REVISTA PeR (1952)'
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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 009 – setembro 1958

O Celibato do Clero

A. F. L. (Recife): Caro amigo, não há motivo para se abalar. As razões apresentadas por seu interlocutor contra o celibato do clero, por mais capciosas que sejam, não passam de sofismas, como V. S. depreenderá de uma serena análise das mesmas.

1)"O matrimônio é um direito natural". — Sim. Disto se segue que também é uma obrigação? Não; a conclusão ultrapassaria as premissas. Do texto de Gên 1, 28 ("Crescei e multiplicai-vos...") decorre apenas que a coletividade do gênero humano deve prover à propagação da espécie — coisa que se pode obter sem que todo e qualquer indivíduo se case.

Sim, "o matrimônio é um direito natural", mas poderia o cristão dizer que vive na ordem meramente natural, guiado exclusivamente por critérios naturais? Não; o cristão foi elevado a um plano sobrenatural, um plano que São Paulo diz ser por vezes ininteligível ao homem "psíquico" (orientado pela mera natureza), mas plenamente compreensível a quem tem o Espírito de Deus (cf. 1 Cor 2,14s).

Pois bem, na ordem sobrenatural estão em vigor os seguintes princípios: o matrimônio é algo de muito santo, instituição natural que Cristo elevou a nova dignidade, tornando-a sacramento, isto é, canal comunicador de graças e santidade aos cônjuges (cf. Ef 5,32). Quanto ao celibato abraçado por amor ao Reino dos céus, constitui uma vocação ainda mais nobre e bela do que o matrimônio (cf. 1 Cor 7,1 8. 25-28. 38-49; Mt 19,12); permite a vida una, indivisa, de adesão ao Senhor: "Aquele que não é casado, cuida das coisas do Senhor, em como há de agradar ao Senhor. Aquele, porém, que é casado, cuida das coisas do mundo, em como há de agradar à mulher..." (1 Cor 7,32s). Este ponto de doutrina se acha desenvolvido em "P. R. 4/1957, qu. 7;  e 7/1957 qu. 7.

2) Mas “é melhor casar-se do que abrasar-se (em concupiscência)” diz o Apóstolo em 1 Cor 7,9. — E se alguém, por graça de Deus, não se sente abrasado no celibato?... Pode crer que também isto se dá. A virgindade é dom de Deus, dom que o Senhor outorga realmente quando chama alguém ao sacerdócio entre nós. O sacerdote que tenha sido ordenado mediante comprovados sinais de vocação, sabe que, da parte de Deus, não lhe faltará a graça de estado necessária para ser fiel (as quedas nada provam em contrário, pois a graça não extingue a liberdade de arbítrio).

3) O fato de que a Igreja, por instituição de Cristo, é contrária à dissolução do matrimônio, não significa que ela deva mandar a todos os seus filhos que se casem. Bem se vê que os critérios que levam a repudiar o divórcio, não têm que ver com os critérios que levam a recomendar o matrimônio a determinado indivíduo.

4) Seu estimado interlocutor apela para o Antigo Testamento : Lev 21,13s; Ez 44,22. — Seja-nos permitido perguntar: Se o Antigo Testamento vale ao pé da letra para o cristão, porque é que o distinto interlocutor não observa todas as demais prescrições da Lei de Moisés: o repouso do sábado, a distinção entre animais puros e impuros, as purificações rituais para quem haja tocado um cadáver, um leproso, e a indumentária sacerdotal com seu efod? Será que nosso irmão separado não aceita a explicação de São Paulo aos Gálatas, a qual nos diz que, para quem quer voltar à Lei de Moisés, de nada servem o Cristo e a Redenção? "Separados estais de Cristo, vós que vos justificais pela Lei; da graça tendes caído" (Gál 5,4) — Em particular, o sacerdócio do Antigo Testamento com suas instituições cedeu ao do Novo Testamento, conforme S. Paulo.

O caro oponente afirma que uma parte obscura da S. Escritura deve ser entendida pelos trechos claros concernentes ao mesmo assunto. Ótima norma de exegese ! — Ora nós, cristãos, dizemos que os textos obscuros, típicos, são os do Antigo Testamento e que os do Novo Testamento são mais claros, pois "o fim da Lei é Cristo" (Rom 10,4); todo o Antigo Testamento, portanto, deve ser visto à luz do Cristo, isto é, do Novo Testamento, e não vice-versa. Parece, porém, que o amigo contendente quer justamente interpretar o Novo Testamento (1 Cor 7; ML 19,32) à luz do Antigo.

5) A "irmã" mencionada em 1 Cor 9,5 significa, como julgam os melhores exegetas, uma cristã que provia às necessidades dos Apóstolos em viagem. Caso, porém, significasse "esposa", a passagem citada nos lembraria apenas aquilo que sabemos: alguns (muitos ou poucos?) Apóstolos se haviam casado antes de ser chamados por Cristo. Disto não se segue preceito algum para nós. São João era virgem. Ademais o Senhor aconselha não a todos, mas a quem tenha o chamado interior, abandone até mesmo a esposa para poder dedicar-se inteiramente ao Reino de Deus: "Se alguém vier a Mim e não aborrecer seu pai, sua mãe, sua esposa, seus filhos... não pode ser meu discípulo" (Lc 14,26; cf, Lc 18,29).

Sendo assim, bom irmão, tranquilize seu interlocutor. Cristo está com os Apóstolos e seus sucessores até a consumação dos séculos (cf, Mt 28,20).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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