PERGUNTE e RESPONDEREMOS 032 – agosto 1960

 

Virtudes, Celibato e Latim

 

É difícil instituir comparação entre as virtudes. Cada qual tem sua grandeza e seu brilho peculiares; em última análise, todas são solidárias entre si, de modo que o progresso de uma virtude implica naturalmente no desenvolvimento das demais. Normalmente, nenhuma virtude cresce sem que as restantes com ela cresçam.

Não obstante, pode-se observar o seguinte esquema:

 

1) Se a raiz de todo pecado é a soberba (haja vista a transgressão de Adão no paraíso, que foi, em primeira linha, devida ao orgulho), o fundamento de toda vida virtuosa é a humildade. É a presença desta que faz que os hábitos bons de uma pessoa sejam motivos de louvor a Deus e enobrecimento do indivíduo, em vez de serem razões de vã complacência ou de endeusamento do próprio "eu" (o que equivale a dizer:... motivos de desfiguração do indivíduo).

 

Em particular, a castidade cultivada sem humildade pode tornar-se ocasião de desordem e aberração, como parece ter acontecido no caso das Religiosas de "Port-Royal", consideradas por M. de Péréflixe "puras como anjos, orgulhosas como demônios" (cf. "P.R." 31/1960, pág. 303). — Esta observação, porém, está longe de querer desvirtuar a grandeza da castidade e da virgindade consagradas a Deus.

 

2) Como virtude de cúpula, critério supremo de perfeição e santidade, enuncia-se a caridade (cf. Col 3,14). — A caridade, no caso, significa amor a Deus e ao próximo, seja este "simpático", seja "antipático" do ponto de vista natural.

 

O celibato do clero e o uso da língua latina entre os fiéis ocidentais não estão necessariamente ligados entre si. O fato de se acharem simultaneamente em vigor hoje em dia deve-se a fatores históricos independentes uns dos outros. Quem leu o histórico do celibato em "P.R." 4/1957, qu. 7 e 7/1957, qu. 7; poderá encontrar o histórico do uso do latim na liturgia em "P.R." 5/1957, qu. 3.

 

Em resumo: o celibato do clero representa um valor perene, digno de toda estima em qualquer época (cf. 1Cor 7,1-40), ao passo que o emprego do latim no culto sagrado é algo de contingente e transitório. Nunca a Santa Igreja teve a intenção premeditada de celebrar o culto em idioma alheio à língua materna dos fiéis; muito ao contrário... Apenas circunstâncias históricas levaram a autoridade eclesiástica a vedar o abandono do latim no séc. XVI, até que inconvenientes de momento, se esvanecessem. Ora estes já vão passando; em consequência, tem entrado cada vez mais o vernáculo nos ritos oficiais da S. Igreja. Aguardemos a evolução dos tempos.

 

Os ascetas de Qumran (judeus) cultivavam o celibato por motivo religioso, sem dúvida, ou seja, para melhor se aplicar ao serviço de Deus, à vida una, que é antecipação da vida celeste.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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