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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 526 – abril 2006

Cristão "a seu modo":

 

"A NOVA RELIGIOSIDADE"

(JORNAL PALAVRA)

 

Em síntese: O periódico protestante JORNAL PALAVRA, dezembro 2005, publicou elucidativa reportagem sobre as novas comunidades pentecostais; estão interessadas não propriamente no culto a Deus, mas no serviço ao homem; vão atraindo adeptos (muitas vezes, transitórios) à custa de promessas de prosperidade financeira, cura de moléstias, promoção profissional... Assim se perde a noção de Igreja Corpo de Cristo irrepetível porque fundada pelo próprio Cristo com a promessa de sua assistência infalível.

 

O periódico protestante JORNAL PALAVRA, edição de dezembro 2005 aborda "a nova religiosidade" presente nas novas denominações do protestantismo brasileiro. Em poucas palavras esta consiste em servir ao homem, prometendo-lhe maravilhas, mais do que cultuar a Deus. Em relevo aí se lê:

 

"Sem conceito de membresia nestas novas igrejas os frequentadores tornam-se consumidores altamente infiéis".

"As pessoas tinham medo do inferno. Hoje, quem acredita no inferno?"

 

Dilui-se assim a noção de Igreja Corpo de Cristo e irrepetível, porque fundada pelo próprio Senhor Jesus.

A seguir, serão transcritos os trechos mais significativos da reportagem, aos quais serão propostos alguns comentários.

 

1. Depoimentos

 

O pastor Osmar Ludovico da Silva, conferencista residente na Paraíba "lamenta que muitas igrejas evangélicas estejam perdendo o foco em Jesus e o comprometimento com seus ensinamentos. Em função desse distanciamento do Evangelho, mensagens equivocadas estão sendo divulgadas nos púlpitos. ‘Apresentam um Jesus Cristo atraente, prometem a salvação dos céus e a prosperidade na terra, sem precisar renunciar a nada. Palavras como sacrifício, pecado, arrependimento, negar-se a si mesmo foram substituídas por decretar, conquistar, saquear. Com isso, tornamos nossas igrejas prestadoras de serviços religiosos. Pregadores ungidos e comunicativos, apoio da mídia, cultos bem produzidos, testemunho de convertidos famosos, tudo isto para segurar os fiéis ariscos, prontos para criticar e mudar de igreja quando contrariados’, dispara Ludovico".

 

"Análise semelhante faz o sociólogo cristão André Botelho. Assim como o pastor Ludovico, ele pensa que muitos crentes estão à procura de mediadores de salvação, pequenos deuses intercessores. E como aqui, no Brasil, muitas pessoas já tiveram contato com práticas de macumba, simpatias, etc, acabam buscando nas igrejas um paralelo estreito com esses ritos populares. 'Água ungida, rosa, sal grosso abençoado, chave para pôr atrás da porta, entre outros. Esse não é o costume do protestantismo tradicional brasileiro, religião racional. Mas o problema não está apenas nos apetrechos espirituais vendidos por troca de bênçãos nas igrejas, está também no esvaziamento da condição e do poder de pregar o genuíno Evangelho', acredita o sociólogo que vai mais além, 'para quem não se garante em pregar a Palavra, tem que inventar um monte de coisas, ainda que isso sacrifique a Verdade que liberta. Posso concordar com táticas ou marketing para atrair pessoas, mas não posso concordar com o esvaziamento bíblico dos cultos e das pregações na Igreja Evangélica. O melhor seria alguns movimentos terem coragem de se nomearem como quisessem, menos Igreja Evangélica. Talvez, fast-bless ou qualquer coisa que lembre o ramo das foods', ironiza.

 

E essa característica de enxergar os membros como consumidores também preocupa o Pastor da Igreja Presbiteriana Chácara da Primavera em Campinas (SP), Ricardo Agreste. Ele lamenta que tais igrejas estejam divulgando um Evangelho distorcido e distante da verdade. 'Estas novas igrejas não trabalham com o conceito de membresia. Por conta disso, os frequentadores tornam-se consumidores e altamente infiéis. Assim que a igreja passa a não atender suas necessidades, eles mudam com a mesma facilidade que mudamos de restaurante quando nos chateamos com o mau serviço prestado por alguém', analisa o Pastor que considera, 'Por outro lado, homens e mulheres do mundo contemporâneo têm certa resistência a este modelo antigo de membresia'. Eles se engajam a causas, mas precisam de mais tempo para se filiarem a organizações".

 

Explica o radialista Malta Júnior:

"Quanto às distorções nas pregações, ele pensa que partem de 'líderes preocupados em encher igrejas e sabem que oferecendo cultos com promessas imediatistas, conseguem ter lotação de público, ainda que momentaneamente', o que ele lamenta".

 

2. Comentando

 

2.1. Subjetivismo

 

O subjetivismo que está na raiz dessa diluição da mensagem cristã, tem sua origem no princípio do livre exame da Bíblia apregoado por Martinho Lutero: cada crente é livre para proclamar, em nome da Bíblia, o que lhe pareça ser Palavra de Deus. A interpretação da Bíblia carece então de todo referencial objetivo e é encaminhada muitas vezes de acordo com as emoções e a fantasia do crente. A Religião fica sendo teocêntrica em aparência, mas na realidade se torna antropocêntrica, distanciada do seu teor bíblico original, que é o de dar glória a Deus,... glória a Deus, que redunda em santificação e plena realização da criatura.

 

Jesus ensinou-nos, sim, a pedir o pão de cada dia, ou seja, a solução de nossas carências espirituais e materiais, mas só depois de havermos pedido que o nome de Deus seja reconhecido como santo no mundo inteiro, venha o Reino de Deus, seja feita a vontade do Pai assim na terra como no céu. Não é ilícito solicitar graças pessoais, mas a Religião não se deve tornar, por causa disto, um Pronto-Socorro ou um meio mágico de atender ao homem.

 

2.2. Igreja Corpo de Cristo

 

Quem lê os escritos do Novo Testamento, verifica que Jesus não quis deixar sua mensagem entregue ao léu ou ao arbítrio de cada discípulo. Muito ao contrário

 

-   Jesus fundou a "sua (minha)" Igreja: Mt 16, 16-19; Lc 22, 31s; Jo 21, 15-17;

-   quis dar-lhe uma estrutura jurídica encabeçada por Pedro e pelos Apóstolos unidos a Pedro: Mt 16, 17-19; Mt 18, 18;

-   quis que os discípulos vivam em comunhão entre si, de tal modo que haja correção fraterna e apelo às autoridades da Igreja em casos de mais difícil relacionamento.

 

"Se o teu irmão pecar, vai corrigi-lo a sós. Se ele te ouvir, ganhaste teu irmão: Se não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas para que toda a questão seja decidida pela palavra de duas ou três testemunhas.

Caso não lhes der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo a Igreja der ouvido, trata-o como o gentio ou o publicano" (Mt 18, 15-17).

 

São Paulo é muito enfático, supondo o cristão a viver sua vida de filho de Deus na Igreja, que é o Corpo de Cristo; neste há comunhão de vida entre os cristãos e interdependência. Veja-se a explicitação da Imagem do Corpo em 1Cor 12, 12-27, imagem que assim se encerra: "Vós sois o corpo de Cristo e sois os seus membros, cada um por sua parte".

 

Quem não se comporta à altura desta dignidade, é excomungado (pena que deve ser dolorosa para o cristão precisamente porque o isola); ver 1Cor 5, 1-5; 2Cor 2, 5-12.

 

Os Atos dos Apóstolos mostram o desdobramento da vivência cristã dentro da Igreja:

 

At 4, 34s: "Não havia entre eles necessitado algum. De fato, os que possuíam terrenos ou casas, vendendo-os, traziam o valor da venda, e o depunham aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se então a cada um conforme a sua necessidade".

 

At 6, 1-6: "Naqueles dias, aumentando o número dos discípulos, surgiram murmurações dos helenistas contra os hebreus. Isto porque, diziam aqueles, suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária. Os Doze convocaram então a multidão dos discípulos e disseram: 'Não é conveniente que abandonemos a Palavra de Deus para servir às mesas. Procurai, antes, entre vós, irmãos, sete homens de boa reputação, repletos do Espírito e de sabedoria, e nós os encarregaremos desta tarefa. Quanto a nós, permaneceremos assíduos à oração e ao ministério da Palavra'. A proposta agradou a toda a multidão. E escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timón, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Apresentaram-nos aos Apóstolos e, tendo orado, impuseram-lhes as mãos".

 

Veja-se também todo o capítulo 15 dos Atos dos Apóstolos, que trata do primeiro Concílio da história, reunido para dirimir uma dúvida que se originara entre os cristãos sobre a obrigatoriedade ou não da Lei de Moisés.

 

Em linguagem rigorosamente teológica, dir-se-á: o Cristianismo está centrado no regime do Sacramento. - Sacramento é uma realidade sensível que encobre, revela e transmite os dons de Deus aos homens. Assim quis Deus tomar a iniciativa de se comunicar às suas criaturas. O Sacramento primordial é a santíssima humanidade de Cristo, por cujos gestos e palavras passava a graça de Deus; a continuação deste primeiro Sacramento é a Igreja chamada por São Paulo simplesmente "o Corpo de Cristo" (cf. Cl 1, 24). As últimas expressões do sacramento-Cristo-Igreja são os sete ritos chamados "sacramentos" (que acompanham o homem desde o nascer até o morrer, transmitindo-lhe a comunhão de vida com o próprio Deus). Donde se vê que a existência da Igreja visível é tão essencial ao Cristianismo quanto o próprio mistério da Encarnação. Um Cristianismo sem a Igreja instituída por Cristo estaria mutilado.

 

3. Conclusão

 

O reconhecimento, por parte de autores protestantes, de que existe baixo nível doutrinário e interesse de marketing em ganhar adeptos nas novas denominações pentecostais é de grande importância, pois torna a averiguação ainda mais fidedigna. Muita gente se passa para essas comunidades não por causa da respectiva profundidade de doutrina, mas por motivo de interesses pessoais, que não levam a um compromisso com a comunidade; o que impressiona o público é a promessa de "milagres" (que não estão em poder do homem). Neste ponto a Igreja Católica não pode concorrer, pois não lhe é lícito servir-se do tom de pregação dos novos pastores; não é permitido explorar a credulidade do próximo prometendo o que não se pode dar. Deve-se observar que mais vale ter a consciência limpa e honrada do que receber os aplausos quiçá espúrios de uma assembleia.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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