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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 039 - março 1961

 

ÓTIMO CRISTÃO e PÉSSIMO CATÓLICO?

DOGMÁTICA

OBSERVADOR (Belo Horizonte): «Por que dizem que, para ser cristão, é preciso pertencer à Igreja Católica Apostólica  Romana ? Não pode haver ótimos cristãos que sejam péssimos católicos ou que nem sequer sejam católicos?»

 

Quem hoje em dia analisa a situação religiosa da nossa sociedade, verifica sem dificuldade o seguinte estado de coisas:

1) Muitas das pessoas que dizem ter Religião, admitem apenas a existência de Deus (resta saber se concebem o Senhor Deus de maneira reta e lógica, como Ser transcendente, Criador e Fim Supremo do universo, ou se ilogicamente o identificam com a natureza e o homem).

2) Dentre aqueles que acreditam em Deus, há não poucos que aceitam também Jesus Cristo. Verdade é que, enquanto uns O reconhecem como Deus feito homem, outros só veem em Cristo um iluminado ou um grande sábio da humanidade.

3) Muitos daqueles que aceitam Deus e o Senhor Jesus Cristo (mesmo como Deus feito homem), não vão além... Rejeitam peremptoriamente alguma sociedade visível, a Igreja, na qual Deus e Cristo estejam presentes, dando-lhe o poder das chaves ou uma autoridade sobrenatural no tocante à salvação dos homens.

 

Tais pessoas chegam por vezes a negar a necessidade de pertencer a alguma sociedade religiosa; arquitetam uma religião própria ou individual, de acordo com seu fervor subjetivo; são «franco-atiradores» de Deus e de Cristo ou apenas de Deus. Caso não caiam nesse negativismo, aceitam a Igreja como algo de relativo, como partido que tenta, ora mais, ora menos acertadamente, cumprir o programa traçado por Cristo. Tal partido, porém, a ninguém obrigaria, nem poderia obrigar, em consciência. Cada discípulo de Cristo teria a liberdade de aderir à Igreja tradicional (Católica) ou a uma das muitas comunidades «reformadas» ou mesmo de criar uma seita própria segundo sua intuição pessoal. O cristão poderia julgar «a sua Igreja» e trocá-la por outra, caso ela lhe parecesse não mais realizar o ideal de Cristo...

 

Em suma, far-se-ia com a mensagem de Cristo o que modernamente se tem feito com a mensagem de Karl Marx (o arauto do «messianismo materialista»): existe o marxismo leninista, o trotzkista, o stalinista, o krutcheviano, o do General Tito...; embora estas diversas correntes se excluam mutuamente (haja vista o degredo de Trotsky, a «destalinização» empreendida por Krutchev), nenhuma delas pode pretender ser porta-voz absoluto do pensamento de Marx; cada qual representa uma tentativa de realizar o ideal marxista. — O mesmo se daria com a Igreja Católica, o Luteranismo, o Calvinismo, o Presbiterianismo, o Metodismo...; seriam meras escolas que educam, com maiores ou menores vantagens, os homens na observância dos ensinamentos de Cristo; ninguém, porém, juraria pela santidade de alguma delas.

 

Assim proposto o problema, pergunta-se: como julgar a posição aparentemente sábia e prudente de tantas pessoas que não se querem comprometer com a Igreja, asseverando poder ser perfeitos discípulos de Cristo sem ser necessàriamente católicos ?

 

Para responder à questão, consideraremos sucessivamente os seguintes pontos: 1) o que a Igreja de Cristo não é propriamente; 2) o que a Igreja é essencialmente; 3) materialização grosseira ou infantilismo primitivo? Ao que se seguirá breve conclusão.

 

1. O que a Igreja de Cristo não é propriamente

 

Removam-se quatro conceitos inadequados:

1) A Igreja de Cristo na terra não é apenas uma sociedade de santos.

 

O Senhor Jesus no Evangelho o inculcou repetidamente, comparando a sua Igreja a um campo no qual, por desígnio mesmo de Deus, hão de existir, lado a lado, até o fim do mundo, a erva boa ou o trigo e a erva má ou o joio (cf. Mt 13,24-30.36-43). Comparou também a Igreja a uma rede para onde convergem peixes bons e maus, entre os quais se fará no fim dos tempos (e somente no fim dos tempos) a devida separação (cf. Mt 13,47-50). Mais ainda: Jesus confrontou a sua Igreja com uma sala de festim nupcial, onde, ao lado de muitos convivas dignos, se acha quem não tenha a devida veste (cf. Mt 22,1-14).

 

Destes trechos do S. Evangelho se depreende que falsificaria o pensamento de Cristo quem pretendesse encontrar na Igreja peregrina na terra apenas membros santos e exemplares de virtude. A ninguém é licito apregoar um conceito de Igreja «santa» como o bom senso humano julga que Ela deva ser santa, independentemente da maneira como Jesus a concebeu. O Senhor, melhor do que os homens, sabe e pode garantir a santidade da sua Igreja: ...como se verá explicitamente adiante, embora Ela (por admirável condescendência divina) inclua em seu seio membros pecadores, a Igreja como tal não é contaminada nem desvirtuada pelas faltas de seus filhos; antes, é a primeira a repudiá-las.

 

2) A Igreja de Cristo não é uma sociedade meramente invisível ou espiritual.

 

Justamente por averiguarem a existência de pecadores dentro da Igreja, alguns mestres cristãos no decorrer dos séculos quiseram asseverar que a verdadeira Igreja só subsista nos justos e santos. Dessa tese facilmente ainda deduziam a seguinte conclusão: a organização visível e jurídica necessária a qualquer forma de governo humano seria algo de estranho à essência da Igreja.

 

Na verdade, tais sentenças não correspondem ao autêntico desígnio de Deus. — Por que não ? — O mistério da Encarnação é central no plano do Pai. Em consequência, todos os caminhos normais de Deus ao homem e do homem a Deus refletem de algum modo esse mistério e são caminhos assinalados por notas sensíveis e objetivas, nunca reduzidos ao foro meramente interno da consciência ou ao plano puramente espiritual. A Igreja do séc. XX deve-se achar em linha de continuidade visível com a Igreja dos Apóstolos e dos primeiros discípulos, continuidade tornada visível por determinada organização externa, determinados ritos, determinadas leis, etc.

 

Como reconhece o exegeta protestante Armitage Robinson, a idéia de que possa haver muitas sociedades cristãs juridicamente independentes umas das outras, unidas entre si por um vinculo meramente espiritual ou pela «unidade do espírito» apenas, é «totalmente estranha ao pensamento de S. Paulo» (cf. Ephesians, 2a ed. pág. 93). Onde há uma alma ou espírito sobre a terra, há normalmente um corpo, e um só corpo. Querer dissociar o Espírito e o Corpo da Igreja equivale a tentar separar o que Deus uniu.

 

É o que Pio XII oportunamente lembrava nos seguintes termos :

«Afastasse da verdade divina quem imagina uma Igreja que não se possa ver nem apalpar, Igreja que seja meramente espiritual, na qual as numerosas comunidades cristãs, se bem que divididas entre si pela fé, estariam não obstante unidas por um liame invisível» (enc. «Mystici Corporis Christi», de 29/VI/43).

 

3) A Igreja de Cristo não é propriamente uma sociedade de beneficência temporal ou corpórea.

 

Não há dúvida, o Senhor Jesus incutiu a prática das obras de caridade corporal como «dar de comer a quem tem fome, vestir os nus, tratar dos doentes, visitar os encarcerados...» (cf. Mt 25,31-46). Aos cristãos e às autoridades eclesiásticas incumbe certamente a obrigação de atender a tais tarefas. Contudo a missão da Igreja não se define cabalmente por essas atividades; a beneficência corporal, segundo a concepção cristã, visa antes do mais criar um ambiente dentro do qual a beneficência espiritual ou a cura de almas seja desenvolvida de maneira mais fácil e normal. Pode haver, porém, a plena realização da missão da Igreja (que é levar as almas a Deus) sem que haja necessariamente extinção da miséria corporal; a cruz, aliás, é fecundo canal de santificação, que o Pai do Céu não costuma subtrair às almas. Por isto declarava Jesus: «Os pobres, sempre os tereis convosco» (Mt 26,11), fazendo eco, de resto, a uma predição do Antigo Testamento : «Nunca faltarão pobres nesta terra» (Dt 15,11).

 

4) A Igreja não é mera escola de sabedoria.

 

Poder-se-ia ainda apreciar a Igreja por quanto Ela realizou em prol dos estudos e da cultura através dos séculos; os seus grandes Doutores, sem plano preconcebido, se tornaram os guardas de uma filosofia dita «perene», a qual não é senão a filosofia grega cultivada por Platão e Aristóteles, e mais tarde burilada por S. Tomás e os escolásticos. Foram os monges que salvaram da ruína no fim da Idade Antiga os tesouros literários e jurídicos do Império Romano.

 

Contudo enganar-se-ia quem quisesse estimar a Igreja como portadora de mensagem apenas para a inteligência humana. Incontestavelmente, ela muito valoriza o estudo. Não pode, porém, ser equiparada a alguma das escolas de filosofia deste mundo; a sua missão não é propriamente a de guardar e transmitir civilização. O Apóstolo S. Paulo faz mesmo questão de realçar um certo contraste com a inteligência que está nas origens da história da Igreja:

 

«Na verdade, a doutrina da cruz é insensatez para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, é forca de Deus. Pois está escrito: 'Destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei a ciência dos doutos' (Is 19,14). Onde está o sábio ? Onde o doutor ? Onde o argumentador deste século ? Deus, porventura, não demonstrou ser insensata a sabedoria deste mundo? Pois, desde que o mundo, por meio de sua sabedoria, não conheceu a Deus na sabedoria de Deus, aprouve a Deus salvar os crentes por meio da loucura da pregação. Ao passo que os judeus exigem milagres e os gregos andam em busca de sabedoria, nós, da nossa parte, pregamos Cristo crucificado, o que é escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Para aqueles, porém, que foram chamados — tanto judeus quanto gregos — é o Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é considerado loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é considerado fraqueza de Deus é mais forte do que os homens» (1 Cor 1, 18-25).

 

Em conclusão: embora a Igreja brilhe no mundo pelo cultivo da verdade (e brilha a este título como nenhuma outra sociedade), Ela pode apresentar aspectos que desconcertem o observador imbuído do ideal de uma sabedoria meramente humana ou filosófica.

Propostas estas observações de índole negativa, faz-se mister agora considerar

 

2. O que a Igreja é essencialmente

 

Os escritos do Novo Testamento apresentam a Igreja através de duas imagens: a do Corpo, em que Cristo é Cabeça e os cristãos são membros (imagem paulina ; cf. 1 Cor 12); a da Videira, da qual Cristo é tronco e os fiéis são ramos (imagem joanina; cf. Jo 15).

 

Estas duas metáforas dão a ver algo de novo em confronto com as noções que acabamos de analisar: a Igreja é uma entidade viva, e não uma instituição inanimada. Como Corpo de Cristo, Ela continua, do seu modo, o mistério da Encarnação ou, em outros termos, é como que a Encarnação prolongada do Filho de Deus, a fim de comunicar a vida de Cristo a todos os homens.

 

Uma figura ilustra o que dizemos: tenha-se em mente um seixo atirado num lago; depois de percorrer a trajetória no ar, esse pedregulho subtrai a sua presença visível ao observador, mergulhando na água; mas, justamente ao desaparecer, desencadeia na bacia liquida uma série de círculos concêntricos, cada um dos quais é portador do dinamismo mesmo ou da «vida» do pedregulho; é a força motriz do seixo que prolonga a sua presença em cada um dos círculos concêntricos até os confins das águas. Ora algo de semelhante se deu com Cristo : depois de percorrer seu currículo de vida humana na Palestina, subtraiu sua presença sensível aos homens; mas subtraiu-a justamente para poder prolongar a sua eficácia ou prolongar-se misteriosamente (misticamente) até o fim dos séculos. Ele está presente em cada círculo concêntrico que d'Ele se deriva, ou seja, em cada geração de discípulos que O aceitam através dos séculos. É a vida do Cristo ou o próprio Cristo que vamos encontrar nessa sociedade de discípulos, de sorte que a última onda concêntrica da longa série vem a ser, por assim dizer, a última face ou a face atual contemporânea do Filho de Deus. Se, portanto, alguém deseja encontrar o Cristo no séc. XX, basta-lhe procurar a linhagem de discípulos do Cristo que, sem hiato nem reforma, retrocede em continuidade ininterrupta até os Apóstolos e até Cristo. E essa linhagem é una e única: é a Igreja Católica (porque universal), Apostólica (porque se liga diretamente aos Apóstolos), também dita Romana.

E porque... Romana?

 

Este título nada tem que ver com nacionalismo ou relativismo. Para entendê-lo, leve-se em conta que já o Filho de Deus, vivendo visivelmente aqui na terra, não podia deixar, de ter uma cidadania terrestre ou humana; Ele foi dito «Jesus de Nazaré» ou «o Nazareno», filho de tal família e tal povo, domiciliado em tal localidade, embora a personalidade íntima de Jesus transcendesse todos os espaços geográficos e abraçasse o mundo inteiro. Assim é a Igreja de Cristo: católica ou universal, transcendendo os particularismos de povos e regiões, Ela, não obstante, tem uma «carteira de identidade» humana, já que Ela toma contato com o mundo por meio de homens; o título da Igreja correspondente ao título «Nazareno» de Jesus é o apelativo de «Romana» ; ... Romana, porque o Vigário visível de Cristo na terra é sucessor de São Pedro, Apóstolo que morreu em Roma como bispo de Roma. A designação de «Igreja Romana», portanto, não exprime senão mais uma faceta do mistério da Encarnação do Filho de Deus. Não há Igreja de Cristo que não seja a Igreja Católica Apostólica Romana, como não houve Jesus aqui na terra que não fosse Jesus o Nazareno. Cf. «P.R.» 14/1959, qu. 2 e 3.

 

Destas considerações se depreende outrossim que é impossível aderir a Cristo sem aderir à Igreja de Cristo que, pelo motivo indicado, é dita «Igreja Romana». Separar conscientemente (não falamos dos casos de ignorância ou de consciência pouco esclarecida) a tríade «Deus — Cristo — a Igreja» vem a ser, em última análise, o mesmo que renegar o próprio Deus, pois não há outro Deus senão Aquele que se manifestou por Cristo e continua a se comunicar pelo Corpo Místico de Cristo ou pela Igreja. Esta, longe de ser um intermediário contingente e supérfluo entre Deus Pai e os homens, deve ser tida como o âmbito ou o Corpo no qual o Senhor Deus em nossos dias se dá a conhecer às criaturas.

 

São Tomás exprimiu concisamente estas idéias nos dois textos abaixo transcritos:

«Aqueles que estão na Igreja, não recebem a doutrina nem dos Apóstolos nem dos Profetas, mas de Deus mesmo; e, segundo S. Agostinho, o próprio fato de que os fiéis aprendem por meio de homens deve-se a Deus, que ensina no interior dos corações. 'Um só é o vosso Mestre : Cristo'» (In Io 6, lect. 5).

 

Com estes dizeres o S. Doutor não nega a função dos pregadores (Profetas) e da hierarquia visível da Igreja (Apóstolos), mas salienta a índole transparente que a face humana da Esposa de Cristo deve ter para os seus observadores: é Deus mesmo quem fala quando a Igreja se pronuncia oficialmente; embora se sirva de órgãos humanos para se dirigir aos homens, o Altíssimo e sua verdade não sofrem desvirtuamento; embora haja muitos arautos da Palavra de Deus na Igreja, eles não são senão porta-vozes do único Mestre, Cristo, desde que ensinem a doutrina da Igreja.

 

O segundo texto de S. Tomás que importa aqui citar, desperta na memória do leitor a imagem dos círculos concêntricos. Com efeito, referindo-se a 1 Cor 4,15s, trecho em que S. Paulo exorta os fiéis a imitarem o Apóstolo, pai espiritual da comunidade, observa o Angélico:

 

«Os fiéis haviam de imitar a Paulo na medida mesma em que Paulo imitava a Cristo, o qual (como Homem modelo) é de todos o Pai por excelência» (In 1 Cor c. 4, lect. 3,2,2).

 

Por sua vez, este texto incute o fato de que na Igreja os moldes e as estruturas oficiais encerram e comunicam o Divino, sem o contaminar: uma só paternidade, a de Cristo, passa por canais vários, até atingir cada um dos fiéis que em Cristo renascem pelo sacramento do Batismo, no séc. II, como no séc. X, como no séc. XX... É realmente o mistério da Encarnação que assim prolonga seus efeitos.

 

A esta altura, porém, talvez vá tomando vulto na mente do leitor uma dificuldade, para a qual havemos de voltar a nossa atenção.

 

3. Materializarão grosseira ou infantilismo primitivo ?

 

1. A muitos pensadores, antigos e modernos, causou estranheza a acentuação do «material» ou do «concreto» que caracteriza o Cristianismo. A estima que o cristão atribui aos sinais sensíveis, parece constituir um resquício de mentalidade primitiva: é geralmente o homem de caráter infantil que recorre a manifestações externas na sua prática religiosa; à medida, porém, que alguém se aproxima da maturidade espiritual, mais e mais se emancipa de moldes sensíveis; a religião, dizem, tende então a tornar-se meramente espiritual, à semelhança da de tantos filósofos modernos.

 

Esta tese, por muito capciosa que seja, fica totalmente alheia à mensagem do Evangelho; na verdade, o Criador é o Autor não somente dos espíritos, mas também da matéria; criando a esta, Ele lhe quis assinalar um papel, e papel grandioso, na santificação das almas e na glorificação do Senhor Deus.

 

2. Em vez de desenvolver considerações teóricas sobre o assunto, ilustramo-lo por dois fatos históricos de grande significado.

 

O primeiro é relatado por S. Agostinho (Confissões VIII 2, 3s). Nos séc. IV e V, em torno de Agostinho vivia um círculo de estudiosos que, passando por diversas escolas, estavam, como o Hiponense, à procura da verdade. Entre eles, destacava-se um filósofo neoplatônico chamado Mário Vitorino, o qual, imbuído de todas as disciplinas liberais da sua época, era o mestre acatado de numerosos e nobres senadores romanos; a sua estátua fôra mesmo erguida no Foro de Roma. Pois bem; vivendo fora do Cristianismo, Mário Vitorino (como refere Agostinho) lia com atenção as Escrituras Sagradas e os respectivos comentários. Um belo dia, chegou-se a Simpliciano, um dos cristãos do círculo, e lhe disse secretamente : «Sabes que agora sou cristão ?» Replicou Simpliciano : «Não acredito; não te considerarei cristão, enquanto não te vir na igreja de Cristo». Ao que Vitorino respondeu com sorriso sarcástico : «Então são as paredes que fazem o cristão ?» Daquele momento em diante o filósofo afirmava insistentemente que era cristão; Simpliciano, porém, lhe opunha sempre a mesma resposta, diante da qual Vitorino repetia sua pergunta irônica... Entrementes Vitorino continuava avidamente a ler escritos cristãos, até que um dia concebeu firme resolução... : «acabara percebendo que se tornaria réu de verdadeiro crime, se se quisesse envergonhar dos mistérios instituídos pelo teu Verbo (ó Pai) nos dias da sua humilhação (... da sua vida terrestre)». Sem demora, então, foi dizer a Simpliciano : «Vamos à igreja; quero tornar-me cristão». Não se contendo de alegria, Simpliciano acompanhou-o incontinenti. Assim Mário Vitorino, o grande filósofo, começou a percorrer as humildes etapas da catequese cristã, e finalmente alistou-se entre os candidatos ao sacramento do Batismo. «Roma, diante disto, encheu-se de admiração; e a Igreja, de alegria», conclui Agostinho.

 

Tal episódio é típico, pois de certo modo se repete até os nossos dias. Sem dúvida, não são as paredes de um templo de pedras que fazem o cristão; Mário Vitorino bem o percebera; aos poucos, porém, mediante reflexão sincera, desvendou o nexo indissolúvel que une o Verbo Encarnado e a Igreja (a Igreja, com seus templos e suas ações sagradas, localizadas no tempo e no espaço). E rendeu-se a esse nexo, tomando consciência de que, para ser discípulo de Cristo, não podia deixar de ser humilde como o Verbo Encarnado foi humilde; não podia envergonhar-se da face sensível do Cristo em seu Corpo Místico, não podia recusar os sacramentos instituídos pelo Verbo Encarnado «nos dias da sua humildade»... — Profunda sabedoria! A experiência de Mário Vitorino e sua conclusão encerram válida mensagem também para o «sábio» do séc. XX.

 

Outro episódio digno de nota a este propósito é o que se deu com John Henry, Cardeal Newman (1801-1890). Pertencente à comunhão anglicana, Newman, pelos estudos que fez sobre a história do Cristianismo, chegou por volta de 1845 à evidência de que o Anglicanismo representa (como ele mesmo dizia) um cisma, enquanto a Igreja de Cristo, ininterruptamente ligada ao Senhor e aos Apóstolos através dos séculos, é a que tem seu chefe visível em Roma (Igreja Romana). Muito lhe custava, porém, do ponto de vista humano, deixar o Anglicanismo para aderir a Roma: com efeito, desde 1799 se apregoava a morte do último Papa; Pio VII fôra duramente maltratado e humilhado por Napoleão Bonaparte; o racionalismo e o materialismo pretendiam solapar os fundamentos da fé, ridicularizando a autoridade de Roma Na Inglaterra em particular, ser católico significava pertencer a uma minoria desprezada, à qual só recentemente haviam sido restituídos os direitos civis mais rudimentares... Newman mesmo confessava não experimentar atrativo algum para com os fiéis de Roma. Não obstante, deu o passo e, sacrificando antigos hábitos, relações sociais e vantagens temporais, aceitou em plenitude o mistério do Verbo Encarnado ou do Verbo «humilde» no seu único Corpo Místico ou na sua Igreja. Por muito que haja sofrido em consequência de tal gesto, Newman nunca o lamentou.

 

3. De resto, o menosprezo que o «bom senso dos sábios» dedica à face humana da Igreja não é senão a continuação do menosprezo ou do escândalo que muitos conceberam outrora em presença do Filho de Deus feito homem na Palestina. Jesus mesmo notava que, em virtude do mistério da Encarnação, Ele era apto a suscitar não somente admiração e entusiasmo, mas também embaraço e perplexidade. Com efeito, solicitado a declarar se era o Messias, o Senhor apontou, de um lado, evidentes sinais da sua Divindade; predisse, porém, outrossim a sua aniquilação «escandalosa» por ocasião da crucifixão, quando O haveriam de desafiar a salvar a Si mesmo, depois de haver salvo a tantos infelizes:

 

«João, que se encontrava no cárcere, ao ter noticia das obras de Cristo, mandou perguntar-Lhe por intermédio de seus discípulos : 'És o que há de vir ou devemos esperar outro ?'.

Jesus respondeu-lhes : 'Ide e contai a João o que ouvis e vedes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosas são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, os pobres são evangelizados. Bem-aventurado, porém, aquele que não se escandalizar a meu respeito'» (Mt 11, 2-6).

 

Se a humanidade de Cristo pôde outrora na Palestina produzir surpresa ou escândalo, embora fosse isenta de pecado, não é para estranhar que o Corpo Místico de Cristo ou a Santa Igreja (a qual carece de toda mancha e ruga ; cf. Ef 5, 27) possa também causar perplexidade a quem a considere superficialmente. «Bem-aventurado, porém, aquele que não se desconserta diante de tais aspectos do mistério da Encarnação», proclama o Senhor Jesus. É justamente na fraqueza e pela fraqueza do homem que se manifesta a forca de Deus, observa São Paulo (cf. 2 Cor 12, 9s). Por isto a Santa Igreja não se surpreende com as deficiências de seus filhos; Ela as verifica serenamente, condena-as na medida em que devem ser condenadas; sabe, porém, que de modo nenhum entravam o plano de Deus a se realizar pela Igreja mesma; em consequência, Ela continua a anunciar ao mundo a Boa Nova da Redenção pela Encarnação e pelos sacramentos (a água do Batismo, o pão e o vinho da Eucaristia, o óleo da Crisma, a absolvição sacramentai, etc. ...). Tenha-se por certo, aliás, que nenhum dos membros da Igreja, nem mesmo os mais elevados na hierarquia, se identifica integralmente com a Igreja; na medida em que o homem velho e a desordem original subsistem em cada cristão, nessa medida mesma ele deixa de ser Igreja, para ser terra pagã, terra a ser ainda conquistada para o Evangelho e o Cristo; assim vê-se que a linha de demarcação entre «Igreja» e «Não-Igreja» passa pelo íntimo mesmo da alma de cada fiel católico. — Quanto é importante ter-se clara consciência disto !

 

3. Conclusão

 

1. As considerações até aqui propostas visavam todas evidenciar a impossibilidade de ser alguém «perfeito cristão» e «péssimo católico» ou mesmo «não-católico».

 

São inseparáveis entre si Cristo e a Igreja (aquela única Igreja que hoje em dia se liga a Jesus e aos Apóstolos sem interrupção através da história, Igreja dita «Romana» como Jesus foi dito «Nazareno»).

 

Em consequência, só resta uma atitude lógica para todo discípulo de Cristo: a de pulsar com a Igreja («sentire cum Ecclesia»), abraçar as grandes intenções da Esposa de Cristo na hora presente e no mundo inteiro. Qualquer tentativa de crítica aos aspectos humanos da Igreja é algo de vão e hediondo por dois motivos principais:

a) as críticas que alguém pretende dirigir à Igreja, na verdade não a atingem, mas afetam apenas «o velho homem» ou «o reino do pecado» existente nos filhos da Igreja, reino do pecado com o qual a Igreja não se identifica. Apesar dos erros que possam cometer seus filhos (mesmo membros do clero), a Igreja conserva seu poder de santificar, desde que nela cada um procure o que Ela mesma diz ser essencial, e não fique preso a coisas acidentais. Em última análise, as críticas feitas à Igreja recaem sobre o próprio autor da crítica, pois este certamente participa da natureza do velho homem que ele incrimina no próximo.

b) A um católico em particular dir-se-á: não há bom filho que se detenha voluntariamente em criticar sua mãe. É mesmo impossível a um católico considerar a Igreja qual mero observador (a Igreja não são simplesmente «eles, os padres ou os outros», mas a Igreja sou «eu», pois Ela tem assento diretamente em mim, pensa o verdadeiro discípulo de Cristo), como seria impossível ao membro de um organismo julgar a doença de outros membros sem se sentir envolvido na situação.

 

2. Em vez de condenar e esmagar, cada verdadeiro católico procura carregar as fraquezas do próximo, consciente de que nisto há grande proveito mesmo para quem carrega; com efeito, são muito verídicas as palavras de São Gregório Magno: «Qui portat alterum, portatur ab altero. — Quem carrega o próximo, é carregado pelo próximo» (In Ez n 1). Não há indivíduo tão perfeito que não possa receber, como não há tão imperfeito que não possa dar. Para o cristão, não existe individualismo religioso (no sentido de separatismo). No plano de Deus, todos são chamados a se santificar em comunhão visível com a Igreja (fora naturalmente casos excepcionais de boa fé pouco esclarecida).

 

Na perspectiva do próximo Concilio Ecumênico, o Santo Padre exorta insistentemente os fiéis a um exame de si mesmos e à tomada de consciência da responsabilidade que a cada um incumbe, a fim de criar na Santa Igreja um ambiente cristão muito puro e denso, ambiente que mostre vivamente aos irmãos separados a verdadeira face da Igreja de Cristo.

 

A cada fiel católico compete responder a esse apelo ; cada qual procurará, pois, construir o Corpo Místico, se não por suas palavras e atividades (o que não é o dom de todos), certamente por sua presença perseverante e fiel no lugar que Deus lhe assinalou dentro da Santa Igreja.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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