PERGUNTE E RESPONDEREMOS 014 – fevereiro 1959

 

Moral e Filosofia:

O Filósofo Hindu Contemporâneo Jiddu Krishnamurti

PERSCRUTADOR (São Paulo) pergunta:

“Que julgar das idéias do filósofo hindu contemporâneo Jiddu Krishnamurti, que a todos os homens promete a verdadeira liberdade mediante um despertar de consciências ?

 

Algo do currículo de vida de Krishnamurti será útil para se entender a doutrina deste pensador; pelo que, em primeiro lugar percorreremos ràpidamente um


1. Esboço biográfico de Krishnamurti

 

Jiddu K. nasceu aos 25 de maio de 1895 em Madranapalle (Madras, Índia). Recebeu o nome de Krishnamurti (pelo qual é hoje internacionalmente conhecido) por ser o oitavo filho da família, oitavo filho que, conforme os costumes vigentes entre os brâmanes da Índia Meridional, devia ser consagrado a famoso Guia Espiritual; devotaram-no então a Shri Krishna, que na Índia é cultuado como uma das encarnações da Divindade. Um horóscopo sobre o recém-nascido, proferido por velho astrólogo da região, prenunciava que Krishnamurti se manifestaria como a encarnação do próprio Deus de amor!

 

Quando a Sra. Annie Besant. presidente da Sociedade Teosófica, com sede em Adyrar (Madras), tomou conhecimento do jovem Krishnamurti, percebeu que possuía ricos dotes espirituais e resolveu adotá-lo como pupilo, a fim de o preparar, segundo os princípios da Teosofia, para ser um dos grandes mestres da humanidade. Em 1911 Annie Besant foi à Europa, acompanhada pelo discípulo, cuja natureza divina e extraordinária missão ela anunciou ao mundo no Instituto da Sorbona em Paris. A Sra. Besant e seu companheiro C. W. Leadbeater redigiram mesmo uma obra em que referiam as trinta últimas encarnações do novo Messias; o jovem costumava aparecer em vestes que lembravam o tipo tradicional de Cristo. Em vista das predições correntes, os teosofistas organizaram a “Ordem da Estrela do Oriente”, destinada a preparar as vias para que Krishnamurti pudesse devidamente exercer a sua tarefa quando atingisse a maioridade.

 

Mas o pai do futuro mestre, sendo brâmane ortodoxo, protestou contra a educação que a Sra. Besant dava a seu filho. Não sendo atendido, decidiu-se a mover uma ação judiciária, na qual o tribunal de Madras deu ganho de causa ao ancião, reconhecendo-lhe o direito de chamar seu filho a si. Como, porém, o jovem estivesse na Europa, isto é, fora do alcance do tribunal de Madras, a Sra. Besant apelou para o Conselho Privado de Londres, o qual a habilitou a guardar Krishnamurti consigo (para grande contentamento do próprio jovem). Este continuou, pois, na Inglaterra, sem, porém, frequentar alguma Universidade.

 

Em 1922 Krishnamurti foi para a Califórnia, passando anos depois para a Holanda, onde o barão Philip van Pallandt, teosofista e grande admirador do jovem, lhe doara o castelo de Eerde em Ommen. Começaram então a se reunir anualmente nesta região os admiradores de Krishnamurti, provenientes do mundo inteiro. Em 1927, o filósofo hindu declarou, perante numeroso auditório, ter conseguido a plena liberdade da mente e, por conseguinte, a identificação com o Todo ou o «Bem-Amado» !

 

Inesperadamente em 1929 Krishnamurti dissolveu a «Ordem da Estrela do Oriente», alegando que qualquer organização constituiria barreira à procura da verdade; desligou-se também definitivamente da Sociedade Teosófica e, como pensador independente, pôs-se a viajar pelo mundo inteiro, fazendo conferências em toda a parte no intuito de despertar a consciência dos homens contemporâneos. No Brasil esteve Krishnamurti em 1935. Estabeleceu uma sede importante na Califórnia denominada “Centro de Estudos Filosóficos Espiritualistas”, contando com discípulos das mais variadas nacionalidades.

E qual seria a mensagem de Krishnamurti ?

 

2. A ideologia do filósofo

 

Um leitor desprevenido não se pode furtar à impressão de que as obras de Krishnamurti são assaz pobres do ponto de vista intelectual; a metafísica, o raciocínio especulativo nelas quase não encontram acolhimento. As palestras desse filósofo, que perfazem uma coleção de numerosos volumes impressos, repetem, num estilo por vezes obscuro (para o qual os seus ouvintes mais de uma vez parecem ter-lhe chamado a atenção), algumas poucas idéias de índole ética, que se poderiam enunciar como se segue:

 

i.          Todo homem é naturalmente escravo do seu ambiente, ou seja, de um conjunto de instituições e doutrinas (sociais, jurídicas, patrióticas, filosóficas, religiosas) que o mantêm sob medo continuo. Esse medo incutido por «autoridades» sufoca a personalidade, a qual habitualmente se julga dependente de mestres e escolas para conseguir realizar seus ideais.

ii.         Sendo assim, só há uma possibilidade, para o homem, de conseguir salvação: é a rejeição de toda autoridade, de toda imposição doutrinária, para que o indivíduo entre em si e «aperceba» a si; é tomando consciência de si, emancipado de qualquer ditame extrínseco, que o pensador consegue tornar-se o que ele deve ser.

iii.        A sufocação de todo desejo, a apatia vem a ser outra condição de libertação e, por conseguinte, outro postulado de Krishnamurti.

iv.       Para incutir essas idéias, o filósofo hindu usa de termos característicos, que constituem a trama de seus escritos: de um lado, há no homem «medo, temor, condicionamento, sofrimento, cativeiro...»; de outro lado, deve haver «autoproteção, reação, apercebimento, conhecimento, entendimento, discernimento...».

v.         Deus, nesse quadro filosófico, é concebido como a Grande Energia que passa pelo homem e pelo universo ; é uma forca impessoal que cada um tem que descobrir primàriamente dentro de si pela autopercepção.

vi.        O Eu não é senão um feixe de percepções e recordações, de crendices, preconceitos, preocupações de segurança e conforto. Enquanto o indivíduo se deixa avassalar por esses elementos estranhos, ele está sujeito à lei das reencarnações sucessivas; desde, porém, que se liberte de toda essa bagagem, já não conhece nem reencarnação, nem nascimento nem morte; o sábio ou o homem liberto perde sua personalidade no Grande Todo, na Substância Universal.

 

Tal é, em poucas palavras, a estrutura do pensamento de Krishnamurti.

 

3. Apreciação do sistema

 

1) Como acima ficou notado, a mensagem de Krishnamurti não pretende ser mensagem metafísica ou intelectualista; dirige-se primàriamente à vontade de seus ouvintes e quer incutir uma atitude prática na vida.

E qual seria essa atitude prática?

A libertação que Krishnamurti tanto apregoa, vem a ser, em última análise, a afirmação do indivíduo humano como valor absoluto, que a nenhuma autoridade é devedor de submissão. Consequentemente, os discípulos desse filósofo nem sequer a Krishnamurti professam submissão; cada um goza de liberdade irrestrita para conceber a vida, o destino do homem e a ética respectiva, segundo sua intuição própria. Esta é a única tese que o krishnamurtismo afirma de maneira absoluta; frente aos grandes princípios da metafísica e da filosofia em geral, sugere certo relativismo ou ceticismo.

 

2) Quem reflete um pouco sobre tal mentalidade, não pode deixar de perceber quanto é precária. O homem que se queira emancipar de toda escola, de toda autoridade, para construir uma filosofia da vida, atribui a si mesmo uma capacidade utópica, mil vezes desmentida pela experiência.

 

Verdade é que o otimismo de Krishnamurti se baseia no pressuposto de que no íntimo do homem habita a Divindade, ou melhor, de que o homem é a própria Divindade em evolução. Esse monismo, porém, ou panteísmo é base inconsistente: por definição, a Divindade, o Absoluto, o Eterno, não pode de forma alguma identificar-se com o relativo e o contingente ; não há transição entre o temporário, o mutável e o Eterno ou Absoluto (cf. «P. E.» 7/1957, qu. 1). Ademais Deus é Personalidade transcendente e perfeita, não é substância neutra, que do estado inconsciente vai passando para o consciente.

 

3) Rejeitando-se, pois, o panteísmo e a teoria ética que Krishnamurti sobre ele constrói, admita-se, conforme a sã razão, que Deus é Personalidade, e Personalidade que não se identifica com o homem. Entende-se então que é Deus quem dita à criatura qual a via que a leva à perfeição; não é o homem quem define os meios de sua ascensão, pois Deus por definição é o Autor do homem, mais sábio do que este. À criatura tocará sempre o papel de ouvir humildemente a Deus, quer Este fale diretamente por si, quer por meio de representantes visíveis (representantes que o Altíssimo não pode deixar de credenciar devidamente, ficando a cada indivíduo o direito de investigar com a razão essas credenciais).

 

4) A verdadeira liberdade não consiste em que o homem se emancipe de qualquer escola, mas consiste em que o indivíduo atinja o seu Fim último — a Verdade e a Vida — entrando de maneira espontânea na posição subordinada que lhe compete. A liberdade é perfeição que Deus outorgou ao homem não para que este caia na imperfeição (desastre inevitável para quem rejeita a autêntica escola), mas para que mais nobremente atinja a Verdade e a Vida.

 

5) Feitas estas observações, importa acrescentar que, apesar de suas falhas radicais, a Filosofia de Krishnamurti significa também algo de positivo para o mundo contemporâneo ; e isto, a dois títulos:

 

a) Krishnamurti, em última análise, incita os homens ao domínio sobre as paixões, procurando despertar em todos uma têmpera de heroísmo, um gênero de vida consciente, norteado diretamente pela inteligência, emancipado dos movimentos cegos da sensibilidade. Por este aspecto de sua mensagem, o pensador hindu faz reviver um ideal muito antigo, tanto no Oriente como no Ocidente, cultivado principalmente pelos estoicos greco-romanos. Ora este ideal é plenamente cristão; o cristão procura libertar-se do modo de ver meramente carnal ou natural, para considerar todas as coisas à luz da inteligência e da eternidade; o cristão tem que ser viril e heroico; longe de ser um tipo amedrontado e covarde, ele teme apenas a Deus, e teme com temor não servil, mas filial.

 

Contudo fora do Cristianismo os homens, contando apenas com as forças da natureza, raramente conseguiram ou conseguem realizar esse ideal. Os estoicos o confessavam repetidamente:

 

«Eles mesmos reconhecem que até o presente dia o sábio por eles apregoado jamais foi visto» (Sexto Empírico, ano 200 d. C-, em Arnim. «Fragmenta...» III 216,39).

«Sábios, não os houve e não os há» (ib. 217,8).

 

Diógenes da Babilônia declarava referindo-se ao estoicismo: «Só houve um ou dois (sábios apáticos)» (ib. 167,34).

Crisipo (+208 dc), por sua vez, dizia não conhecer nenhum (ib. 166,23).

É somente com o auxílio da Redenção, com o auxilio de um Deus Salvador, que o homem consegue realmente dominar a natureza, sem se deixar sufocar pelo orgulho.

 

b) Krishnamurti lembra outrossim ao mundo contemporâneo o valor da vida interior, vida que se recolhe da multiplicidade dos afetos enganadores para a unidade de um grande Ideal... Ora também esta mensagem é genuinamente cristã; é, aliás, no Cristianismo que ela se realiza por excelência, pois no Cristianismo o próprio Deus outorga ao homem os meios necessários para que se emancipe da sedução das coisas criadas. O Deus transcendente que os cristãos professam, não é mera figura majestática nem entidade abstrata, mas é muito íntimo ao homem, como lembra S. Agostinho numa frase lapidar; «(Deus) superior summo meo, bitimior intimo meoDeus é mais elevado que o que concebo de mais elevado, e me é mais intimo do que o que tenho de mais íntimo» (Confissões).

 

6. Estas duas tendências têm certamente concorrido para dar voga às idéias de Krishnamurti. Eis, porém, que um terceiro titulo, desta vez menos nobre, também as torna atraentes ao mundo contemporâneo: a atitude filosófica do pensador hindu corresponde ao orgulho fortemente acentuado da mentalidade moderna. Krishnamurti aparece como a expressão de uma época em que o indivíduo quer ser autônomo, legislador, para si e para os outros, segundo o seu bom senso... Na verdade, só há, para o homem, uma possibilidade de se emancipar e de reinar: é a que consiste em esquecer o próprio eu e aderir incondicionalmente a Deus, Criador e Pai providente, pois «servir a Deus é reinar» (Missal Romano, Postcomunhão da Missa pela paz), servir a Deus é entrar no lugar muito elevado que o Criador se dignou assinalar ao homem na hierarquia dos seres.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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#0•A1931•C688   2015-07-20 13:24:54 - Convidado/Marco Sadock
Lamentáveis comentários sobre J.K. Percebe-se que a limitação oriunda da crença da personificação de "Deus" não permitiu contemplar o conhecimento "krishnamurtiano" (uso esse termo para facilitar a comunicação). De onde tirastes a ideia de que "A sufocação de todo desejo, a apatia vem a ser outra condição de libertação e, por conseguinte, outro postulado de Krishnamurti."? ou " Enquanto o indivíduo se deixa avassalar por esses elementos estranhos, ele está sujeito à lei das reencarnações sucessivas". Quem tem a mínima noção do que ele tentou transmitir sabe que esses trechos não condizem com o......

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#1•R688•C910   2017-02-08 21:48:42 - Convidado/Jasmim
Se pude captar alguma coisa acerca do conhecimento universal proferido pelo mestre em questão, não posso deixar de observar o ego, inclusive neste momento em que escrevo essas linhas. Há uma forte tendência em formular opiniões sobre qualquer assunto, sem investigar de que ponto observa-se. Então, fixa numa ideia preestabelecida sobre as coisas, a mente continua limitada ao espaço dentro do qual ela fou "criada". O observador, através do conteúdo do passado, analisa a cousa com suas afetivas tradicionais, com seu fundo psicológico, e não se dá conta de que "o analista é a coisa analisada". Ass......

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:-)