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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 547 – janeiro 2008

Surpreendente?

 

A CRISE DE FÉ DE MADRE TERESA DE CALCUTTÁ

 

Em síntese: A imprensa noticia que a famosa Madre Teresa de Calcutá sofreu crises de fé durante longos anos de sua vida terrestre. Isto não surpreende se levamos em conta as afirmações dos santos místicos, como São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila. Deus assim quer purificar a alma de qualquer apego às consolações de ordem sensível ou de índole espiritual.

 

1. A notícia que surpreendeu

 

Eis o que se lê no jornal O GLOBO de 27/8/07:

Nova Delhi. As dúvidas que atormentavam Madre Teresa de Calcutá estão vindo agora à tona, com o lançamento do livro Mother Teresa: come be my light (Madre Teresa: venha ser minha luz), do padre canadense Brian Kolodiejchuk, um dos defensores da canonização da religiosa, o autor acredita que tais tormentos ajudaram a purificá-la.

 

"Jesus te ama de uma forma muito especial. No meu caso, o silêncio e o vazio são tão grandes que olho e não vejo, escuto e não ouço", escreveu a missionária a seu confidente, o reverendo Michael Van Der Peet, em 1979.

 

Na publicação a ser lançada em 4 de setembro, o padre canadense reúne cartas que a missionária enviava a seus confessores e a seus superiores. Os escritos mostram que ela passou os seus últimos 50 anos sofrendo com uma grave crise espiritual.

 

"Onde está minha fé, inclusive aqui no mais profundo não há nada, meu Deus, que dolorosa é esta pena desconhecida. Não tenho fé. Se há um Deus, perdoa-me, por favor. Quando tento elevar minhas preces ao Céu, há um vazio tão condenador...".

 

Para irmã Nirmala, que substituiu Madre Teresa à frente da Congregação das Missionárias da Caridade na índia, as dúvidas da religiosa sobre a fé e a existência de Deus também foram decisivas para sua histórica trajetória como missionária, que lutou até a morte para ajudar os pobres.

 

2. Que dizer?

 

A notícia surpreendeu muitos fiéis católicos, que julgavam ser os Santos figuras originais isentas de qualquer crise nas suas relações com Deus. Outra, porém, é a realidade: os mestres da vida espiritual ensinam que caminhamos para Deus através de três etapas: a via purificativa, a via iluminativa e a via unitiva. Principalmente a primeira tem em vista desapegar-nos de qualquer criatura como também desapegar-nos de nós mesmos, tendentes ao egocentrismo. - Para tanto o Pai Celeste permite sejamos acometidos pela noite dos sentidos e a noite do espírito, fases em que nos falta qualquer consolação ou sentimento de bem-estar seja no plano da nossa sensibilidade, seja no da intelectualidade. São fases de purificação, que visam a tornar a fé e o amor a Deus mais diretos, menos interessados em alguma compensação; o fiel crê em Deus por causa da grandeza da perfeição divina e ama a Deus porque Ele primeiro nos amou (cf. Jo 4, 19).

 

O que importa nesses momentos é não desanimar, mas continuar a servir a Deus como nos momentos de suave consolação. Com efeito; tudo passa, mesmo os maiores valores criados, e só Deus fica. Felizes portanto são aqueles que guardam fidelidade quando provados, porque após o túnel vem a luz ou acima das nuvens está o céu com a sua bem-aventurança.

 

Ora Madre Teresa terá passado por essas fases difíceis, mas salutares, da vida espiritual; sofreu, porém, sem deixar de continuar a missão que Deus lhe confiara, entre os pobres. A fidelidade assim mantida é altamente meritória, como o deve estar percebendo essa santa mulher na bem-aventurança celeste.

 

Por conseguinte a notícia da imprensa que surpreendeu muitos leitores nada diz de extraordinário. Contribui antes para se avaliar melhor o grau de perfeição espiritual a que chegou Madre Teresa: serviu a Deus até o fim da sua vida terrestre firmemente no claro-escuro da fé, sem alguma compensação. Notemos aliás que a fé é uma postura da inteligência, que pode estar desligada de sentimentos prazerosos ou deleites espirituais.

 

Na biografia de Santa Teresa de Lisieux lê-se algo de semelhante; também esta sofreu crises de fé, mas superou-as pela tenacidade forte posta ao serviço do Senhor. Algo de semelhante pode-se dar na vida de qualquer cristão; é a ocasião de crescer espiritualmente, passando para uma fé mais adulta e madura.

 

Estêvão Bettencourt O.S.B.


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