PERGUNTE E RESPONDEREMOS 020 – agosto 1959

 

A Volta às Fontes

DOGMÁTICA

A. F. P. (Belo Horizonte): Em que consiste a volta às fontes, de que tanto se fala na vida cristã moderna? Enquanto uns preconizam mudanças tidas como renovadoras, outros as rejeitam e terceiros não sabem o que há de certo no assunto”.

Por «fontes», na expressão acima citada, entendem-se os grandes mananciais da doutrina e da vida cristãs, isto é,

- a Revelação oral e escrita (Bíblia Sagrada),

- os Sacramentos, dentre os quais se destaca a Eucaristia,

- os documentos ou escritos dos chamados «Padres da Igreja» (escritores ortodoxos dos sete primeiros séculos).


A nossa resposta se depreenderá de rápido percurso da história da espiritualidade moderna, percurso apto a ilustrar o que se entende por renovação cristã em nossos dias.

 

Pode-se dizer que o pensamento e a vida dos cristãos contemporâneos estão sujeitos à influência preponderante dos acontecimentos dos cinco últimos séculos.


Em meados do séc. XV na Itália tomou vulto o movimento dito «humanista» ou «renascentista», movimento que se derivava da descoberta de documentos da civilização antiga (no séc. XVI essa corrente era chamada «restituição das boas letras»). O indivíduo humano, com seus valores e suas faculdades, foi sendo mais e mais focalizado pelos pensadores da época que, consciente ou inconscientemente, deram início a nova ordem de coisas, emancipada da que até então estivera em vigor: a cultura profundamente impregnada de fé, que formara as gerações antigas e medievais, foi cedendo a nova mentalidade — à do «livre pensador» ou racionalista, que tende a remover a idéia de Deus e do sobrenatural (o termo «humanista» no séc. XVI significava o estudioso que se consagrava às letras humanas em oposição às letras sagradas ; veio a designar mais tarde aquele cuja filosofia girava toda em torno do homem).


Assim nos séc. XV/XVI acadêmicos humanistas, embora ainda guardassem o titulo e as insígnias de cristãos, pactuavam até certo ponto com o materialismo, chegando alguns a negar a imortalidade da alma, o pecado original, a Redenção, enfim os pontos capitais do pensamento cristão (tenham-se em vista principalmente os mestres da escola de Pádua: Pomponnazzi e Vicomercato). No séc. XVII descobertas científicas cada vez mais vultosas fizeram que alguns pensadores afirmassem estar o futuro da humanidade nas mãos da ciência, e não nas de Deus, como até então afirmara a cultura cristã; a Igreja foi tida por inimiga do progresso, nos dizeres de Giordano Bruno, Campanella, Teófilo de Viau, Vanini...

 

Estendendo-se ao setor religioso, a atitude humanista ou naturalista se concretizou na chamada «Reforma» do séc. XVI: o movimento dito «protestante», iniciado em 1517 por Lutero, rejeitou qualquer autoridade religiosa, para colocar em lugar desta o julgamento autônomo da consciência ou o «livre exame»; destarte solapava, sem o querer, as bases da fé e trabalhava em favor da irreligião professada e militante dos séculos futuros. Lutero bem o percebeu e lamentou no fim de sua vida; Calvino, um dos Reformadores que o imitaram, para evitar esse resultado, instituiu em Genebra uma ditadura teocrática, recorrendo a drásticos processos de coação. Não obstante esses males, os exemplos dos «Reformadores» do séc. XVI foram reproduzidos por «iluminados» ou outros tantos Reformadores da «Reforma» nos séculos subsequentes; cada um destes julgou descobrir o Evangelho em sua época: assim John Smith, no séc. XVII, fundando a seita dos Batistas; John Wesley (+1791), dando início à seita dos Metodistas; Henry Jacob (+1624), organizando os Congregacionistas; William Booth (+1912), o Exército da Salvação; Mary Baker (+1910), a «Christian Science», etc.

 

Por tal via, mais e mais se foi afirmando o subjetivismo religioso, concorrendo para criar a atmosfera de relativismo ou ceticismo em torno do sobrenatural, relativismo que muito caracteriza os tempos presentes.

 

Voltando à história geral das idéias, verificamos que nos séc. XVII/XVIII a mente humana, bajulada pelos contínuos progressos das ciências naturais, cada vez mais se tinha na conta de auto-suficiente: ainda professava a existência de Deus, mas de um Deus bem adaptado às categorias da razão, ao qual não se reconhecia intervenção alguma na história deste mundo e ao qual não era preciso prestar fé pròpriamente dita; preconizava-se assim uma religião natural em que todos os credos se fundiriam e na qual a ética não dependeria de Revelação Divina nem prometeria recompensa póstuma; nessa ideologia tocaria o primado ao homem, considerado como centro do mundo. Foram arautos de tais concepções na França os chamados «filósofos» do séc. XVIII: Voltaire (+1778), d'Alembert (+1783), Diderot (+1784) e os «enciclopedistas»; na Inglaterra, Herbert of Cherbury (+1648), Thomas Hobbes (+1679), John Toland (+1722), David Hume (+1776); na Alemanha, Ch. Wolff (+1754), Emmanuel Kant (+1804). Juntamente com estes filósofos, uma fonte, um tanto diversa, de reflexões concorria para alimentar a mentalidade naturalista: eram os numerosos relatos de viagens a terras pagãs espalhados pela Europa na mesma época; formou-se entre os ocidentais, por inspiração desses escritos, a lenda, muito explorada por Voltaire, do «Bom Selvagem», dotado de todas as virtudes; começou a ser admirado e apregoado o pagão honesto ou o pagão santo, ao lado do cristão santo.

Nos redutos mais intimamente católicos, a mentalidade sobrenatural ainda foi atrofiada de maneira especial por outro veneno, isto é, pela heresia jansenista (séc. XVII/XVIII): esta professava enorme distância entre Deus e o homem, como se a natureza humana após o pecado original estivesse totalmente viciada e incapaz de praticar o bem. O jansenismo, sem dúvida, muito contribuiu para que os fiéis se alheassem dos sacramentos, canais da graça, e para que se laicizasse ou embotasse a consciência sobrenatural do povo cristão.


Por efeito de todas essas correntes naturalistas, na França e na Áustria, nações católicas dos séc. XVII/XVIII, acentuavam-se as tendências a criar Igrejas nacionais independentes da Igreja universal e regidas por normas humanas ou rega- listas. Ao lado de Luís XIV, da França, deve-se mencionar a figura marcante do Imperador José II, da Áustria; este monarca (que seu contemporâneo Frederico II da Prússia chamava «meu caro irmão Sacristão») se ingeria até nas mínimas questões de administração da Igreja, fazendo desta um órgão do regime do Estado : fundou cinco Seminários Gerais, aos quais impôs o corpo docente e o respectivo programa de estudos, orientado por mentalidade naturalista e laical; regulamentou o calendário das peregrinações, o número de velas que poderiam ser acesas diante de cada altar, a venda de estátuas religiosas, o uso de certas fórmulas litúrgicas, etc. — Está claro que tais medidas só podiam concorrer para desvirtuar a piedade e o vigor da vida cristã.


Note-se, outrossim, que, em reação contra os desmandos da Filosofia e das heresias, a teologia católica, a partir do séc. XVI (Ps. - Reforma luterana), se tornou acentuadamente apologética; o que quer dizer: aplicou-se a defender as teses dogmáticas e as práticas de culto do Catolicismo mais do que a manifestar o seu conteúdo rico e vital. Disto resultou que algumas verdades centrais da fé cristã foram sendo menos focalizadas pelos eruditos e menos explicadas ao povo, enquanto os temas controvertidos, muitas vezes periféricos ou pouco fecundos para a piedade, eram longamente explanados.


A própria arte sacra (arquitetura e iconografia, principalmente), a partir do séc. XVI, passou a ressentir-se das tendências apologéticas: em vez de representar o paralelismo do Antigo e do Novo Testamento, explanando o sentido típico das Escrituras à luz de concepções teológicas sólidas e profundas, capazes de formar a piedade do povo de Deus, os artistas católicos, diante do .racionalismo em geral e da aridez da mentalidade protestante em particular, procuraram enternecer os fiéis, apresentando de maneira um tanto sentimental cenas da infância de Jesus ou atribuindo traços talvez exageradamente suaves ou adocicados à SSma. Virgem, a S. José e aos santos anjos da guarda, tutores da família cristã posta em perigo. «A arte não contemplava mais os mistérios; defendia-os... Deixou de ser teológica e mística, para tornar-se apologética» (O. Rousseau, Le mouvement liturgique. Paris 1945, 173).


A arte da Contra-Reforma «é arte militante, para não se dizer militar; arte de guerra, de certo modo destinada a fazer frente... ao cisma e à heresia» (L. Gillet, na enciclopédia «Eclésia» 1927, 654).


Finalmente o século XIX herdou em plenitude as conseqüências das idéias e dos feitos anteriores. As ciências, com suas numerosas descobertas de Física, Astronomia, Geologia, etc., iam sendo cultivadas por adeptos do racionalismo, os quais arbitràriamente utilizavam seus estudos para dar aparência científica ao ateísmo. Destarte se foi implantando o conceito de que, para guardar a fé, era preciso que o cristão desconhecesse a ciência e se reduzisse a certo obscurantismo; Religião seria prática de crianças, ignorantes ou gente decrépita. A piedade então, além de se ressentir do subjetivismo e do naturalismo transmitidos pelas épocas anteriores, em muitos cristãos passou a constituir um setor distanciado da inteligência, alheio ao saber e, por isto, dado aos artifícios e ao superficialismo; ressentia-se sem dúvida da falta de nutrimento teológico e cultural. — Em suma: a perda do espírito cristão foi-se tornando fato generalizado no decorrer do século passado.


Aos poucos, porém, por disposição da Providência Divina, esboçou-se o movimento de renovação católica... Deve seu primeiro impulso ao Concilio do Vaticano (1870), o qual rejeitou de maneira peremptória as duas tendências que atrofiavam a teologia e a vida católicas:

1) o racionalismo de teólogos (Hermes, Günther...) que, em parte por razões apologéticas ou para atrair pensadores não-católicos, pretendiam fazer das proposições de fé a conclusão de raciocínios, de modo a encobrir o caráter sobrenatural da Revelação cristã;

2) o fideísmo ou tradicionalismo, segundo o qual a razão não tem interferência na aceitação da mensagem cristã; esta se imporia exclusivamente por autoridade, quase como algo de estranho ao raciocínio.

 

Rejeitando um e outro extremo, os Padres do Concilio do Vaticano lançaram as bases para se conceber nos tempos presentes a autêntica síntese de razão e fé ou de ardem natural e ordem sobrenatural.


Alguns decênios após o Concilio, isto é, em 1903, subia ao Sumo Pontificado um Pastor de almas, o Papa S. Pio X, que, consciente da gravidade do momento, se preocupou com a renovação da espiritualidade cristã, já então freqüentemente preconizada pelos teólogos. Em vista disto, lançou um brado característico: o de «Volta às fontes», isto é, de reestruturação da vida cristã sobre as suas bases mais sólidas; os grandes mananciais do vigor sobrenatural deveriam ser explorados tão intensamente quanto possível. Por conseguinte, deu início a uma série de movimentos que acarretariam, entre os fiéis, tomada de consciência dos valores mais autênticos da fé (estas medidas estavam longe de significar Reforma da estrutura ou do dogma da santa e indefectível Igreja de Cristo ; apenas implicavam nova acentuação de temas e usos tradicionais no Cristianismo). Com efeito,

 

1) S. Pio X promoveu, antes do mais, a frequentação assídua, até mesmo cotidiana, da S. Eucaristia. Falsamente guiados pelo Jansenismo, que propunha a S. Comunhão como prêmio mais do que como remédio, os cristãos, imbuídos de temor, poucas vezes se aproximavam da mesa sagrada, sofrendo os desastrosos efeitos da subnutrição espiritual. — Eis, porém, que a volta à S. Comunhão suscitou nova estima da S. Missa e, conseqüentemente, da S. Liturgia em geral. Daí dizer-se que Pio X foi um dos grandes pioneiros do movimento litúrgico, que até hoje se tem tornado benemérito por favorecer a participação dos fiéis nos ritos sagrados, principalmente na S. Missa; muito citadas são as palavras do Pontífice : «É preciso não cantar nem rezar durante a Missa, mas cantar e rezar a Missa». O movimento litúrgico é, sem dúvida, uma das expressões mais notáveis da volta às fontes.

 

Escrevia ainda o Pontífice em 1905: «Já que nosso mais vivo desejo é que o verdadeiro espírito cristão volte a florescer de todos os modos e permaneça em todos os fiéis, é necessário prover, antes do mais, à santidade e à dignidade do templo, onde os fiéis se reúnem justamente para sorver tal espírito em sua fonte primeira e indispensável, isto é, na participação ativa nos santos mistérios assim como na oração pública e solene da Igreja» (Pii Pontificis Maximi Acta. Roma 1905, 77).

Como sugerem estas palavras do Santo Padre,

 

2) A renovação da vida litúrgica não pode deixar de implicar imediatamente a renovação da arte sacra.

 

«A liturgia é o ponto de encontro de todas as artes. Declínio do espírito tradicional do Cristianismo acarreta necessàriamente declínio das artes religiosas. Reerguer este espírito e de novo aproximá-lo da sua fonte seria simultaneamente promover a restauração da arte religiosa» (O. Rousseau, op. cit. 151).


A arte religiosa nos últimos séculos tomara caráter quase profano; embora se servisse de formas exuberantes, era mais ou menos vazia de conteúdo religioso.


Isto se verificava principalmente com o canto sacro. Já em 1884 a S. Congregação dos Ritos proibia «se executasse na igreja qualquer peça que recordasse as obras de teatro ou as composições aptas à dança, como polka, valsas, mazurkas, minuetos... galopes, contra-danças, etc.»; vedava outrossim o uso, nas igrejas, de «instrumentos musicais demasiado ruidosos, como tambores, bombos, címbalos e semelhantes... instrumentos de saltimbancos, o piano, etc.» (decreto de 21 de setembro de 1884).


Por conseguinte Pio X incentivou a restauração da arte religiosa dentro de genuína estrutura cristã: «Quero que meu povo ore num ambiente de beleza», disse o Santo Pontífice. Principalmente o canto sacro foi depurado de suas formas teatrais, para retomar os moldes clássicos do canto gregoriano. A forma dos paramentos, assim como as alfaias do culto, a arquitetura dos templos e a iconografia nos decênios subseqüentes foram sendo remodeladas, dando-se grande apreço ao simbolismo tradicional na Igreja, isto é, a linhas simples, executadas, porém, de modo a aparecerem prenhes de realidade transcendente e a evocarem o senso do mistério.

 

3) A celebração decorosa da Liturgia é, por sua vez, inseparável do uso das Escrituras. A função sagrada por excelência — a S. Eucaristia — é tradicionalmente acompanhada de uma moldura bíblica, ou seja, do sacramentai da Palavra de Deus. É o que explica, tenha S. Pio X dado impulso igualmente a um movimento de volta à leitura mais assídua e fecunda da Escritura Sagrada. Esta, durante o séc. XIX, tornara-se um dos setores prediletos da critica racionalista, que desvirtuava o conteúdo sobrenatural do Livro de Deus ; a fim de preservar tal patrimônio e dá-lo como alimento substancioso ao povo cristão, Pio X criou o Pontifício Instituto Bíblico em Roma.

 

4) Por fim, ao mesmo Pontífice se deve .também a renovação da catequese ou dos métodos de ensinar a doutrina sagrada. O Santo Pontífice desejava fossem estes métodos mais influentes na vida dos discípulos; as suas exortações despertaram a atenção de benemérita série de mestres, que até nossos dias se esforçam por aplicar os recursos da psicologia e da pedagogia modernas à transmissão da Palavra de Deus.

Eis, em rápido esboço, quanto se deve à atividade de S. Pio X em favor da renovação cristã.


Prossigamos agora a história.


O brado de «Volta às fontes», lançado pelo Santo e concretizado nos movimentos acima referidos, foi apoiado e avolumado pelos Pontífices seguintes, produzindo, sem dúvida, desde cedo enormes benefícios ao clero e aos fiéis. Contudo entender-se-á sem dificuldade que se haja tornado também ocasião de mal-entendidos e exageros. No decorrer dos decênios subseqüentes, a renovação foi por vezes entendida no sentido de revolução, principalmente no setor da Liturgia; muitos entusiastas católicos, não raro guiados pela melhor das intenções, tentaram dar (se não em teoria, ao menos na prática) certo exclusivismo às formas de piedade ditas «litúrgicas, objetivas», menosprezando, por conseguinte expressões populares da vida de oração até então vigentes. Esta posição exacerbada provocou a reação contrária: houve os que passaram a nutrir suspeitas sobre a preconizada renovação litúrgica, rejeitando conseqüentemente qualquer mudança nos trâmites da espiritualidade cristã; a estes fiéis a volta às fontes parecia ser luxo espiritual ou formalismo arqueológico e vão, sugeridos pelo gosto ou pelo intelectualismo de algumas escolas, mais do que algo de vital e construtivo.


Também no setor da S. Escritura registraram-se equívocos: a aceitação de métodos modernos de exegese e de apostolado bíblico não foi estimada da mesma forma por todos os fiéis; parecia tocar as raias do racionalismo.

 

Tais mal-entendidos eram naturais, pois se tratava de conceber, de novo e nos termos mais autênticos, algumas notas características da vida cristã, após séculos de subnutrição espiritual. Por disposição da Providência, porém, partidários e adversários dos movimentos de renovação prestaram-se mútuos serviços, pois ajudaram uns aos outros a perceber em que consistia a intenção dos Sumos Pontífices e, por conseguinte, qual o genuíno programa a executar: verificou-se que não se tratava em absoluto de revolução nem mesmo de inovação (1) neste ou naquele setor da Igreja, mas que, ao contrário, qualquer autêntico revigoramento da vida cristã só pode consistir em se trocar uma tradição recente, circunstanciada pelos fatores contingentes de determinada época, por outra tradição mais antiga, não condicionada por elementos contingentes, mas ditada diretamente pelas fontes e pela estrutura mesma do Cristianismo; qualquer revigoramento da cristandade só pode consistir em continuar a mais genuína tradição ou a mais genuína das modalidades da Tradição (está claro que não de maneira mecânica, mas de modo plástico, adaptado, sem desvirtuamento, às circunstâncias da época em que vivem os cristãos).

 

(1) Note-se a diferença entre «inovação» e «renovação». Renovação significa volta ao que era inicialmente, ao passo que inovação designa o início sem precedentes.

 

Cerca de meio-século após os inícios da renovação, o Sto. Padre Pio XII punha termo final à fase das experiências e incertezas: as suas encíclicas e leis referentes à Liturgia, ao canto sacro e aos estudos bíblicos consolidavam a maturidade a que chegara o povo de Deus nesses assuntos. Repelindo exageros unilaterais, S. Santidade tornava os movimentos litúrgico e bíblico movimentos de toda a cristandade, a ser encabeçados pelos bispos e estendidos a todos os fiéis. Conseqüentemente hoje em dia não se hesitará em afirmar que os cristãos, para poder ser sal da terra e luz do mundo (como, aliás, o mundo mesmo, tácita ou explicitamente, espera), se devem nutrir abundantemente dos grandes mananciais da vida sobrenatural : os sacramentos e-'os sacramentais ou, esmiuçando um pouco, a S. Eucaristia (recebida dentro da S. Missa, de que participem todos os presentes, ativa e comunitàriamente) e a S. Escritura apresentada pela palavra viva da Igreja.


Em conclusão: «volta às fontes» (ressourcement, em francês) quer dizer revigoramento e rejuvenescimento da vida cristã no mundo atual abalado por crises e guerras sucessivas. Requer-se novo vigor na hora presente. Esse vigor, os cristãos o possuem por excelência no seu patrimônio sobrenatural. Desfrutem-no em plenitude, conscientes de que todo ser é tanto mais forte e autêntico quanto mais próximo esteja dos seus mananciais...


E, voltando às fontes, os cristãos todos — católicos, dissidentes protestantes e orientais cismáticos — encontrar-se-ão num plano comum, o que muito facilitará a reunião dos irmãos separados num só rebanho, sob um só Pastor!

 

3) E quais as notas características dessa vida cristã revigorada por novo contato com as fontes ?

 

A estrutura de pensamento e ação que se deriva do contato assíduo com as fontes da espiritualidade cristã apresenta suas notas típicas, que vêm a ser as notas da própria piedade oficial da Igreja. Ei-las:

 

1) RELIGIÃO, primariamente e por excelência, é LOUVOR DE DEUS. São Paulo lembra aos Efésios (1,6) que o homem foi criado «para louvar a magnificência da graça de Deus». Isto quer dizer que a criatura humana só se realiza plenamente devotando-se ao Criador ou ultrapassando-se a si para procurar viver em Deus e de Deus; é servindo a Este que o homem reina.


Esta noção se opõe a dois precários conceitos de Religião:

a) o conceito de serviço mercenário ou interesseiro. A Religião praticamente não seria senão o sistema apto para promover os interesses temporais do homem; Deus apareceria como o Grande Banqueiro com o qual a criatura tem que estar em boas relações, oferecendo-lhe seu culto, para obter saúde, dinheiro, emprego, sucesso na vida, etc. Tal é a estrutura da religiosidade infantil ou também decadente. — Verdade é que, segundo o Cristianismo, o homem, ao servir a Deus, não se pode desinteressar de sua salvação e felicidade eterna; o quietismo dos místicos do séc. XVII, que apregoavam tal amor puro ou desinteressado, foi condenado como heresia. Deixando de viver em função de si mesmo para se entregar ao plano, por vezes misterioso, de Deus, o homem vai encontrar sua personalidade realizada ou consumada em Deus. Isto, porém, está longe de significar que a criatura deva fazer do próprio eu o ponto de convergência das suas relações com o Senhor.

b) O conceito de religião moralizante. A Religião já não visaria prover o homem de bens materiais, mas. sim, de valores éticos. Religião seria o sistema ideal de policiamento dos costumes ou um esteio da morigeração da sociedade e dos indivíduos, pois quem tem religião costuma não matar, não roubar..., e pratica a caridade.

'' Estas duas noções de Religião são falhas em virtude da sua índole antropocêntrica; a prática religiosa, em última análise, giraria em torno do homem, e não de Deus; após todo o seu esforço religioso, a criatura encontraria a si mesma, e não o Senhor Deus.

 

2) Dentro da Religião autenticamente concebida, a santificação do homem não é senão a efusão e o desenvolvimento da vida de Deus nas almas e nos corpos. Em outros termos: a face primária de Deus é a do «Pai nosso, que está nos céus», e a definição (por assim dizer) do cristão é a de «filho de Deus (por graça)». Desde o Batismo, o cristão está envolvido no fluxo e refluxo de vida das três Pessoas divinas; possui o Espírito do Filho, que o torna irmão de Cristo e, com Cristo, o faz voltar ao Pai; cf. Gál 4,6; Rom 8,15. Ao afirmar que Deus é Pai, o cristão professa que Deus é Amor, é mesmo o Amor que primeiro amou a criatura, tirando-a do nada e remindo-a; somente em função do Amor, e por Amor, é que Deus quer aparecer também como Legislador e Juiz do homem.


Sob outro aspecto, dir-se-á que a vida do cristão na terra é um caminhar «no Espírito Santo pelo Filho ao Pai» (cf. Ef 2,18). O dogma da SSma. Trindade, geralmente explanado em termos metafísicos ou abstratos, é dogma muito íntimo e significativo para a vida de cada cristão.


O Deus Revelado é o Deus Trino, não simplesmente o Deus Uno, Motor Imóvel, da razão natural. Por cada qual das Pessoas Divinas o cristão é atingido em sua vida sobrenatural. — A renovação litúrgico-bíblica procura reavivar a consciência desta verdade, que deve constituir a base de toda a vida interior dos fiéis.

 

3) A fonte primária da santificação, concebida nos termos acima, são os sacramentos. É o que diferencia a santificação cristã de qualquer empreendimento estóico ou pagão ou ainda de qualquer tentativa pelagiana ou antropocêntrica: o dom de Deus precede a ação do homem; os sacramentos não são apenas prêmio da virtude, mas também remédio eficaz para a consecução e conservação da mesma. Disto se segue o notável apreço que a renovação cristã consagra à freqüentação assídua dos sacramentos; as grandes verdades da teologia sacramentária, as fórmulas e cerimônias do Ritual, segundo as instruções de Pio XII, têm de ser, de maneira adaptada e reverente, levadas ao conhecimento dos fiéis, para que estes possam nutrir sua vida espiritual com o alimento mais sólido. A piedade pouco revigorada pelos sacramentos corre o risco de se perder em práticas exuberantes ou exóticas (procura de milagres ou sinais extraordinários, visões fantasistas, etc.), que pouco ou nada mais têm de cristão

 

Dentre os sacramentos, a Eucaristia ocupa posição central. O aspecto primário da Eucaristia é o de sacrifício — sacrifício do Calvário tornado presente (não repetido, mas também não simplesmente evocado) na S. Missa. A consciência do imenso valor da Missa — ação do Cristo que envolve todo o Corpo Místico e cada um dos fiéis em particular — explica, hajam os Sumos Pontífices promulgado nos últimos tempos numerosas instruções que visam fomentar a participação dos fiéis no sacrossanto rito do altar: as autoridades eclesiásticas têm, sim, promovido a dialogação e o canto da Missa ; têm outros- sim inculcado que a S. Comunhão é parte integrante da Missa ou a resposta de Deus a um ofertório prévio da criatura ; o S. Padre Pio XII, na encíclica «Mediator Dei», lembrava mesmo a conveniência de que o povo cristão comungue com hóstias consagradas na mesma Missa. À luz destas verdades, as formas particulares de devoção à S. Eucaristia (visita ao SSmo. Sacramento, exposição e bênção eucarísticas, procissões teofóricas, etc.) são praticadas pelos fiéis em espírito de união com o S. Sacrifício da Missa, como preparação ou continuação do ato de entrega com Cristo ao Pai que neste rito se realiza.

 

Com a participação da S. Missa está ligada a estima do ciclo litúrgico e do domingo. A Sta. Sé tem remodelado as rubricas do Missal e do Breviário intencionando dar maior realce à celebração dos grandes temas da Redenção: Advento (preparação para a vinda do Redentor), Natal, Epifania, Quaresma, Paixão, Morte, Glorificação do Senhor e Pentecostes. O percurso destas etapas dá moldura característica à celebração da S. Eucaristia, imprimindo modalidades próprias à piedade da Igreja. É desejo da autoridade eclesiástica que êstes aspectos sucessivos se impregnem na mente dos fiéis, inspirando a oração coletiva e particular dos mesmos. — Quanto ao domingo, dia do Senhor, os cristãos bem formados procuram valorizá-lo como verdadeiro dia de renovação espiritual, renovação decorrente, em primeira linha, da participação da S. Eucaristia.

 

4) O cumprimento dos preceitos e a prática das virtudes são a conseqüência lógica da freqüentação dos sacramentos; são o desdobramento do rito ou da graça sacramentai na conduta dos fiéis. Isto equivale a dizer que toda a ascese cristã é ascese sacramentai, ou ainda: é a realização continuada da morte e da ressurreição com Cristo de que o Batismo e a Eucaristia dão o gérmen. Para o cristão, seria utopia querer ser virtuoso independentemente de intensa vida sacramental.


As mesmas verdades ainda se podem formular nos seguintes termos: a Moral constitui a conseqüência do Dogma; é a nobreza do «ser cristão» que impele os fiéis a determinada linha de conduta. Consciente disto, o cristão considera a observância da Lei de Deus não qual mero dever, mas como a resposta que ele, generosamente (sem regateio, sem cair no «minimismo»), dá a um dom prévio de Deus.


Por conseguinte, não o medo nem o acanhamento, mas a alegria e a espontaneidade dão forma e ritmo à vida cristã. Não há dúvida, a consciência do pecado e o arrependimento nunca devem faltar na alma dos fiéis («Fazei penitência» é o primeiro apelo de Cristo em sua vida pública, como refere Mc 1,15 ; cf. At 2,38). Contudo a consciência do pecado, por mais viva que seja, nunca há de encobrir a visão de que «Deus é maior do que o nosso coração» (cf. 1 Jo 3,20). Diz, com efeito, S. Agostinho : «Condoa-se o pecador do seu pecado; e alegre-se por condoer-se» ; na verdade, o fato de que alguém repudie o pecado é sinal de que a graça está agindo em sua alma; consciente disto, o cristão penitente ainda se alegra, detendo sua consideração mais sobre a misericórdia do Senhor do que sobre a miséria da criatura. A alegria é nota predominante na espiritualidade cristã.


Em conseqüência destas verdades, os mestres de Teologia Pastoral admoestam os pregadores e catequistas a não apresentarem aos fiéis o Catolicismo qual mero código de preceitos e proibições, como se estes constituíssem a súmula da mensagem cristã, ficando destarte mais ou menos encobertas as grandes verdades dogmáticas do Evangelho; incutam, antes do mais, a noção daquilo que o cristão é, façam ver donde ele recebe a sua verdadeira vida e em que realidade grandiosa (o Cristo Místico) ele está enxertado, para depois, de maneira orgânica, deduzirem normas de conduta moral. O Santo Padre Pio XII, em uma de suas alocuções pastorais de 1952, verificava o triste fato de que, «confundindo o Cristianismo com um código de preceitos e proibições, os jovens (de nossos tempos) têm a impressão de estar sufocados nesse clima de 'moral imperiosa', de sorte que não são poucos aqueles que atiram para longe tão incômoda bagagem» (Acta Apost. Sedis 44 [1952] 413).


Não concorram os pregadores e catequistas para que se multipliquem os dolorosos casos mencionados por Pio XII; procurem, antes, debelá-los mediante a acentuação do que há de central e positivo no Cristianismo!

 

5) A volta às fontes implica outrossim, nos fiéis, novo surto da consciência comunitária ou da estima à Igreja. O «vibrar com a Igreja» (sentire cum Ecclesia) é norma capital para o cristão. Este sabe ver na Igreja não apenas uma sociedade jurídica, nem unicamente uma hierarquia de membros organizada, à qual ele seria alheio, qual crítico observador, mas o Corpo Místico de Cristo, do qual cada discípulo do Senhor se torna membro vivo ; cada um é, no lugar que Deus lhe assinalou, responsável pela configuração humana da Santa Igreja ou do Cristo prolongado na terra; o cristão, por conseguinte, não distingue entre «amor a Cristo» e «amor à Igreja», alegando poder servir ao Senhor sem aderir à Igreja. Nem difama a Igreja, como o filho não difama sua mãe; ao contrário, sente-se solidário com esta em tudo que diz respeito aos interesses da mesma. Tal é, aliás, a atitude ditada pela freqüentação da S. Eucaristia: a comunhão com o Corpo Eucarístico de Cristo implica necessàriamente comunhão com o Corpo Místico ou com a S. Igreja; unir-se àquele é unir-se também a este.

 

Tal concepção tem logicamente sua repercussão na vida de oração dos fiéis: estes, desde que compreendam algo do mistério da Igreja, procuram orar com Ela, familiarizando-se com as fórmulas da sua oração oficial, principalmente com as do Missal e do Breviário (existem hoje em dia edições simplificadas das chamadas «horas canônicas» ou do Breviário, para uso dos leigos); comparecendo a um ato de culto público, unem-se à comunidade orante, sem se isolar em formas de devoção individualistas. De maneira geral, o espírito da Liturgia sugere aos fiéis, façam suas as grandes aspirações da Sta. Igreja (a dilatação do Reino de Deus, a conversão dos pecadores, a extirpação dos erros, etc.), rezando explicitamente por essas intenções, e não apenas pelas de seu interesse particular.

 

Não há, aliás, oposição (como talvez outrora se julgasse) entre «piedade objetiva» (a piedade da oração pública e litúrgica) e «piedade subjetiva» (a piedade de inspiração pessoal particular);, embora reze em comum, o cristão deve orar de maneira consciente, isto é, exercendo sua fé e sua caridade pessoais; a comunidade cristã é comunidade.de pessoas, e não dissolução de indivíduos em um todo amorfo. Ademais a oração litúrgica, a qual goza da excelência de prece oficial da Igreja, ficaria destituída de sua plena eficácia nas almas, se não fosse preparada e assimilada pelas práticas da meditação e da oração particular. Eis como a respeito se exprime o S. Padre Pio XII na enc. «Mediator Dei»:


«Indubitavelmente a prece litúrgica, sendo a súplica da excelsa Esposa de Jesus Cristo, supera as orações privadas por sua excelência mais elevada. Mas esta excelência superior não quer de algum modo dizer que essas duas espécies de oração divirjam entre si ou se oponham. Como são animadas por um só e mesmo espírito, caminham na mesma direção e se fundem uma com a outra... procuram o mesmo destino até que em nós se forme o Cristo (cf. Gál 4,19)».


A titulo de ilustração, vai aqui citado o testemunho de uma Religiosa franciscana recentemente beneficiada por um aspecto da volta às fontes, ou seja, pela leitura da Bíblia em comunidade:


“Outrora eu tinha minha piedadezinha particular (ma petite plété partículière). Não há dúvida, havíamos recebido bons princípios para alimentar nossa vida espiritual; agora, porém, que nos aplicamos à Bíblia, meu horizonte é mais vasto. Vejo melhor a Igreja inteira,... o Corpo Místico, o desígnio de Deus. Minha piedade tomou sentido comunitário. É coisa bem diferente (c'est tout autre chose)” (depoimento publicado em «Vie Spirituelle». Supplément 33, maio 1955, pág. 234).

 

O amor à Igreja, desde cedo na espiritualidade cristã, esteve associado à devoção a Maria SSma. Esta, por sua maternidade virginal, se tornou protótipo e miniatura da Igreja, Mãe virginal, da qual nasce continuamente o Cristo Místico ou o Cristo nos membros de seu Corpo prolongado.

 

6) A renovação da piedade tende a gerar nos fiéis uma concepção sacral do mundo e da vida humana. Nada é profano (ou neutro, do ponto de vista religioso) aos olhos do cristão; desde que o Filho de Deus, encamando-se, tocou a matéria do mundo, esta adquiriu a capacidade de ser sinal do Divino, participando de índole sagrada ou religiosa.

 

Foi esta concepção que, no decorrer dos séculos, impeliu a S. Igreja a instituir os sacramentais, isto é, ritos sagrados (em geral, bênçãos), os quais estendem os efeitos da Redenção ao ambiente onde vive o cristão e aos objetos com os quais ele lida na vida cotidiana, a fim de que os fiéis continuem a obra do Redentor em toda e qualquer de suas atividades (no lar, na oficina, no escritório, na rua, etc.), por mais profana ou «leiga» que essa atividade pareça. A S. Igreja benze alimentos, vestes, até mesmo automóveis e os aparelhos mais modernos da técnica, a fim de que, usando de tais coisas, o cristão não o faça como o não-cristão, mas até por essas vias dilate o Reino de Deus na terra. — Convém, pois, que os fiéis recorram, e recorram conscientemente, aos sacramentais.

 

7) Por último, acrescentar-se-á que a volta às fontes impele o cristão a procurar adquirir uma cultura religiosa cada vez mais sólida. A piedade é tanto mais profunda, tanto menos sujeita às aberrações da fantasia, do sentimentalismo adocicado ou da falsa mística, quanto mais é nutrida pela Verdade. O cristão deve esforçar-se por aprofundar a Palavra de Deus (referida tanto nas Escrituras como na Tradição oral), fazendo uso dos meios (leituras, práticas, cursos) que a Providência Divina lhe ponha ao alcance. Não julgue que tal aprofundamento deva ser privilégio de determinados grupos (clérigos, Religiosas, núcleos especializados de Ação Católica...) ; também não rejeite, em nome de falsa humildade, uma boa formação dogmática, moral e bíblica, ministrada de acordo com a sua respectiva capacidade. Sta. Teresa de Ávila muito prezava o valor de boa cultura teológica para o progresso na vida de oração !


Eis, em síntese, as grandes linhas que caracterizam a robusta espiritualidade haurida nas fontes perenes do Cristianismo. Conscientes do insubstituível valor dessa espiritualidade, e atendendo à voz da Sta. Igreja, os fiéis mais e mais se esforçarão para que tais traços se imprimam profundamente em sua praxe religiosa!

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

 


Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
7 0
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL -  FACEBOOK 
-

:-)