PERGUNTE E RESPONDEREMOS 007 – julho 1958

 

A Igreja e o Teatro

Observador do Rio de Janeiro pergunta: Qual o pensamento da Igreja a respeito do teatro?

 

1. A doutrina católica afirma que o homem tem o direito natural de se recrear e repousar, como tem o direito (e a obrigação) de se alimentar; o recreio até certo ponto constitui um fator de conservação do indivíduo, dada a limitação das forças humanas e a necessidade de as restaurar com interrupção do trabalho. Ora entre os elementos de recreio um dos mais condizentes com a dignidade humana é o cultivo da arte, que, emancipando a criatura inteligente das preocupações materiais e do afã utilitarista, a põe em contato com o Belo e com os valores do espírito; permite-lhe assim viver um pouco mais intensamente como homem, um pouco menos como máquina.

 

Visto que o teatro é uma das belas artes, a doutrina católica estende ao teatro (ao menos em princípio ou em tese) esta apreciação favorável. Ao mesmo tempo, porém, o moralista católico não pode deixar de lembrar que o cultivo do teatro deve estritamente servir à nobreza natural do homem, em vez de aviltar. O cristão sabe explicitamente aquilo que o pagão já de certo modo percebia: dentro do indivíduo existe a concupiscência desregrada dos sentidos, os quais tendem a desfrutar dos objetos do seu gozo além da justa medida ou sem respeitar as exigências do espírito. É o que faz que o teatro possa ser motivo de desencadeamento das paixões dentro do indivíduo e da sociedade, deixando de edificar a grandeza do homem.

 

Sendo assim, São Tomaz não hesita em admitir uma virtude própria que tem por objetivo por sob o controle da razão todos os divertimentos do homem: é a eutrapelia (em grego, disposição para os prazeres graciosos ou nobres). Já que toda virtude visa regrar o comportamento do homem, desde os mais sublimes até os mais humildes de seus atos, a eutrapelia se destina a regrar tais atos (aparentemente banais, mas sempre importantes, porque atos humanos) que são as recreações. A eutrapelia faz que o cristão nunca se entregue totalmente ao gozo das coisas sensíveis, mas o subordine sempre aos prazeres do espírito que consistem em aderir ao Sumo Bem mediante o conhecimento e o amor. É a Deus que o cristão quer chegar servindo-se dos recreios que as criaturas lhe proporcionam; é para melhor conhecer e amar a Beleza infinita que ele aplica seus sentidos à beleza finita. São Paulo, numa frase famosa, formula a atitude superior do cristão frente a todas as contingências (alegres e não alegres) da vida presente:

 

“O tempo se fez breve... É preciso que aqueles que choram, estejam como se não chorassem; aqueles que se alegram, estejam como se não se alegrassem; aqueles que usam deste mundo, estejam como se não usassem, pois passa a figura deste mundo” (1 Cor 7,29-31J.

 

Em outras palavras: o cristão nunca se deixa invadir totalmente, nem pelos prazeres nem pelos dissabores que o mundo lhe oferece.

 

2. Baseadas nos conceitos acima, as autoridades da Igreja, no decorrer dos séculos, se têm servido do teatro como de oportuno meio de educação e santificação dos homens. Famosos se tornaram os “mistérios” medievais, representações de cenas diretamente sugeridas pela Sagrada Escritura e pela vida dos Santos. O teatro religioso, depois de menosprezado nos últimos séculos, ressurge em nossos dias com sucesso notável (tenham-se em vista as peças de Claudel, Bernanos, Ghéon, Gabriel Mareei, Elliot, Gogol, Tolstoi)... A Igreja deseja mesmo avivar em seus fiéis a consciência da importante missão que toca a teatrólogos e atores; dispõem de eficaz instrumento de recristianização da sociedade; caso porém, se desincumbam de suas funções com vistas no gozo e no lucro material apenas, tornam-se dignos de censura.

 

É assim que o católico toma posição intermediária entre duas atitudes antagônicas frente ao teatro:

- a atitude pessimista, que, inspirada pelo jansenismo, julga estar corrompida a natureza humana a ponto de pecar ou arriscar-se sèriamente a pecar no simples ato de se recrear. «On ne s’amuse pas quand on est ehrétien. — O homem não se diverte, se é cristão”; era esta a tese que Bossuet (+1704) defendia em sua obra «Maximes et réflexions sur la comédie». Na verdade, porém, o cristão vem a ser justamente o contrário de um melancólico e pessimista;

- a atitude exageradamente otimista, que tem por lícita toda e qualquer realização de arte, como se estivesse emancipada das leis da Moral ou como se o Belo (do ponto de vista artístico) fosse necessàriamente o Bem (do ponto de vista moral).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


Como você se sente ao ler este artigo?
Feliz Informado Inspirado Triste Mal-humorado Bizarro Ri muito Resultado
3 0
PUBLICAR - COMENTAR - EMAIL -  FACEBOOK 
-

:-)