PERGUNTE E RESPONDEREMOS -004 / setembro 1957

 

Concursos de Beleza

GAÚCHO (Cachambi): “Qual é a posição da Igreja perante os concursos de beleza, tão comuns em nossos tempos?

 

Os concursos de beleza internacionais, tais como se têm realizado em nosso século, só podem merecer formal desaprovação por parte da consciência cristã. Levando em conta apenas a beleza física, só fazem excitar vaidade e concupiscência desregrada; haja vista a série de critérios estabelecidos (até mesmo exames médicos são prescritos) para se atribuir a vitória a tal ou tal candidata. A mentalidade que inspira esses torneios parece ser profundamente pagã ou paganizante.

 

Pode contudo haver quem hesite em aceitar este juízo, visto que o Santo Padre Pio XII recebeu a senhorita Carletti, jovem italiana vencedora em recente concurso de beleza. É de notar, porém, que por tal gesto Sua Santidade se dignou reconhecer o significado de um certame diferente dos habituais, ou seja, de um concurso em que não se considerou apenas o físico humano, mas também se deu alto apreço às qualidades de espírito das concorrentes. Com efeito, a agência telegráfica United Press transmitiu ao mundo a seguinte notícia:

 

"A audiência de hoje, à qual a jovem Carletti foi acompanhada por seus pais e duas Irmãs, é considerada como expressão de estimulo do Papa aos concursos em que também se levam em consideração outros dotes pessoais, além da beleza física.

A esbelta senhorita Carletti, que costurou ela própria o vestido com que compareceu à audiência no Vaticano, não possui apenas a beleza, mas também os seguintes predicados, que contribuíram para que lhe fosse concedido o titulo: sabe lavar e passar a ferro, encerar a casa e limpá-la com aspirador de pó; faz excelentes pastéis, guisados e spaghetti; sabe costurar, bordar, etc.; é decoradora, nadadora e ciclista; não fuma; dança com moderação; não tem interesse especial pelos automóveis; não lê histórias em quadrinhos; está sempre de bom humor e goza de perfeita saúde".

 

Como se vê, a exigência e a apreciação de tais qualidades em uma jovem denotam um conceito de natureza humana que já não é o do pagão antigo ou moderno. Diante de concursos que contribuam para que as jovens se apliquem ao trabalho, ao calejamento das mãos (se necessário), levando-as a preencher a sua função na sociedade e a alcançarem o seu Fim Supremo, a Moral cristã não se mostra infensa; tais certames, longe de degradar, só fazem aprimorar a consciência; em vez de prostrar as pessoas interessadas na moleza frívola, mórbida, estimulam o cultivo da virtude. Nada impede que, juntamente com esta, se leve em apreço, dentro de certos limites, o aspecto físico das concorrentes, já que a natureza humana consta não somente de alma, mas também de corpo (corpo, porém, que em tudo há de ser subordinado ao espírito). Sabemos, aliás, que a graça sobrenatural existente em uma alma pode chegar a "transparecer" no rosto do justo, comunicando-lhe um encanto, uma graça natural, que deleita os homens (antecipa-se assim em termos pálidos o que se dará na final ressurreição da carne); a Sagrada Escritura mesma menciona a este propósito os exemplos de Judite e Ester; a hagiografia registra, entre outros, o famoso caso do Cura d'Ars.

 

Vê-se, pois, que a audiência concedida pelo Santo Padre Pio XII tem o significado de estimular o desenvolvimento das qualidades de ânimo da mulher no mundo moderno, não implicando, em absoluto, ratificação dos lascivos certames de beleza meramente corpórea que empolgam a sociedade contemporânea.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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