PERGUNTE E RESPONDEREMOS 006 - Junho 1958

 

Quem foi Nostradamus?

P. I. B. (Rio de Janeiro): “Quem foi Nostradamus e qual a autoridade de suas profecias?

 

1. A personalidade do profeta se delineia nos seguintes termos:

 

Miguel Nostradamus nasceu em Saint-Remy (Provença, França) no ano de 1503, de uma família de Judeus, sábios famosos em medicina e matemática. Seus ancestrais se haviam tornado cristãos, por efeito de um decreto do rei Luís XI, que ameaçava os judeus não batizados de confiscação dos bens; em consequência tomaram o nome cristão de Notre-Dame, que em latim vulgar deu Nostradamus.

 

De acordo com as tradições da família, o jovem Miguel foi iniciado na medicina, na farmacêutica e também na matemática profunda, que naquela época era inseparável da astrologia (ou da adivinhação mediante consultas aos astros).

 

Tendo terminado os estudos na Universidade de Montpellier, Miguel instalou-se em Salon-de-Crau, e pôs-se a praticar a medicina juntamente com a astrologia; desde remota antiguidade os médicos, para fazer seus diagnósticos e receitar os devidos medicamentos, recorriam frequentemente a esta arte de adivinhação. Em sua residência, pois, Nostradamus tinha um observatório, donde contemplava oportunamente as estrelas; destarte granjeou para si a fama de curandeiro maravilhoso e hábil médico (dois títulos que o povo da época facilmente associava entre si).

 

Em breve Nostradamus começou a redigir certas profecias «inspiradas» pela contemplação das estrelas e referentes à história do reino de França. Daí se originaram as suas «Centúrias», obra editada, não sem receio da censura da opinião pública, pela primeira vez em 1555. Com isto, porém, Nostradamus só ganhou maior renome. Naquele tempo reinava em França uma rainha extremamente inteligente, mas também muito supersticiosa: Catarina de Medicis; chamou à corte o profeta, a fim de o consultar sobre os próximos acontecimentos da história; em alguns casos, Nostradamus pronunciou oráculos verídicos; enganou-se, porém, ao profetizar que o filho de Catarina, o jovem rei Carlos IX, o qual com dez anos de idade subiu ao trono em 1560, chegaria a grandeza igual à do Imperador Carlos Magno (na verdade, o monarca morreu de desgosto e horror devidos às guerras civis de França). Em 1564 Carlos IX (declarado maior de idade em 1563) nomeou Nostradamus seu conselheiro e médico ordinário; este era tido como o mais sábio astrólogo do século e cercado de honras excepcionais.

 

Finalmente o herói faleceu aos 2 de julho de 1566 em Salon, minado por fraqueza e doença. Durante muito tempo, o povo se recusou a crer que de fato morrera; corria, antes, o rumor de que estava assentado no túmulo, iluminado por sua lâmpada noturna, rodeado por seu astrolábio, seus papéis e livros, continuando a redação de suas «Centúrias».

 

Tal era a fama de que gozava Nostradamus que, após a sua morte, muitas lendas se foram acumulando em torno de sua pessoa, a fim de mais o aureolar. Entre outras, é particularmente interessante a seguinte: Catarina de Medicis permaneceu estéril durante onze anos após o casamento com Henrique de Orléans, o que lhe causava enorme pesar, fazendo-lhe temer o repúdio por parte do marido; Nostradamus teria posto termo a essa situação angustiosa, receitando para a rainha o remédio apto a combater a esterilidade: «Urina de carneiro misturada com sangue de lebre; pata esquerda de doninha temperada com vinagre forte; chifre de veado pulverizado e misturado com esterco de vaca e leite de jumento». Por efeito desta medicação, Catarina teria tido dez filhos! — Acontece, porém, que neste relato há evidente anacronismo, que depõe contra a sua veracidade: Catarina casou-se com Henrique em 1533 e teve seu primeiro filho, o futuro rei Francisco II, em 1544. Ora nesta data Nostradamus ainda não era conhecido nem se instalara em Salon. Ademais é pouco verossimilhante que o médico tenha dado a conhecer a receita salvífica, pois o segredo profissional outrora era rigorosíssimo em todas as atividades que dependiam simultaneamente do saber e da adivinhação.

 

2. Quanto às profecias de Nostradamus, estendem-se, segundo os dizeres do autor, até o ano 3797 depois de Cristo. Dos relatos do próprio profeta depreende-se que recebia suas «inspirações» em meio a uma verdadeira liturgia astrológica, em parte já discriminada nas obras do filósofo neo-platônico Jamblico (+306): Nostradamus se colocava, com uma vara na mão, no meio de um círculo mágico, chamado limbo, junto a uma bacia de água; falava-lhe então a voz de Branco, filho de Apolo, que aparecia em meio ao fogo. Antes desta cerimônia, porém, consultava os astros para saber se estava numa «hora de eleição»; em caso afirmativo, esvaziava o espírito de toda preocupação o entrava em paz.

 

As idéias pressupostas por este ritual são evidentemente errôneas: não há em absoluto influência dos astros irresistível, nem destino ou determinismo rígido do qual o homem não possa escapar. Parece, porém, que Nostradamus não via o erro doutrinário implicado em suas práticas; enganava-se de boa fé. Eis, por exemplo, como se exprimia no «Prefácio a seu filho César».

 

«Condenamos a magia, mais do que execrável, outrora reprovada pelas Escrituras Sagradas e pelos divinos cânones».

 

No inicio da oitava «Centúria» declarava:

 

«... protestando diante de Deus e seus santos que não pretendo na presente epístola escrever coisa alguma que contrarie a verdadeira fé católica».

 

Diz também o seu biógrafo e contemporâneo Chavigny:

 

«Era muito fiel às cerimônias da Igreja Romana e seguia a fé e a religião católica, fora da qual afirmava não haver salvação. Repreendia severamente os que, tendo-se afastado do grêmio da Igreja, se deixavam enredar por doutrinas estranhas e condenáveis, assegurando que seu fim lhes seria mau e pernicioso. Não me quero esquecer de dizer que praticava de bom ânimo jejuns, orações, esmolas e a paciência».

 

O conteúdo dos oráculos captados por Nostradamus é extremamente obscuro; redigidas em versos, com muitas metáforas, suas profecias têm sido aplicadas aos reinados subsequentes de Henrique IV, Luís XIV, Luís XV, Luís XVI, Napoleão, reinados para os quais se preveem guerras, tumultos, escândalos de corte, etc. — Contudo os comentadores, para conseguir aplicar as «profecias» à história real, têm que fazer transposições e combinações de versos, têm que interpretar de maneira mais ou menos arbitrária certas figuras de linguagem; explicam o obscuro pelo mais obscuro de sorte que nem todos os críticos reconhecem o valor de tais profecias. Se em alguns casos Nostradamus parece realmente ter predito o futuro, explica-se isto pelo conhecimento exato que o «profeta» tinha da história antiga, principalmente de Roma; ciente do que se dera nas grandes monarquias do passado, não lhe era difícil prever a repetição, no futuro, de certos casos típicos da história.

 

Em consequência, julgam os estudiosos que a obra de Nostradamus é uma noite muito densa com pouquíssimas estrelas e que, se Nostradamus voltasse à terra, ele mesmo se admiraria de tudo quanto os pósteros lhe fizeram e fazem dizer, confessando que nunca pensou outrora em tais coisas!

 

Bibliografia:

L. Critiani, Nostradamus, Malache et Ce. Editions du Centurion 1955.

Ecclesia, ns. 78 e 79. setembro e outubro do 1955, págs. 30-40 e 109-118.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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