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Artigo

PERGUNTE e RESPONDEREMOS 10 - Outubro de 1958

 

O Santo Sudário

O Santo Sudário hoje conservado em Turim será mesmo aquela mortalha em que foi envolvido Jesus, conforme Mt 27,59 ?

 

O Santo Sudário é uma peça de linho de 1,10 m de largura por 4,36 m de comprimento, em que dizem ter sido colocado o corpo de Jesus Cristo logo ao ser retirado da Cruz. Apresenta os traços de um corpo humano em duas imagens — a anterior e a posterior — as quais se opõem pela cabeça; o cadáver terá sido deitado de costas sobre uma das metades longitudinais do pano; este, a seguir, haverá sido dobrado por cima da cabeça e da parte anterior do corpo, chegando até os pés. As figuras revelam a estatura de homem de anatomia robusta e elegante, de cerca de 1,80 m de altura ; impressões de sangue de coloração carmínea estão propagadas por todo o pano, dando a crer que o defunto estava recoberto de chagas. Observam-se outrossim os vestígios de queimaduras dispostos ao longo das imagens centrais, consequências de um incêndio; verifica-se também que a água que serviu para apagar as chamas se espalhou pelo tecido, dando origem a um círculo carbonizado e a manchas simétricas.

 

A autenticidade dessa peça é ponto controvertido; são inclinados a negá-la os autores que consideram principalmente a história do sudário, ao passo que lhe favorecem os que se apoiam no exame cientifico (médico, químico, têxtil...) da mortalha. Examinemos, pois, sumariamente cada um dos dois aspectos da questão.

 

1. A história do Santo Sudário

 

Os Santos Evangelhos dão-nos a saber que Jesus, tendo morrido na Cruz, foi envolvido em panos, dos quais um era realmente uma mortalha ou um sudário (cf. Mt 27,59; Mc 15,46; Lc 23,53 ; Jo 20,6s). É de supor que, por motivo de veneração, os Apóstolos hajam recolhido e guardado esta peça após a ressurreição do Senhor.

 

As notícias que a história nos refere a respeito de tal mortalha, são assaz lacunosas. Vejamos como se concatenam.

Possuímos um relato do bispo francês Arculfo, que, por cerca de 640, esteve na Terra Santa e diz lá ter visto e osculado «o sudário do Senhor que no sepulcro estivera sobre a sua cabeça» (Adamnan, Sobre os Santos Lugares, séc. III c. X, ed. Mabilion, Acta SS. Ordinis Benedictini).

 

O seguinte testemunho data de 1204 (!). Deve-se a Roberto de Clary, cavaleiro da Picardia e cruzado, que atestava a presença do Santo Sudário na capela imperial de Santa Maria dos «Blachernes» em Constantinopla e dizia que a relíquia sagrada era exposta ao público todas as sextas-feiras, para que se pudesse ver a figura de Cristo.

 

De 1204 a 1349 os textos de novo guardam silêncio sobre o assunto. Conjetura-se que, tendo os latinos tomado Constantinopla em 1205, o Sudário haja sido transportado para o Ocidente; de fato, os historiadores de Besançon (França) referem que uma mortalha semelhante à que Clary descreveu foi entregue em 1208 ao arcebispo de Besançon por Ponce de la Roche, um dos principais chefes dos cruzados de 1204 ; deve ter ficado na catedral desta cidade até 1349, ano em que o templo foi devastado por um incêndio, após o qual se encontrou vazio o relicário do pano sagrado. Presume-se que a mortalha tenha sido roubada, pois reaparece oito anos mais tarde, em 1357: pertence, desta vez, ao conde Godofredo de Charny, a quem o rei Filipe VI a terá dado como presente ; supõe-se haja sido o próprio ladrão (um tal Vergy ?) quem a consignou prèviamente ao monarca.

 

Charny colocou a relíquia na igreja de Lirey (diocese de Troyes), onde passou a ser publicamente venerada. Aconteceu, porém, que sucessivamente dois bispos de Troyes, Henrique de Poitiers, 1353-1370, e Pedro d Arcis, 1377-1395, impugnaram o culto do dito sudário, alegando não ser autêntica relíquia, mas ostentar a imagem de Cristo pintada por um impostor comprovado. Tendo Pedro d'Arcis apelado para Clemente VII (antipapa residente em Avignon, sob cuja obediência estava colocada a França), o Pontífice resolveu permitir, sim, a exposição do sudário, à condição, porém, de se advertirem os fiéis de que «não era o verdadeiro sudário que recobriu o corpo de Jesus Cristo, mas apenas uma pintura feita para representar esse sudário» (bula citada por Chevalier, Autour des origines du suaire de Lirey avec documents inédits. Paris 1903, 31-33). — Não se sabe com que fundamento preciso Clemente VII mandou fazer tal declaração.

 

De Lirey, por motivo de guerras, a venerada mortalha foi transferida para várias localidades, até finalmente fixar-se em Chambéry, como propriedade da Casa de Savóia (1453). Narra a crônica que em Chambéry foi o sudário submetido a diversas provas de autenticidade: fizeram-no mesmo ferver em óleo e lavaram-no mais de uma vez com sabão! Em 1532 novo incêndio na capela fez que uma gota de prata derretida queimasse um canto do tecido dobrado em seu relicário, deixando-lhe duas séries de furos, que as Clarissas de Chambéry consertaram da melhor maneira possível. Depois de algumas viagens devidas a vicissitudes políticas, finalmente foi o S. Sudário transportado para Turim (1578), a fim de que S. Carlos Borromeu, ancião, o pudesse venerar; nesta cidade se conserva até hoje em capela monumental. É raramente exposto ao público, pois para isto se requer a licença prévia da Casa de Savóia, muito parcimoniosa nas suas concessões. Durante a segunda guerra mundial, a venerável mortalha foi transportada para Montevergine (perto de Nápoles), onde a submeteram a novos estudos.

 

Eis a trama da história do Santo Sudário. Ao considerá-la, certos autores se mostram céticos sobre a autenticidade da peça: diversos hiatos no curso da história, dois prováveis furtos e dois incêndios lhes parecem cancelar o crédito que se quer dar à mortalha hoje conservada em Turim. Entre os negadores mais recentes da genuinidade, cita-se o famoso arqueólogo H. Leclercq, no artigo Suaire, do «Dictionnaire d'Archéologie chrétienne et de Liturgie» XV 2. Paris 1953, 1718-24. A explicação geralmente dada pelos autores desta corrente parece sintetizar-se bem nas seguintes palavras:

 

“Segundo a opinião de F. M. Braun, a mortalha de Turim reproduz um Cristo levemente estilizado do séc. XIII ou XIV. A imagem terá sido obtida por decalque, ou antes por contato com uma estátua de pedra ou com um baixo-relevo de madeira. Não seria uma pintura, mas uma tintura” (Analecta Bollandiana LX [1942] 304, numa apreciação do livro de F. M. Braun, Le linceul de Turin et L'Evangile de Saint Jean. Tournai 1939).

 

2. O exame científico do Santo Sudário

 

A análise da história não poderia bastar para se formar um juízo definitivo sobre o Sudário de Turim; dada a natureza dessa peça (pano que deve ter servido para determinado fim em época remota), requer-se outrossim o exame interno da mesma, a fim de se comprovarem ou refutarem definitivamente as noticias transmitidas pelos cronistas. Se as vicissitudes passadas da dita relíquia deixam céticos não poucos historiadores e exegetas, a análise de laboratório leva muitos homens de ciência a admitir a autenticidade ou ao menos algo de misterioso no Sudário de Turim. Quais seriam, pois, os resultados das pesquisas científicas a que tem sido submetida a mortalha?

 

1. No início do séc. XX, a conselho do Pe. Nogueir de Malijai, salesiano, o rei Humberto I da Itália mandou tirar as primeiras fotografias do Santo Sudário. Grande surpresa apoderou-se então do fotógrafo: ao revelar a película, notou que sobre a chapa fotográfica aparecia não a imagem negativa que seria de esperar, mas a efígie positiva de um homem deitado com as mãos sobre o peito e de semblante majestoso. Impunha-se então a conclusão: o Sudário mesmo já é um negativo, pois somente este poderia dar imagem positiva na chapa fotográfica. O fato de ser um negativo explica que os traços gravados na mortalha pareçam inexpressivos e confusos ao observador superficial, causando outrora decepção a muitas pessoas. — Alguns pintores, entre os quais Reffo, tentaram reconstituir o negativo da fotografia artificialmente, mas com resultados pouco felizes, pois os traços claros-escuros do Sudário são de perfeição tal, tão natural, que pintor algum os consegue reproduzir. Ademais verificaram que a imagem do Sudário não apresenta vestígio algum de tinta, lápis, pincel ou de mão de artista falsificador.

 

Podendo observar melhor a anatomia e a plástica da imagem, os estudiosos nelas verificaram características de evidente fidelidade ao ser vivo real: os traços do corpo robusto revelam a personalidade e a raça de autêntico semita.

 

Quanto às múltiplas manchas de sangue do Sudário, apresentam bordos nítidos e reproduzem com exatidão a forma dos coágulos que se constituem naturalmente sobre a pele humana. Dão a ver, como observa o famoso médico Dr. Barbet, que um cadáver coberto de chagas permaneceu durante umas tantas horas nessa mortalha. Nada, porém, explica como dela saiu, deixando intatas e belas as impressões de seu corpo e os vestígios do sangue derramado. Com efeito, adverte Barbet, quando se aplica um corpo ensanguentado a um pano e, em seguida, se descola, somente uma parte de cada coágulo formado permanece fixada sobre o pano, a outra fica sobre o corpo que tocou o pano; haverá, portanto, necessàriamente furos e falhas nas imagens dos coágulos sobre o pano. Ora os decalques que ficaram no Santo Sudário estão inteiros, intatos, reproduzindo a familiar imagem de um coágulo normal. «No estado atual de nossos conhecimentos (não quero julgar -o futuro), diz Barbet, isto é cientificamente inexplicável». O sábio cirurgião lembra então que o enigma pode constituir uma alusão tácita à ressurreição de Cristo; a ciência por si só não chegaria a concluir este milagre, mas põe o observador na via para tanto; o corpo glorioso de Jesus, que podia entrar no Cenáculo, estando as portas fechadas, bem podia libertar-se da mortalha sem a dilacerar ou desfigurar (cf. P. Barbet, A Paixão de N. S, Jesus Cristo segundo o cirurgião. Rio de Janeiro 1954, 35s).

 

Estas averiguações parecem a muitos cientistas decisivas para se remover a hipótese de que o Sudário não é senão uma tela pintada no séc. XIV (quando apareceu a mortalha em Lirey) a reproduzir artificialmente os traços de um cadáver.

 

Sem dúvida, dizem-nos tais estudiosos, uma imagem negativa era coisa inconcebível antes da descoberta relativamente recente da técnica fotográfica. Perguntam outrossim: como teria podido um pintor imaginar no séc. XIV, sem conhecer a moderna fisiologia do sangue, coágulos tão verídicos? Todos os artistas unanimemente pintam fluxos de sangue nas imagens do Senhor padecente, mas nenhum teve jamais a idéia de pintar coágulos; reproduções de coágulos, como as do Sudário, não podem ser executadas com corante algum. Ademais os pormenores de anatomia pressupostos pela imagem da mortalha eram estranhos à ciência medieval (cf. Barbet 37s).

 

Nem a hipótese de que uma estátua tenha sido aplicada à mortalha e lhe tenha gravado os sinais que nela se encontram é suficiente para explicar os pormenores de anatomia e fisiologia que o S. Sudário registra. Requer-se inelutàvelmente a presença de autêntico cadáver dentro do pano.

 

Em consequência, a única hipótese científica que ainda se poderia conceber, é que um falsário,medieval tenha assassinado alguém, recorrendo a processo muito violento e complexo e, a seguir, haja aplicado o cadáver à mortalha, com o intuito de obter uma pseudo relíquia de Cristo.

 

Contudo é muito inverossímil que um assassino tenha conseguido infligir à sua vítima, antes de a matar, tantos maus tratos que lembram a Paixão de Cristo e que estão reproduzidos na imagem do Sudário: flagelação, coroação de espinhos, chagas de cravos nas mãos e nos pés, além da chaga do flanco devida ao ferimento de lança no coração. Além do que, levanta-se uma dificuldade por parte do tecido da mortalha ...

 

2. Com efeito, a estrutura do pano tem sido estudada graças a fotografias ampliadas, que fornecem imagem sete vezes mais nítida do que o natural. Peritos da França e da Itália averiguaram que se trata de tecido de linho fabricado em «espinha de peixe». A confecção de sua contextura («3 liga 2») requer um tear de quatro pedais e 40 fios por centímetro de trama. O fio é grosseiro, a fibra crua, dando uma tela pura, cerrada e opaca. — Ora tal tipo de pano era usual nos tempos de Jesus; parece mesmo que os principais centros dessa tecelagem eram a Mesopotâmia e a Síria; devia, portanto; ser mercadoria normal no comércio de Jerusalém por volta do ano 30; tecidos análogos foram encontrados em Palmira, em Dura-Europos e em Antinoés (Oriente próximo e Egito). Destas verificações se depreende mais um indício de que a mortalha venerada não é obra medieval, mas há de ser recolocada no quadro da antiguidade.

 

Por último, merece atenção o fato de que outros pretensos sudários de Cristo, como os de Compiègne, Besançon, Cadouin, submetidos a idênticas provas científicas, foram comprovados falsos, ao passo que até hoje não se poderia honestamente dizer o mesmo da mortalha de Turim.

 

3. Numa conclusão assaz sóbria, verifica-se, pois, que o exame médico-legal concorre notàvelmente para desfazer as impressões desfavoráveis à autenticidade do Sudário de Turim, impressões suscitadas pela consideração do histórico desta peça. Parece mesmo que mais fortes são as razões em favor da genuinidade derivadas das análises científicas do que os motivos de ordem histórica que levam a duvidar dessa autenticidade. Justamente o emprego dos recursos mais modernos de pesquisa científica só tem corroborado a tese de que se trata de autêntica relíquia da Paixão de Cristo; é o que justifica o apreço que os Sumos Pontífices têm dedicado ao Sudário, procurando com isto, em toda e qualquer hipótese, fomentar a veneração ao Senhor padecente.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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