PERGUNTE e RESPONDEREMOS 017 – maio 1959

 

Pode Haver Tristeza no Céu?

 

LEITOR AMIGO (Rio de Janeiro) : Propõe-nos a objeção de um companheiro concebida nos seguintes termos:

"Se há quem sofra eternamente no inferno, não pode existir felicidade no céu. Veja cá: encerre um galinha numa gaiola das mais ricas que você possa imaginar; ponha à disposição dela o que você puder encontrar de melhor em questão de alimentação. Deixe, porém, que seus pintinhos se fiquem do lado de fora, pipiando de fome, de sede, de frio. A mãe não encontrará nenhuma delicia naquele reino que você lhe houver preparado; muito pelo contrário, nem prestará atenção a toda aquela magnificência; todas as suas atenções se voltarão para os pintinhos... Que espécie de prazer pode ter no céu que vocês pregam, um pai, uma mãe, uma esposa, um filho... sabendo da desventura eterna de um ente querido ? Você não acha que isto é uma crueldade inaudita? Deus pode permitir semelhante coisa?"


A comparação proposta, por mais impressionante que seja, perde todo o seu significado desde que se conceba a reta noção de perfeição cristã e de vida celeste.


Com efeito. É óbvio que o homem (bem pequenino e finito) foi feito para amar a Deus, o Bem Infinito, do qual ele tem sede inelutável. É entregando-se a Deus que a criatura "se realiza", se engrandece. Por conseguinte, o bom cristão e, por excelência, o justo no céu amam a Deus diretamente com toda a veemência da sua vontade, e somente em Deus, através de Deus, amam a si mesmos e às outras criaturas. Por conseguinte, os justos no céu querem exatamente tudo que Deus quer e permite, do modo mesmo como Deus o quer e permite; estão plenamente identificados com a vontade do Senhor. Tal é, sem dúvida, a reta ordem do amor.


Consideremos agora o caso dos réprobos. Dado que alguém morra revoltado contra Deus, o Senhor permite que, segundo a livre escolha de sua vontade, esse indivíduo permaneça para sempre afastado do verdadeiro Bem. Permitindo isto, não comete injustiça. Deus não subtrai a homem algum na terra os auxílios necessários para que alcance o sumo Bem; se, não obstante, o filho rebelde recusa aderir-Lhe, Deus não é obrigado a retorcer a vontade dele; ao contrário, respeita-a (pois respeitar é mais nobre do que mutilar); consequentemente, Deus tolera que o pecador após a morte tenha por todo o resto de sua existência a sorte livremente desejada, ou seja, o alheamento ao Sumo Bem (lembremo-nos bem de que ninguém vai para o inferno senão nestas condições).


Tal sorte é certamente dolorosa para o pecador. Se fazemos do homem o centro do mundo, devemos afirmar que o réprobo no inferno não tem razão de ser, é um absurdo, pois ele nada mais é do que dilaceração e contradição vivas. Se, porém, consideramos não o homem, mas Deus, como finalidade do mundo, entendemos que mesmo a sorte do réprobo, apesar do que ela tem de doloroso para o respectivo sujeito, ainda representa um valor positivo no conjunto das criaturas; efetivamente, se o réprobo sofre no inferno, sofre justamente por reconhecer que Deus é sumamente bom, e que ele, com toda a sua personalidade, se rebelou definitivamente contra tal Bem. A dor do réprobo, portanto,, vem a ser proclamação da Bondade de Deus, é louvor tributado ao Criador (tal como pode ser tributado por quem se distanciou do Senhor). Veja-se a respeito "P. R." 3/1957, qu. 5.


Essa visão teocêntrica do mundo e da humanidade enche os justos, no céu. Eles consideram os réprobos como silabas ou acordes de um hino à Bondade de Deus, hino cantado simultaneamente por todas as criaturas dispostas em dais coros: o da direita (bem-aventurado por sua opção,) e o da esquerda (dilacerado por sua própria opção): Essa visão teocêntrica que os bem-aventurados têm, cancela qualquer consideração antropocêntrica, subjetivista; não permite, pois, que os afetos de família, laços meramente naturais, perturbem a adesão total dos santos à Deus. Daí se explica que realmente sejam isentos de toda e qualquer tristeza, caso contemplem que tal ou tal de seus familiares se acha no inferno.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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