PERGUNTE E RESPONDEREMOS 548 – fevereiro 2008

Respondendo a um jornalista:

 

A PEDRA ANGULAR, O PAPA DÂMASO I E JESUS DOS 12 AOS 30 ANOS

 

Em síntese: Um jornalista de Londrina (PR) lançou ao público três perguntas relativas aos temas declinados acima. Em resposta está dito que Pedro é a Rocha visível sobre a qual Cristo constrói a sua Igreja. Rocha que tem sua firmeza no próprio Cristo. O Papa Dâmaso I não alterou as Escrituras, como se depreende do exame de antigos códices da Bíblia. Jesus dos 12 aos 30 anos, levou a vida de um carpinteiro em Nazaré, como atestam Mc 6, 3 e Mt 13, 55.

 

Um jornalista de Londrina, PR, lançou ao público três perguntas que, segundo um leitor, poderão ser assim formuladas:

 

1) Por que os protestantes não aceitam a Igreja Católica erguida sobre Pedro e a insistência nessa tal "pedra angular"? O que vem a ser isso? O que querem dizer com isso?

 

2) O que dizer a respeito do Papa Dâmaso, que terá alterado as Escrituras ao sabor de suas vontades e desejos? E sobre a violência desse Papa? O que é verdade e o que é mito?

 

3) O que dizer sobre a insistência desse jornalista sobre a vida oculta de Jesus, dos 12 aos 30 anos? Ele afirma que Jesus viveu com os essênios (baseando-se nos documentos do Mar Morto), budistas, etc... e retornou aos 30 anos em Jerusalém, onde começou sua vida pública.

 

Nas páginas seguintes proporemos a resposta a tais interrogações.

 

1. Pedra e Pedra angular

 

Os protestantes não aceitam a Igreja fundada sobre Pedro como ela é apresentada em Mt 16, 16-19, porque não aceitam o Papado. Para justificar esta recusa, recorrem aos seguintes argumentos:

 

a)  Em Mt 16, 17 diz Jesus: "... Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja". Alegam que Petros e Petra não são a mesma coisa em grego; Petros seria um pedregulho e Petra uma rocha grande. - Ora, sem julgar os méritos desse arrazoado, dizemos que ele não vem ao caso, pois Jesus não falou em grego, mas em aramaico, usando a palavra KEPHA, que é a mesma nos dizeres do Senhor: "Tu és Kepha e sobre este Kepha edificarei a minha Igreja". É, portanto inútil recorrer ao texto grego para esvaziar o alcance das palavras de Jesus.

 

b)  Jesus seria a Pedra Angular do edifício da Igreja; esta estaria diretamente construída sobre Cristo (Rocha). Não haverá outra pedra fundamental na construção da Igreja. - Ora observamos que Jesus diz ser a Luz do mundo (Jo 8, 12), mas atribui a seus discípulos igual função: "Vós sois a luz do mundo" (Mt 5, 14).

Por conseguinte, assim há a luz suprema, que se reflete em luzes subalternas, há também a pedra angular ou a pedra básica (Cristo), que estende seu poder de sustentáculo até a rocha que é Pedro.

 

2. O Papa Dâmaso I (366-384)

 

Para entender a figura deste Papa, temos que ver o contexto histórico do século IV, em que viveu.

 

Percebemos, em primeiro lugar, que em 313 o Imperador romano Constantino deu a liberdade aos Cristãos mediante o edito de Milão. Pouco depois começou a se propagar a doutrina do Subordinacionismo, que pregava a subordinação do Filho ao Pai; era o arianismo, de Ario de Alexandria. Tal heresia foi condenada pelo Concílio de Nicéia I em 325, mas não se extinguiu; foi-se subdividindo em ramos sutilmente diferentes uns dos outros, alimentada pelos imperadores romanos, que, embora pouco entendessem de Teologia, julgavam dever assumir os interesses da Igreja; no intuito de pacificar os ânimos, chegaram a sustentar e impor aos fiéis doutrinas heréticas. Tal foi o caso do Imperador Constantino II. O Papa Libério lhe resistiu, pelo que foi exilado para a Trácia. Em seu lugar o imperador colocou o antipapa Félix II. Este quis captar a simpatia dos romanos, mas não o conseguiu por completo, ficando o povo dividido entre Libério e Felix II. Após três anos de exílio Libério voltou a Roma em 358. O Imperador queria um governo da Igreja compartilhado por Libério e Félix, mas o povo fiel a Libério se lhe opôs e expulsou Félix.

 

Libério morreu em 366, deixando complicada situação para seu sucessor.

 

Para suceder-lhe, a maioria dos etíopes elegeu o diácono Dâmaso. Eis, porém, que uma minoria pequena, mas forte, elegeu o diácono Ursino, alegando que Dâmaso servira ao antipapa Félix (servira, sim, mas em 359 passou-se para o Papa legítimo Libério). As autoridades civis apoiavam Dâmaso, pois só ele podia dizer que era legitimamente eleito. O prefeito de Roma, Vivendo, exilou Ursino, mas os partidários deste se encerraram na basílica de Santa Maria Maior; seguiram-se lutas sangrentas das quais resultou a morte de uma centena de pessoas. Os ursinianos tiveram que ceder a basílica mas continuaram a combater o Papa Dâmaso, chegando a caluniá-lo como responsável por um crime de assassínio. Do seu lado, os imperadores foram concedendo ao Papa faculdades sempre mais amplas. O imperador lhe reconheceu a competência sobre todos os metropolitanos do Ocidente em questões de Fé e Moral. Dâmaso manteve conversações com os cristãos orientais, que olhavam para o Ocidente com certo desprezo, já que era ameaçado pelos bárbaros e carecia da tranquilidade necessária à criação de uma boa cultura.

 

Quanto à acusação de ter alterado as Escrituras a seu bel-prazer, é mera lenda; qualquer alteração dos textos bíblicos pode ser controlada pela consulta dos manuscritos da Bíblia existentes em várias cidades do mundo ocidental, como Paris, Berlim, Londres..., e não só no Vaticano. Ademais quem sabe que foram alterados, diga como se configuravam tais textos antes de alterados - desafio este que derruba a acusação. O papel de São Dâmaso em relação às Escrituras foi o de confiar a S. Jerônimo a tradução da Bíblia para o latim. Nos anos de vida do Papa Dâmaso, Jerônimo fez uma revisão do Saltério e do Novo Testamento, mas só acabou sua tarefa anos depois.

 

Eis o que se pode responder à segunda pergunta do jornalista citado.

 

3. Que fez Jesus dos 12 aos 30 anos?

 

Quem lê os Evangelhos de Mateus e Lucas verifica que há uma lacuna entre os doze e trinta anos de Jesus: Aos doze anos está em Jerusalém com seus pais para celebrar a Páscoa; depois os evangelistas nada mais dizem até o início de sua vida pública. Este silêncio tem despertado a atenção dos estudiosos, que imaginam tenha Jesus viajado para o estrangeiro a fim de se impregnar da sabedoria dos indianos ou dos egípcios. Tais hipóteses são gratuitas, pois carecem de todo fundamento. Já diziam os antigos: "Quod grátis asseritur, grátis negatur, O que se afirma gratuitamente, gratuitamente se nega".

 

A resposta correta é esboçada pelos próprios Evangelhos, onde se diz que Jesus não se apresentou ao público como estranho vindo do estrangeiro, mas como carpinteiro e filho de carpinteiro de Nazaré:

 

Mc 6, 3: "Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria?"

Mt 13, 55: "Não é ele o filho do carpinteiro? Sua mãe não é aquela chamada Maria?"

 

Jesus terá trabalhado com seu pai na arte de carpinteiro; vários Evangelhos apócrifos referem episódios dessa fase da vida de Jesus.

 

Prosseguindo a reflexão, devemos ainda dizer:

 

Os Evangelhos não são uma biografia de Jesus, como se poderá supor, mas são o eco escrito da pregação oral dos Apóstolos, que visava a suscitar a fé dos ouvintes. Ora essa pregação começava com o Batismo de Jesus e terminava com a ascensão do Senhor, como sugere São Pedro em At 1, 21; 10, 37-39.

 

São Marcos segue exatamente este esquema; é um perfeito Evangelho, não porém uma biografia. Mateus e Lucas observam o mesmo roteiro, mas acrescentam-lhe alguns quadros relativos à infância de Jesus; escolheram episódios que lhes pareciam importantes e não deveriam perder-se. Aí está a explicação da lacuna entre os doze e trinta anos de Jesus; como também da lacuna que vai dos quarenta dias do Senhor até os doze anos (lacuna esta que pouco chama a atenção dos estudiosos).

 

Vê-se assim que não é preciso recorrer à índia, ao Tibé ou ao Egito para explicar os Evangelhos.

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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