PERGUNTE e RESPONDEREMOS 033 – setembro 1960

 

O Faquirismo

INICIADO (Belo Horizonte): «Que pensar dos faquires? Não estarão munidos de especial assistência divina para fazer os prodígios que fazem?»

 

Analisaremos abaixo em que consiste pròpriamente o faquirismo, a fim de poder proferir um juízo adequado sobre o mesmo.

 

1. O regime de vida e a atuação dos faquires

 

O vocábulo «faquir» provém do árabe faquir, pobre, mendigo (sinônimo do persa derwiche, mendigo), e designa homens religiosos, geralmente hindus, que, mediante vida muito pobre e austera, tentam dominar os sentidos e procuram alcançar a perfeição espiritual. O credo religioso desses devotos pode variar do hinduísmo (bramanismo, budismo...) ao islamismo, apresentando não poucas modalidades de sincretismo. Muitos faquires (principalmente maometanos) vivem filiados a determinada sociedade religiosa, seguindo regras e ritual comuns; outros, ao contrário, são independentes de qualquer corporação religiosa.

 

Entre as insígnias características de vários dos tipos de faquires, mencionam-se: uma capa de feltro negro ou branco, às vezes a pele de um animal; pequeno bordão de madeira ou de metal, um saco de pele de cordeiro, um prato para recolher esmolas, um rosário de 33, 66 ou 99 contas, correspondentes ao número de atributos de Deus, além de cabeleira e barba longas.

 

O «Baghavata Pourana» (III 7, 13), código de espiritualidade hindu, inculca aos faquires algumas normas de conduta, que se podem resumir nas três seguintes:

1)             enquanto goza de saúde, o faquir deve adotar a vida errante; possuindo unicamente o seu corpo, detenha-se apenas uma noite em cada lugar habitado e percorra a terra sem se comprometer com pessoa alguma;

2)             tenha como vestuário somente um pedaço de pano; entre os seus utensílios, não possua mais do que um cajado e as outras poucas insígnias de peregrino religioso;

3)             embora seja mendigo, o faquir nutra júbilo íntimo, seja amigo de todos os seres, calmo, insensível tanto à dor quanto aos prazeres da natureza, procurando unir o seu espírito individual à alma universal (proposição panteísta).

 

Modalidade própria de faquirismo é a dos chamados «synniassis», os quais declinam para o plano do irrazoável e fanático; alguns vivem enterrados até a cintura ou sentados em estrados de pregos; outros dilaceram o corpo a golpes de chicote; mais outros conservam erguido um de seus braços, deixando crescer uma planta em sua mão semicerrada, cheia de terra e terminada em dedos anquilosados; há também os que cerrem perpetuamente os punhos, de modo que as unhas vão penetrando na carne meio-putrefata. O suicídio religioso é praticado entre eles por meio do karivat, meia-lua cortante de cujas extremidades pendem correntes, rematadas cada qual por um estribo; o faquir coloca a meia-lua sobre a sua nuca, os pés dentro dos estribos e, mediante forte impulso dos pés, amputa violentamente a própria cabeça.

 

As narrativas de viagens feitas ao Oriente referem qualidades e feitos prodigiosos verificados entre os faquires, tais como insensibilidade e invulnerabilidade: os faquires podem-se deitar sobre pontas agudas, caminhar sobre o fogo, etc., sem experimentar dores nem chagas; levitação ou arrebatamento acima do solo; suspensão da vida ou morte aparente; aceleração de crescimento de vegetais e animais; clarividência; moção de corpos à distância.

 

Esses apregoados fenômenos solicitam a atenção do estudioso, o qual não se pode furtar à pergunta:

 

2. Como explicar os portentos do faquirismo?

A resposta se desenvolverá em quatro etapas:

 

2.1. Será preciso não exagerar o alcance religioso nem o aspecto portentoso dos fenômenos faquíricos. Os faquires hão de ser considerados, antes do mais, como homens religiosos que, pelo domínio de sua natureza, procuram viver conforme o espírito mais do que conforme a matéria; se a sua conduta toma não raro um caráter teatral ou espetacular (caráter que os palcos e circos do Ocidente exploram quase unicamente), isto não deve ser focalizado em primeiro lugar nem descrito em termos exagerados. É o que nos inculca um autêntico brâmane hindu, Rex Hohini Mohan Chaterje, a quem o escritor francês Paul Heuzé relatou quanto de portentoso se diz a respeito dos faquires no Ocidente; o oriental respondeu:

 

«É motivo de surpresa para nós, hindus, ler os feitos prodigiosos que os viajantes descrevem ao se referirem à nossa terra. Nossos faquires são simples mendigos ou uma pobre gente que, na medida do possível, procura ganhar a vida, desenvolvendo com habilidade algumas artimanhas» (P. Heuzé, Fakirs, Fumistes et Cie., citado por M. Colinon, Faux prophètes et'sectes d'aujourd'hul. Paris 1953, 24).

 

Na base deste e de semelhantes depoimentos, vê-se que não se devem com facilidade supor intervenções de Deus nem fenômenos propriamente milagrosos ou sobrenaturais no faquirismo. A atuação dos faquires tem, via de regra, explicação natural, como abaixo se dirá.

 

2.2. Bom número de fenômenos faquíricos é produto de reações paranormais da alma humana.

N. b.: paranormal é o que fica ao lado do normal, sem por isto ser anormal ou contrário ao normal. As reações paranormais vêm a ser as que não se registram nos estados habituais da alma humana, pois são projeções do cabedal de faculdades e conhecimentos que toda criatura humana traz latente em sua subconsciência.

 

As reações paranormais, o faquir as provoca submetendo-se a uma rígida disciplina (domínio de seus pensamentos e afetos, regime de alimentação, consumo de certas drogas naturais, etc.), que lhe permite aproveitar ao máximo as potencialidades de seu organismo.

Assim é que no faquirismo se apontam, entre outros, os seguintes fenômenos paranormais:

 

A rigidez de corpo faquírica corresponde a um dos graus do sono letárgico, ou seja, ao estado de catalepsia. Nessa fase letárgica (que é provocada pelos estudiosos sem apelo para a religião), o paciente pode realmente repousar sobre dois suportes apenas (um debaixo da nuca, outro debaixo dos calcanhares) sem perder o equilíbrio; com um pouco de treino, o mesmo paciente chega a sustentar o peso de outra pessoa sentada sobre o seu abdômen.

 

A insensibilidade ou a capacidade de ser alguém perfurado por estiletes pontiagudos sem experimentar dor é outro estado letárgico, que se produz por meios meramente naturais.

 

Merece particular atenção o «prodígios do faquir que se deita tranquilamente sobre uma prancha crivada de pontas de pregos voltadas para cima. Analisando-se de perto o fenômeno, verifica-se que o corpo do indivíduo, em tal caso, repousa sobre uma média de duzentos pregos distribuídos de modo mais ou menos uniforme (para comprovar isto, coloque-se uma tênue folha de papel de seda sobre os pregos e examine-se no papel tanto o número como a colocação das pontas dos pregos). Por conseguinte, cada prego suporta o peso de 350 gr aproximadamente, quando o faquir está deitado a sós, ou de 700/800 gr, dado que outra pessoa se ponha sobre ele. Ora essas pressões uniformemente distribuídas não são tais que provoquem ferimento do corpo humano.

 

Digno de nota é também o fenômeno da insensibilidade à temperatura; os faquires, como os magos em geral, são considerados «senhores do fogo»: engolem brasas, tocam ferro incandescente, caminham sobre o fogo, sem se ferir. São também portadores de um «calor mágico» característico; com efeito, o processo de iniciação no faquirismo e na magia implica muitas vezes a prova da resistência ao frio: na Manchúria, por exemplo, os mestres cavam, em pleno inverno, nove buracos no gelo de um lago ou do mar, e exigem do candidato apareça sucessivamente em cada um desses orifícios nadando por debaixo do gelo. Entre os esquimós do Labrador semelhante prova é realizada; já se registrou ai o caso de um candidato que passou cinco dias e cinco noites no mar gelado, demonstrando finalmente que nem sequer estava molhado. Na índia e no Tibé verifica-se a que grau de preparo chegou um discípulo do faquirismo, medindo-se a sua capacidade de fazer enxugar panos e lenços molhados pelo simples contato com o seu corpo desnudo em uma noite de inverno e de neve: os jovens conseguem por essa via fazer secar grande número de panos no decorrer de uma só noite.

Como se explicam tais fenômenos?

 

Eis a solução: o estado místico é muitas vezes comparado a um estado de fervor ou ardor; o maometano ainda hoje na Índia julga que o homem que entra em comunicação com Deus, se torna ardente ou fervente. Excitados por esta imagem, os faquires e magos orientais provocam em si, mediante um processo parapsicológico ou mediante o transe, um calor interior que os imuniza tanto contra o frio extremo das geleiras e nevadas como contra a temperatura abrasadora do fogo e dos corpos incandescentes. Note-se bem que nisso tudo se trata exclusivamente de fenômenos naturais ou de domínio e aproveitamento requintados das energias latentes no organismo, sem que haja intervenção de forças sobrenaturais.

 

Quanto aos fenômenos de clarividência, telecinesia e telestesia, são evidentemente expressões de faculdades latentes na alma humana que, sob a ação de determinados estímulos, se manifestam, acarretando grande surpresa para os espectadores.

 

O estado de morte aparente, por sua vez, pode ser induzido por via de letargia; assemelha-se ao estado de vida latente, que os biólogos têm reconhecido em animais vertebrados e invertebrados.

 

2.3. Outra categoria, não desprezível, de fenômenos faquíricos se explica pelo emprego de artifícios (ou truques). Dizem os estudiosos que nas terras de faquires, principalmente na Índia, o público não se preocupa com a averiguação de honestidade ou fraudulência dos faquires. Estatísticas empreendidas na Índia entre pessoas interessadas no assunto deram a saber que 81% do público crê que realmente os faquires são «super-homens» a quem ninguém pode resistir. Ora a opinião pública tão fortemente formada não somente sugestiona inconscientemente o faquir, mas também obriga-o a corresponder conscientemente à expectativa e aos dizeres do povo; o faquir se vê constrangido a se comportar como taumaturgo, como filho dos deuses, ainda que para isto deva recorrer a artifícios e truques.

 

Narra-se mesmo que Scarha Bey, egípcio sincero dado ao faquirismo. certa vez após uma série de experiências resolveu declarar lealmente a seus espectadores: «Não faço milagres. Tudo que acabo de realizar, é mero resultado de longo treino. Qualquer de vós pode fazer as mesmas coisas». O público então pôs-se a protestar violentamente. Alguns dos espectadores subiram ao palco com a intenção de provar ao faquir que ele era, sem o saber, um inspirado, um curandeiro, um adivinho! Apesar de suas renovadas declarações, Scarha Bey não conseguiu desfazer a ilusão de seus «clientes». — O público quer deleitar-se com a sensação do maravilhoso, e dificilmente tolera ser desiludido de suas crendices! (Noticia colhida na obra citada de M. Colinon, pág. 29).

 

Alguns dos truques faquíricos tornaram-se de conhecimento geral. Basta mencionar os que ocorrem no «sepultamento» de um faquir. Na índia, pode acontecer que um «iniciado» permaneça enterrado durante três ou seis meses e saia vivo do túmulo... Como suporta tal situação? — É simples, respondem os peritos: o interessado toma providências para que o pretenso túmulo esteja em comunicação subterrânea com o porão de um imóvel qualquer, para onde o faquir se retira oportunamente a fim de se reabastecer; está claro que a situação é muito incômoda, faz emagrecer, exige heroísmo..., mas nada tem de sobrenatural. Na França, dizem, os faquires costumam ficar apenas uma ou duas horas no túmulo (o que certamente já é extraordinário); em tais casos, a única cautela a tomar é a de assegurar que dentro do sepulcro haja o volume de ar necessário para que o faquir respire (muito incomodamente, aliás) durante o tempo da provação.

 

Observe-se mais o seguinte: narram-se alguns fenômenos de faquirismo que os taumaturgos nunca reproduziram em presença de estudiosos e que, por isto mesmo, não podem merecer séria atenção. Tal é o caso do ropetrick: uma corda atirada ao ar ai parece permanecer suspensa, como que presa às nuvens apenas; uma criança que suba por essa corda, desaparece; de repente, o seu sangue salpica a multidão que sobre a terra contempla, pasma, o fenômeno; em breve, porém, o acrobatazinho é restituído ao solo!

 

Pois bem; a respeito deste fenômeno realmente intrigante duas observações devem ser feitas: 1) conforme as narrativas, só pode ser «realizado» na Índia; 2) nunca se encontrou um testemunha ocular de tal prodígio: todas as comissões de inquérito que foram à Índia para estudar o caso, voltaram sem o ter presenciado; o jornal «Times of India» chegou a oferecer 10.000 rúpias (quantia não desprezível) a quem efetuasse tal experiência à vista de peritos em Bombay; em vão, porém, pois ninguém se rendeu ao apelo. — Ora estes fatos são suficientes para que num estudo ponderado não se leve em conta o ropetrick.

 

Outros prodígios faquíricos são referidos em narrativas tão imprecisas e contraditórias que já não podem ser submetidos a uma investigação científica. Para se dizer a última palavra na análise das diversas manifestações do faquirismo, requer-se um elemento que ainda falta, isto é, um catálogo de fatos que realmente tenham ocorrido e que venham descritos com exatidão.

 

2.4. Para ilustrar como pode alguém ser vitima de ilusão ao apreciar fenômenos extraordinários, tachando-os de fenômenos religiosos e místicos, vai aqui citado um caso, entre muitos, famoso.

Na Índia, Mirin Dajo era um asceta holandês, convicto de gozar do dom da invulnerabilidade. Era mesmo cognominado «o homem invulnerável», pois mandava, par exemplo, que lhe atravessassem de ponta a ponta com uma espada aguda a parte superior do tórax, sem que com isto sofresse dano algum. Numerosos professores europeus examinaram o caso, não encontrando explicação para o fenômeno, que certamente não se devia a fraude ou truque. Mirin Dajo afirmou então ser imortal; agregaram-se-lhe alguns discípulos, venerando-o como Deus; em consequência, o mestre holandês fundou uma nova religião... Um belo dia toda a ilusão se desfez, porque na verdade o «deus» veio a morrer; morreu, sim, por ter engolido uma agulha que lhe perfurou o estômago...

 

À vista disso, os médicos e estudiosos verificaram que, embora os pulmões de Mirin Dajo tivessem sido várias vezes traspassados, o coração havia ficado intato. Tentaram então semelhantes experiências com animais, aos quais vararam o fígado, os rins, os pulmões, em condições semelhantes às de Mirin Dajo, sem que algum tenha morrido nem apresentado graves perturbações... Tendo averiguado isto, os médicos descobriram processos de autodefesa do organismo até época recente ignorados (tratava-se principalmente de processos de cicatrização, que foram sendo mais e mais explorados). Assim se concluiu que Mirin Dajo não era nem super-homem nem “deus”; equiparava-se aos demais homens; apenas tinha em seu favor, para realizar grandes façanhas, a consciência ilusória de ser um «iluminado»; era esta que o movia a fazer o que muitos outros homens poderiam efetuar, mas não efetuam, porque carecem de tal intuição ousada. Mirin Dajo não contradizia às leis da natureza; no dia em que tentou derrogar-lhes, colocando no estômago uma longa agulha, veio simplesmente a morrer. «O faquirismo que faz viver tanta gente, matou o único homem que nele tenha realmente acreditado» (M. Colinon, ob. cit. 31).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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