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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 374/julho 1993

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Deus e o Mistério do Tempo

Deus e o Mistério do Tempo, por Henri Boulad. Tradução de Barbara Theoto Lambert - Ed. Loyola, São Paulo 1992, 210x145mm, 157 pp.

O autor é um jesuíta egípcio, que estudou na França, no Líbano e nos Estados Unidos. Trabalhou em favelas, entre leprosos e doentes, além de participar de projetos educacionais pioneiros. O presente livro origina-se de palestras proferidas pelo autor, que merece o cognome de "Profeta do Otimismo".

Escreve sobre o tempo, utilizando dados científicos (como os da teoria da relatividade) e propondo reflexões de ordem filosófica e teológica assaz profundas e valiosas. No Sumário do livro lemos os títulos de seus sete capítulos: "Existem muitos tempos diferentes, A profundidade do presente, A eternidade no coração do tempo, A Sabedoria do Tempo, O passado continua, A Redenção do Tempo, Tudo é Graça".

Boulad narra vários fatos de sua experiência e ilustra seus dizeres com lendas e provérbios do Oriente, que dão sabor muito agradável a uma temática em si árdua e árida.

Em síntese, o autor, que em última análise fala como cristão, quer chamar a atenção para o valor do tempo, apregoando uma vivência intensa e consciente do mesmo. Isto não implica em cair em estafa; muito ao contrário, o autor sabe relativizar a corrida dos homens ao encalço de bens transitórios, e esmera-se por mostrar como o tempo está prenhe de eternidade, de tal modo que é preciso preenchê-lo com valores correspondentes ou que persistam por todo o sempre. O tempo que alguém possa ter mal vivido até hoje, é posto sob a luz da graça redentora, de sorte a suscitar no leitor fiel um olhar de confiança e otimismo sobre o futuro.

 

Digno espécimen do livro é o trecho que se lê às pp. 19s:

"Existe uma saudação em árabe: 'Allah yetawwel omrak. Que Deus prolongue sua vida! 'Contudo eu não lhes desejaria uma longa longa vida se isso significasse apenas uma vida prolongada; eu lhes desejaria uma vida, o mais possível plena de satisfação interior. Alguns momentos vividos intensamente valem mais do que cem anos inúteis e desperdiçados. Não é a duração, mas a qualidade que dá significado à vida.

 

Não me interessa saber quantos anos você tem, porque conheço alguns anciãos que são tão argutos quanto jovens de vinte anos, e jovens de vinte anos que agem como se tivessem oitenta anos. É o ânimo que determina a nossa idade.

 

Gostaria de acrescentar alguns pensamentos que anotei no Líbano em 1962:

 

'Não é tempo que nos falta, falta-nos ânimo'. Nunca afirme não ter tempo. Em geral, são as pessoas mais ocupadas que arranjam tempo para outras tarefas, e as que têm mais tempo de lazer que se recusam, quando lhes pedimos que façam alguma coisa. Não nos falta tempo, falta-nos ânimo.

 

'O tempo verdadeiro não é o do relógio ou do calendário, mas o tempo da consciência'. Podemos ter quatro meses de férias que valham quarenta anos porque proporcionam experiências tão ricas e intensas que, em um verão, vivemos toda uma vida. Para outras pessoas, esses quatro meses valem menos de quatro horas, porque foram um tempo vazio, de mera ausência. O tempo verdadeiro não é o do relógio ou do calendário, mas o tempo da consciência".

O livro merece grande apreço, pois, inegavelmente, lê-lo com vagar e atenção "relaxa" a mente e reergue os ânimos.

 

À guisa de complemento, seja aqui transcrita outra interessante secção do livro:

 

"Certo dia um homem de negócios dirigia-se ao trabalho, quando viu um beduíno sentado debaixo de uma palmeira da cidade, descansando e sonhando, como muita gente faz no Egito. Parou e perguntou:

Que faz aí? Respondeu o beduíno:

Como vê, estou sonhando, descansando...

Sabe, poderia ganhar dinheiro se trabalhasse.

E que faria com o dinheiro?

Se ganhasse dinheiro, poderia abrir um escritório.

Edaí?

Daí poderia ganhar mais dinheiro e abrir uma fábrica.

E daí?

Aí poderia ter uma bela casa de campo.

Ótimo! E daí?

Ainda teria dinheiro para guardar no Banco.

Sim. E daí?

Aí poderia sentar-se e descansar.

Mas é isso que estou fazendo neste momento".

 

(Henri Boulad, Deus e o Mistério do Tempo. Ed. Loyola 1992, p. 65)

E.B.


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