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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 386/julho 1994

Prática Cristã

Recoloca-se a questão:

CATÓLICO E MAÇOM?

Em síntese: A Maçonaria atrai muitos homens não tanto por sua mensagem doutrinária quanto pela perspectiva de ajuda e promoção que ela oferece aos seus membros. Todavia a filiação à Maçonaria é considerada pela Igreja Católica pecado grave, pois as concepções de Deus e religião, assim como o processo de iniciação secreta imposto aos novos membros contrariam as noções do Cristianismo relativas a Deus e aos sacramentos. — Ultimamente a Grande Loja Unida da Inglaterra declarou não se opor à Religião nem ter sacramentos e dogmas. É de notar, porém, que a Grande Loja Unida da Inglaterra não representa a Maçonaria toda; até hoje as Lojas Maçônicas são, todas, sociedades secretas, que têm seu rito de iniciação e suas "surpresas" para quem a elas se filia, "surpresas" que podem confutar com os princípios fundamentais do candidato. Ademais quem procura a Maçonaria somente por causa das vantagens profissionais que daí podem provir, não será nem autêntico maçom, nem autêntico católico — o que não pode deixar de doer a quem tenha honra e brio.

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A questão das relações entre Catolicismo e Maçonaria se põe freqüentemente, visto que muitos católicos são convidados a entrar na Maçonaria, onde julgam que desfrutarão de benefícios no plano econômico e profissional, sem prejuízo para a sua fé.

A questão parece assumir, em nossos dias, novos aspectos. Eis por que a consideramos mais uma vez em PR, já a tendo abordado em PR 171/1974, pp. 104-125; 179/1974, pp. 415-426; 254/1981, pp. 78-96; 258/1981, pp. 305-313; 259/1981, pp. 399-406; 291/1986, pp. 347-356; 369/1993, pp. 59-80; 373/1993, pp. 275-282.

 

1. A POSIÇÃO OFICIAL DA IGREJA

 

O último pronunciamento da Santa Sé a respeito da Maçonaria data de 26/11/1983, por ocasião da promulgação do atual Código de Direito Canônico. A Congregação para a Doutrina da Fé emitiu então a seguinte Declaração:

 

"Tem-se perguntado se mudou o parecer da Igreja a respeito da Maçonaria pelo fato de que, no novo Código de Direito Canônico, ela não vem expressamente mencionada como no Código anterior.

 

Esta Sagrada Congregação quer responder que tal circunstância é devida a um critério redacional, seguido também quanto às outras associações igualmente não mencionadas, uma vez que estão compreendidas em categorias mais amplas.

 

Permanece, portanto, imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçônicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e, por isto, permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçônicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão.

 

Não compete às autoridades eclesiásticas locais pronunciar-se sobre a natureza das associações maçônicas com um juízo que implique derrogação de quanto foi acima estabelecido, e isto segundo a mente da Declaração desta Sagrada Congregação, de 17 de fevereiro de 1981 (cf. AAS 73, 1981, pp. 240s).

 

O Sumo Pontífice João Paulo II, durante a audiência concedida ao subscrito Cardeal Prefeito, aprovou a presente Declaração, definida em reunião ordinária desta Sagrada Congregação, e ordenou a sua publicação.

Roma, da Sede da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, 26 de novembro de 1983.

Joseph Card. RATZINGER Prefeito

+ Fr. Jérôme HAMER O.P. Secretário"

 

As razões da incompatibilidade entre Maçonaria e Catolicismo professada na Declaração acima são, entre outras:

 

A Maçonaria bifurca-se em Maçonaria Regular e Maçonaria Irregular. Esta última rejeita o apelativo e o conceito de Grande Arquiteto do Universo e se tem mostrado abertamente contrária à Igreja Católica, promovendo campanhas contrárias à escola particular, à assistência religiosa nos hospitais públicos, nos quartéis, nos educandários... Além disto, é a responsável pela "Questão Religiosa" no Brasil (1871-1875), litígio entre o Governo e a Igreja, que redundou na prisão de dois Bispos contrários à Maçonaria: Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, de Olinda-Recife, e D. Antônio de Macedo Costa, de Belém do Pará. Na Amérjca Latina a Maçonaria Irregular exerceu forte ação anticlerical; tenha-se em vista o México (ver PR 336/1990, pp. 238s). É dita "Irregular" precisamente porque se afasta dos princípios tradicionais da Maçonaria como os concebeu o seu primeiro legislador, o pastor presbiteriano James Anderson em 1723.

A Maçonaria Regular professa a concepção de Deus dita "deísta", ou seja, a que a razão natural pode atingir; admite "a religião na qual todos os homens estão de acordo, deixando a cada qual as suas opiniões particulares". Esta noção de Deus e de Religião é vaga e não condiz com o pensamento cristão, que reconhece Jesus Cristo e as grandes verdades por Ele reveladas.

Além disto, tanto a Maçonaria Regular como a Irregular têm seu processo de iniciação secreta. Propõem o aperfeiçoamento ético do homem através da revelação de doutrinas reservadas a poucos e recebidas dos "grandes iniciados" do passado entre os quais alguns maçons colocam o próprio Jesus Cristo. Celebram também ritos de índole secreta ou esotérica, que vão sendo manifestados e aplicados aos membros novatos à medida que progridem nos graus de iniciação. Ora um tal processo de formação contrasta com o que o Cristianismo professa: este não conhece verdades nem ritos reservados a poucos; nada tem de oculto ou esotérico.

 

Há, porém, algo de relativamente novo no horizonte, algo que parece mudar a situação.

 

2. A GRANDE LOJA UNIDA DA INGLATERRA

 

Em 1985 a Grande Loja Unida da Inglaterra, que é considerada a Mãe ou Matriz de todas as Lojas Maçônicas, declarou que "a Maçonaria não é uma religião,.nem um substitutivo de religião", que aberta aos homens de todos os Credos", que "não existe um deus maçônico", mas "o maçom pode observar os compromissos assumidos em relação a Deus como entendido na religião que ele professa", que "a Maçonaria não tem dogmas nem teologias", "não oferece sacramentos", "não procura a salvação através de obras, verdades secretas ou outros meios" e, por fim, que "a Maçonaria não é indiferente à Religião, e os seus ensinamentos morais são aceitáveis a todas as Religiões" (ver G. Di Bernardo, Filosofia della Massoneria, artigo Massoneria e Religione, pp. 77-79).

Estas afirmações são importantes e inovadoras em relação ao passado da Maçonaria. Todavia merecem algumas observações:

1)   A primeira refere-se à origem dessa declaração encontrada na obra de G. Di Bernardo; é opinião do autor ou corresponde à orientação oficial e recente da Maçonaria da Inglaterra? Se é orientação oficial, convém que a Maçonaria no mundo inteiro o diga publicamente e demonstre de maneira concreta que ela não tem sacramentos nem constrange a liberdade religiosa de seus membros.

2)   A Maçonaria inglesa, da qual faz parte a Grande Loja Unida da Inglaterra, é geralmente regular; conserva princípios tradicionais que respeitam a Religião. Pode ter assumido uma orientação liberal. Todavia pode-se crer que também a Maçonaria Irregular, que se distanciou da Regular em meados do século XIX, tenha também assumido princípios mais condizentes com a Religião e seus requisitos?

3)   Até hoje o processo de iniciação, com a revelação de sentenças e ritos à elite maçônica, é vigente no Brasil. A Maçonaria, em qualquer de seus ramos e Lojas, continua sendo uma sociedade secreta; ela sempre o foi, de modo que se descaracterizaria se deixasse de ser secreta ou de praticar graus de iniciação reservados a uma elite. Essas etapas de iniciação fazem da Maçonaria uma espécie de religião, que se assemelha ao gnosticismo (estima da gnose ou do conhecimento superior) e ao esoterismo.

Eis por que continua a haver incompatibilidade entre Maçonaria e Catolicismo. Pode ocorrer que a Maçonaria, no futuro, se torne menos radical e severa. Por ora permanece em vigor a Declaração da Congregação para a Doutrina da Fé segundo a qual é ilícito a um católico filiar-se à Maçonaria; isto lhe acarreta a privação dos sacramentos, pois redunda em pecado grave.

Eis, porém, que alguém dirá que se filia à Maçonaria unicamente em vista de ajuda profissional e econômica, sem a intenção de absorver os conceitos típicos das Lojas Maçônicas. A esse católico seria preciso lembrar que não seria nem autêntico maçom nem autêntico católico: não autêntico maçom, porque oportunista e desfrutador não plenamente integrado na Maçonaria; não autêntico católico, porque viveria em situação irregular perante a Igreja e o Senhor Deus, violando uma norma eclesiástica fundamentada em sérias pesquisas e experiências. Ora a falta de autenticidade e coerência é algo que não somente empalidece o nome de alguém, mas faz sofrer a quem tenha honra e brio.

 

Ademais, quem se filia a uma sociedade secreta, não pode prever o que lhe acontecerá, o que se lhe pedirá ou imporá; não sabe se lhe será fácil guardar sua liberdade de opções pessoais. Embora tencione manter fidelidade a seus princípios íntimos, pode-se ver em encruzilhadas constrangedoras. A fim de ilustrar esta afirmação, seja mencionado o seguinte tópico:

No Ritual de Iniciação do 139 grau do Rito Escocês Antigo e aceito, o Grão-Mestre lembra aos candidatos:

"Quando fostes iniciados na nossa Ordem, manifestastes a idéia de Deus segundo o vosso critério e em harmonia com as vossas crenças religiosas. Ainda que aprovemos vossa maneira de pensar sobre este importante assunto, desejamos que amplieis aquelas primeiras opiniões sobre a existência de Deus e queremos perguntar-vos se houve alguma mudança com relação ao que então dissestes, como conseqüência dos estudos maçônicos ou dos ditames de vossa consciência. Os maçons não podem fomentar a existência de Deus segundo o conceito comum das religiões positivas, já que neste caso teríamos que mostrar-nos partidários de uma ou outra crença religiosa, e bem sabeis que isto seria contrário ao princípio da máxima liberdade consignado em nossos estatutos".

 

Na verdade, o Grande Arquiteto do Universo, para aqueles que o professam, é um Deus "deísta", vago, indefinido, impessoal, uma "força construtora, ordenadora e evolutiva".

É para desejar que a declaração atribuída à Grande Loja Unida da Inglaterra signifique abertura crescente da Maçonaria ao Cristianismo, que está no berço da primeira Loja Maçônica fundada na Inglaterra em 1723.


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