PERGUNTE E RESPONDEREMOS 531 – setembro 2006

O Papa em Auschwitz:

 

A Visita do Papa a Auschwitz

"ONDE ESTAVA DEUS?" ou O Silêncio de Deus

 

Em síntese: O Papa Bento XVI esteve no campo de concentração nazista de Auschwitz (Polônia), onde proferiu um discurso que deixou muitos leitores perplexos. Com efeito, fazendo eco a quantos outrora o disseram, interrogou: "Onde estava Deus naqueles dias?". Eis, porém, que não deixou a pergunta sem resposta, pois, logo a seguir, acrescentou que Deus não estava ausente, mas que "não podemos perscrutar os desígnios de Deus... e nos enganamos quando queremos converter-nos em juízes de Deus e da história". Estas palavras evidenciam que o Papa não quis acusar Deus de omissão, mas atribuiu a perplexidade ao nosso limitado modo de entender os desígnios de Deus mais sábio do que nós.

 

Aos 21/05/05 esteve o Papa Bento XVI no campo de concentração nazista de Auschwitz (Polônia), onde proferiu discurso que causou estranheza ao público. Abaixo vão reproduzidos e comentados os trechos controvertidos desse discurso.

 

1. O Problema

 

Eis as palavras que suscitaram mal-entendidos:

 

"Em um lugar como este faltam as palavras; no fundo, só há espaço para um atônito silêncio, um silêncio que é um grito interior para Deus: por que te calaste? Por que quiseste tolerar tudo isso?

... Onde estava Deus nesses dias? Porque se calou?"

 

Com tais palavras quis Bento XVI acusar Deus de omissão? Como pôde Ele permitir as atrocidades do campo de concentração? É de notar que somente em Auschwitz foram exterminados mais de 1,5 milhão de pessoas (judeus, poloneses, católicos, ciganos...).

 

A resposta a tais interrogações foi proferida pelo próprio Papa e se torna patente a quem leia com atenção o discurso, evitando pinçar frases isoladas. Sim; vejamos.

 

2. O pano de fundo

 

Antes do mais, convém observar que não foi Bento XVI quem forjou as indagações aparentemente blasfemas, mas foram os próprios prisioneiros de Auschwitz que as formularam. Veja-se a propósito PR 449/ 1999, pp. 435. Em poucas palavras...

 

O Holocausto (Shoah) abalou profundamente a consciência judia pela tragédia verificada nos campos de concentração de Auschwitz, Dachau, Treblinka... Os judeus formularam perguntas angustiadas: "Onde estava Deus em Auschwitz?", "Como pôde permitir que o seu povo fosse exterminado, sem que Ele mesmo interviesse?", "Por que Deus ficou em silêncio quando tantas crianças judias eram torturadas e mortas de maneiras tão cruéis?".

 

A estas perguntas alguns judeus tentaram responder apresentando um "novo conceito de Deus após Auschwitz". Assim Hans Jonas, numa conferência na Universidade de Tübingen (Alemanha) em 1984, afirmou que Deus quis, enquanto durar a história dos homens, "despojar-se do poder de envolver-se no curso físico das coisas deste mundo" (H. Jonas, "Le concept de Dieu après Auschwitz. Une voix juive" Paris, Payot-Rivages, 1994, pp. 34s). O mesmo autor continua: "Em Auschwitz Deus ficou mudo. Não interveio, não porque não o quisesse, mas porque não estava em condições de intervir. Outorgando ao homem a liberdade, Deus renunciou à sua onipotência" (p. 34). Reconhecendo a autonomia do homem, Deus se terá retirado do mundo e da história da humanidade, renunciando à sua onipotência.

 

Outros pensadores judeus foram mais adiante. Em 1944 J. Katzenelson escreveu: "É bom que Deus não exista, mesmo que seja incômodo sermos privados de Deus". R. L. Rubinstein perguntou: "Como podem os judeus crer num Deus todo-poderoso e benévolo depois de Auschwitz?". Para E. Wiesel, "Deus foi infiel às suas promessas; por isto é impossível continuar a crer; mas também é impossível não mais crer" (cf. M. Giuliani, Auschwitz nel pensiero ebraico. Brescia, Morcelliana 1998).

 

Fora do campo de concentração, o mesmo clamor se fez ouvir diante do silêncio de Deus.

 

Assim em 1947 um jovem autor alemão, W. Borchert, escreveu um drama intitulado "Fora, diante da porta", em que imagina um diálogo entre o ex-combatente Berkmann e Deus:

 

"Mas dize-me: quando é que és bom, ó bom Deus?

Foste bom quando permitiste fosse vítima da explosão de uma bomba meu filho, que mal completara um ano, o meu filhinho? Então foste bom quando deixaste que o matassem?...

Não, é verdade; Tu apenas o permitiste. Mas não ouviste quando ele gritava e quando explodiam as bombas?

Então onde estavas, ó bom Deus, quando as bombas explodiam?

Ou foste bom quando caíram mortos onze homens da minha patrulha? Onze homens ao menos, bom Deus. É certo que os onze homens clamaram forte na solidão do bosque, mas não estavas lá; realmente não estavas lá, bom Deus.

Foste bom em Stalingrado, bom Deus, foste bom lá? Como? Sim?

Mas então quando é que foste bom, Deus, quando?

Quando alguma vez te ocupaste conosco, ó Deus?

(transcrito do artigo de L. Pozzoli "La perdita dei Padre nella letteratura del 900" em "Rivista del Clero Italiano" 80, 1999, n° 4, p. 279).

 

3. A resposta de Bento XVI

 

O Papa repete semelhantes indagações propositalmente para lhes dar resposta.

E qual seria essa resposta? - Ela compreende três afirmações:

 

1) "Nosso grito dirigido a Deus tem que ser, ao mesmo tempo, um grito que penetre em nosso próprio coração para que desperte em nós a presença escondida de Deus".

 

Isto quer dizer: Deus parecia, mas não estava ausente. Ele estava e está nos corações dos fiéis e dá a cada um a graça de desvendar essa presença. Ele acompanhava os acontecimentos do campo de concentração, embora não de maneira sensível. Por definição, Deus não pode ser omisso, falho, alheio às suas criaturas; caso fosse tal, não seria Deus. Ou Ele é a suma perfeição ou não é. Não é a fé apenas que o afirma; é a própria razão humana que o sustenta; Deus não pode ser injusto.

 

2) Acontece, porém, que pelo fato mesmo de ser Deus infinitamente perfeito, Ele não pode ser abarcado pelo intelecto humano na totalidade do ser divino. Ele será sempre insondável ao homem, que deverá adorar silenciosamente os desígnios da Providência Divina, São palavras de Bento XVI na continuação do seu discurso:

 

"Não podemos perscrutar o segredo de Deus, só fragmentos, e nos enganamos, quando queremos converter-nos em juízes de Deus e da história".

 

Engana-se, pois, aquele que quer ser juiz de Deus; é o homem que erra, configurando Deus como um Grande Homem, que deveria seguir as categorias da sabedoria humana.

 

O escândalo decorrente do não entendimento da sábia conduta divina é mencionado e dissipado na parábola de Mt 20, 1-16: o patrão paga aos operários que trabalharam apenas algumas horas o salário correspondente a um dia inteiro. Perante a reclamação que lhe é feita, responde: "A quem trabalhou o dia inteiro, pago o salário justo, como foi combinado, sem lesar os seus direitos. Aquém trabalhou menos de uma jornada, pago o que lhe toca, e dou gratuitamente o resto; tiro do meu bolso sem prejudicar quem quer que seja". Esta resposta contida na parábola de Mt 20, 1-16 se aplica a todos os casos paralelos: o homem se escandaliza a respeito de Deus não porque Este seja menos justo do que a criatura, mas porque Ele ultrapassa, por sua sabedoria, os parâmetros do bom senso humano e assim desconcerta. O mistério de Deus consiste em que Ele é mais sábio e não menos sábio do que o homem.

 

3) Mais precisamente ainda: Deus fez o homem livre - o que é notável prerrogativa: ele pode escolher livremente o seu tipo de vida. A liberdade, porém, é arma de dois gumes, podendo optar tanto pelo bem como pelo mal. Deus não teleguia essa liberdade, mas deixa-a agir sem empecilhos. Daí os males que ocorrem na história da humanidade; são muitas vezes consequência do mau uso da liberdade.

 

Diz, porém, S. Agostinho: "Deus nunca permitira os males que Ele não deseja, mas permite ao homem realizar, se não tivesse como tirar dos males do homem bens ainda maiores".

 

Assim ocorreu com o primeiro pecado: ele ocasionou a vinda do 2o Adão, que nos deu muito maior riqueza espiritual do que a que perdemos pelo primeiro Adão. Nem sempre nos é dado ver os bens que Deus tira dos males dos homens; é certo, porém, que são reais, às vezes, porém, rejeitados, vistas as limitações da criatura.

 

São estas algumas das reflexões que a visita do Papa a Auschwitz sugere. Possam ser úteis a quem delas tomar conhecimento!

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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