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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 521 – novembro 2005

 

A respeito de Maria SSma.

 

CATÓLICOS E ANGLICANOS CONCORDAM ENTRE SI

 

Em síntese: Após o Concílio do Vaticano II foi instituída uma Comissão Mista de teólogos católicos e anglicanos a fim de estudarem pontos doutrinários controvertidos. O grupo já produziu vários trabalhos, que revelam crescente concórdia das duas partes sobre temas discutidos. O mais recente trata de Maria SSma. em termos muito satisfatórios, como se verá a seguir. Confira ainda a conclusão do artigo à p. 492 deste fascículo.

 

A Comissão de teólogos católicos e anglicanos (ARCIC) instituída após o Concílio do Vaticano II para estudar pontos doutrinários controvertidos publicou em 2004 um documento muito importante sobre Maria SSma. Visto ser assaz longo (78 densos parágrafos), não o podemos transcrever na íntegra, mas dele extrairemos os principais trechos para publicação nas páginas seguintes ([1]).

 

O texto inglês original foi assinado aos 02/02/2004 pelos copresidentes da Comissão: Pe. Alexander Brunwett (católico) e Rev. Peter Carnley (anglicano) na cidade de Seattle (Inglaterra), sede das conversações.

 

Podem-se discernir cinco partes no decorrer do texto:

 

1) Maria nos escritos do Novo Testamento e seu papel de relevo qual Mãe de Jesus (§§ 6-30);

2) as antigas tradições comuns a todos os cristãos relativas a Maria reconhecida como Theotókos (Mãe de Deus) (§§ 31-40);

3) a Idade Média, que em seu declínio cedeu a exageros na devoção a Maria, estabelecendo distância entre a doutrina bíblica e a espiritualidade. Donde a réplica dos reformadores protestantes (§§ 41-46);

4) Anglicanos e católicos enveredam por caminhos diferentes nos séculos posteriores à reforma. Todavia em época recente cada uma das partes corrigiu o que era deficiente em seu modo de ver a Santa Mãe de Deus (§§ 47-51);

5) Daí a oportunidade dos colóquios da ARCIC, cujo teor vai, a seguir, apresentado em suas linhas gerais (§§ 52-57).

 

Fundamentação bíblica: síntese ([2])

 

"O testemunho escriturístico pede aos fiéis de cada geração que proclamem Maria como bem-aventurada. Trata-se dessa mulher judia de humildes condições sociais, filha de Israel, que vivia na esperança da justiça para os pobres, mulher que Deus cumulou de graças e escolheu para tornar-se a Mãe virginal do seu Filho por obra do Espírito Santo, que a cobriu com a sua sombra.

 

Nós a proclamamos bem-aventurada como a serva do Senhor, que deu seu incondicional consentimento ao plano salvífico de Deus, como a mãe que meditou todas as coisas em seu coração, como a mulher que procurou refúgio e asilo em terra estranha, como a mulher traspassada pelo sofrimento de seu Filho inocente, e como a mulher a quem Jesus confiou seus amigos.

 

Estamos unidos a ela e aos Apóstolos quando oram aguardando a efusão do Espírito sobre a Igreja nascente, a família escatológica do Cristo. Podemos também entrever nela a destinação final do povo de Deus, destinação que consistirá em tomar parte na vitória do seu Filho sobre os poderes do mal e da morte" (§ 30).

 

Os parágrafos anteriores são ricos em considerações sobre Maria nos escritos do Novo Testamento.

 

O título THEOTÓKOS (Mãe de Deus)

 

Após examinar a fundamentação bíblica, o texto passa à consideração de Maria nos escritos dos primeiros séculos da Igreja.

 

Na Igreja antiga a reflexão sobre Maria serviu para interpretar e salvaguardar a Tradição apostólica centrada em Jesus Cristo. O testemunho dos Padres da Igreja sobre Maria "Mãe de Deus" (Theotókos) se desenvolveu principalmente a partir dos litígios cristológicos antigos. No cadinho dessas controvérsias dos cinco primeiros séculos e nas declarações dos sucessivos Concílios gerais, a reflexão sobre o papel de Maria na Encarnação faz parte integrante da articulação da fé ortodoxa em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem (§ 31).

 

No Concílio de Éfeso (431) o título de Maria Theotókos foi oficialmente invocado para salvaguardar a doutrina ortodoxa da unidade da pessoa de Cristo. Este título estava em uso nas comunidades antigas sob a influência de Alexandria ao menos desde a época da controvérsia ariana (século IV). Pois que Jesus Cristo é "verdadeiro Deus de verdadeiro Deus", como declarou o Concílio de Nicéia (325), essas comunidades concluíram que sua Mãe Maria pode, a bom título, ser chamada "Genitora de Deus"... O debate entre Cirilo de Alexandria (+444) e Nestório (+455), Patriarca de Constantinopla... evidenciou que o que estava realmente em questão nesse título de Maria era a unidade da pessoa de Cristo ([3])... O Concílio de Éfeso (431) utilizou o apelativo Theotókos para afirmar a unidade da pessoa de Cristo, identificando Maria como a Mãe de Deus Verbo encarnado. A regra de fé atinente a esta questão foi proclamada de maneira mais precisa na definição do Concílio de Calcedônia (451): "um só e mesmo Filho gerado antes dos séculos pelo Pai, e nos últimos tempos, para nós e nossa salvação, nascido de Maria Virgem Theotókos na qualidade de verdadeiro homem".

 

Aceitando o Concílio de Éfeso e a definição de Calcedônia, anglicanos e católicos professam juntos que Maria é Theotókos (§ 34).

 

A Devoção a Maria

 

Nos primeiros séculos a comunhão em Cristo implicava a consciência nítida de que a presença viva dos Santos é parte integrante da experiência espiritual das comunidades (Hb 12, 1.22-24; Ap 6, 9-11; 8, 3-4). Os cristãos consideravam que, "na nuvem de testemunhas", a Mãe do Senhor ocupa um lugar especial. A reflexão sobre a Escritura e as práticas de piedade atestam uma consciência profunda do papel de Maria na Redenção da humanidade. Entre as expressões deste modo de ver encontra-se Maria como antítipo de Eva e tipo de Cristo. A resposta do povo cristão, refletindo sobre tais temas, exprimiu-se devotamente na oração particular assim como na prece pública (§ 35).

 

Alguns Padres do Oriente e do Ocidente, valendo-se da saudação angélica (Lc 1, 28) e da resposta de Maria (Lc 1, 38), professavam a concepção de que Maria foi cumulada de graça desde a sua origem em vista da sua vocação singular de Mãe de Deus. No século V saudaram-na como nova criatura irrepreensível, imaculada, "santa no corpo e na alma" (Teodoro de Ancira, homilia 6, 11; antes de 446). No século VI encontra-se no Oriente o título panhagía (toda santa) (§ 38).

 

Após o Concílio de Éfeso (431), os cristãos começaram a dedicar igrejas a Maria e a celebrar festas em sua honra... Favorecidas pela piedade popular e progressivamente adotadas por comunidades locais, as festas da Conceição de Maria (8 ou 9 de dezembro), do seu Nascimento (8 de setembro), da sua Apresentação no Templo (21 de novembro) e da sua Dormição (15 de agosto) foram como que o reflexo da comemoração litúrgica de acontecimentos da vida do Senhor. Foram inspiradas pelas Escrituras canônicas e pelos relatos apócrifos da vida terrestre de Maria e do seu "Adormecimento". Pode-se atribuir ao século VII no Oriente a festa da Conceição de Maria; foi introduzida nas comunidades do Ocidente pelo Sul da Inglaterra no começo do século XI; brotava da devoção popular, que se inspirava no Protoevangelho de Tiago redigido no século II, e se colocava em paralelo com uma festa do Senhor - a da Anunciação - e a festa (então existente) da conceição de João Batista. A festa da "Dormição" de Maria data de fins do século VI, inspirada por relatos relativos ao fim de vida de Maria que então circulavam amplamente. No Ocidente o relato que mais inspirou tal festa foi o Transitus Mariae. No Oriente a festa era conhecida com o nome de "Dormição de Maria" - o que implica a morte da Theotókos, mas não exclui que tenha sido elevada aos céus.

 

No Ocidente o vocábulo utilizado foi "Assunção", que enfatizava a elevação ao céu, mas não excluía a possibilidade de ter Maria morrido. A crença na Assunção estava fundada na promessa da ressurreição dos mortos e no reconhecimento da dignidade de Maria como Theotókos e "sempre virgem"; apoiava-se também na convicção de que aquela que havia gerado a Vida, devia ser associada à vitória do seu Filho sobre a morte e à glorificação do seu Corpo, a Igreja (§ 40).

 

A difusão dessas festas marianas ocasionou a confecção de homilias nas quais os pregadores sondaram as Escrituras à procura de imagens e motivos que pudessem esclarecer o papel da Virgem Maria na dispensação da salvação. Na Alta Idade Média verifica-se que a tônica era colocada mais e mais sobre a humanidade de Cristo; ao mesmo tempo, porém, davam atenção às virtudes exemplares de Maria. São Bernardo, por exemplo, desenvolve nitidamente este aspecto em suas homilias.

 

A meditação sobre a vida de Cristo e a de Maria tornou-se sempre mais popular e suscitou o desenvolvimento de práticas de devoção como o rosário. As pinturas, as esculturas e os vitrais da Alta Idade Média, e do fim da mesma, dão a essa devoção colorido e aspectos de proximidade (§ 41).

 

No fim da Idade Média: exageros

 

No final da Idade Média, a teologia escolástica desenvolveu-se mais e mais distanciada da espiritualidade. Cada vez menos alicerçados na exegese bíblica, os teólogos se apoiaram na probabilidade lógica para estabelecer suas teses; os nominalistas especulavam sobre o que Deus, com seu poder e sua vontade absoluta, poderia fazer em Maria.

 

A espiritualidade, desligada da teologia, acentuava a afetividade e a experiência pessoal. A religião popular chegou a estabelecer Maria como intermediária entre Deus e o gênero humano; considerava Maria como autora de milagres com poderes que se assemelhavam ao poder de Deus. No decurso do tempo, essa piedade popular influenciou as opiniões dos teólogos que se haviam nutrido dela e que, consequentemente, elaboraram uma justificativa teológica para a efusiva devoção mariana de fins da Idade Média (§ 43).

 

A Réplica dos Reformadores

 

Um dos poderosos motivos que levaram à Reforma no início do século XVI foi uma reação amplamente propagada contra as práticas de devoção que abordavam Maria como Mediadora ao lado de Cristo ou, às vezes, em lugar de Cristo. Esse tipo de práticas de piedade exageradas, em parte inspiradas pela conceituação de Cristo como Juiz inacessível tanto quanto Redentor, foram vivamente criticadas por Erasmo de Rotterdam como por Tomás Moro e energicamente rejeitadas pelos reformadores. Estes fizeram da Escritura a pedra de toque fundamental da Revelação divina e renovaram com vigor a sua fé em Jesus Cristo único Mediador entre Deus e o homem. Isto acarretou a repulsa dos abusos reais e supostos que afetavam a devoção a Maria e dos quais muitos se davam conta. Desta repulsa decorreu a perda de certos aspectos positivos da devoção mariana e o empalidecimento do seu lugar na vida da Igreja (§ 44).

 

Na Igreja Católica após a Reforma

 

Na Igreja Católica o contínuo desenvolvimento da doutrina e da devoção marianas, embora orientadas pelos decretos do Concílio de Trento (1545-1563), sofreu distorções por influência da polêmica protestante-católica. Ser católico romano e caracterizar-se por insistência na devoção a Maria acabaram por ser coisas inseparáveis uma da outra. A profundidade e a popularidade da devoção a Maria no século XIX e na primeira metade do século XX contribuíram para a definição dos dogmas da Imaculada Conceição (1854) e da Assunção (1950). De outro lado, porém, o crescimento dessa espiritualidade acabou provocando a critica tanto dentro como fora da Igreja Católica; assim se preparava uma revisão da temática. Esta ocorreu muito evidentemente no Concílio do Vaticano II, que, em consonância com a renovação bíblica, patrística e litúrgica e levando em conta a sensibilidade ecumênica, houve por bem não elaborar um documento especial sobre Maria, mas integrar a doutrina mariológica na Constituição Lúmen Gentium sobre a Igreja (1964); mais precisamente, a doutrina mariológica foi acrescentada ao final dessa Constituição, que descreve a peregrinação escatológica da Igreja.

 

O Concílio teve em vista "pôr cuidadosamente em evidência o papel da Bem-aventurada Virgem no mistério do Verbo Encarnado e do Corpo Místico, como também enunciar os deveres dos homens resgatados frente à Mãe de Deus, Mãe de Cristo e Mãe dos homens, principalmente dos fiéis" (n° 54). A Constituição Lúmen Gentium se encerra, fazendo de Maria um sinal de esperança e de reconforto para o Povo de Deus peregrino sobre a terra (cf. n° 68-69). De caso pensado, os Padres Conciliares quiseram resistir aos exageros, e retornaram aos grandes temas patrísticos, colocando a doutrina e a devoção marianas em seu autêntico contexto cristológico e eclesiológico (§ 47).

 

Após o Vaticano II na Igreja

 

Pouco depois do Concílio, diante de imprevisto declínio da devoção a Maria, o Papa Paulo VI publicou uma Exortação Apostólica dita Marialis Cultus (1974) para dissipar dúvidas sobre as intenções do Concílio e favorecer uma autêntica devoção mariana. Passando em revista o papei de Maria no rito romano renovado, o Papa mostra que Maria não foi deixada para trás pela renovação litúrgica, mas que a devoção a Maria tem seu verdadeiro sentido na perspectiva cristológica, ponto central da oração pública da Igreja. Reflete sobre Maria como "modelo da atitude espiritual com a qual a Igreja celebra e vivência os divinos mistérios" (n° 16). Ela é o modelo para toda a Igreja, mas "mestra da vida espiritual para cada um dos cristãos" (n° 21). Segundo Paulo VI, a autêntica renovação da devoção mariana deve ser compreendida em ligação com as doutrinas referentes a Deus, a Cristo e à Igreja; a devoção a Maria deve estar de acordo com as Escrituras e a Liturgia da Igreja; deve ser sensível às preocupações dos outros cristãos e deve afirmar a plena dignidade das mulheres na vida pública e privada. O Papa faz também advertências àqueles que se desviam seja por exagerarem, seja por negligenciarem a vida de piedade. Encerra sua Exortação recomendando a recitação do Angelus e o Rosário como devoções tradicionais que são compatíveis com as normas apresentadas.

 

Em 2002 o Papa João Paulo II corroborou o enfoque cristológico do Rosário, propondo cinco "mistérios luminosos" extraídos dos relatos dos Evangelhos referentes ao ministério público de Cristo, entre o Batismo ministrado por João e a Paixão. "Mesmo tendo uma característica mariana", diz o Papa, "o Rosário é uma oração cujo centro é cristológico" (Rosarium Virginis Mariae 1) (§ 48).

 

Maria no Anglicanismo do século XX

 

A figura de Maria recuperou importância no culto anglicano do século XX através da renovação litúrgica aí operada. Na maioria dos livros de oração anglicanos, Maria é novamente mencionada nas Orações Eucarísticas. O dia 15 de agosto é celebrado amplamente como uma festa principal em honra de Maria com leituras bíblicas próprias, com coleta e prefácio próprios. Outras festas associadas a Maria foram também renovadas com sua Liturgia peculiar. Essa evolução é de grande alcance, visto o papel decisivo que toca às fórmulas litúrgicas no Anglicanismo (§ 49).

 

Após este percurso histórico, o Documento passa a considerar os pontos em que convergem atualmente católicos e anglicanos.

 

Concórdia quanto à Maternidade Virginal

 

A Escritura nos fala de mulheres estéreis a quem Deus concedeu o dom da maternidade: Raquel, a mulher de Manoá, Ana (Gn 30, 1-24; Jz 13; 1Sm 1). Menciona também aquelas que haviam ultrapassado a idade de procriar: Sara (Gn 18, 8-15; 21, 1-7) e a mais conhecida, Isabel, parenta de Maria (Lc 1, 24). Essas mulheres contribuem para pôr em evidência o papel singular que compete a Maria, a qual não era nem estéril nem de idade avançada, mas era uma virgem fértil; em seu seio o Espírito Santo realizou a conceição de Jesus.

 

As Escrituras referem também o plano de Deus a respeito de todos os seres humanos antes mesmo que venham a este mundo (SI 139, 13-18) e relatam a ação da graça de Deus que precede o chamado específico dirigido a pessoas particulares (cf. Jr 1, 5; Lc 1, 15; Gl 1, 15). Com a Igreja antiga contemplamos a aceitação da vontade divina por parte de Maria como sendo o fruto de sua preparação, preparação que o anjo Gabriel menciona ao dizer "cumulada de graça". Assim podemos ver que Deus agia em Maria desde as origens da Virgem, preparando-a por sua vocação singular para trazer em seu seio o novo Adão para o qual convergem todas as coisas no céu e na terra (Cl 1, 16-17). A respeito de Maria... podemos dizer que ela é obra de Deus, criada em Cristo Jesus para todo tipo de boas obras que Deus preparou de antemão (Ef 2, 10) (§ 55).

 

Concórdia quanto à Assunção

 

Maria, Virgem pura, trouxe Deus mesmo em seu seio. Sua intimidade corporal com seu Filho era acompanhada por sua fidelidade no seguimento do mesmo e sua participação materna na oblação vitoriosa que Ele fez de si mesmo (Lc 2, 35). Isto tudo é claramente atestado pela Escritura. Como vimos, não se encontra na Escritura o testemunho explícito do fim da vida de Maria. Todavia certas passagens bíblicas dão notícia de certas pessoas eu seguiram fielmente os desígnios de Deus e foram atraídas pela presença de Deus. Tais passagens oferecem muitas vezes insinuações discretas ou analogias parciais que podem ilustrar o mistério da entrada de Maria na glória. Por exemplo, o paradigma bíblico da escatologia antecipada aparece no relato da morte de Estêvão, o primeiro mártir (At 7, 54-60); por ocasião de sua morte, cujos traços são semelhantes aos da morte do seu Senhor, Estêvão vê "a glória de Deus" e Jesus, "o Filho do Homem", não assentado para o julgamento, mas em pé para acolher o fiel servidor, "à direita de Deus". De modo semelhante, o ladrão arrependido que apela para o Cristo crucificado, recebe a promessa especial de se encontrar imediatamente com Cristo no paraíso (Lc 23, 43). Elias, o fiel servidor de Deus, é arrebatado ao céu (2Rs 2, 11). A respeito de Henoque está escrito que "recebeu o testemunho de ser agradável a Deus" como homem de fé e que, por isto, foi arrebatado a fim de escapar da morte e não mais o encontraram porque Deus o havia levado" (Hb 11,5; cf. Gn 5, 24). Dentro de um tal paradigma de escatologia, podemos também ver Maria como a discípula fiel plenamente presente com Deus em Cristo. Deste modo ela é um sinal de esperança para toda a humanidade (§ 56).

 

Concórdia quanto à Imaculada Conceição

 

Os católicos romanos estão igualmente obrigados a crer que "a bem-aventurada Virgem Maria foi, no primeiro instante de sua conceição, por graça e singular favor de Deus onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, preservada de toda mancha do pecado original" (dogma da Imaculada Conceição definido pelo Papa Pio IX em 1854).

 

A definição ensina que Maria, como todos os outros seres humanos, precisou de Cristo como seu Salvador e Redentor (cf. Lúmen Gentium 53; Catecismo da Igreja Católica n° 491). A noção negativa de um estado sem pecado corre o risco de obscurecer a plenitude da obra salvífica de Jesus Cristo. Mas não se quer tanto dizer que a Maria faltava alguma coisa que as outras criaturas têm, isto é, o pecado. Quer-se, antes, dizer que a graça gloriosa de Deus encheu sua vida desde o começo. A santidade, que é a nossa finalidade em Cristo (cf. 1Jo 3, 2-3), estava presente, por dom imerecido, em Maria, que é o protótipo da esperança e da graça do gênero humano como tal. Segundo o Novo Testamento, ser "cumulado de graça" implica ser libertado do pecado pelo sangue de Cristo (Ef 1, 6-7). As Escrituras proclamam a eficácia do sacrifício expiatório de Cristo também em favor daqueles que O precederam no tempo (cf. 1Pd 3, 19; Jo 8, 36; 1Cor 10, 4). Aqui, mais uma vez, a perspectiva escatológica esclarece nossa compreensão da pessoa e da vocação de Maria. Em atenção à vocação para ser a Mãe daquele que é o Santo (Lc 1, 35), podemos juntos afirmar que a obra redentora de Cristo repercutiu antecipadamente sobre Maria nas profundidades do seu ser e na raiz da sua origem. Isto não é contrário ao ensinamento da Escritura e só pode ser compreendido à luz da Escritura. Os católicos romanos podem reconhecer nisto o que é afirmado pelo dogma, a saber "preservada de toda mancha do pecado original" e "desde o primeiro instante da sua conceição" (§ 59).

 

As definições dogmáticas de 1854 e 1950

 

Juntos concordamos em afirmar que o ensinamento mariológico contido nas definições de 1854 e 1950 compreendidas dentro do paradigma bíblico da dispensação da graça e da salvação aqui esboçado pode ser tido como correspondente ao ensinamento das Escrituras e às antigas tradições comuns a todos os cristãos.

 

Todavia, segundo os católicos romanos, a proclamação de um dogma implica que a doutrina em foco é "revelada por Deus" e, consequentemente, deve ser "objeto de fé firme e constante" por parte de todos os fiéis (são verdades de fide). O problema que os dogmas podem suscitar aos anglicanos, exprime-se nos termos do Artigo VI ([4]): a Escritura Sagrada contém tudo o que é necessário à salvação, de modo que as proposições que aí não se encontram ou não podem ser provadas por ela, não podem ser impostas como artigos de fé nem podem ser consideradas como requisito necessário à salvação. (§ 60).

 

As expressões "revelado por Deus" (1854) e "divinamente revelado" (1950) utilizadas na definição dos dois dogmas citados devem ser entendidas à luz.do Concílio do Vaticano II. Quando a Igreja Católica Romana afirma que uma verdade é "revelada por Deus", não tem em vista uma nova revelação. As definições são entendidas como testemunho da Revelação feita nas origens do Cristianismo. Tal Revelação foi recebida pela comunidade dos fiéis e transmitida em diversos tempos e lugares pelas Escrituras, pela pregação, pela liturgia, pela espiritualidade, pela vida e o ensinamento da Igreja, que se inspiram nas Escrituras (§ 61).

 

Os anglicanos perguntaram se os dois mencionados dogmas devem ser tidos como matéria de fé, dado que o Bispo de Roma os definiu independentemente de um Concílio. Em resposta os católicos romanos chamaram a atenção para o sensus fidelium ([5]), para a tradição litúrgica existente nas comunidades locais espalhadas pelo mundo cristão como também para o apoio dos Bispos católicos; tais foram os elementos mediante os quais essas doutrinas foram reconhecidas como parte integrante da fé da Igreja e, consequentemente, como suscetíveis de ser definidas... As definições de 1854 e 1950 não foram proferidas como respostas a uma controvérsia, mas deram expressão à fé dos fiéis em comunhão com o Bispo de Roma. Foram reafirmadas pelo Concílio do Vaticano II (§ 62).

 

A intercessão de Maria na Comunhão dos Santos

 

A Escritura ensina que "há um só Mediador entre Deus e os homens: um homem, o Cristo Jesus, que se deu em resgate por todos" (1Tm 2, 5-6). Na base deste ensinamento rejeitamos toda interpretação do papel de Maria que enfraqueça tal afirmação. Contudo também é verdade que todos os ministérios da Igreja, especialmente os da Palavra e dos sacramentos, são mediadores da graça de Deus mediante seres humanos. Tais ministérios não fazem concorrência à singular mediação de Cristo: ao contrário, a ela servem, e nela têm sua fonte. De modo especial, notemos que a oração da Igreja não se coloca ao lado ou no lugar da intercessão de Cristo, mas é efetuada por Ele, nosso Defensor e Mediador (Rm 8, 34; Hb 7, 25; 12, 24; 1 Jo 2, 1). Ela encontra sua possibilidade e sua prática no e pelo Espírito Santo, que é o outro Paráclito enviado conforme a promessa de Cristo (cf. Jo 14, 16-17).

 

Por conseguinte, pedir a nossos irmãos e irmãs, na terra ou no céu, que orem por nós não significa contestar a única mediação de Cristo, mas é, antes, um recurso ao qual, pelo Espírito e no Espírito, a mediação de Cristo pode desenvolver seu alcance (§ 68).

 

As aparições de Maria

 

Merece respeito a popular e autêntica devoção a Maria que se exprime, de forma muito diversa no plano individual, no plano regional e no cultural. As multidões que se reúnem em certos lugares onde se crê que Maria apareceu, sugerem que as aparições são parte importante da devoção mariana, pois proporcionam reconforto espiritual; como se compreende, requer-se um discernimento prudente na consideração do valor espiritual das aparições alegadas. Esta cautela foi recomendada por um documento católico recente:

 

"A revelação particular... pode ser uma ajuda válida para compreender e melhor viver o Evangelho num momento especial; eis por que não deve ser menosprezada. É um subsídio oferecido, mas, de modo nenhum, obrigatório... O critério para discernir a autenticidade e o valor de uma revelação particular é a sua orientação para Cristo. Quando a revelação afasta de Cristo, quando se torna independente ou mesmo quando ela é tida como revelação de um desígnio de salvação diferente ou mais importante do que o Evangelho, a revelação não provém do Espírito Santo" (Congregação para a Doutrina da Fé. Comentário teológico da mensagem de Fátima, 26 de junho de 2000).

 

Estamos de acordo quanto ao fato de que, observadas as normas contidas neste ensinamento para garantir a honra dada ao Cristo e sua constante primazia, podem ser aceitas essas modalidades de devoção particular; jamais, porém, poderão ser impostas aos fiéis (§ 73).

 

Não existe motivo para divisão

 

"Ao afirmarmos conjuntamente e sem ambiguidades a única mediação de Cristo, que frutifica na vida da Igreja, não julgamos que o costume de pedir a Maria e aos Santos que orem por nós seja fator de divisão da comunhão. Os obstáculos do passado foram removidos pelo esclarecimento da doutrina, pela reforma litúrgica e pelas normas práticas que a aplicam; cremos portanto que já não persiste razão teológica para a divisão da Igreja no tocante a essa temática (§ 75)".

 

Conclusão

 

Como se pôde depreender, o documento é de grande importância na história da Teologia ou do aprofundamento da fé. Mostra como a figura de Maria se foi desenvolvendo entre os cristãos em função de Jesus Cristo e não independentemente deste. Com efeito,

 

1)  Durante quinze séculos os cristãos do Oriente e do Ocidente foram unânimes na contemplação de Maria como Mãe de Cristo, que é Deus feito homem. A Escritura e a fé comum dos fiéis (sensus fidelium) favoreceram a progressiva intuição das prerrogativas de Maria SSma.

2)  No fim da Idade Média os exageros da piedade mariana inspiraram um distanciamento da Teologia em relação às suas fontes. A Mariologia se tornou um tanto sentimental e imaginosa.

3)  Os exageros foram uma das causas da Reforma luterana no século XVI. Reforma após a qual se foram distanciando católicos e protestantes no tocante a Maria.

4)  O século XX foi o teatro de uma revisão das posições extremadas por parte de católicos tanto como por parte dos anglicanos. Donde o documento de concórdia que acabamos de analisar.

5)  Muito digno de relevo é o fato de que os anglicanos reconhecem os dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção como fundamentados na Escritura e na sadia Tradição do Povo de Deus. Está assim aberto o caminho para que as denominações protestantes revejam sua atitude frente à Mãe de Jesus.

6)  Seria para desejar, no documento, uma referência explícita aos "irmãos de Jesus", reconhecendo-os como familiares de Jesus e não como filhos de Maria, de acordo com os dados fornecidos pela própria Sagrada Escritura.

 

APÊNDICE

 

A revista 30 Dias n° 6/7/05 entrevistou o arcebispo católico de Westminster Mons. Cormac Murphy-O’Connor a respeito do Acordo apresentado nestas páginas, o qual declarou , entre outras coisas, o seguinte:

 

A propósito do caminho a ser compartilhado, qual é a realidade atual da Igreja Católica num país de maioria anglicana como a Grã-Bretanha?

 

MURPHY-O’CONNOR: Para ser sincero, considero muito fascinante a vida cotidiana de um bispo ou de um cardeal católico, hoje, na Grã-Bretanha. Por um lado, há um veloz processo de descristianização do país, que realmente me preocupa: a crise da família, a falta de respeito pela vida humana - o aborto, a eutanásia, a experimentação com embriões humanos -, como também a pouca ou inexistente generosidade para com os imigrantes, e um egoísmo generalizado. Por outro lado, porém, vejo para a Igreja Católica e para seu cardeal uma possibilidade, desconhecida até bem pouco tempo, de fazer sua voz ser ouvida.

 

De que forma?

 

MURPHY-O’CONNOR: Hoje, por muitas razões, eu e os outros bispos católicos podemos nos expressar sobre os temas ligados à vida, ao aborto, à eutanásia, à família, à reforma das penitenciárias, ao cuidado dos pobres, de uma maneira que há apenas poucos anos era inimaginável. Nos tempos da minha juventude, a Igreja Católica estava à margem da sociedade britânica, as pessoas nos olhavam com suspeita. Hoje estamos no centro das questões, e ouve-se distintamente o que dizemos. Em parte, uma das razões disso está no fato de que os católicos não são mais apenas imigrantes que acabaram de chegar da Irlanda, mas, sim, cidadãos ingleses que desejam e precisam fazer-se ouvir. Assim, em muitos ambientes sociais e na vida cotidiana em geral, você hoje pode encontrar católicos, até mesmo no governo.

 

De que modo o senhor acha possível a unidade dos cristãos em terra anglicana?

 

MURPHY-O’CONNOR: Santo Agostinho pedia a unidade nas coisas essenciais, a liberdade nas não essenciais e a caridade em todas. É realmente uma boa máxima. Ainda estamos em busca da maneira pela qual possamos chegar a um acordo sobre as coisas essenciais da fé. A Trindade, a Encarnação, a Redenção são três grandes mistérios que compartilhamos no Credo. Além disso, temos as doutrinas fundamentais da Igreja, com as quais a maioria dos anglicanos poderia concordar. Ponhamos assim: o que temos a oferecer à Comunhão Anglicana é o dom que recebemos, a nossa compreensão e a experiência do que significa ser Igreja. Os últimos meses nos mostraram de maneira única a eclesiologia do catolicismo: o Papa, os bispos, o povo de Deus e a incrível unidade que sustenta tudo isso. Creio que outras Igrejas também precisem disso, como também precisam aprofundar a colegialidade, ver como a unidade opera, em caridade, liberdade e na partilha da fé.



[1] O texto português é a tradução do francês como se acha em La Documentation Catholique n° 2341, 7 e 21 de agosto 2005, pp. 752-775.

[2] Os subtítulos são da Redação de PR.

[3] Nestório professava haver em Jesus duas Pessoas ou dois eu. Maria teria dado à luz a Pessoa humana, e não a Pessoa Divina do Verbo. Esta concepção foi tida pelos Padres ortodoxos como insuficiente para exprimir o mistério da Encarnação. Daí dizer Cirilo que em Jesus havia uma só Pessoa (Divina), que assumiu a natureza humana no seio de Maria Virgem, da qual Ele (Deus) quis nascer (Nota da Redação de PR).

[4] Da Constituição da Comunhão Anglicana (Nota do Tradutor).

[5] Isto é, a fé do povo fiel (Nota do Tradutor).


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