Autoridade Teológica do Magistério da Igreja

 

 

Pax Christi!

Se me permitem, dou o meu pitaco:

Creio que eu não esteja dizendo nada de novo ao lembrar que:

1 - Estamos passando por uma crise seriíssima na Igreja; 2 - A Igreja goza da garantia divina de que as Portas do Inferno nãoprevalecerão sobre ela; 3 - É necessária para a salvação a submissão ao Romano Pontífice; 4 - A Igreja é visível e hierárquica.

Neste tempos em que vivemos, contudo, é fácil encontrar o erro sendo pregado pela hierarquia da Igreja, assim como é fácil encontrar hierarcas que dificilmente escaparão da condenação eterna. Isso,aliás, não é novidade. Sempre houve maus Bispos (no primeiro Colégio Episcopal, 1/12 era péssimo...), maus padres, etc.

A diferença é que agora temos acesso a tudo ao mesmo tempo agora.Padre Fulano diz uma coisa na China, e no dia seguinte lemos no Brasil a tradução que um americano fez do artigo de um italiano sobre o caso.

O resultado é que há uma tendência muito grande a dar importância a qualquer arroto verbal que venha de um padre, Bispo ou Papa, para bem e para mal.

Ao mesmo tempo, os comparativamente pouquíssimos documentos que permanecem dos Papas anteriores, comparados à macarronada supercozida que a mídia (e aí incluo a internet) nos oferece, chamam sobremaneira a atenção pela clareza e simplicidade aparentes.

O resultado é que para o Demônio fica facílimo nos tentar a comparar ditos papais e episcopais que - se houvessem sido proferidos 200 ou1000 anos atrás - teriam sido imediatamente perdidos para a História com as pérolas e diamantes que, por obra do Espírito Santo,permaneceram ao longo dos séculos. A própria humanidade dos hierarcas,a própria existência de demandas políticas, que sempre existiu e sempre existirá, por estar exposta, pode parecer violar a própria santidade da Igreja, quando, na verdade, ela apenas mostra esta santidade. Costumo dizer que a maior prova da instituição divina da Igreja é ela ter sobrevivido, e sobreviver, aos seus hierarcas.

Mas é fácil comparar negativamente um Papa de quem se tem acesso direto e imediato a tudo o que ele diz a um Papa de que se tem um ou dois documentos preservados exatamente por sua importância na definição da Revelação, que se concluiu com a morte do último dos Apóstolos.

Quando se soma às alocuções papais o que é dito e pregado por centenas de Bispos e padres pelo mundo inteiro, quando a isso tudo se soma ainda as milhares de manobras políticas intraeclesiais (sai Dom Fulano e entra Dom Sicrano; o Papa queria era Dom Beltrano, mas para isso ele teria que ceder a Sé de Sei-lá-onde a um seguidor de Dom Fulano...), é fácil perder de vista a garantia divina à Igreja.

Estamos num momento histórico em que enorme parcela do clero de países inteiros nega a Fé. Estamos num momento histórico em que o Papado está enfraquecido, talvez até mais que os Papas de Avignon. Ao invés de depender de um Rei, como naquela época, os Papas são hoje reféns do próprio clero.

Mas quem é o Papa, na verdade, não interessa. Interessa, sim, é saber o que é a Igreja: é o Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, é visível, e é hierárquica, mesmo que o Papa seja um garotão de 20 e poucos que só pensa em mulher e em guerra (como já houve).

E a Igreja docente ensina a mesma Verdade eterna, revelada aos Apóstolos (não aos Padres conciliares de Trento ou do Vaticano II!).

No CVII, contudo, foi lançado um emaranhado doutrinal que levará muitas gerações a ser compreendido como deve ser. O Espírito Santo garante que não tenha sido definido o erro como verdade. E só. Nãogarante que não seja possível ler erroneamente os textos, não garante que os textos não sejam dúbios (eles o foram em Nicéia!), não garante que o Papa seja santo, não garante nada disso.

Mas o papel da Igreja é governar, ensinar e santificar.

E o nosso dever de leigos é nos santificar. E aprender a Sã Doutrina na medida da nossa capacidade. E submeter-se à hierarquia.

O nosso dever não é nem de "aplicar o Concílio" nem de "acusar o Concilio". Como um bebê que tem um bife na frente, temos que esperar que a nossa Mãe corte o bife e nos dê de modo que possamos entendê-lo. Até lá, o bife é decoração. Só o que sabemos é que ele não é venenoso.

Daí os problemas dos tradicionalistas e sedevacantistas: ao comparar alhos e bugalhos (cada suspiro de JPII e Bento XVI com textos selecionados de Papas anteriores), eles se creem capazes de julgar e condenar estes Papas. Os sedevacantistas têm, pelo menos, a decência de não ficar fingindo que o respeitam enquanto o xingam, mas o erro de base é o mesmo.

A Doutrina é figurada na Escritura pela túnica inconsútil de Nosso Senhor. Ela é uma coisa só, coesa, sem adições e sem remendos. E é isso que sabemos, e é isso que o Espírito Santo garante que permaneça.

Se vemos algo que parece uma adição ou um remendo, *sabemos* que não o é. Se lemos na encíclica tal que isto ou aquilo foi condenado e depois lemos um texto recente que parece afirmar aquilo, só podemos ter certeza de uma coisa: nós não entendemos alguma coisa. Podemos não ter entendido o texto mais antigo, ou podemos não ter entendido o texto mais recente. Para entendê-lo, contudo, precisamos lê-lo e percebê-lo*dentro* do corpus de Doutrina que é eterno, que não muda.

Vocês já repararam que as questões mais difíceis, que os problemas maiores da interpretação do CVII são justamente as coisas que simplesmente não nos dizem respeito? Ora, bolas, se eu sou um leigo católico, que cargas d'água eu tenho a ver com liberdade religiosa?! Eu poderia até ter que lidar com a questão se fosse Rei, e olhe lá. Como leigo, posso perfeitamente me dar ao "luxo" de esperar que minha Mãe corte o bife para que eu possa comê-lo, que a Igreja explique qual é a leitura correta - o que só pode ser feito num momento politicamente propício, para que esta explicação não prejudique a Restauração em seu dificílimo curso! Basta ver a zorra que deu a Dominus Iesus, que é bem "light"...

Se eu me meto a me arvorar em juiz da Santa Sé do alto da minha poltrona, por mais que eu tenha em torno de mim 26 metros de estante de livros de teologia (é, contei agora, e não incluí os livros de história da Igreja), eu estou caindo numa tentação demoníaca. Eu estou me deixando levar pela soberba.

A livre ação concedida por Deus ao Demônio neste século que se foi tem seus limites, e um deles é aquilo que é necessário para a salvação. Posso ter certeza de que Deus não deixaria os párocos ter ordens inválidas ou ministrar sacramentos inválidos. Posso ter certeza de que nada do que me é necessário me seja tirado.

E o que me é necessário é entender a Sã Doutrina. Fosse eu uma senhora dona de casa, eu teria a obrigação de estudar o Catecismo, e não muito mais. Mas eu sou professor, e coisa e tal, e minha obrigação é de estudar mais, muito mais.

Mas entender o sentido ortodoxo do Concílio Vaticano II não é *meu*múnus, sim de quem tem o múnus de explicá-lo: o Papa. Eu só poderia me dar ao luxo de fazê-lo depois, muito depois, que eu já tenha estudado a fundo teologia moral, teologia dogmática, sacramentologia, mariologia, etc. Não adianta nada tentar entender o mais difícil - e senão fosse difícil essa crise não estaria comendo solta - sem ter antes estudado a fundo o que é meu dever estudar. E se não for meu dever estudar estas coisas, menos ainda é meu dever estudar o CVII:contentar-me-ia com o Catecismo.

Quando se percebe a situação do prisma do Eterno, da Doutrina como um todo, é tão evidente que a interpretação do CVII é uma armadilha, que simplesmente não faz sentido insistir nisso. É uma armadilha para fazer os leigos quererem ser mais que os padres, mais que os Bispos, mais que os Papas. É uma armadilha para fazer com que alguém que deveria estar rezando e, na melhor das hipóteses, estudando o Catecismo fique lendo o ângelus do dia tal e achando que "provou" que o Papa estaria "desobedecendo" a sei lá que documento do século XII.

O Papa não é Deus. O Papa não é impecável. Mas o Papa é o Papa, e ninguém o pode julgar.

O *nosso* papel é de rezar e estudar o que é nosso dever de estado estudar. E não é nem poderia ser nosso dever de estado estudar o que dá cabelos brancos a teólogos sérios, como o CVII, antes de ter estudado a fundo a Sã Doutrina, de ter estudado a fundo teologia dogmática, moral, sacramental, etc.

É por isso que eu quero fazer estes cursos em vídeo: para que seja mais fácil ter acesso a estes materiais, que em sua maioria não estão nem disponíveis em português (ao contrário de enorme quantidade de bestialógico destinado a "provar" que o Papa não é Papa, ou é herege,ou Nosso Senhor voltou com o nome de Che Guevara, que sei lá eu). Para ajudar as pessoas a vencer esta horrenda tentação demoníaca de, sem sequer ter cumprido o seu dever de estado de estudar a Sã Doutrina,condenar o Romano Pontífice baseando-se em quaisquer duas ou três mil páginas lidas.

Se eu estudo teologia *de verdade* (e, sim, isso significa, por razões óbvias - a zorra atual - usar apenas materiais com mais de cem anos),eu posso operar, "temendo e tremendo", a minha salvação pela aceitação da Graça divina. Se, ao invés disso, eu fico cedendo à soberba e me arvorando em juiz do Romano Pontífice, eu estou me jogando no Inferno.Não adianta vir dizer que São Roberto Belarmino disso isso ou aquilo.O que interessa não é uma conjectura de São Roberto, sim a Sã Doutrina. Como um todo. Inconsútil, sem emendas. E esta Doutrina inclui a visibilidade da Igreja, inclui a necessidade de submissão ao Romano Pontífice, inclui a garantia divina de que as portas do Inferno não prevalecerão.

Se nosso estado nos dá a obrigação de estudar, ele também nos dá a obrigação de estudar as coisas certas. E acusações ao Papa não são coisas que se deva estudar, muito menos que se deva estudar sem ter estudado antes todo o resto, tudo o que realmente importa.

[]s, seu irmão em Cristo,

Carlos Ramalhete


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