PERGUNTE E RESPONDEREMOS 389 – outubro 1994

 

Homossexualismo camuflado?

 

"A SEITA QUE NAO OUSA DIZER SEU NOME"

 

Em síntese: O jornal O GLOBO, edição de 25/06/94, p. 4 do 29 caderno, apresenta o livro de John Boswell, segundo o qual durante oito séculos a Igreja Católica abençoou, em rituais próprios, a união de homossexuais. — Além de se tratar de breve e insuficiente notícia de jornal, o texto em questão revela a precariedade dos argumentos do autor desde a sua capa de rosto. Com efeito; propõe as imagens dos santos Sérgio e Baco, que terão sido homossexuais abençoados peia Igreja. Ora a pesquisa da hagiografia revela que quase nada se sabe de seguro sobre esses Santos; diz uma lendária Ata de Martírio que eram soldados romanos cristãos e que, para serem ridicularizados, foram, pelos carrascos, revestidos de trajes femininos. Ora isto é-nos transmitido por um documento tido pela crítica como não fidedigno; além do quê, não é argumento para se afirmar que os dois Santos eram homossexuais. Este breve espécime da obra de Boswell já mostra a falta de critérios da parte do autor.

 

O jornal O GLOBO, em sua edição de 25/06/94, 2o Caderno, p.4, publicou o artigo "A Seita que não ousa dizer seu Nome". Apresenta o livro do pesquisador norte-americano John Boswell, professor em Yale, que traz o título "Same-sex Marriages in premodern Europe" (Vollard Books). Afirma que houve casamentos homossexuais na Europa pré-moderna, ou seja, entre o século VIII e o século XVI; durante doze anos de pesquisas em bibliotecas e conventos, o autor terá descoberto os rituais católicos que sancionavam tais uniões homossexuais. — Trata-se de um livro realmente surpreendente e revolucionário, pois o homossexualismo é condenado pela S. Escritura e por toda a tradição da Igreja; se houve casos de parceria homossexual, terão sido casos esporádicos e ilícitos, para os quais não pode ter havido bênção oficial da parte da Igreja Católica.

 

A fim de comentar devidamente o livro, deveríamos tê-lo em mãos. A redação de PR só o conhece através da notícia do O GLOBO; como quer que seja, esta breve informação já fornece ensejo a algumas reflexões, que passamos a propor.

 

RELENDO O ARTIGO

Quatro principais observações nos ocorrem:

 

1. NOTICIA JORNALÍSTICA

 

As notícias da grande imprensa, principalmente em matéria religiosa, deixam muitas vezes a desejar, pois quem as redige é, não raro, imperito no assunto e confunde os termos. Dado, porém, que o autor da resenha do livro, o Sr. Edney Silvestre, tenha entendido corretamente os dizeres de John Boswell, este pode não ter compreendido bem os documentos que estudou. É esta uma primeira observação, que não pretende possuir valor decisivo, mas que não deixa de ter fundamento, pois frequentemente se tem verificado que a grande imprensa nem sempre é precisa quando trata de assuntos religiosos. Seria afoito tirar conclusões definitivas a partir de uma notícia de jornal.

 

2. TENDENCIOSIDADE?

 

A notícia de O GLOBO afirma que o livro em pauta é "a nova arma que o movimento gay pretende usar para vencer as resistências a seu ousado projeto de reconhecimento legal das uniões entre casais masculinos e femininos". — Estas palavras deixam entrever que o articulista admite uma possível tendenciosidade da parte do autor do livro. Este talvez estivesse preconcebidamente à procura de bases e argumentos para justificar a prática homossexual.

 

3. OS SANTOS SÉRGIO E BACO HOMOSSEXUAIS?

 

Merece referência especial o seguinte trecho do final do artigo:

 

"Reforçando mais ainda a tese, a capa do livro reproduz um ícone do século VII, onde os santos Sérgio e Baco — que teriam sido casados — aparecem unidos, tendo como padrinho a própria figura de Jesus Cristo. O autor também afirma que as Igrejas Católica e Grega-Ortodoxa só começaram a proibir a realização destas cerimônias a partir do século XIV".

 

Como se vê, os Santos Sérgio e Baco são apresentados na capa do livro como espécime dos casais homossexuais que Cristo apadrinhou e a Igreja abençoou. — Ora a pesquisa da hagiografia ou dos escritos referentes à vida dos Santos verifica que pouco ou nada de certo se pode apurar sobre tais Santos. Nem se sabe em que época viveram: século III ou século IV? Existe uma Ata do Martírio desses Santos, que é tida pelos historiadores como destituída de valor histórico; é lenda fantasiosa, à qual a crítica dos cronistas não dá valor científico. Nessa Ata — que, repetimos, não merece crédito — está dito o seguinte:

 

No tempo do Imperador Maximiano (outros preferem ler: Maximino Daia, 307-313), uma tropa de soldados de elite do Império Romano, composta de bárbaros ou de estrangeiros, era comandada por dois jovens oficiais, chamados respectivamente Sérgio e Baco. Eram amigos um do outro e cristãos. Por causa do seu título cristão, que os tornava solidários entre si, os oficiais pagãos os denunciaram ao Imperador (ser cristão era ilícito até 313). O monarca mandou levá-los ao templo de Júpiter; mas Sérgio e Baco recusaram entrar lá e sacrificar aos ídolos. Então o rei furioso mandou que fossem despojados de suas vestes militares e das suas insígnias e fossem revestidos de trajes femininos; assim foram levados em cortejo perante o público para serem ridicularizados. A seguir, o Imperador recorreu a outro artifício para desviar Sérgio e Baco da sua fé: zombou de Jesus Cristo. A isto os dois oficiais responderam com firmeza e fidelidade a Cristo... Após isto, outros tormentos lhes foram aplicados e finalmente morreram mártires.

 

Como dito, tal estória é tida como espúria pelos críticos. Aliás, há muitas Atas de Martírio da antiguidade que são, hoje em dia, reconhecidas como fantasiosas. No documento atrás citado, Sérgio e Baco são revestidos de trajes femininos para serem ridicularizados, eles que eram oficiais militares. Ora isto não quer dizer que eram homossexuais. Essa jogada do Imperador tinha por objetivo humilhar os dois heróis; daí nada se pode deduzir com certeza a respeito do tipo pessoal de Sérgio e Baco. Além do mais, seja lícito repetir: a própria notícia de que Sérgio e Baco foram revestidos de trajes femininos é espúria ou não autêntica.

 

Vê-se assim quão pouco criteriosos são aqueles que querem difamar a Igreja. John Boswell, que pretende ser um pesquisador e cientista, se serve de documentos espúrios para fundamentar a sua tese e denegrir a face da Igreja.

 

Por esta amostragem é possível formular um juízo mais preciso sobre a obra inteira de John Boswell; se ela vale o que a capa vale, podemos dizer que nada vale ou que cita fatos e textos sujeitos a contestação por parte da crítica objetiva.

 

4. O TESTEMUNHO BÍBLICO

 

A consciência de que o homossexualismo é imoral, está muito claramente incutida por toda a Escritura do Antigo e do Novo Testamento. É um dos pecados mais severamente censurados pelo texto sagrado. Por isto é difícil crer que tenha havido rituais para casar homossexuais na Igreja Católica. Tenham-se em vista os seguintes textos:

 

Lv 20,13: "O homem que se deita com outro homem como se fosse uma mulher, ambos cometeram uma abominação. Deverão morrer, e o seu sangue cairá sobre eles".

 

A pena de morte era infligida aos homossexuais no Antigo Testamento!

 

No Novo Testamento São Paulo repudia o homossexualismo como sendo uma aberração, aberração ligada à idolatria dos pagãos:

 

"Trocaram a glória do Deus incorruptível por imagens do homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis. Por isto Deus os entregou, segundo o desejo dos seus corações, à impureza em que eles mesmos desonraram seus corpos. Eles trocaram a verdade de Deus pela mentira e adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador... Por isto Deus os entregou a paixões aviltantes: suas mulheres mudaram as relações naturais por relações contra a natureza; igualmente os homens, deixando a relação natural com a mulher, arderam em desejo uns para com os outros, praticando torpezas homens com homens e recebendo em si mesmos a paga da sua aberração" (Rm 1,23-27).

 

Em 1Cor 6,9s o Apóstolo volta a censurar o mesmo pecado:

 

"Nem os impudicos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os depravados, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões... herdarão o Reino de Deus".

 

Em conclusão pode-se dizer: mesmo sem ter em mãos o livro de John Boswell, a amostragem fornecida pela imprensa sugere reservas sobre a suas conclusões. — Voltaremos ao assunto desde que tenhamos a obra ao nosso dispor.

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


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