode seguir e se furta à tarefa de sua santificação, isto se deve à falta de fé e amor da parte do homem, não à inexequibilidade do programa ou à falta de recursos naturais e sobrenaturais.

 

É óbvio, porém, que o programa de santificação da pessoa dita anormal há de ser um tanto diverso do programa das pessoas plenamente sadias. Importa-nos, portanto, deter agora a nossa atenção sobre a maneira como se podem santificar os anormais.

 

2. A santificação dos anormais

 

2.1. Em primeiro lugar, convém observar que os meios comuns e primordiais de santificação (como os sacramentos e a oração) se impõem tanto às pessoas normais como às anormais; fora dos seus momentos de crise, portanto, estas se confessarão, comungarão e farão suas orações.

 

2.2. Acontece, porém, que certas pessoas doentes, as quais não podem praticar jejuns, vigílias, nem grandes obras de apostolado, podem encontrar na sua doença mesma (ou na sua anormalidade) fecunda fonte de santificação...

 

Na verdade; as anomalias são provações sabiamente englobadas dentro do plano da Providência Divina. Consideradas em si mesmas, constituem um mal; são um mal, porém, do qual, segundo os desígnios divinos, pode e deve sair algum bem. Para que isto na realidade se dê, o doente deverá emancipar-se de um modo de ver naturalista e considerar a sua situação à luz de uma fé profunda. Tomará então atitudes semelhantes às que vão aqui apresentadas.

 

Piedosa mãe de família, acometida de depressão melancólica, é internada em casa de saúde. Nesta os seus dias decorrem em lágrimas; julga ser a causa da desgraça do marido e dos filhos; imagina que os seus pecados passados é que atraíram a infelicidade sobre ela e os seus familiares; em suma, ela se considera um monstro na sociedade...

Que fará doravante tal pessoa ? Abandonar-se-á ao seu desânimo ? — Não; no primeiro momento de alivio, prorrompa do fundo do seu abismo em um clamor a Deus, ao Deus dos pequeninos e atribulados (cf. SI 129); diga-lhe que, apesar de tudo, ela muito O quer amar e que Lhe oferece os seus sofrimentos em união com os do Cristo Jesus para a expiação dos seus pecados e dos pecados do mundo. Se conseguir isto, ainda que reclusa em sua clínica, terá feito um ato de grande heroísmo, um ato que certamente muito a fará progredir no caminho da santificação.

 

Um alucinado julga ouvir vozes que continuamente o chamam, ameaçam e injuriam, deixando-o em pânico constante. Todos, porém, (inclusive o sacerdote, seu diretor) lhe afirmam que se trata de mera impressão subjetiva e que não há motivo de susto. Em lugar de recalcitrar, tente então esse doente, num momento de mais calma, sair de seu «mundozinho» pessoal: faça um ato de humildade, admitindo que possa estar enganado e que as outras pessoas estão com a razão. Oxalá chegue mesmo a dizer no seu íntimo: «Sejam o que forem, essas vozes me cansam e esgotam. Que martírio !... Estou, porém, recordado de que o martírio é excelente meio de santificação!...»

 

Tomemos ainda o caso dos escrúpulos de consciência. Embora se devam geralmente a uma enfermidade psicossomática, S. Inácio de Loiola afirma que «aproveitam não pouco (non parum prodest)» à santificação do indivíduo. E como ? — A norma capital dada a todo escrupuloso é a de rejeitar o próprio juízo e se entregar, sem titubeio, à guia de um diretor espiritual (cf- «P. R.» 41/1961, qu. 5). Ora, para o paciente, isto significa verdadeira renúncia: deverá sair de si, tapar os ouvidos aos seus pareceres pessoais e tentar caminhar intrepidamente na fé. Pois bem; que o doente conceba tal propósito nos momentos de maior controle sobre si, e o execute com sangue frio nas horas oportunas ! E, com prazer, verá um dia superadas todas as suas inquietudes, as quais, passando, lhe deixarão um fruto: o fruto de uma fé mais viva e apurada, de um amor menos voltado para si (egoísmo), e mais ardente para Deus.

 

Tais exemplos já de algum modo dão a ver como as anomalias do corpo e da alma não constituem entrave decisivo para a perfeição espiritual dos respectivos pacientes, desde que estes gozem de momentos de lucidez e autocontrole; Deus lhes dá a graça proporcional e necessária para que utilizem zelosamente esses preciosos intervalos. E lembremo-nos de que a santidade não consiste necessariamente em jejuns, vigílias, pregações apostólicas, mas, sim, unicamente, em conformidade total com a santíssima vontade de Deus, a qual se sabe adaptar a cada um e sabe adaptar cada um a si mesma. Ninguém, por mais fraco que se sinta, é fadado a ficar na mediocridade.

 

As ideias expostas no presente artigo se completarão no artigo que se segue.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


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