PERGUNTE E RESPONDEREMOS 019 – julho 1959

 

Sonhos e Sinais de Deus

LAURO (São Paulo):

Que valor religioso tem os sonhos? Poderão ser considerados sinais de Deus?

 

Os sonhos representam a atividade do subconsciente da alma, atividade que se exerce por livre combinação de impressões e recordações, enquanto a consciência psíquica do indivíduo está ligada ou obnubilada pelo sono. Nos sonhos o papel preponderante cabe aos sentidos internos (principalmente à fantasia e à memória), não ficando excluídas, porém, as funções da inteligência e da vontade.


Veremos abaixo algo sobre a gênese dos sonhos, para podermos avaliar devidamente o seu valor e significado.

 

1. A gênese dos sonhos

 

1) O primeiro autor, que tenha empreendido o estudo científico dos sonhos, é o escocês Cullen: em 1776 introduziu no vocabulário da medicina o termo neurose em substituição a vapores, palavra que significava certos estados psicopatológicos não acompanhados de febre nem de lesão orgânica notória.

 

2) No século passado, Hildebrant em 1875 chamou a atenção para a provocação de sonhos mediante agentes sonoros: verificava, por exemplo, que o toque de um despertador percebido em estado de sono podia apresentar-se em sonho à pessoa adormecida como se fosse o badalar de um sino ou o fragor de uma pilha de pratos que se precipitam por terra. Mais recentemente, Foucault (1906), Stepanon (1915) e S. De Sanctis averiguaram que os sonhos também podem ser provocados por palavras proferidas em voz baixa aos ouvidos da pessoa adormecida, de modo a não a despertar; obtiveram o mesmo efeito, projetando imprevistamente jatos de luz sobre as pálpebras ou cercando a pessoa adormecida de certos aromas. Das suas experiências algumas conclusões puderam ser deduzidas: há agentes externos aptos a estimular sonhos, e sonhos de significado correspondente ao de tais agentes; um mesmo elemento, porém, pode induzir sonhos de temas diversos. Contudo o fator preponderante na elaboração de um sonho parece ser a associação de impressões e recordações colhidas no passado, seja próximo, seja remoto; os agentes externos aplicados durante o sono mesmo têm apenas função adventícia, podendo introduzir no enredo do sonho uma idéia estranha que desvie o fio da história.

 

3) Sigismundo Freud (+1939) apresentou às gerações modernas sua teoria própria sobre o tema. Para o médico austríaco, os sonhos seriam a manifestação de complexos afetivos e instintos eróticos que a censura da consciência impediria de se manifestarem em estado de vigília, mas que viriam à tona sob a forma de símbolos, quando o estado de sono debilita os poderes de controle da consciência. Por conseguinte o conteúdo de todo sonho, ainda que pareça indecifrável, traduz idéias latentes; essas idéias latentes são expressas em linguagem figurada, linguagem figurada, porém, cujo expressionismo pode ser proficuamente apreendido e estudado.

 

Conforme Freud, quatro são as leis que regem esse expressionismo dos sonhos:

- a lei da condensação, segundo a qual idéias numerosas vêm a ser simultaneamente representadas por poucos símbolos;

- a lei da deslocação, pela qual os afetos que em estado de vigília se concentram sobre determinado objeto, em estado de sono se aplicam a uma imagem mais ou menos conexa com tal objeto;

- a lei da dramatização, em conseqüência da qual as idéias abstratas são representadas por figuras concretas e até certo ponto teatrais, à semelhança do que se dá na linguagem oral: assim uma pessoa que se ache em estado de dúvida aparece em sonho colocada diante de uma encruzilhada de estradas;

- a lei da simbolização: os conceitos que não ousaríamos exprimir em estado de vigília são manifestados em sonho sob a tutela de símbolos, dos quais os mais famosos são: a casa, representação do corpo humano, principalmente feminino; a madeira, emblema de mãe; a água, significativa do nascimento, etc.

 

Procurando avaliar a teoria de Freud, reconhecer-se-lhe-á um fundo de verdade: no sonho é certo que o subconsciente se expande com maior liberdade do que em estado de vigília, podendo destarte as representações oníricas servir de indício manifestativo das tendências íntimas e do caráter de uma pessoa; contudo o catálogo de símbolos estabelecido por Freud, assim como a respectiva interpretação, não se impõem com evidência, parecendo inspirados por critérios assaz arbitrários. Além disto, não se poderia reduzir toda a vida consciente e inconsciente do indivíduo ao jogo de afetos eróticos, como se o comportamento do homem fosse o mero produto de instintos sexuais; o pansexualismo freudiano tem sido repetidamente condenado tanto por autoridades médicas como pela moral cristã. Por último, a teoria de Freud não leva em devida conta o influxo, hoje em dia muito reconhecido, dos agentes sensíveis e extrínsecos sobre a elaboração e o curso dos sonhos. — A respeito de Freud e da psicanálise, cf. «P.R.» 8/1958, qu. 1.

 

Eis algumas noções de ciências necessárias e suficientes para procurarmos agora definir

 

2. O valor religioso dos sonhos

 

2.1. As imagens que o homem vê em sonho sempre chamaram a atenção dos povos, dado o seu colorido por vezes muito vivo e impressionante. Em conseqüência, desde os tempos mais remotos até nossos dias existiram, e existem, pessoas altamente reverenciadas por serem tidas como autênticos intérpretes do significado dos sonhos. Como se compreende, essa arte aparece geralmente associada a crenças religiosas, de modo que os sonhos ainda hoje são freqüentemente considerados como sinais da Divindade ou de espíritos do Além aos homens.


Os antigos chineses afirmavam que os sonhos eram visitas que as almas faziam umas às outras, após terem deixado o respectivo corpo humano.


Na Caldéia, a explicação dos sonhos era tida como elevada ciência, reservada a iniciados, mediante a qual se podia predizer aos homens o bem e o mal que os aguardavam.


Os egípcios consideravam os sonhos quais «mensageiros misteriosos da deusa Isis», que destarte dirigia aos mortais seus bons conselhos e suas admoestações.


Na Grécia a interpretação dos sonhos constituía unia ciência própria chamada «Onirocritia». Os gregos tinham seus santuários em que os homens desejosos de obter sonhos proféticos passavam a noite.


Galeno (+201 d. C.), o grande médico romano, predizia hemorragias nasais aos doentes que lhe afirmavam haver sonhado com peixes vermelhos. Muita gente pernoitava nos templos dedicados às Divindades médicas (Hércules, Apoio, Esculápio), recebendo em sonhos a indicação dos remédios que deviam usar; contudo, já que esses sonhos eram geralmente confusos, achava-se nos mesmos templos, à disposição dos doentes, certo número de intérpretes, que procuravam dar a genuína explicação das «receitas».


Havia, de resto, na antigüidade catálogos para a interpretação onírica intitulados «Chaves dos sonhos». Destes mencionamos aqui alguns tópicos, cujo valor é meramente ilustrativo, não filosófico:


Águia: ver em sonho uma águia a voar é bom presságio; sinal de morte, porém, se cai sobre a cabeça do sonhador.

Arco-íris: visto do lado do Oriente, sinal de felicidade para os pobres; do lado do Ocidente, sorte boa para os ricos.

Dinheiro achado significa aborrecimentos e perdas. Dinheiro perdido indica bons negócios; ver quantidade de moedinhas é sinal de riqueza; sonhar, porém, com moedas de ouro prenuncia miséria.

Banho em água clara é presságio de boa saúde; em água turva, morte de parentes e amigos.

Cogumelos, sinal de vida longa e boa saúde.

Canto. Um homem que canta: esperança. Uma mulher que canta: pranto e gemidos.

Gato, traição. Gato a miar, funerais.

Cabelos arrancados, perda de amigos ou de dinheiro.

Papagaio implica indiscrição, revelações de segredo.

Ratos, inimigos ocultos.

Rosas, prazeres.

Cabeça branca anuncia alegria. Cabeça raspada, fraude e embuste. Cabeça recoberta de densa cabeleira, dignidades. Cabeça cortada, doenças.

Jogo bem sucedido indica perda de amigos.

Espelho é símbolo de traição.

 

No decorrer da história universal apontam-se, mesmo entre os homens mais ilustres, alguns que tiveram sua fé nos sonhos. Assim o general romano Marco Bruto (séc. I a. C.) tomou como presságio de má sorte o fantasma ameaçador que lhe apareceu na véspera da batalha de Filipes; Benjamim Franklin (+1790), o célebre estadista e cientista norte-americano, acreditava nos sonhos, tomando-os como advertências do céu.


Doutro lado, não faltaram eminentes vozes de protesto contra a superstição dos sonhos, vozes provocadas, sem dúvida, pelos abusos de não poucos exploradores e charlatães populares.


Aristóteles (+322 a. C-), por exemplo, o maior filósofo da Grécia, escreveu o tratado «Adivinhação pelo sonho», asseverando não ser nem verídico nem possível que a divindade envie sonhos proféticos; o filósofo zombava dos que se davam a tal crendice, mostrando que o sonho não é senão a projeção das impressões colhidas pelo sujeito em estado de vigília e avolumadas por obra da fantasia. Dizia ainda que, se alguns vaticínios obtidos em sonhos se cumprem, isto se deve a coincidências, das quais não se poderia deduzir alguma conclusão positiva, pois, para tanto, seria preciso abstrair do fato de que inúmeros sonhos «proféticos» não se cumprem.


Plínio o Velho, naturalista romano (+79 d. C), abraçava o mesmo parecer, embora se mostrasse dado a certas crendices e admitisse histórias de mortos redivivos sobre a terra; asseverava que em sua época só as massas ignorantes acreditavam em sonhos e só os charlatães ousavam praticar a interpretação onírica.


Que dizer de tão amplo e variado testemunho da história sobre o significado religioso dos sonhos?


Em primeiro lugar, chamar-se-á a atenção para a explícita condenação que o próprio Deus na Escritura Sagrada formula sobre os adivinhadores de sonhos, equiparando-os aos magos e necromantes: Lev 19,26 ; Dt 13,2-4 ; 18,10-12. Nos tempos da decadência religiosa em Israel (séc. VII/VI a. C.), multiplicavam-se falsos profetas, que diziam haver recebido em sonho autênticas comunicações do céu; o Senhor, porém, não deixava de acautelar os seus fiéis contra tais ilusões:


«Ouço o que dizem esses profetas, que em meu nome proferem falsos oráculos, afirmando: 'Tive um sonho, tive um sonho!'... Esses profetas julgam que poderão fazer esquecer o meu nome ao meu povo mediante os sonhos que contam uns aos outros?» (Jer 23,25-27).


Ao lado destas admoestações negativas, porém, faz-se mister reconhecer os vários episódios bíblicos em que o Senhor Deus se serviu de sonhos para revelar seus desígnios aos homens ; tal se deu, por exemplo, na vida do Patriarca José do Egito (cf. Gên 37,5-11; 40,5-22; 41,1-36); na do profeta Daniel (cf. Dan 2,4-7); na de São José, esposo de Maria (cf. Mt 1,20-24 ; 2,13. 19. 22). Veja-se igualmente Gên 20,3s; 28,12s; 31,11s. 24; Jz 7,13s; 1 Sam 28,6; 1 Rs 3,5; Jó 33,15. Além do mais, os sonhos parecem ter sido o meio pelo qual freqüentemente o Senhor comunicava seus oráculos aos profetas de Israel (cf. Num 12,5).


Como se entenderá que o Senhor tenha dessa forma concorrido para dar autoridade à crença no valor dos sonhos?


O Senhor, nos episódios bíblicos citados, comunicando-se por meio de sonhos, correspondia a uma expectativa muito espontânea entre os judeus e orientais. Estes eram, por sua índole e suas tradições, propensos a se deixar guiar por imaginações noturnas. Ora o Senhor dignou-se atender a tal expectativa, pois a pedagogia divina toma o homem como ele é e costuma falar-lhe segundo a linguagem e o expressionismo do próprio homem, tratando apenas de remover erro ou confusão doutrinária. A Bíblia, conseqüentemente, ao relatar episódios de sonhos inspirados, faz questão de remover qualquer crença supersticiosa; dá claramente a ver que o Senhor não se comprometeu a falar habitualmente por sonhos e que por isto não se podem estabelecer regras fixas para se interpretarem tais fenômenos. Com efeito, não há, conforme a Escritura, intérpretes profissionais ou técnicos dos sonhos, como os havia entre os babilônios (cf. Dan 2,2 ; 4,3 ; 5,15) e os egípcios (cf. Gên 41,8) ; ao contrário, a explicação dos sonhos se deve a esporádico dom de Deus e compete a quem, como o Patriarca José e o Profeta Daniel, possui o espírito de Deus:


«Disseram o copeiro e o padeiro do Faraó: 'Tivemos um sonho e aqui não se acha quem nô-lo explique'. Respondeu-lhes José: 'Então não é a Deus que toca interpretar? Narrai-me, por favor, o vosso sonho'» (Gên 40,8).

«Daniel respondeu em presença do rei e disse: 'O mistério que o rei deseja compreender, nem os sábios, nem os magos, nem os encantadores, nem os astrólogos o poderão elucidar. Há, porém, no céu um Deus que desvenda os mistérios e quer comunicar ao rei Nabucodonosor o que deve acontecer na sucessão dos tempos» (Dan 2,27s).


Por conseguinte, vão seria apelar para os sonhos relatados pela Bíblia, a fim de se atribuir a todo e qualquer sonho autoridade divina. Não há dúvida, Deus pode continuar ainda em nossos dias a se comunicar por meio de representações noturnas. Não seria licito, porém, supor de antemão que o Senhor o tenha feito ou o fará em tal ou tal caso; ao contrário, será preciso indicar, em cada episódio, os sinais característicos da intervenção de Deus na elaboração do sonho que se quer tomar como vaticínio (via de regra, as intervenções extraordinárias de Deus têm que ser provadas, não podem ser pressupostas). Ora esses sinais característicos ou essas provas irrefragáveis dificilmente se podem obter...; não é de crer que o Altíssimo recorra muitas vezes a sonhos para manifestar seus desígnios às criaturas.

 

2.2. A quanto acabamos de dizer, porém, será necessário acrescentar a seguinte observação: os modernos conhecimentos de ciência já permitem, melhor do que na antigüidade, perceber as causas ou os agentes provocadores de sonhos; a humanidade contemporânea está mais a par das leis que regem os fenômenos conscientes e subconscientes. Por conseguinte, os médicos e psicólogos estão até certo ponto capacitados para definir autenticamente o significado de um sonho e para prever conseqüências ou acontecimentos futuros implicados em tal fenômeno (quem conhece as causas de um sonho, poderá predizer com maior ou menor segurança outros efeitos que essas causas desencadearão em tempo oportuno). Essa técnica recorre exclusivamente a critérios de ciência, não pretendendo valer-se de receitas ou revelações religiosas; por isto é moralmente lícita.


Assim fala -se, em medicina, de equivalentes oníricos dos acessos nervosos e de sonhos precursores e mensageiros de doenças: Pascal, por exemplo, o filósofo francês (+1662), sonhou certa vez que fora estrangulado por uma fita, e dois dias depois viu-se acometido por uma «angina pectoris»; Arnaldo de Villanon sonhou haver sido mordido em um dos seus pés, e no dia seguinte viu desenvolver-se um abscesso em tal membro. Eram as causas de tais perturbações patológicas que, já existentes no organismo dos respectivos indivíduos, se manifestavam antecipadamente por meio de sonhos, provocando, por pressão do sangue ou de outro modo, a formação de imagens correspondentes na fantasia dos futuros doentes.


Os recentes estudos do fenômeno psi-gama ou da percepção extra-sensorial têm possibilitado a explicação natural de fatos que até época recente eram tidos como sobrenaturais ou religiosos.


A interpretação científica dos sonhos (deixando-se de parte toda superstição ou o emprego de critérios falsamente religiosos) pode ser clinicamente útil para curar certas neuroses. Requer-se, porém, que o intérprete seja pessoa de idoneidade moral insuspeita.


No tocante aos vaticínios que os antigos autores pagãos e a moderna literatura não-católica referem ter obtido por sonhos, admitir-se-á a ação de faculdades naturais latentes na alma (telepatia, telestesia, percepção extra-sensorial) ou, mais raramente, a intervenção do demônio ou a do próprio Deus.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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#0•A2089•C650   2015-03-02 10:37:34 - Convidado/marcia gervazi [email protected]
sonhei com cobra,e ao amanhecer iniciei os meu serviço de casa,fui no corredor ao lado de casa ,e tinha uma cobra ali.oque quer dizer.

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:-)