Prezado Rocim,

N√£o ficou muito claro se o texto anexado referente ao ‚ÄúO Livro dos Insultos‚ÄĚ √© de Ruy Castro ou seu. De qualquer maneira, se voc√™ anexou texto de outrem deve endossar a opini√£o, ent√£o aqui vai minha resposta.

Est√° muito em moda hoje, √† luz dos progressos da ci√™ncia contempor√Ęnea, afirmar que o discurso das maiores religi√Ķes, com √™nfase biliar maior no Cristianismo, √© pueril e se presta, apenas, a manipula√ß√£o de mentes idiotizadas. Este √© um dos muitos r√≥tulos midi√°ticos em evid√™ncia atualmente, e, cabe a quem se interessa por pensar o mundo, abrir o pacote do r√≥tulo e desnud√°-lo. R√≥tulos tem o poder de se comunicar apenas com a mente das paix√Ķes (corpo) e agem como uma potente droga silenciadora da discuss√£o racional. Em outras palavras, r√≥tulos causam medo, ansiedade, desconforto, e, assim calam o oponente. Por exemplo : o r√≥tulo de nazista (mesmo que seja falso) aplicado a algu√©m menos maduro que esteja enunciando um argumento causa um estrago imenso a este. Palavr√Ķes (no ingl√™s ‚Äúfour letter words‚ÄĚ) s√£o claramente r√≥tulos. Concluindo, chamar um cidad√£o de idiota significa desqualific√°-lo e ignorar o que ele tem a dizer. Sabe com quem est√° falando???

Pondo o r√≥tulo de lado, por hora, e voltando a um discurso racional do embate religi√ĶesXci√™ncia, vale a pena mencionar o livro de Dominique Lambert ‚ÄúCi√™ncias e Teologia‚ÄĚ da Eds. Loyola. Dominique Lambert √© professor universit√°rio na Fran√ßa e possui dois PhDs : um em F√≠sica outro em Teologia. Creio que isto o qualifica para um debate desta natureza.

O livro constroi uma tese a partir dos discursos cient√≠fico e teol√≥gico e pretende mostrar que as argumenta√ß√Ķes de ambos s√£o paralelas, no sentido euclidiano. Em outras palavras, os argumentos cient√≠ficos n√£o destroem nem apoiam o discurso teol√≥gico e vice-versa. Certamente, a ci√™ncia n√£o apoia a constru√ß√£o teol√≥gica, mas pode, perfeitamente, e, a√≠ discordo do autor, encontrar vest√≠gios na natureza da a√ß√£o divina. O discurso da ci√™ncia √© embasado na formula√ß√£o matem√°tica (l√≥gica aristot√©lica) e na experimenta√ß√£o (empirismo ingl√™s) que produz resultados estoc√°sticos cujo refinamento evolui com as t√©cnicas de medi√ß√£o (a√≠ entra a hist√≥ria da humanidade). √Č importante frisar que a ci√™ncia n√£o produz verdades apenas provis√≥rias, que logo s√£o substitu√≠das por mais recentes. A ci√™ncia √© um processo algor√≠tmico similar ao valor de um n√ļmero irracional que se expressa na exata continua√ß√£o de infinitas casas decimais, onde as casas conhecidas s√£o eternas. Por outro lado, as verdades da teologia s√£o, a priori, eternas, mas seu significado, que depende do vocabul√°rio que as enuncia pode ser enriquecido com a evolu√ß√£o da humanidade. √Č a√≠ que reside a confus√£o (proposital a nosso ver) entre criacionismo e ‚Äúdesign‚ÄĚ inteligente. O segundo √© a evolu√ß√£o do significado do significante teol√≥gico com o progresso da humanidade e o primeiro √© interpreta√ß√£o ao p√© da letra das fabula√ß√Ķes que aparecem nos textos sagrados. Carl Gustav Jung explica que lan√ßamos m√£o de fabula√ß√Ķes quando temos um conte√ļdo sem√Ęntico de algo, mas n√£o desenvolvemos, ainda, palavras (r√≥tulos) e sintaxe adequada para a forma√ß√£o de um discurso coerente. Mais interessante, os textos sagrados s√£o, na nossa vis√£o, metatextos, que est√£o , portanto, vivos! Aqui me vem a mente uma imagem muito linda que s√£o as modernas reconstru√ß√Ķes matem√°ticas da face de N. Senhor Jesus Cristo feitas recentemente a partir do Santo Sud√°rio. No Sud√°rio de Turim est√° o metatexto imageico, ao qual aplicadas as modernas t√©cnicas matem√°ticas de DSP regeneram a face de Jesus Cristo.

Temos que dissecar um pouco melhor o modo como pensamos para tornar bastante claros os processos de constru√ß√£o do conhecimento. Os autores cl√°ssicos que abordam o tema s√£o Husserl e Wittgenstein. Mais recentemente, os matem√°ticos Von Neumann e Turing lan√ßaram as bases para a moderna teoria da computa√ß√£o. √Č nesse ‚Äúzeitgeist‚ÄĚ que o trabalho de Marvin Minsky e outros culmina na moderna teoria da Intelig√™ncia Artificial.
Toda esta constru√ß√£o guarda um certo paralelo com as teorias psicanal√≠ticas de Freud e Lacan. Que queremos dizer com isto? Queremos dizer que este conjunto enorme de id√©ias centrado no indiv√≠duo, conjugado com a vis√£o puramente local (diferencial) da f√≠sica e a teoria darwiniana do acaso local na biologia, constitui a enciclop√©dia do conhecimento iluminista. √Č a constru√ß√£o, do que gosto de chamar, A Religi√£o Iluminista. Este enorme corpo de conhecimento, de natureza materialista, pretende (na paix√£o de seus seguidores) provar a inexist√™ncia de Deus e a inutilidade das religi√Ķes. Se n√£o ficou bastante claro o que dissemos, todas essas id√©ias repousam no car√°ter puramente local, das coisas, dos indiv√≠duos, das consci√™ncias, da evolu√ß√£o. √Č tomar ao p√© da letra o que nos diz Nietzsche quando rejeita a totalidade, a unidade e a finalidade (l√≥gica do corpo). Se o mundo √© somente isto, como poderemos integrar as equa√ß√Ķes de campo locais de uma teoria se n√£o dispuzermos de uma simetria global? E o que dizer das conex√Ķes n√£o- locais que est√£o surgindo dos experimentos recentes da Mec√Ęnica Qu√Ęntica? Como entender as muta√ß√Ķes biol√≥gicas num contexto puramente local j√° que estas s√£o o resultado de tunelamento eletr√īnico (fen√īmeno qu√Ęntico)? O que explica os fen√īmenos de rebanho? Ser√° que n√£o existem conex√Ķes entre mentes? Ser√° que a infla√ß√£o cosmol√≥gica √© a √ļltima palavra que explica a homogeneidade n√£o-local do universo? Poder√≠amos encher p√°ginas com perguntas desta natureza, sem respostas. Um texto emblem√°tico que se constitui num poderoso libelo contra a Intelig√™ncia Artificial √© o livro do cosm√≥logo Roger Penrose, ‚ÄúA Nova Mente do Rei‚ÄĚ Ed. Campus. Em outro livro mais recente (n√£o me lembro-algu√©m me ajuda?) dele h√° a clara proposta que o citoesqueleto celular (neuronal tamb√©m, √© claro) constitui SQUIDs (circuitos qu√Ęnticos), o que quer dizer que a vida √© um fen√īmeno qu√Ęntico (o grifo √© nosso), e, portanto, essencialmente, n√£o- local.

Um fil√≥sofo brasileiro que gosto de citar √© Luis Sergio Coelho de Sampaio. Em sua obra : ‚ÄúL√≥gica Ressuscitada‚ÄĚ Ed. UERJ, Luis S√©rgio faz uma proposta ousada de classifica√ß√£o da Filosofia √† luz da L√≥gica. √Č um livro dif√≠cil que tem que ser lido e relido com muito cuidado, mas que fundamenta dentro da hist√≥ria da Filosofia a exist√™ncia de cinco l√≥gicas, ou modos de pensar diferentes. Esta √©, a nosso ver, sua grande contribui√ß√£o, pois desnuda as diversas formas de pensar da humanidade estabelecendo, inclusive, uma nova l√≥gica de car√°ter gerencial - a l√≥gica hiper dial√©tica que vem a se somar aos quatro elementos cl√°ssicos dos gregos (que podemos interpretar como um conhecimento ainda de car√°ter mitol√≥gico das quatro l√≥gicas cl√°ssicas ‚Äď descobertas depois). Seu projeto se situa dentro do quadro iluminista pois pode ser representado pela estrela de cinco pontas, que representa o Homem sem a conex√£o divina. Se pretendemos interpretar textos sagrados deveremos adicionar mais uma l√≥gica-a l√≥gica da intui√ß√£o, que √© a conex√£o divina. Aqui emerge a estrela de seis pontas de Davi, s√≠mbolo do homem completo na cultura judaico-crist√£, onde ‚Äúo que est√° em cima √© igual ao que est√° embaixo‚ÄĚ dos dois tri√Ęngulos invertidos.

As reflex√Ķes que faremos em seguida representam pensamentos de alguns anos para c√°, e s√£o tentativas puramente nossas de entender os metatextos sagrados dentro de uma linguagem contempor√Ęnea.

O Pai Nosso de n√≥s crist√Ęos parece ser dividido em seis principais ora√ß√Ķes.

A primeira das ora√ß√Ķes, a nosso ver, enaltece o Divino em nossa mente intuitiva. √Č como se ped√≠ssemos ao Senhor que iluminasse nossa intui√ß√£o, que nos iluminasse com Sua sabedoria. √Č da mente intuitiva que brotam nossas id√©ias mais brilhantes, as revolu√ß√Ķes na ci√™ncia, as cria√ß√Ķes art√≠sticas mais elevadas e a pr√≥pria f√©. A segunda ora√ß√£o pede que ‚ÄúVenha o Reino‚ÄĚ √† nossa mente fundacional, ou seja, aquela que estabelece os axiomas dos teoremas que desejamos demonstrar, a mente cartesiana por excel√™ncia, a ‚Äúdo penso logo existo‚ÄĚ . Ao fazermos a segunda ora√ß√£o pedimos a Deus que nos d√™ uma boa fundamenta√ß√£o axiom√°tica aos construtos l√≥gicos que pretendemos fazer e que decorrem desta boa axiomatiza√ß√£o. A terceira ora√ß√£o em que se pede ao Senhor que se fa√ßa a ‚ÄúSua Vontade‚ÄĚ √© a l√≥gica da Lei do Senhor, que n√£o √© sen√£o a l√≥gica de Arist√≥teles expressa pela Lei Mos√°ica bem antes do pr√≥prio Arist√≥teles. Esta √© a l√≥gica cl√°ssica do terceiro exclu√≠do e √© da√≠ que surge o conceito de bem e mal, e a individua√ß√£o pela responsabilidade do comportamento. Foi a√≠ que surgiu o indiv√≠duo na Hist√≥ria da Humanidade. Esta ora√ß√£o roga a Deus o bom caminho. √Č a lei moral por excel√™ncia. Estas tr√™s primeiras ora√ß√Ķes completam o tri√Ęngulo da alma.

O triangulo do corpo come√ßa ao pedir o ‚ÄúP√£o Nosso de Cada Dia‚ÄĚ. Esta √© a l√≥gica do corpo por exel√™ncia, a das necessidades biol√≥gicas que temos, a base da Psican√°lise Freudiana. √Č esta a raz√£o de estar t√£o presente o tema da sexualidade nas teorias psicanal√≠ticas. √Č a l√≥gica das paix√Ķes e do cora√ß√£o. Esta quarta ora√ß√£o solicita ao Senhor que mantenha nosso cora√ß√£o puro. Nietzsche foi o fil√≥sofo que incorpora esta l√≥gica. A quinta ora√ß√£o pede pela Miseric√≥rdia Divina e promete o perd√£o dos semelhantes. Esta mente √© o pensar dial√©tico de Hegel. A l√≥gica da irreversibilitade, segundo Prigogine, onde o tempo deixa de ser revers√≠vel (grupo alg√©brico) e passa a ser um semi-grupo. S√≥ a√≠ cabe consistentemente a id√©ia de perd√£o. Se n√£o estamos enganados quem desenvolve estes conceitos √© Levinas (me corrijam, se estiver errado). Acho muito interessante que a id√©ia de perd√£o esteja imbricada no conceito hegeliano de hist√≥ria. Isto ilustraria a sabedoria dos textos sagrados. A √ļltima ora√ß√£o, ao pedir que Deus nos livre das tenta√ß√Ķes √© um pedido ao Senhor que nos possibilite gerir nossas necessidades postos neste mundo (dasein?) com sa√ļde corporal de excel√™ncia. √Č a nova l√≥gica proposta por Luis S√©rgio.

Agora podemos falar um pouco da bondade de Deus. Aqui fica bastante difícil tentar construir um texto com alguma racionalidade para pessoas que não compartilham de nossa fé (revelação pessoal através da mente intuitiva). Mas vamos tentar sem sermos dogmáticos, mesmo porque não temos esta autoridade.

Vamos come√ßar sugerindo uma experi√™ncia a quem se dispor. Ao deitar-se procure relaxar dos problemas do dia a dia e pe√ßa contritamente ao Senhor que lhe ilumine com Sua Sabedoria. Se voc√™ tem uma religi√£o reze uma ora√ß√£o pensando com clareza o que est√° dizendo. Se n√£o tem religi√£o, simplesmente mentalize este pedido com a melhor de suas inten√ß√Ķes e durma! De manh√£ ao acordar fique um pouco na cama e deixe as id√©ias flu√≠rem em sua cabe√ßa tranquilamente por algum tempo. Repita esta experi√™ncia o quanto quizer e poder√° perceber o quanto a vida √† sua volta fica com mais sentido. O mundo come√ßa a se abrir e desvendar in√ļmeras coisas que voc√™ n√£o havia percebido antes. Essa √© uma d√°diva Divina, √© s√≥ querer!

N√£o se pede a Deus para ganhar dinheiro, n√£o se pede sa√ļde perfeita para si. Mas podemos pedir desinteressadamente pelos outros. Experimente e ver√°! √Č obvio que n√£o podemos negociar com o Criador do Universo, pois afinal o que ter√≠amos a oferecer-Lhe? Podemos at√© pedir-Lhe alguma coisa para n√≥s e lhe ser√° atendido. Entretanto, voc√™ ir√° notar que surgir√° uma situa√ß√£o nova mais complicada. Tudo se passa como se estiv√©ssemos numa escola onde voc√™ decidiu livremente assumir um curso. Se voc√™ est√° agindo com honestidade, √© claro que n√£o pode solicitar ao professor que lhe aprove de antem√£o!

O problema l√≥gico posto pelo sofrimento humano frente √† Miseric√≥rdia Divina foi, at√© aqui, tangenciado por n√≥s. Em outras palavras, como pode um Pai Bondoso presenciar o sofrimento humano e n√£o intervir diretamente? Dominique Lambert, em obra citada anteriormente, prop√īe que Deus n√£o interv√©m no mundo porque isto significaria anular a liberdade humana e que esta √© a verdadeira causa do sofrimento. Concordamos em grande medida com esta id√©ia, mas achamos que √© poss√≠vel enriquecer um pouco mais o discurso fazendo uma an√°lise melhor do tempo.

Indubitavelmente um dos maiores mistérios da física atual é o conceito de tempo. Espaço nos é muito mais familiar do que tempo. Esta coisa misteriosa que flui nos relógios, inclusive biológicos, nos envelhecendo, e que se expressa, como se espaço fosse, na teoria da relatividade. Porque temos ansiedade pelo futuro? Acho que aqui cabem algumas palavras de um diferente discurso.
Todos os nossos computadores s√£o capazes de resolver as chamadas equa√ß√Ķes diferenciais de evolu√ß√£o de estado ou movimento. As leis determin√≠sticas da natureza, mesmo nos in√ļmeros casos em que surge o caos, s√£o resolvidas, pelo menos de forma aproximada, e ganhamos com isto alguma previsibilidade que nos permite resolver os problemas mais diversos do dia-a-dia. √Č razo√°vel se supor que a parte cl√°ssica (n√£o qu√Ęntica) de nossos c√©rebros, ou seja, a rede neural simula perfeitamente bem estes problemas. Bons exemplos s√£o : quando calculamos, inconscientemente nossa trajet√≥ria ao atravessar ruas ou o beb√™ que brinca jogando coisas para o alto e as observa cair e assim aprender suas leis de movimento. Os nossos sonhos s√£o simula√ß√Ķes sofisticadas, para o padr√£o dos computadores atuais, mas n√£o deixam de ser proje√ß√Ķes feitas com uma din√Ęmica determin√≠stica, ou seja, onde o tempo √© o tempo revers√≠vel da mec√Ęnica de Newton. Por outro lado, o tempo de nossas vidas √© o tempo irrevers√≠vel do vivido (Heidegger, Sartre e Prigogine). Este n√£o pode ser simulado, tem que ser vivido, √© o tempo da hist√≥ria, e, obviamente, a vida nos causa decep√ß√Ķes. Esta √© uma causa de sofrimento.

Outra causa de sofrimento vem da dor, n√£o simplesmente a dor f√≠sica que √© um mecanismo de prote√ß√£o do corpo como um todo, mas a dor da perda, da humilha√ß√£o, da rejei√ß√£o. Estas √ļltimas adv√©m de nossa postura de ignorar a complexidade e conectividade do universo, n√£o percebendo que a√ß√Ķes m√≠nimas nossas (o bater das asas da borboleta...) causam rea√ß√Ķes que reverberam em n√≥s mesmos. Ao mantermos a cren√ßa que locais do espa√ßo-tempo (indiv√≠duos) est√£o isolados e independentes se torna realmente incompreens√≠vel o sofrimento √† luz da Miseric√≥rdia Divina.

DEUS QUER O NOVO DE SUAS CRIATURAS LIVRES !

Mariano S. Silva
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