PERGUNTE E RESPONDEREMOS 012 – dezembro 1958

 

Cristianismo e Celebração Popular do Natal

HISTÓRIA DO CRISTIANISMO

TIAGO NATAL (Rio de Janeiro): “A celebração popular do Natal cristão parece evocar motivos não-cristãos. Como se explica isso ?

 

1. Já que o S. Evangelho não indica precisamente a data do nascimento de Cristo, a Tradição cristã desde o séc. IV em Roma celebra o Natal aos 25 de dezembro (cf. P. R. 3/1958 qu. 8). A escolha desta data se deve ao desejo da autoridade eclesiástica de contrapor à festa pagã do «Natalis Solis Invicti» (da Natividade do Sol Invicto, Divindade oriental) a celebração do nascimento do verdadeiro «Sol de Justiça», que é Cristo (cf. Mal 3,20). Foi, aliás, assim que muitas vezes procederam os bispos na antiguidade: aproveitando as ocasiões em que no ambiente do Império Romano o fervor religioso do povo costumava ser avivado por motivos pagãos, os prelados nas mesmas datas instituíram celebrações genuinamente cristãs, aptas a canalizar e elevar os sentimentos religiosos dos fiéis na autêntica direção, ou seja, para o único Deus.

 

Esta praxe de utilizar as «cabeças de ponte» que o paganismo fornecia à implantação do Cristianismo, era legitima, pois por si não implicava corrupção doutrinária nem pacto com costumes não-cristãos. Por vezes era mesmo necessária, pois o povo do Império já estava habituado a certas manifestações de sua alma religiosa, manifestações que, de um lado, seria antipedagógico querer extinguir e que, de outro lado, muito se prestavam a uma interpretação cristã. Para garantir o bom êxito da tática, os bispos repetidamente (como atestam seus sermões) procuravam mostrar aos fieis as diferenças vigentes entre a mentalidade pagã e a cristã.

 

Acontecia, porém, que o mês de dezembro, no qual se começou a celebrar o Natal de Cristo, era, desde a época pré-cristã, um período em que a alma popular, excitada por circunstâncias diversas, vibrava com particular entusiasmo. A ocorrência do dia mais curto e da noite mais longa do ano despertava a reminiscência da esterilidade e da morte assim como a da fertilidade da natureza que renascia com o novo crescimento dos dias. Em consequência, os pagãos em datas sucessivas do mês de dezembro celebravam procissões e ritos diversos que, sob acordes vários, faziam ressoar sempre o mesmo motivo: desejo de afugentar os espíritos maus e mortíferos e obter consequentemente, para a primavera que se abriria em breve, a tutela dos bons gênios ou dos agentes da fecundidade.

 

As solenidades e festejos dessa índole estavam em uso não somente dentro das fronteiras do Império Romano, mas também entre os povos germânicos que invadiram o Império (esta observação é importante, pois permite avaliar a necessidade que se impunha à Igreja, de dar cunho cristão a certos usos inveterados nos povos que se convertiam ao Evangelho no fim da Idade Antiga e no inicio da Idade Média).

 

Entre os festejos germânicos do mês de dezembro (citamo-los em particular, porque foi principalmente em terras germânicas que a celebração do Natal cristão tomou aspectos exuberantes), destaca-se a festa de JUL (em gótico aftuma jiuleis era o nome do último mês do ano), celebrada durante doze dias, nas proximidades da entrada do inverno; acendiam se fogueiras, ofereciam-se sacrifícios, comia-se um tipo de pão especial, promoviam-se banquetes e orgias, usava-se uma máscara própria (Julbock = o bode de Jul); isso tudo visava honrar o deus da luz, Freyr, e afugentar os espíritos malignos, a fim de se obterem os efeitos benéficos tanto da luz ou do sol que ressurgia, como dos espíritos protetores dos homens (invocados como princípios maternos, fecundos).

 

2. Consideremos agora as principais manifestações festivas que, de perto ou de longe, têm acompanhado a celebração do Natal cristão e são por vezes relacionadas com costumes não-cristãos.

 

2.a) Vem, em primeiro lugar, a árvore de Natal, que nas casas de família, e mesmo nos recintos onde não se faz profissão de religião, costuma ser erguida e ornamentada no fim de dezembro.

Que dizer dessa praxe ?

 

A árvore desde os inícios do Cristianismo sempre foi estimada como símbolo religioso; não somente o livro do Gênesis apresenta árvores famosas (cc. 2-3), mas também o Senhor no Evangelho transmite ensinamentos religiosos mediante as figuras da figueira (cf. Mt 21,18-22; Lc 13,6-9) e da videira (cf. Jo 15,1-6).

 

Já que Cristo veio abrir aos homens as portas do paraíso ou do estado de amizade com Deus Pai, estado outrora perdido pelo pecado, os cristãos procuravam no ingresso de suas igrejas reproduzir uma imagem do paraíso, construindo aí um adro cercado de colunas, dentro do qual se viam um poço e, frequentemente, árvores. A esses adros davam o nome de «paraíso» (paradisus; donde o termo francês parvis). Na Idade Média o paraíso das igrejas era o lugar onde, segundo o gosto da época, se representavam autos alusivos ao paraíso bíblico; focalizava-se então de modo especial a árvore simbólica que lembrava a árvore da vida outrora existente no paraíso, conforme Gên 2,9. Os fieis chegavam a ornamentar tal árvore com frutos e pomos múltiplos a significar vida e felicidade; faziam também pender dos respectivos ramos oblatas ou pães, que lembravam a S. Eucaristia. Procuravam assim de várias maneiras pôr em relevo o fato de que a árvore da vida eterna, outrora perdida, nos foi de novo dada por Cristo, que quis pender da cruz para merecer-nos o fruto da vida eterna. A árvore assim ornamentada era, por extensão, chamada «Paradies» na Alemanha; encontrava-se não raro exposta dentro das próprias igrejas, cercada de velas, lamparinas, pequenos fachos, etc., os quais significavam a luz da verdade e da vida que iluminava os cristãos a partir da nova árvore da vida, ou seja, a partir da cruz de Cristo; simbolizavam outrossim a alegria e a esperança que enchem o cristão consciente do dom de Deus.

 

No decorrer dos tempos a árvore, com a sua ornamentação, foi erguida e exposta também nas casas de família junto ao presépio, a fim de completar o significado deste e servir à devoção dos fiéis.

 

Assim se originou o que chamamos «a Árvore de Natal». A primeira notícia que se tenha do uso de tal símbolo de Natal provém de uma crônica de Schlettstadt (Alemanha) e data de 1600 aproximadamente; parece que só no séc. XVIII velas e lamparinas foram acrescentadas à ornamentação respectiva (a primeira notícia segura é do ano de 1737, proveniente da Alemanha).

 

Há quem queira interpretar a árvore de Natal como sendo símbolo da «vida que se renova todos os anos»; esta sentença, embora não seja alheia à mentalidade cristã e ao simbolismo natural da árvore (que passa sucessivamente por floração e aparente morte), não esgota toda a mensagem da árvore de Natal, como se depreende, do acima dito. Outros julgam que a árvore de Natal não é senão uma instituição hindu, adotada no séc. XVI na Alemanha em consequência da divulgação de famoso relato de viagem feita no Oriente. Outras sentenças identificam a árvore de Natal com a «árvore cósmica» (Yggdrasil) da mitologia germânica ou com a árvore sagrada ornada de lamparinas cujo culto, de origem pagã como era, foi proscrito por Carlos Magno na «Admonitio Generalis» de 787. Não se poderiam provar tais teorias.

 

Na verdade, a árvore de Natal tem sentido genuinamente cristão, ilustrado pela antítese entre a árvore da vida paradisíaca e a árvore da cruz de Cristo, Não há dúvida, porém, de que o simbolismo da árvore (elemento indispensável à existência humana) é tão óbvio ao observador e às almas religiosas que já antes de Cristo era utilizado para exprimir concepções filosóficas e místicas a respeito da vida.

 

2.b) A figura de Papai Noel, ancião barbado portador de presentes para as crianças, tem origem assaz complexa.

Ela se prende a um personagem histórico, São Nicolau, bispo de Mira na Ásia Menor durante o séc. IV. Sobre a vida deste santo pouca coisa se sabe. O que a seu respeito contavam os medievais, se deriva em boa parte dos traços biográficos de outro São Nicolau, que foi abade de Sion, perto de Mira, e bispo de Pinara (Ásia Menor), tendo falecido aos 12 de dezembro de 564. Um dos traços mais salientes que a propósito de S. Nicolau de Mira se referem, é que, ainda jovem, se tornou herdeiro de avultados bens, por terem morrido seus pais vítimas de epidemia; empregou então essas posses em obras de caridade, especialmente no dote de três jovens donzelas que ele libertara da deturpação; diz-se outrossim que salvou de perigo mortal três oficiais do Imperador Constantino e, de outra feita, acorreu em auxilio de navegantes postos em grave tormenta. O santo, que gozava de extraordinária veneração no Oriente, passou a ser extremosamente cultuado também no Ocidente a partir do séc. IX, principalmente após a trasladação de suas relíquias para Bari em 1087; foi então invocado como padroeiro das virgens, dos navegantes, dos padeiros, das crianças, dos estudantes, dos encarcerados. Na França e na Alemanha contam-se cerca de duas mil igrejas dedicadas à memória de São Nicolau; na Inglaterra, aproximadamente quatrocentas.

 

A estima que se tributava ao santo bispo, fez que os cristãos envolvessem a sua figura nos festejos populares da Idade Média. Sabe-se que aos 28 de dezembro as crianças costumavam representar o «Auto do Bispo», no qual o principal papel era executado por um menino ou um estudante. Pois bem; a partir do século XIII esta celebração passou a se realizar por ocasião da festa de São Nicolau, aos 6 de dezembro; quem aparecia em casa doravante era o bispo S. Nicolau, que, como padroeiro dos pequeninos e estudantes, às crianças bem comportadas vinha distribuir os prêmios, ao passo que às outras infligia castigo, na tarde que precedia a sua festa; São Nicolau nesses autos se mostrava geralmente acompanhado por um servo («Knecht»), de nome Ruprecht (nome de origem germânica), a quem competia a função menos simpática de distribuir as pancadas e pauladas a quem as merecia.

 

Por efeito da Ps.-Reforma protestante no séc. XVI, esse costume popular sofreu certo golpe; a veneração dos santos tendo sido rejeitada polo luteranismo, a figura do São Nicolau para muitas e muitas famílias perdeu seu significado de tutor ou patrono. Em consequência, o papel que no auto tocava ao Santo, de distribuir recompensas ou castigo, foi transferido ou para o Menino Jesus (o «Christkind») dos dias 24/25 de dezembro ou para o «Knecht Ruprecht», isto é, o tipo mais ou menos assustador do companheiro de São Nicolau. Este na Alemanha é hoje em dia chamado o «Weihnachtsmann», o homem de Natal, ao passo que na França tomou os traços característicos do «Papai Noel», ancião de barbas brancas, revestido de manto de lã (talvez a lembrar inconscientemente a figura antiga do bispo São Nicolau), ancião, porém, que já não vem a 5 de dezembro, mas aos 25 do mesmo.

 

Como se vê, a figura de «Papai Noel» assim oriunda nada mais tem de tipicamente cristão; é a continuação da imagem do «Knecht Ruprecht». Este, por sua vez, parece ser um vestígio tardio, um remanescente talvez inconsciente, da crença de que espíritos maus e almas dos defuntos andam pelo mundo nos dias tenebrosos do inverno europeu, dissimulados sob a forma de ursos hirsutos ou de legendários cavaleiros brancos, para assustar os homens e punir os maus. Esta crença pré-cristã, através da figura medieval do «Knecht Ruprecht», servente espantoso de São Nicolau, se estaria prolongando até hoje sob a imagem complexa do «Weihnachtsmann» na Alemanha ou de Papai Noel nos países neolatinos.

 

Contudo a celebração do auto cristão de S. Nicolau na tardinha de 5 de dezembro ficou até hoje em vigor em partes da Alemanha: na Alsácia as crianças colocam seu sapatinho junto à boca da chaminé para que nele o santo deposite a respectiva prenda. Tal costume em outras regiões se trasladou para a noite de 24/25 de dezembro, quando se espera a vinda de «Papai Noel».

 

2.c) Outro uso intimamente associado à festa de Natal é a distribuição de presentes entre familiares e amigos. Esta praxe tem origem pré-cristã: os romanos costumavam presentear as pessoas de sua intimidade no início de novo ano, em testemunho dos votos de felicidade que então lhes formulavam. Os cristãos não extinguiram propriamente este costume, mas deram-lhe significado superior, deslocando-o para o dia do nascimento de Cristo, dia em que os homens são estimulados como que pelo próprio Deus a desejar uns aos outros o verdadeiro bem, a salvação eterna. O costume antigo de dar presentes foi corroborado na Idade Média por efeito da celebração do auto de São Nicolau.

 

Um derivado pouco digno de tal praxe, vigente principalmente na Alemanha central e meridional, eram as Knoepfelnaechte ou “Noites de batidas” da Idade Média. Com efeito, nas noites das três quintas-feiras anteriores a Natal grupos populares percorriam as ruas de cidades e aldeias, batendo às portas e janelas, cantando e lançando ervilhas, lentilhas e outros grãos para dentro das casas, a fim de receber em troca pequenos presentes, como frutas, nozes, salsichas ou moedas. Todo esse alarido lembrava o cerimonial agitado e barulhento com que os antigos pagãos procuravam espantar os maus espíritos, e era possivelmente um remanescente desse ritual conservado entre os cristãos sem que se conhecesse bem a sua origem. A praxe não se justificava à luz da fé cristã; por isto as autoridades eclesiásticas mais de uma vez a reprovaram.

 

2.d) O consumo de iguarias especiais no tempo de Natal deve-se, segundo certos historiadores, a antigos ritos que visavam obter dos deuses a fecundidade; entre os povos não-cristãos, escolhiam-se em certas ocasiões, para a alimentação de casa, os alimentos tidos como comunicadores de vitalidade particularmente forte: carpas, certas tortas apimentadas, carne de leitão...

 

Hoje entre os costumes de Natal, nas famílias cristãs, nota-se o de consumir certas frutas, como castanhas, nozes, amêndoas, uvas passas, ou também doces característicos. Este uso dos cristãos não está necessàriamente preso às idéias que inspiravam a prática correspondente dos pagãos; é simplesmente a expressão da alegria que a mensagem de Natal não pode deixar de suscitar nos fiéis. Essa expressão de alegria entende-se ainda melhor se se leva em conta que as semanas anteriores ao Natal eram outrora consagradas pela Igreja a severo jejum. No dia 27 de dezembro, festa de São João Evangelista, costuma-se em algumas regiões benzer e beber vinho em honra do santo. Tal vinho bento tem sentido religioso: é um sacramental que, como pede a Igreja na fórmula de bênção, se deve tornar, para todos, ocasião de crescerem na caridade ardente, que o calor do vinho simboliza.

 

2.e) Quanto ao presépio, é de origem autenticamente cristã. O Papá Libério (+366) expôs na basílica de Santa Maria Maior em Roma (também dita «Santa Maria junto ao presépio») cinco pequenas tábuas envolvidas em um estojo de cristal e pedra, que eram tidas como relíquias da manjedoura onde nasceu o Senhor Jesus; anualmente celebrava a Missa de Natal diante dessas veneráveis peças. O exemplo foi de certo modo imitado em outras igrejas fora de Roma, onde na festa de Natal se foi tornando costume colocar em cima ou ao lado do altar uma reprodução da manjedoura de Belém. A fim de mais se poder reviver a cena que os Evangelhos das Missas de Natal descrevem, à figura da manjedoura foram acrescentadas as estátuas dos personagens que tomaram parte no acontecimento de Belém ; o Menino-Deus, a Virgem Santíssima, São José, os pastores... Os autos teatrais da Idade Media exibiam com carinho o quadro do presépio e os acontecimentos relacionados com ele. Papel decisivo para a propagação e a estima do presépio tocou a São Francisco de Assis, que, com explícita autorização papal, mandou representar a cena do nascimento do Senhor no bosque de Greccio em 1223. Generalizado nos conventos franciscanos, o presépio passou para as casas de família, onde hoje em dia é de uso comum (como acima dissemos, a árvore de Natal nos lares cristãos é posterior ao presépio).

 

Eis como se explicam os principais usos que acompanham em nossos tempos a celebração litúrgica do Natal Embora não sejam todos inspirados diretamente pela narrativa evangélica, podem ser, excetuada a figura de Papai Noel, entendidos dentro da concepção cristã do Natal; de certo modo contribuem para introduzir o mistério da fé dentro dos moldes da vida concreta, principalmente dentro do ambiente do lar. Às famílias cristãs, por conseguinte, incumbe a missão de não permitir se tornem tais costumes meramente rotineiros, profanados por reuniões e festejos mundanos em detrimento do seu caráter de sinais religiosos, estimulantes da piedade. — Quanto ao personagem imaginário «Papai Noel», seria para desejar desaparecesse da perspectiva dos pais e educadores cristãos, cedendo o lugar ou diretamente ao Menino Jesus celebrado a 25 de dezembro ou ao santo bispo Nicolau, festejado a 6 do mesmo mês, e tido como patrono das crianças e dos estudantes.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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