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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS No 25 – janeiro 1960

 

Jesus Cristo correspondeu às profecias do Antigo Testamento?

SAGRADA ESCRITURA

PIONEIRO (Distrito Federal):Jesus Cristo, por sua personalidade e sua obra, terá realmente correspondido às profecias do Antigo Testamento?

 

Na explanação desta questão, procuraremos mostrar como aos poucos, a partir do segundo milênio antes de Cristo, nos escritos do Antigo Testamento se vão delineando os traços característicos do Messias ou, mais precisamente, daquele mesmo Senhor Jesus Cristo que os Evangelhos de S. Mateus, S. Marcos, S. Lucas e S. João, no século I da era cristã, nos descrevem como Salvador do mundo.

 

1. A família e a pátria do Messias

 

A linhagem do Grande Personagem aguardado por Israel se acha esboçada nos seguintes textos, que, sobrepondo-se uns aos outros, caracterizam com traços cada vez mais precisos o vulto do Messias:

 

1.1 Logo no primeiro vaticínio da Bíblia (chamado «o Proto-evangelho»), o Salvador é anunciado como genuíno membro da estirpe humana:

«Porei inimizades entre ti (Satanás representado pela serpente) e a mulher, entre a tua descendência e o rebento da mulher. Este te esmagará a cabeça...» (Gên 3,15).

 

A tradição judaica e a cristã habituaram-se a ver no vitorioso «rebento da mulher» não apenas a descendência de Eva coletivamente entendida, mas o Messias propriamente dito. Este, portanto, é, logo de início, apregoado como verdadeiro homem.

 

1.2 Para obter a anunciada vitória, o Senhor benevolamente se servirá do tronco de Sem (semita), de tal modo que os demais povos da terra, prefigurados por Canaã (ou Cam) e Jafé, irmãos de Sem, conseguirão a salvação participando dos bens espirituais dos semitas. É o que se acha expresso nas palavras poéticas atribuídas a Noé em Gên 9,26s:

«Bendito seja Deus, Deus de Sem, E Canaã seja seu servo.

Deus dilate os espaços de Jafé;

Que Jafé habite nas tendas de Sem,

E Canaã seja seu servo!»

 

Neste trecho Deus é dito «Deus de Sem» porque, após Noé, estaria especialmente relacionado com Sem e sua posteridade, preparando mediante os semitas a vinda do Messias. Canaã é apresentado como «servo de Sem»; o que quer dizer: subordinado a Sem, por participar dos bens espirituais de Sem. O mesmo sentido toca à expressão: «Jafé habite nas tendas de Sem!»; designa, sim, a repartição amigável ou fraterna de bens religiosos que o Senhor haveria de depositar na linhagem de Sem por meio do Messias.

 

Correspondentemente a tais vaticínios, São Paulo no Novo Testamento (Rom 1,16 e 11,13-27) inculca o desígnio divino de dar salvação ao mundo inteiro mediante os semitas ou, mais exatamente, mediante os israelitas.

 

1.3 Precisando um pouco mais, a profecia anuncia que, dentre os semitas, o Patriarca Abraão e seu povo são particularmente escolhidos para constituírem a nação do Messias:

A Abraão promete o Senhor que sua posteridade (a qual culminará na pessoa do Messias) se tornará «fonte de bênção para todas as nações da terra» (Gên 12,3). A promessa é renovada a Isaque e a Jacó (cf. Gên 26,3-5; 27,28-30; 35,11).

 

1.4 O panorama sofre nova restrição. Dentre as doze tribos oriundas de Jacó, a tribo de Judá há de se tornar a estirpe do Messias. De fato, diz poeticamente Jacó, ao morrer, que «à posteridade de Judá competirá o cetro ou o bastão régio de comando, até que venha o Messias, a quem tocará a realeza e ao qual as nações prestarão obediência» (cf. Gên 49,10).

 

1.5 A dignidade régia do Messias é agora mais enfaticamente prevista por Balaã, o pagão a quem Javé concede o dom da profecia: Balaã prediz, sim, a origem de uma estrela a partir de Israel, o surto de um Dominador e de um cetro que darão a Israel ascendência (a ascendência messiânica, religiosa) sobre a terra inteira:

 

«Eu o vejo — não, porém, para agora; Percebo-o — não, porém, de perto:

Um astro, oriundo de Jacó, torna-se Chefe; Um cetro ergue-se, proveniente de Israel...

Israel desdobra o seu poder,

Jacó domina sobre os seus inimigos».

(Núm 24,17-19)

 

Note-se que a estrela era no antigo Oriente sinal da Divindade e, por conseguinte, sinal de um Rei Divino; cf. Is 14,12.

 

1.6 O Messias, Rei descendente de Judá, é ulteriormente descrito como filho da Casa régia de Davi. São numerosos os textos que incutem tal traço; tenha-se em vista principalmente o vaticínio de Jer 23,5s:

«Eis que dias virão — oráculo do Senhor -Em que suscitarei a Davi um gérmen justo,

O Qual reinará como verdadeiro Rei e será sábio; Exercerá rui torra direito e justiça.

Em seus dias Judá será salvo E Israel habitará em segurança.

Eis o nome pelo qual O designarão: 'O Senhor-Nossa-Justiça'».

 

Neste trecho chama a atenção o apelativo «Gérmen», que se tornou característico do Messias na literatura israelita do séc. VIII a. C. em diante; cf. Zac 3,8; 6,12; Is 11,1.

 

Quanto ao titulo «O Senhor-Nossa-Justiça», faz eco às designações «Cidade-Justiça, Vila-Fiel», que convirão a Jerusalém nos dias do Messias, conforme Is 1,26. — «Justiça» nessas expressões não é apenas a equidade no exercício do direito, mas é de certo modo a manifestação e a comunicação aos homens, da santidade de Deus (cf. Is 5,16).

Sobre o nascimento do Messias na família do rei Davi, veiam-se outrossim Jer 33,16; Ez 17,22; Is 11,1.

 

1.7 Como se compreende, o Messias, Filho de Davi, será Rei para todo o sempre, Rei de todos os homens, não apenas de uma nação, Rei detentor de poder sobre a vida temporal e a vida eterna de seus súditos.

É o que o Senhor, por intermédio do profeta Natã, anuncia a Davi:

 

«Quando teus dias se completarem e te repousares com teus pais, conservarei após ti a linhagem procedente de tuas entranhas e corroborarei a sua realeza... Serei para Ele (o Filho de Davi por excelência, o Messias) um Pai, e Ele será para Mim um filho. Tua casa e tua realeza subsistirão para sempre diante de Mim, teu trono será confirmado para sempre» (2 Sam 7,12.14.16; cf. Sl 88).

 

A tais dizeres correspondem no Novo Testamento as palavras do anjo a Maria Santíssima:

«(O Salvador) será grande, e chama-Lo-ão Filho do Altíssimo. O Senhor Lhe dará o trono de Davi, seu pai; reinará sobre a Casa de Jacó para sempre, e seu reino não terá fim» (Lc 1,32s).

 

1.8 Descendente da Casa de Davi, o Messias será, em última análise, filho de uma virgem, conforme a profecia de Is 7,14:

«Eis que a jovem donzela (almah) concebeu, e dará à luz um Filho que ela chamará Emanuel».

 

A tradição judaica entendia o termo almah no sentido de «virgem» pròpriamente dita; haja vista a tradução grega do Antigo Testamento (dita dos LXX) feita no Egito no séc. II a. C., tradução que, reproduzindo o modo de pensar dos judeus, no versículo acima fala de parthénos, virgem. São Mateus (1,23) asseverou ter-se cumprido tal vaticínio no seu teor grego, quando Jesus Cristo foi concebido da SSma. Virgem Maria. — Quanto ao título Emanuel, Deus conosco, é característico do Messias; cf. Is 8.8-10; SI 45,8.10.

 

O texto de Miq 5,2, fazendo eco a Is 7,14, parece comprazer-se, por sua vez, em pôr em relevo a Mãe do Messias: fala, sim, de uma época de bonança caracterizada pelo fato de que «terá dado à luz aquela que deve dar à luz...»

 

1.8 Nem o lugar do nascimento escapou às previsões dos Profetas; é Miquéias (5,1) quem indica a cidadezinha de Belém no território de Judá:

«Tu, Belém de Efratá,

A mínima dentre as porções de Judá,

De ti nascerá para Mim

Aquele que deve reinar sobre Israel.

Sua origens datarão dos tempos antigos, Dos dias de outrora».

 

Nascido em Belém no decorrer da história, o futuro Rei messiânico já terá tido nascimento anterior, o que insinua a sua geração isenta de subordinação e de sucessão cronológica no seio da SSma. Trindade, ou, em outros termos,... insinua a natureza divina d'Aquele que se dignou nascer da linhagem humana.

São Mateus. (2,6) assinala o cumprimento desta profecia por ocasião do nascimento de Cristo.

 

1.9 O Profeta chega a ver o Menino recém-nascido, portador de títulos que, de um lado, O assemelham aos grandes heróis de sua linhagem e, de outro lado, O identificam com o próprio Deus

 

«Um menino nos nasceu,

um filho nas foi dado; a soberania repousa sobre seus ombros,

e ele se chama: Conselheiro admirável, Deus forte,

Pai eterno, Príncipe da paz. O seu império será grande e a paz sem fim sobre o trono de Davi e em seu reino. Êle o firmará e o manterá pelo direito e pela justiça desde agora e para sempre».

(Is 9, 5s)

 

2. O caráter humano e a missão terrestre do Messias

 

As linhas marcantes da personalidade e da tarefa do Messias também se acham esboçadas no Antigo Testamento.

 

2.1) Para restaurar a justiça e a ordem sobre a terra, Ele aparece cheio do Espírito Santo, de acordo, aliás, com a doutrina comum entre os profetas de que o Espírito Santo seria dado em plenitude aos homens nos tempos do Messias. Assim vaticina Isaías (11,1-5):

«Um renovo sairá do tronco de Jessé,

e um rebento brotará de suas raízes. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor, Espírito de sabedoria e de entendimento, Espírito de conselho e de fortaleza,

Espírito de ciência e de temor do Senhor. Sua alegria se encontrará no temor do Senhor. Ele não julgará pelas aparências,

e não decidirá pelo que ouvir dizer; mas julgará os fracos com equidade, fará justiça aos pobres da terra, e com o sopro dos seus lábios fará morrer o ímpio. A justiça será como o cinto de seus rins e a lealdade circundará seus flancos».

 

Observe-se que Jessé ou Isaí, mencionado no v. 1 acima, é o pai do rei Davi.

Merece outrossim atenção a descrição da obra do Messias em Is 61,1s:

 

«O Espírito do Senhor repousa sobre mim,

porque o Senhor me consagrou pela unção; enviou-me a levar a Boa Nova aos humildes,

curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a redenção,

aos prisioneiros a liberdade, proclamar um ano de graças da parte do Senhor».

 

Ora é notório que, logo no limiar de sua vida pública, Jesus tendo entrado em uma sinagoga a fim de celebrar o sábado, abriu o livro do Profeta Isaías, leu em voz alta o texto acima e o comentou nos termos seguintes: «Hoje cumpriu-se aos vossos ouvidos esta palavra da Escritura» (cf. Lc 4,16-21).

 

2.2) A mansidão de alma do Messias e sua obediência são descritas com grande beleza de estilo nos famosos cânticos do «Servo de Javé»:

«Eis meu Servo, que Eu amparo,

meu eleito, ao qual dou toda a minha afeição; faço repousar sobre ele meu Espírito,

para que leve às nações a justiça. Ele não grita, jamais eleva a voz,

não clama nas ruas. Não quebrará o caniço envergado,

não extinguira a mecha que ainda fumega. Anunciará com toda a franqueza a justiça;

não desanimará nem desfalecerá, até que tenha estabelecido a justiça sobre a terra».

(Is 42,1-4)

«O Senhor Deus deu-me a linguagem de um discípulo, para que eu saiba reconfortar pela palavra o que está abatido. Cada manhã Ele desperta meus ouvidos para que escute como discípulo; o Senhor Deus abriu-me o ouvido; e eu não relutei, não me esquivei». (Is 50, 4s)

 

São Mateus (12,14-21) vê realizado na vida pública de Cristo o oráculo de Is 42.1-4:

 

«Os fariseus saíram dali e deliberaram sobre os meios de O matar. Jesus o soube, e afastou-se daquele lugar. Uma grande multidão o seguiu, e Ele curou todas os seus doentes. Proibia-lhes firmemente falar disso, para que se cumprisse o anunciado pelo profeta Isaias:... Is 42,1-4».

 

2.3) A vinda do Messias acarretará para os homens transição das trevas da ignorância e do pecado para a luz da verdade e da graça ; consequentemente enorme alegria irradiar-se-á no mundo:

«O povo que andava nas trevas viu grande luz;

sobre aqueles que habitavam uma região tenebrosa resplandeceu uma luz.

Vós suscitais grande regozijo, provocais imensa alegria;

rejubilam-se diante de Vós como na alegria da colheita, como exultam na partilha dos despojos».

(Is 9,1 s)

 

2.4) Na Galiléia fará o Messias a sua primeira aparição:

«Outrora (o Senhor) humilhou a terra de Zabulon e a terra de Neftali; no futuro, porém, Ele glorificará a estrada do mar, a região além do Jordão e o distrito das nações» (Is 8,23b).

 

A propósito deste texto observe-se o seguinte: o profeta divide a história inteira , em dois tempos: o passado e o futuro, os quais, segundo a teologia do Antigo Testamento, correspondem respectivamente à época do pecado e à do Messias. A primeira, no trecho acima, é caracterizada por humilhação, e humilhação das regiões de Zabulon e Neftali, regiões muito expostas a incursões de exércitos estrangeiros (a guerra assim é apresentada como característica do mundo afetado pelo pecado). A época posterior, messiânica, é marcada por glória, e glória no distrito das nações (gentios), ou seja, na Galiléia (em hebraico, Gelil significa «distrito»); a escolha da Galiléia como lugar de Revelação da glória, no texto de Is 8,23, insinua a universalidade do reino do Messias.

 

Ora foi justamente na Galiléia que Jesus Cristo começou a exercer o seu ministério público, cumprindo destarte a profecia de Isaías, conforme nota São Mateus (4,12-16):

«Jesus voltou à Galiléia, e, deixando Nazaré, foi estabelecer-se em Cafarnaum, à beira-mar, nos confins de Zabulon e Neftali. Assim se cumpriu o oráculo do profeta Isaías: 8,23-9,1».

 

2.5) Até mesmo a pessoa do Precursor São João Batista entra na visão dos profetas: esse varão, dotado de tempera forte para reprovar os pecados de seu povo, é, nos vaticínios do Antigo Testamento, assemelhado a Elias, o homem de Deus que no séc. IX a. C. soube pregar fé e penitência aos maiorais de Israel.

Assim, por exemplo, fala o Senhor no livro de Malaquias:

 

«Eis que enviarei meu Mensageiro, para que abra o caminho diante de Mim» (3,1). «Eis que vos enviarei Elias, o profeta, antes que venha o meu dia (o dia do aparecimento do Messias), grande e temível; ele há de reconduzir o coração dos pais aos filhos, e o dos filhos aos pais» (3,23 ou Vg 4,5s).

 

É São Lucas quem observa que o envio de Elias profetizado por Malaquias se verificou na vinda de São João Batista. Eis, conforme o Evangelista, as palavras com que o anjo Gabriel se refere ao filho de Zacarias e Elisabete:

 

«Reconduzirá muitos filhos de Israel ao Senhor seu Deus. Ele mesmo O precederá no espírito e no poder de Elias, para trazer os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, preparando para o Senhor um povo de santas disposições» (Lc 1,16s).

 

São Mateus (17,10-13) dá a ver que João Batista é o próprio Elias que estava para vir:

 

«Os discípulos O interrogaram: 'Porque dizem os escribas que Elias deve vir primeiro ?' Jesus respondeu-lhes: 'Elias de fato deve vir e restabelecer todas as coisas. Mas eu vos digo que Elias já veio, contudo não o reconheceram; antes, fizeram com ele quanto quiseram. Do mesmo modo farão sofrer o Filho do homem'. Os discípulos compreenderam então que ele lhes falava de João Batista».

3. Paixão e glorificação do Senhor Jesus

 

 

Também os sofrimentos e o triunfo de Jesus Cristo são anunciados pelos Profetas, com pormenores que só podem ter sido apreendidos por estrita revelação sobrenatural. Tenham-se em vista os seguintes traços:

 

3.1) O Profeta Zacarias (9,9s) prevê a acolhida régia, triunfal, do Senhor em Jerusalém, montado sobre um jumentinho, a dar o exemplo da humildade e da mansidão:

«Exulta de alegria, filha de Sião,

solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém; eis que vem a ti o teu rei,

justo e vitorioso, humilde, montado sobre um jumento,

no potro de uma jumenta. Ele suprimirá os carros de guerra na terra de Efraim...

proclamará a paz entre as nações, Seu império estender-se-á de um mar a outro, desde o rio até as extremidades da terra».

 

São Mateus observa como tal visão profética teve seu cumprimento quando o Senhor entrou em Jerusalém no domingo de Ramos (21,5). O jumento, em oposição ao cavalo de guerra (cf. Zac 9,10), simboliza o caráter brando e pacifico do Rei-Messias; era a montadura dos antigos reis e chefes (cf. Jz 5,10; 10,4).

 

3.2) Os padecimentos de Jesus em sua Paixão sagrada foram previstos com vivacidade surpreendente:

 

a) os ludíbrios, a crucifixão, o sorteio da túnica de Cristo são longamente descritos no SI 21, juntamente com a glorificação subsequente à Paixão do Senhor. A maioria dos comentadores reconhece que esse cântico, com seus pormenores impressionantes, se refere direta e exclusivamente a Jesus Cristo padecente e triunfante:

 

«Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste ?

Sou um verme, não sou homem,

O opróbrio de todos, a abjeção da plebe. Todos os que me veem, zombam de mim;

Dizem, meneando a cabeça : 'Esperou no Senhor, portanto que Ele o livre,

Que o salve, se o ama'... Como a água que se derrama,

Assim todos os meus ossos se desconjuntam...

Traspassaram minhas mãos e meus pés. Posso contar todos os meus ossos,

Eles observam e, vendo-me, alegram-se, Repartem entre si as minhas vestes,

e lançam sorte sobre a minha túnica. Contudo, Senhor, não vos afasteis de mim;

ó meu auxílio, bem depressa ajudai-me... Então anunciarei vosso nome a meus irmãos, E Vos louvarei no meio da assembleia».

 

b) a venda do Senhor por trinta dinheiros entregues ao traidor é atestada por Zacarias (11,12); cf. Mt 27,9.

 

c) A flagelação no dorso, os escárnios na face injuriada por escarros dos adversários são de antemão contemplados em Is 50,6-9.

 

d) Messias dessedentado com vinagre é previsto pelo SI 68,22: cf. Mt 27,48.

 

e) Cristo traspassado pela lança do soldado aparece em Zac 12,10s :

«Eles (os filhos de Israel) contemplarão Aquele que terão traspassado... Naquele dia haverá grande lamentação em Jerusalém» (cf. Jo 19,37; Apc 1,7).

 

f) O caráter expiatório do sacrifício de Cristo, seu valor de redenção ou resgate em favor do povo de Deus, assim como a glória posterior â humilhação do Messias, são vivamente inculcados em Is 52, 13-53, 12. peça de rara beleza literária.

 

4. Divindade de Jesus Cristo

 

Por fim, não se poderiam silenciar os salmos em que a Divindade do Messias é diretamente afirmada.

 

Assim o Sl 109 fala do Messias Rei e Sacerdote à semelhança de Melquisedeque, e igualmente verdadeiro Deus, gerado desde toda a eternidade do seio do Pai. Jesus Cristo, convivendo com os homens aqui na terra, houve por bem aplicar esse salmo a Si mesmo, apresentando-Se destarte como verdadeiro Deus e homem (cf. Mt 22,41-45). São Pedro, por sua vez. ilustrou a obra de Jesus Cristo mediante o Sl 109; cf. At 2,34s.

 

O SI 2 esboça a figura do Messias Rei universal em sua natureza humana, referindo, ao mesmo tempo, à sua natureza divina, segundo a qual file procede do Pai desde toda a eternidade. — São Paulo, em At 13,33, aplicou esse salmo à Pessoa e à obra de Jesus Cristo. O mesmo foi feito pelos primeiros cristãos, conforme At 4,25s.

 

5. Uma dúvida, porém. . .

 

Contudo poderia alguém objetar que, ao lado dos vaticínios cumpridos na vida de Jesus Cristo, outros há que não foram de modo nenhum realizados.

Tal observação é oportuna, pois nos dá ensejo de pôr em relevo uma das notas típicas do messianismo cristão.

 

Em primeiro lugar, deveremos reconhecer que todas as profecias referentes à vida terrestre de Jesus se cumpriram devidamente. O Senhor Jesus Cristo, que outrora viveu na Palestina conforme relatam os Evangelhos, se sobrepõe à figura do Messias esboçada no Antigo Testamento, e preenche exatamente as exigências desta.

 

Acontece, porém, que as profecias, além de descrever a vida terrestre de Cristo, predizem renovação moral e material dos homens, restauração da natureza irracional em sua ordem primitiva paradisíaca (cf. Is 11,6-9), a extinção das guerras e a implantação da paz universal (cf. Is 9,2-6; Zac 9,9s)..., de sorte que a vinda do Messias parece, segundo os escritos do Antigo Testamento, dever dar início a um novo mundo e a uma nova fase da história do gênero humano. — Ora tal renovação até hoje não se verificou.

 

— Não há dúvida. Será preciso, porém, lembrar o seguinte: a Previdência Divina decretou salvar o mundo entre duas vindas do Senhor Jesus a esta terra: na primeira o Messias devia sujeitar-se às consequências do pecado de Adão, isto é, à dor e à morte padecidas numa autêntica natureza humana, a fim de santificar a própria dor e a própria morte; em consequência, estas deixaram de ser mero castigo, para se tornarem como que algo de divino e instrumento de redenção para o gênero humano. Cristo triunfou da morte, dela fazendo o canal da imortalidade gloriosa. Tendo dado esse sentido novo às realidades antigas, o Senhor houve por bem subtrair aos homens sua presença visível e deixar que a história prossiga, marcada agora por estas duas notas antagônicas: morte e, não obstante, certeza de vitória final sobre a morte, desordem decorrente do pecado e, não obstante, esplendor (latente nas almas) oriundo da graça do Redentor... Os tempos se desenrolarão assim até a segunda vinda de Cristo, que no dia determinado pela sabedoria do Pai se manifestará de novo, dessa vez na plenitude de sua glória de Rei. Então encerrar-se-á a obra do Redentor nos remidos: os corpos dos homens que tiverem aceito a salvação, serão ressuscitados gloriosos à semelhança do corpo de Cristo (a glória que hoje é latente nas almas dos filhos de Deus, transfigurará os corpos), e o mundo irracional, que junto com o homem sofre atualmente as consequências do pecado, será remodelado, havendo então «céus novos e terra nova» (cf. Apc 21,1; Is 66,22). Entrementes, enquanto vivemos entre a primeira e a segunda vinda do Messias, o gênero humano e a natureza inteira encontram-se sob o regime do «Sim» e do «Não»: um gérmen e penhor de renovação foi-lhes dado, sim, mas ainda não se acha plenamente desabrochado.

 

Feita esta observação, verifica-se que são as profecias referentes ao desdobramento da Redenção e à renovação do universo que ainda aguardam sua total realização ao passo que os oráculos concernentes à vida do Salvador na Palestina já se cumpriram.

 

Inegavelmente, os profetas do Antigo Testamento em suas predições fundiram os efeitos da primeira e da segunda vinda do Salvador como se a Redenção se devesse dar numa única etapa; dai a perplexidade que por vezes surge na mente dos leitores. Tenhamos consciência, porém, de que tal é o modo de ver dos profetas bíblicos: não costumam distinguir as intervalos que medeiam entre diversos acontecimentos futuros. Neste ponto assemelham-se a um observador que, colocado sobre o cume de uma montanha, contempla o panorama à sua frente; desvenda bem as cristas das cordilheiras que se sucedem paralelas umas às outras diante dele, mas não distingue os vales que separam tais cristas entre si; a tal observador parece que tais cristas se ligam entre si sem hiato. Ora algo de análogo se verifica na visão espiritual dos profetas: apreenderam os acontecimentos da primeira e da segunda vinda do Messias como se se devessem realizar simultaneamente, sem o intervalo que atualmente vamos percorrendo.

 

Consciente de que tal é o modo de perceber dos videntes escriturísticos, o estudioso não se perturbará, mas, ao contrário, voltará mais seguramente ainda sua atenção para a harmoniosa correspondência existente entre os SS. Evangelhos e as profecias do Antigo Testamento; reconhecerá, consequentemente, que o Autor de tal correspondência só pode ter sido o próprio Deus, O qual desta forma quis atestar a autenticidade da missão de Jesus Cristo. Verdadeiro Deus feito Verdadeiro Homem para dar novo sentido à vida e à morte dos homens.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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