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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 523/Janeiro 2006

Sagrada Escritura

 

Nova edição:

 

A BÍBLIA NA LINGUAGEM DE HOJE

 

Em síntese: A "Bíblia na Linguagem de Hoje" é uma tentativa de traduzir em linguagem popular o texto sagrado para torná-lo acessível ao grande público. A intenção dos tradutores é louvável, mas a obra é infeliz, pois, mais do que uma tradução, fizeram uma interpretação, por vezes nitidamente protestante. Além do quê, a adaptação do texto sagrado ao vocabulário popular faz que o novo texto deixe de apresentar termos bí­blicos ricos de conotações e temas teológicos como "Tradição, depósito, mistério...”; assim se empalidece a mensagem bíblica em vez de ser leva­da ao povo simples. A solução para o problema da difusão da Bíblia está, antes, em conservar o vocabulário típico e rico do texto sagrado, munindo-o, porém, de notas explicativas em rodapé a fim de que o leitor não iniciado cresça em cultura bíblica, em vez de ser deixado na sua exígua cultura, com empobrecimento da mensagem sagrada.

*   *   *

A Sociedade Bíblica do Brasil, de orientação protestante, editou em 1988 os livros protocanônicos da Bíblia "na linguagem de hoje"1. Até aquela data só existia o Novo Testamento em tal estilo. O trabalho conta com a colaboração das Sociedades Bíblicas Unidas e tem seus paralelos em outras línguas modernas. Ainda as Sociedades Bíblicas Unidas traduziram os escritos deuterocanônicos (Tobias, Judite, Sabedoria, Baruque, Eclesiástico, 1/2 Macabeus, Ester 10, 4-16, 24; Daniel 3, 24-90, 13-14), que o catálogo católico considera Palavra de Deus ou partes integrantes da S. Escritura.

Ora eis que as Edições Paulinas (católicas) obtiveram a autorização para publicar num só volume os textos canónicos e deuterocanônicos da Bíblia, que atualmente está sendo apresentado ao público como "Nova Tradução na Linguagem de Hoje" (BLH); acompanhada de uma carta as­sinada pelo sr. Bispo D. Eugénio Rixen, Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-catequética, ... carta que não quer dizer que tal é a melhor tradução da Bíblia, mas apenas significa que é aceitável.

O texto em pauta tem notas de rodapé que indicam textos parale­los, mas não explanam a mensagem bíblica; esta fica ao critério do livre exame feito pelo leitor. Também as secções de introdução em cada livro são muito sóbrias. Impõe-se assim a pergunta: quanto vale para o gran­de público tal edição? - É o que vamos levar em conta.

 

AVALIAÇÃO

Traduzir é sempre correr o risco de perder algo da força e do colo­rido do texto original. Isto não quer dizer que não se deva traduzir, mas, sim, que se há de traduzir levando em conta tal risco e procurando minorá-lo tanto quanto possível. Esse risco tem conseqüências especialmente sérias quando se quer verter a Bíblia fugindo intencionalmente da sua nomenclatura original e típica, a título de que é arcaica ou ininteligível ao homem de hoje; conseqüentemente utiliza-se um vocabulário tido como mais moderno e compreensível, mas certamente distante do teor e da pujança dos termos originais. Aos poucos, e insensivelmente, vai-se es­crevendo um livro diferente ou uma obra de leitura fácil e agradável, mas incapaz de transmitir toda a riqueza da mensagem nativa.

O problema de tornar a Bíblia acessível à compreensão do grande público não se resolve pela adaptação do vocabulário típico (e, indireta­mente, do teor característico) da Bíblia ao linguajar (e, conseqüentemen­te, ao pensar) do povo simples, mas soluciona-se, antes, pela elevação do nível de compreensão dos leitores ao nível de expressão e pensa­mento do texto sagrado. O grande público só poderá lucrar se se lhe acrescentar algo em matéria de cultura bíblica, em vez de ser deixado na sua exígua cultura religiosa. Praticamente isto significa que uma boa tra­dução da Bíblia não se deve furtar ao emprego de termos típicos como "justificação, carne e sangue...", mas, respeitando-os, o tradutor deverá explicar o seu sentido em notas de rodapé; assim o texto guardará as suas feições características semitas ou helenistas e, não obstante, se tornará inteligível.

Em particular, uma das razões pelas quais é indispensável guardar o vocabulário típico da Bíblia, é a seguinte: muitos termos bíblicos têm sua história, suas conotações, suas assonâncias na cultura antiga (hebraica, aramaica ou grega); conseqüentemente, se se trocam tais ter­mos por outros, pode-se perder a noção da riqueza e das implicações semânticas de tais vocábulos.

Passemos agora a exemplos que ilustrarão quanto dissemos e que têm sua ocorrência na "Bíblia na Linguagem de Hoje".

1. Tradição

Tradição tem seu equivalente literal ou semântico no grego parádosis, que significa "dar ou passar adiante". O vocábulo no Novo Testa­mento supõe a transmissão de uma doutrina de geração em geração dentro de um clima de respeito e veneração que os antigos dedicavam à Palavra de Deus ou ao deposito (parathéke) sagrado (ver subtítulo se­guinte).

Ora a BLH troca tradições por outros termos:

2Ts 2, 15: "Fiquem firmes e guardem aquelas verdades que ensinamos a vocês nas nossas mensagens e na nossa carta". Lite­ralmente dever-se-ia dizer em absoluta fidelidade ao texto e sem pre­juízo para a clareza: "Permanecei firmes e guardai as tradições (paradóseis, em grego) que recebestes, seja de viva voz, seja por carta nossa".

Segundo a versão da BLH, perde-se a consciência de que as "verda­des ensinadas por S. Paulo" são verdades provenientes de fonte mais remo­ta. Além do quê, a palavra mensagens é mais genérica do que "ensinamentos de viva voz"; dir-se-ia que os tradutores quiseram evitar a recomendação que São Paulo faz da tradição oral, rejeitada pelos protestantes.

1Cor 11, 2: "Eu os elogio porque... vocês seguem as instru­ções que eu passei para vocês". Literalmente dever-se-ia ler, sem detrimento para a clareza do texto: "Eu vos louvo por guardardes as tradições (paradóseis) tais como eu vo-las entreguei".

Como dito, a intenção de evitar a palavra "tradição, tradições" quan­do o Apóstolo a recomenda, deve-se ao fato de que os protestantes rejei­tam a tradição divino-apostólica ou as doutrinas que nos foram transmiti­das por via meramente oral.

2.  Depósito

Esta palavra corresponde ao grego parathéke, que significava um bem a ser guardado com zelo e honradez; não se tolerava qualquer infi­delidade ou violação da confiança da parte do depositário. Ora, quando São Paulo se refere à doutrina cristã como parathéke, ele quer incutir essa inviolabilidade devida ao ensinamento de Jesus transmitido pelos Apóstolos. Tal conotação, porém, é enfraquecida caso se substitua parathéke, como faz a BLH:

2Tm 1,14: "Guarde as boas coisas que foram entregues a você" em vez de: "Guarda o bom depósito (parathéken)".

1Tm 6, 20: "Timóteo, guarde bem o que foi entregue aos seus cuidados" em vez de: "Timóteo, guarda o depósito (parathéken)".

2Tm 1,12: "Estou certo de que ele (o Senhor) é poderoso para guardar até aquele dia aquilo que me confiou", em vez de: "Estou certo de que Ele tem poder para guardar o meu depósito (parathéken) até aquele dia".

3.  Justo, justificar, justificação

"Justo", na linguagem bíblica, é o homem reto, identificado com o plano de Deus. "Justificar" significa "fazer reto ou amigo de Deus". O verbo se prende também ao substantivo "justiça" (dikaiosyne, em grego; sedéq, sedaqáh, em hebraico), que é amplo e rico em significado tanto no Antigo como no Novo Testamento.[1] É, pois, insubstituível, dados os matizes que tal palavra apresenta e que devem ser levados em conta por quem deseje entender bem a Bíblia. Ora a BLH omite os vocábulos "jus­tificar" e "justiça", como se vê nos textos abaixo:

Rm 3, 20-22: "Ninguém é aceito por Deus por fazer o que a Lei manda... Deus já mostrou que o meio pelo qual ele aceita as pesso­as não tem nada a ver com a Lei... Deus aceita as pessoas por meio da fé" em lugar de: "Diante dele ninguém será justificado pelas obras da Lei... Agora, porém, se manifestou a justiça de Deus,... justiça de Deus que opera pela fé em Jesus Cristo". Ver Rm 3, 28.30; 4, 2.3.5...

De modo especial, a BLH modifica o sentido do texto original em Rm 1, 17b; Gl 3, 11b; Hb 10, 38, em que se encontra a citação de Hab 2, 4: "O justo viverá pela fé (ho díkaios ek písteos zésetai)". Tal versículo em que díkaios é substantivo, vem assim traduzido pela BLH:

Rm 1, 17b: "Viverá aquele que, por meio da fé, é aceito por Deus".

Gl 3, 11b: "Viverá aquele que, por meio da fé, é aceito por Deus".

Hb 10, 38: "Todos aqueles que eu aceito, terão fé em mim e viverão".

A primeira forma de traduzir distorce o texto, pois faz do substanti­vo díkaios (justo) uma forma verbal passiva: é aceito (o que seria dikaioutai no presente ou dedikaioutai no perfeito, em grego). Transfor­mando o substantivo em verbo, o tradutor ligou-o com o complemento pela fé, de modo a exprimir a doutrina luterana (protestante) da justifica­ção pela fé apenas (sola fides, somente a fé).[2]

Quanto à tradução de Hb 10, 38, difere da de Rm 1, 17b e Gl 3, 11b, embora o texto grego citado seja o mesmo; é menos protestante do que a tradução de Rm 1, 17b e Gl 3, 11b, mas vem a ser uma interpreta­ção mais do que uma simples tradução.

 

4.  Primeiro filho

Em Lc 2, 7 lê-se que Maria deu à luz o seu protótokon. À primeira vista, este vocábulo se traduz por primogênito; leve-se em conta, po­rém, que primogênito, no linguajar semita e bíblico, equivale muitas ve­zes a "unigênito" e "bem-amado", pois o primogênito é, durante algum tempo, o único filho e aquele que concentra todo o amor de seus pais. Tenham-se em vista, por exemplo, os dizeres de Zc 12, 11:

"Quanto àquele que transpassaram, chorá-lo-ão como se cho­ra um filho unigênito; chorá-lo-ão amargamente como se chora um primogênito".

Mesmo fora da terra de Israel podia-se chamar primogênito o filho que não tivesse irmão nem irmã mais jovem; é o que atesta uma inscrição sepulcral judaica datada de 5 a.C. e descoberta em Tell el-Jedouhieh (Egito) no ano de 1922; lê-se aí que uma jovem mulher cha­mada Arsinoé morreu "nas dores do parto do seu filho primogênito".

Ora a BLH, traduzindo protótokon por primeiro filho, já tira ao lei­tor brasileiro a possibilidade de perceber a densidade e as peculiarida­des de significado do linguajar semita. Com efeito; "primeiro filho", em português, insinua "segundo, terceiro... filhos", como os protestantes que­rem que tenha havido no caso de Maria e José (ao contrário do que ensi­na a Tradição cristã até hoje). No vocabulário hebraico suposto pelos evangelistas, o primogênito é aquele antes do qual não houve outro (é por isto o bem-amado), mas não é necessariamente aquele após o qual houve outros.

5.  Mistério

Mystérion é outro termo denso no vocabulário bíblico. Era utiliza­do pelos gregos sob forma de plural para designar os ritos pagãos; e aparece com este significado no texto grego de Sb 14, 15.23; 12, 5. Em Daniel 2, 7.28s, significa os acontecimentos finais da história, cuja notí­cia é revelada por Deus. Nos apócrifos judaicos, mystérion significa um desígnio de Deus, decretado desde todo o sempre e destinado a se reve­lar no fim dos tempos para instaurar a ordem violada no mundo pelos iníquos; ver Henoque 49, 2; Henoque etíope 51, 3.

Nos escritos paulinos mystérion é palavra de significado bem de­finido:

-   é o plano da salvação concebido por Deus Pai desde toda a eter­nidade (1Cor 2, 7) ...

-   ocultado a todas as criaturas, até mesmo aos anjos (1 Cor 2, 8; Ef 3, 9; Cl 1, 26; Rm 16, 25s) ...

-   revelado aos homens mediante a pregação dos Apóstolos e a história da Igreja (Ef 3, 3-5. 10s; 1Cor2, 1.7) ...

-   identificado com o próprio Cristo (Cl 1, 27; 2, 2; 4, 3). A morte e a ressurreição de Cristo são o conteúdo mais intimo do mistério de Deus.

-   A progressiva revelação do mistério inaugura os últimos tempos ou marca a plenitude dos tempos (Ef 1, 9).

Ora um vocábulo tão rico de acepções e alusões não pode ser omitido numa tradução da Bíblia, como faz quase por completo a BLH. Nem se vê por que sonegar tal termo, que na própria linguagem popular é usual; com efeito, o povo fala freqüentemente de mistério(s). Chama-nos a atenção especialmente a troca de mistério por segredo em Mt 13, 11 ("os segredos do Reino do céu"); Cl 1, 26 ("essa mensagem é o segre­do que ele escondeu"); Cl 2, 2 ("o segredo de Deus, que é o próprio Cristo"); Ap 10, 7 ("Deus cumprirá o seu plano secreto...); 1Cor4, 1 ("nós, que somos encarregados de realizar os planos secretos de Deus")...

6.  Tu, você(s), o senhor

Em vez de adotar o habitual tratamento tu e vós, a BLH recorre a Tu (quando é interpelado o Senhor Deus), você(s) (quando é interpelado um subalterno), o senhor (quando Jesus ou um chefe é interpelado). Este tratamento suscita confusões e depaupera o texto sagrado, banali­zando as suas expressões, como tem revelado a praxe recente. Ademais não se vê motivo para abandonar tu e vós, como se fossem incompreen­síveis às pessoas simples (sabe-se que estas recorrem ocasionalmente a tais pronomes). Para que uma tradução da Bíblia seja inteligível à gen­te simples, não é necessário que reproduza o expressionismo e o voca­bulário limitados das pessoas de pouca cultura, pois estas entendem vocábulos de um linguajar mais burilado, embora não os usem. Basta lembrar que o jornal falado da televisão e do rádio recorre a linguagem mediana, nem sempre reproduzida pelo povo, mas significativa para este (daí o enorme índice de audiência que alcança).

7.  Ligar-desligar

Em Mt 16, 19, diz Jesus a Pedro, conforme a BLH: "Eu lhe darei as chaves do Reino do céu; o que você proibir na terra, será proibido no céu, e o que permitir na terra será permitido no céu".

Os tradutores puseram "proibir-permitir" em lugar de "ligar-desli­gar". Ora o binômio "ligar-desligar" (em aramaico, asar e sherá ou hithir) é da linguagem técnica rabínica; significa, antes do mais, atos de jurisdi­ção, pelos quais os rabinos excomungavam (ligavam) ou absolviam da excomunhão (desligavam). Ulteriormente significava decisões doutrina­rias ou jurídicas, que ou proibiam, declaravam ilícito (ligavam) ou permi­tiam, declaravam lícito (desligavam). - Donde se vê que a tradução "proibir-permitir" não abrange todo o conteúdo do texto original, pois o reduz a matéria de Moral, quando, na verdade, o que Jesus entrega a Pedro, conforme o texto original, é o poder de governar a Igreja tanto no plano jurídico como no da Moral e no da doutrina. A própria imagem das cha­ves, que Jesus consigna a Pedro, lembra a jurisdição, ou seja, o poder de abrir e fechar a comunhão com a Igreja em nome do Senhor Jesus. As sentenças de Pedro são confirmadas pelo próprio Deus.

Em conseqüência, teria sido necessário conservar o binômio "ligar-desligar" na tradução; o seu significado técnico poderia ser explicado no vocabulário da BLH (pp. 439-447). Qualquer tentativa de substituir "ligar-desligar" equivale a uma interpretação que pode ser tendenciosa, como é de fato no caso da BLH. A propósito do significado de tal binômio na teologia dos rabinos antigos, ver PR 132/1980, pp. 538s, 543-437.

As mesmas observações devem ser feitas a respeito de Mt 18, 18, onde reaparece o binômio "ligar-desligar", desta vez para designar o po­der de jurisdição e magistério que toca aos Apóstolos reunidos em colegiado.

8.  Sangue

Em Rm 3, 25; 5, 9; Ef 1, 7; 2, 13; Ap 1, 5; 5, 9 a palavra grega haima é traduzida não por sangue, como seria de prever, mas por morte na cruz. - Ora, se bem que a morte possa em alguns casos lembrar san­gue, não se deveria deixar de usar o vocábulo sangue em tais passa­gens, pois é este que põe em relevo o valor da morte de Cristo como sacrifício ou como vítima de expiação pelos pecados do mundo. O cará­ter sacrifical da morte de Cristo é essencial à mensagem do Novo Testa­mento. Aliás, em At 20, 28; Hb 10, 29; 1Pd 1, 19 os tradutores verteram haima por sangue; a mesma palavra grega é, pois, tratada de modo desigual na tradução da BLH.

9.  Espiritualmente pobres

A primeira bem-aventurança (Mt 5, 3) reza na BLH: "Felizes os que sabem que são espiritualmente pobres..." Ora a primeira bem-aventurança não consiste em saber..., mas, sim, em viver; ela é dirigida àqueles que têm um coração simples, humilde e despretensioso como é o dos pobres (anawim) que o Antigo Testamento muito louva na medida em que são os fiéis de Deus, despojados de qualquer ilusão a respeito da escala dos valores; os anawin são os que confiam em Deus, e não em si, como fazia S. Teresinha do Menino Jesus, que viveu intensamente a primeira bem-aventurança.

 

10. Ulteriores observações

Verifica-se que em várias passagens o texto sagrado assume ca­racterísticas banais. Por exemplo:

1.  O vocábulo óleo é sistematicamente substituído por azeite, que é um tipo de óleo usado freqüentemente em cozinha.  Assim Jesus diz ao fariseu Simão:

"Você não pôs azeite perfumado na minha cabeça" (Lc 7, 46), em vez de "Não me derramaste óleo sobre a cabeça".

Em Ex 30, 31 lê-se: "Esse azeite de ungir deverá ser usado no meu serviço religioso".

Em Hb 1, 9 omite-se "o teu Deus te ungiu com óleo de alegria" para dizer-se: "... a alegria de receber uma honra..."!

Em Tg 5, 14 lê-se: "Os presbíteros ponham azeite na cabeça do enfermo em nome do Senhor", em lugar de: "... unjam o enfermo com óleo em nome do Senhor".

2.  O verbo tomar cede a pegar, que é por vezes verbo de linguagem banal ("pegou e disse", "pegou e foi...", "pegou e fez..."). Ver Mt 2, 20; Mt 26, 26s; Mc 14, 22s: Lc 22, 17-19. Ora não se pode dizer que tomar seja palavra erudita ou desconhecida ao povo; o que é certo, é que pegar é não apenas popular, mas até mesmo vulgar e pouco elegante, principalmente numa tradução bíblica. Veja-se especialmente Mt 25, 1-3:

"Naquele dia o Reino do céu será como dez moças que pega­ram as suas lamparinas e saíram para se encontrar com o noivo. Cinco eram sem juízo, e cinco ajuizadas. As moças sem juízo pega­ram suas lamparinas, mas não arranjaram óleo de reserva".

A propósito pergunta-se: porque moças e não virgens (parthenoi), como está no original?

3.  Em Tg 2, 20 lê-se: "Seu tolo!", quando outras edições traduzem por "Homem insensato!"

Em Mc 5, 35 e Lc 8, 49 lê-se: Seu Jairo em vez de Senhor Jairo -o que banaliza o texto.

4.   O vocábulo Evangelho é geralmente omitido em favor de Boa Noticia (cf. Mt 4, 23; Mc 1, 1.14; 9, 35) expressão que enfraquece muito o significado do original; se o povo cristão não está familiarizado com o que é Evangelho, os seus pastores têm que lho ensinar e não omitir a palavra.

5.  O vocabulário existente no final da edição da BLH, pp. 1441-1451, ao abordar os termos "bispo, presbítero, diácono", explica os mi­nistérios da Igreja simplesmente como serviço de direção, liderança e administração sem referência alguma à sacramentalidade dos mesmos - o que tem sabor protestante. Ademais a palavra epískopos é traduzida por bispo, o que não ressalva a índole singular dos epískopoi a que se referem os escritos do Novo Testamento. Melhor teria sido dizer epíscopos em português. Cf. Fl 1, 1; 1Tm 3, 1s; Tt 1, 1...

 

Conclusão

Deixando de lado outras várias observações, concluímos que a BLH não é simplesmente uma tradução, mas vem a ser, em mais de um caso, uma interpretação. Verdade é que todo tradutor tem não raro que inter­pretar o texto que ele verte. Todavia este fato ocorre com mais freqüência e mais sérias conseqüências quando o tradutor, de caso pensado, procura evitar vocábulos consagrados pelo uso, como se dá na BLH. E diga-se de passagem: a interpretação dada ao texto da BLH, cá e lá, é evidentemente protestante. - Daí não se poder recomendar o uso da BLH nem para cató­licos, nem para protestantes, pois uns e outros necessitam, antes do mais, de ler o texto bíblico na sua identidade tão objetiva quanto possível.

Ademais pode-se indagar se é oportuno usar linguagem rude (às vezes incorreta) na tradução da S. Escritura. Está claro que esta não deve ser proposta ao grande público em linguagem rebuscada ou "preci­osa", mas, apesar de tudo, há de valer-se de vocabulário e estilo de bom timbre, condizentes com a dignidade da mensagem bíblica. O próprio povo aspira a elevar seu nível de cultura, de modo que só poderá mos­trar-se grato a quem o ajude a compreender um bom linguajar português que não deixe de ser simples. Julgamos, pois, que não se devem evitar as palavras técnicas do vocabulário bíblico como Evangelho, justifica­ção, mistério... e outras muitas, pois têm suas conotações que outras, tidas como equivalentes, não possuem; o que elas possam apresentar de insólito, seja explicado ao pé da página do texto bíblico ou em glossário próprio, de modo que percam sua estranheza para o leitor não iniciado.

Eis o que nos convinha observar, em termos sumários, a respeito da BLH.

*  *  *



[1] A propósito ver, por exemplo, A. van den Born, Dicionário Enciclopédico da Bí­blia, verbete "Justificação".

[2] É de notar que a Tradução Ecumênica da Bíblia, realizada por católicos, protes­tantes e ortodoxos, conserva o sentido clássico: "Aquele que é justo, viverá pela fé" (Rm 1, 17b; Gl 3, 11b; Hb 10, 38). Aliás, esta tradução é exigida pelo contexto mesmo de Hab 2, 3s, onde se faz a antítese entre "aquele que é justo" e "aquele cuja alma não é reta". - Ver Novo Testamento em Tradução Ecumênica da Bíblia. Ed. Loyola.

Notamos outrossim que a edição inglesa de BLH (Good News Bible) assim traduz Rm 1, 17: "The person put right with God shall live through faith" (viverá pela fé).

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