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Artigo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 389 – outubro 1994

Ainda se comenta:

 

PIO XII E OS JUDEUS

 

Em síntese: A historiadora e jornalista Renée Casin oferece ao público dados interessantes e pouco conhecidos a respeito da atuação do Papa Pio XII em prol dos judeus sob o regime nacional-socialista. Os protestos do Papa junto ao Governo alemão e seus satélites se multiplicaram durante os anos de antissemitismo e barbárie. Não raro os pronunciamentos do Papa e dos Bispos (da Bélgica e da Holanda, por exemplo) provocaram novos surtos de perseguição aos judeus e aos católicos; não se pode esquecer que as tropas nacional-socialistas facilmente invadiriam o Vaticano e prenderiam Pio XII (como, aliás, parece ter sido o projeto de Adolf Hitler); em consequência, o Papa se via obrigado a usar de grande diplomacia para não suscitar a fúria sufocadora de Hitler e seus sequazes. — Apesar das cautelas tomadas, registram-se resultados muito positivos: os judeus, inclusive a Sra. Golda Meir, foram profundamente gratos a Pio XII, dando eloquentes testemunhos de simpatia ao Papa desde o fim da segunda guerra mundial. Pinchas Lapide, cônsul em Milão, após minuciosa pesquisa, concluiu que 800.000 israelitas foram salvos da morte por obra de Pio XII, independentemente da respectiva crença religiosa.

 

A figura do Papa Pio XII (1939-1958) ainda em nossos dias é discutida. Vários comentadores julgam que foi covarde diante dos nacional-socialistas de Adolf Hitler e não defendeu devidamente os judeus perseguidos. Deveria ter tomado posição mais definida diante dos nazistas e assim teria impedido grande parte da tragédia do antissemitismo.

 

Eis que a respeito dados pouco conhecidos são apresentados pela jornalista Renée Casin, que publicou o artigo "Pie XII a parlé" (Pio XII falou)no jornal L'Homme Nouveau de 5/6/94, pp. 10 e 11.([1]) Desse artigo extrairemos os termos mais interessantes para o propósito de esclarecer a atitude de Pio XII frente ao nacional-socialismo e aos judeus.

 

1. PIO XII: A CONTROVERSIA

 

O primeiro ataque de vulto contra Pio XII deve-se a Rolf Hochhut, que em 1964 apresentou a peça Der Stellvertreter (O Vigário). Concomitantemente se deve assinalar o livro de Saul Friedländer; Pio XII e o Terceiro Reich. Exibiam a figura de um Papa favorável ao nazismo e indiferente ao holocausto dos judeus.

 

Tal imagem era falsa. Com efeito; Pio XII foi o único dos grandes homens de sua época que conseguiu salvar 800.000 judeus em toda a Europa ocupada pelos nacional-socialistas; o próprio Saul Friedländer lhe devia a sobrevivência no Seminário de Montluçon.

 

Por ordem de Pio XII, muitos institutos e conventos católicos se organizaram para abrigar clandestinamente os israelitas perseguidos. O próprio Vaticano, pequeno como é, foi um importante centro de resistência e de socorro de todo tipo. No plano econômico, os católicos norte-americanos revelaram-se altamente generosos. O atendimento aos judeus foi tão eficaz que em 1945, uma vez terminada a guerra, o Grão-Rabino de Roma, convertido ele mesmo pelo testemunho de caridade, pediu o Batismo e tomou o nome cristão de Eugênio em homenagem ao Papa Eugênio Pacelli (Pio XII). A atuação de Pio XII foi tão importante que, por ocasião de sua morte, as homenagens mais significativas vieram de Israel: Pinchas Lapide,([2]) cônsul de Israel em Milão, Golda Meir, o Dr. Safran, a Agência-órgão do sionismo mundial, o Grão-Rabino Herzog, o Dr. Elio Taf, Grão-Rabino da Itália, Albert Einstein... Escreveu Pinchas Lapide: "Toda a imprensa foi unânime. É de notar também que o Governo de Israel negou subvenção ao teatro que queria exibir a peça O Vigário em Tel-Aviv; a peça assim saiu do cartaz... Aos 9/10/1958 Golda Meir proclamou perante o mundo inteiro a sua gratidão àquele que "havia levantado a voz em favor do povo judeu".

 

A gratidão dos judeus, porém, não esperou o ano de 1958 para se manifestar. Pouco após a entrada dos americanos em Roma, ou seja, aos 29/11/1944, um grupo de setenta israelitas, entrou no Vaticano com o semblante marcado pelo sofrimento, a fim de agradecer a Pio XII a sua atitude durante a guerra. Aos 9/2/1948, quarenta delegados do United Jewish Appeal foram recebidos pelo S. Padre, ao qual levaram seu testemunho de gratidão. E aos 26/5/1955 uma orquestra filarmônica israelense, composta de 95 judeus de quatorze países diferentes, tocou em presença do Papa a 111 Sinfonia de Beethoven.

 

Merece atenção ainda o testemunho do grande físico judeu Albert Einstein, que no fim da guerra de 1939-45 declarou:

 

"A Igreja Católica foi a única a protestar contra os atentados de Hitler à liberdade. Até então eu não tinha interesse pela Igreja, mas hoje experimento grande admiração por ela¥ visto que somente a Igreja teve a coragem de se levantar em, favor da verdade espiritual e da liberdade moral".

 

2. OS PROTESTOS DE PIO XII E AS REAÇÕES NAZISTAS

 

Já na sua primeira encíclica, publicada aos 20/10/1939, e iniciada pelas palavras Summi Pontificatus, Pio XII escrevia:

 

"Nosso coração de pai estremece de profunda dor, quando antevemos tudo o que há de brotar dessas sementes de violência e de ódio, para as quais a espada está hoje escavando sulcos ensanguentados... A primitiva raiz do mal que assalta a sociedade moderna, é a negação e a recusa de todas as leis fundamentais e universais da Moral humana concernentes à vida de todo indivíduo...; é o esquecimento da lei da solidariedade humana, ditada por nossa origem comum e pela igualdade da natureza humana em todo ser humano, qualquer que seja a nação a que pertença...

Nosso coração de pai está perto de todos os seus filhos com amor cheio de compaixão, perto principalmente daqueles que são maltratados, oprimidos, perseguidos... O sangue de inúmeros homens, mesmo dos que não combatem, ergue um gemido horrível".

 

Como se vê, no início da guerra que rebentou em 3/9/1939, o Papa se referia ao sangue derramado injustamente e fazia menção da igualdade de todos os homens, "quer judeus, quer gregos, quer gentios" (Cl 3,11).

 

Essa encíclica foi bem compreendida pelas autoridades nacional-socialistas, de modo que na Alemanha o seu texto foi publicado de maneira tão deturpada que o Núncio Apostólico em Berlim recebeu da Santa Sé a ordem de dirigir um protesto enérgico ao Governo de Hitler. Os sacerdotes que tentaram ler, no púlpito, a versão não censurada, foram encarcerados.

 

Um relatório secreto do Serviço de Segurança do Reich, datado de 9/1/1940, mencionava a influência da encíclica Summi Pontificatus sobre o clero alemão: "Segundo algumas notícias, torna-se evidente que uma parte do clero católico alemão declarou que se regozijaria se a Alemanha perdesse a guerra" (Meldungen aus dem Reich. GeheimeS.D. Lageberich-te, publicado por Beberach, Berlim 1965).

 

A mesma encíclica mereceu do embaixador da França junto à Santa Sé, Sr. François Charles Roux, o seguinte comentário:

 

"Tudo o que esse documento pontifício contém, é apto a nos cumular de legítima satisfação. Pio XII aí toma a mais nítida posição, do ponto de vista doutrinário, contra o nacionalismo exacerbado, a idolatria do Estado, o totalitarismo, o racismo, o culto da força bruta, o desprezo dos compromissos internacionais; em suma, contra todas as características do sistema político de Hitler".

 

Mais: quando a emissora de rádio B.B.C., de Londres, difundiu a encíclica sem lhe modificar uma só palavra, o embaixador da Alemanha enviou ao Papa um rígido protesto.

 

Em sua mensagem de Natal de 1939, o Papa falou em termos claros "do amor universal que é a síntese de todos os ideais cristãos, e oferece também uma via àqueles que não compartilham a nossa fé".

 

No dia de Natal de 1940, Pio XII exprimiu publicamente a sua alegria "de ter podido ajudar um grande número de refugiados, principalmente não ários".

 

A mensagem de Natal de 1941 deplorava "a desonra infligida à dignidade humana, à liberdade e à vida..., desonra que clama por vingança". Tal mensagem foi interditada na Bélgica, na Holanda e alhures por ordem de Berlim.

 

A mensagem de Natal de 1942 levantava a voz em favor das "centenas de milhares de pessoas inocentes, que pelo único fato de pertencer a tal nação ou a tal raça foram condenadas à morte mediante um progressivo extermínio". Tal mensagem foi retirada de circulação pelos nacional-socialistas, e as tipografias receberam ordem de não a reimprimirem. O New York Times, em seu editorial de 25/12/1942, citou o texto pontifício e concluiu:

 

"Dado que uma personalidade eminente, que é tida como árbitro entre os dois campos, condena a nova forma de Estado nacionalista como heresia, denunciando a expulsão e a perseguição de seres humanos simplesmente por causa da sua raça,... esse julgamento imparcial toma as características de um veredicto da Corte Suprema".

 

O embaixador da Itália em Berlim, o Sr. Dino Alfieri, entrevistou-se com Pio XII, após o quê declarou: "O Santo Padre está mais disposto a partir para um campo de concentração do que a fazer o que quer que contrarie a sua consciência". Aliás, parece ter havido, da parte de Hitler, o projeto de prender e deportar Pio XII, como revelam os PP. Raimondo Spiazzi e Robert Graham no periódico italiano 30 Giorni em 1988. Este plano, aliás, aparece já nos relatórios do Quartel General do Führer 1942-1945 publicados sob o título "Hitler parle à ses généraux (Hitler fala aos seus Generais)" pela Livraria Albin Michel em 1964.

 

 

3. UM DILEMA CRUCIANTE

 

Aos 2/6/1943 dizia Pio XII aos Cardeais reunidos em Roma:

 

"Todas as palavras pronunciadas com esta finalidade (de ajudar os Judeus) pelas autoridades competentes devem ser seriamente pensadas e ponderadas, segundo o interesse daqueles que sofrem, a fim de não agravarem involuntariamente ou tornarem insustentável a sua situação".

 

Vê-se que Pio XII queria ser cauteloso para evitar males maiores. Falava na base de experiências anteriores, entre as quais sobressai a revolta dos holandeses contra as medidas antissemitas. Com efeito; em fevereiro de 1941 estourou a greve geral na Holanda; pararam os trens, os estaleiros navais, as fábricas de armas... Dentro de três dias a revolta foi debelada e os operários presos; sem processo judiciário foram levados para campos de concentração. Os Bispos da Holanda protestaram publicamente em 17/2/1942, 11/7/1942, 26/7/1942 e 15/5/1943; chegaram a pleitear a desobediência dos cidadãos às leis vigentes e diziam:

 

"Em meio a todas as injustiças e dilacerações, nossa simpatia se volta especialmente para os judeus, e para nossos irmãos de fé católica descendentes de judeus... Assim fazendo, seguimos o caminho traçado por nosso Santo Padre o Papa Pio XII... Mesmo que a recusa de colaboração exija sacrifícios de nossa parte, permanecei fortes e inabaláveis na convicção de cumprir o vosso dever diante de Deus e dos homens".

 

Em outubro de 1942 o Cardeal-Primaz da Bélgica também dera ordens aos membros da Ação Católica de Bruxelas:

"É proibido aos católicos colaborar no estabelecimento de um Governo de opressão. É obrigatório, para todos os católicos, trabalhar contra tal regime".

 

Em consequência, registraram-se violentas represálias: a prisão, a deportação ou a esterilização de 110.000 judeus holandeses, e a prisão e deportação de todos os católicos holandeses de origem judaica, a confiscação de bens da Igreja e a extinção de todas as instituições de ajuda fraterna dos católicos tanto na Holanda e na Bélgica como nos demais países ocupados pelo nazismo. Tal era o preço pago por protestos contra a trama nacional-socialista.

 

É de notar que a última proclamação dos Bispos holandeses se fez ouvir em 15/5/1943 e que Pio XII se dirigiu aos Cardeais em 2/6/1943, aludindo indiretamente às represálias sofridas em consequência dos protestos da Igreja na Holanda.

 

Aliás, já os primeiros protestos públicos de Pio XII no início da guerra ou em 1939, quando judeus e católicos poloneses foram trucidados, provocaram, de cada vez, duras represálias; em consequência, os próprios Bispos poloneses pediram a Pio XII que não voltasse à carga.

 

4. A PRIORIDADE DAS PRIORIDADES

 

Escreveu Pio XII aos Núncios Apostólicos, seus representantes no estrangeiro: "A prioridade das prioridades é salvar o maior número possível de pessoas". Por efeito deste princípio, Pio XII exerceu influência junto aos chefes de Governo submetidos a Hitler; os seus protestos se acumulavam sobre a mesa de trabalho de cada qual deles.

Assim, por exemplo, aos 12/11/1941, Karl Sidor, Ministro eslovaco, recebeu do Papa a nota seguinte:

 

"Com profunda dor a Santa Sé foi informada de que na Eslováquia, país do qual quase toda a população honra as melhores tradições católicas, foi publicada uma lei, do Governo, de caráter racista e portadora de vários artigos que estão em flagrante contradição com os princípios do Catolicismo".

 

Em março de 1942 houve outro protesto junto ao Governo eslovaco:

 

"A Secretaria de Estado de S. Santidade espera que medidas tão duras e injustas como as que foram tomadas contra pessoas de raça judaica não possam receber a aprovação de um Governo que se ufana de sua herança católica... A Santa Sé seria omissa perante Deus se não deplorasse esses atos e essas medidas, que lesam gravemente os direitos da pessoa humana simplesmente por causa da sua raça... Não é verídico afirmar que os judeus deportados são enviados a campos de trabalho; a verdade é que estão sendo extintos" (cf. Livia Rotkirchen, The destruction of Slovak Jewry 1963)".

 

Aos 7/4/1942, o Núncio Apostólico referiu tais palavras do Ministro eslovaco Tuka: "Não compreendo por que quereis impedir-me de livrar a Eslováquia dos judeus, esse bando de criminosos e bandidos". Respondeu então o Núncio: "Não considero criminosos milhares de mulheres e crianças como aquelas que foram deportadas recentemente. Vossa Excelência está, sem dúvida, a par da sorte atroz que toca aos judeus deportados... O mundo inteiro a conhece. Mesmo que um Estado possa abolir as normas do Direito Natural e os preceitos do Cristianismo, não lhe é lícito (tendo em vista seus interesses próprios) menosprezar a opinião internacional ou o julgamento da história".

 

Dois dias depois, o Presidente eslovaco exprimia ao Núncio o seu pesar devido "às palavras rudes do Primeiro-Ministro" e, para mostrar a sua boa vontade, suspendeu a ordem de deportação de 4.000 judeus eslovacos.

 

A margem de ação da Santa Sé era muito restrita. Os novos protestos do Vaticano, datados de 13/8/1942, 17/2/1943, 7/4/1943, 5/5/1943 nada obtiveram, pois, após a revolta da Eslováquia em agosto de 1944, os alemães passaram a exercer controle absoluto sobre todo o país. Novos protestos datados de 20/9/1944 e 21/11/1944 só obtiveram de Hitler a seguinte resposta: "O Reich exigia uma solução radical da parte da Eslováquia"; nessa ocasião 13.000 judeus foram presos numa furiosa incursão das tropas alemãs, sendo a maioria deles enviada a Auschwitz.

 

Em Roma deu-se uma busca violenta de judeus em 16/10/1943: milhares de israelitas romanos e refugiados da Europa Central foram obrigados a vadiar pelas ruas, receosos de voltar para as suas residências, que constavam da lista negra dos nazistas. A fim de os abrigar, Pio XII mandou publicar um editorial no jornal L'Osservatore Romano:

 

"Depois que o Papa procurou, em vão, como se sabe, evitar a guerra, ele não deixou de pôr em prática todos os recursos de que dispunha, para aliviar os sofrimentos... decorrentes dessa terrível conflagração mundial... Após o aumento crescente de tantas dores, a ação caridosa universal e paterna do Santo Padre se intensificou; não conhece fronteiras, nacionalidades, religião ou raça. A atividade constante e multifacetada de Pio XII ampliou-se nos últimos tempos em consequência de novos sofrimentos de tantos infelizes".

 

A quem não viveu os episódios da guerra de 1939-45 é difícil julgar as pessoas e os acontecimentos ocorridos cinquenta anos atrás. As palavras de Pio XII tinham plena nitidez e ressonância em 1943: o jornal L'Osservatore Romano esgotava-se rapidamente nas bancas públicas de impressos, para a grande fúria dos agentes do Governo de ocupação. Desde o fim de outubro de 1943, havia em Roma 180 lugares de refúgio, sendo o Vaticano e Castel Gandolfo os dois principais... Graças a Pio XII, os nove décimos dos judeus de Roma foram poupados.

 

Comparado com a Cruz Vermelha, que jamais proferiu algum protesto significativo. Pio XII foi muito mais atuante e eficaz. Após a guerra, nenhum personagem judeu lhe censurou o alegado "silêncio". Ao contrário, todos, sem exceção, lhe exprimiram gratidão. E, quando o Estado de Israel plantou 6.000.000 de árvores no seu solo recuperado, houve quem pleiteasse que um dos bosques assim constituídos trouxesse o nome de Pio XII.

 

Quem investiga os arquivos de Berlim, Paris, Budapeste, Bucarest e Sofia, poderá averiguar quão frequentes e enérgicas foram as intervenções humanitárias de Pio XII; von Ribbentrop, Ministro das Relações Exteriores de Hitler, no processo de Nuremberg, mencionou sessenta mensagens de protesto junto ao Governo alemão, infelizmente a voz do Papa foi sufocada pela sanha agressiva do nacional-socialismo. Este era capaz de invadir o Estado do Vaticano e fechar todas as Nunciaturas Apostólicas, cerceando por completo a ação de Pio XII, caso o Papa não guardasse certa prudência, que, longe de ser covardia, era penhor de continuidade de sua ação humanitária e cristã.

 

Em PR 305/1987, pp. 434-446 já foi publicado um artigo sobre o mesmo tema com o título "Pio XII, os Nazistas e os Judeus".

 

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)



[1] A autora escreveu também Mensonges et Silences sur Pie Xil (Mentiras e Silêncios a respeito de Pio XII), Ed. Regain.

[2] Pinchas Lapide nasceu em Viena em 1922, de onde fugiu em 1938 para a Palestina. Antigo funcionário público, diplomata e jornalista, desde 1971 é professor universitário em Jerusalém. Do seu livro "Jesus, Filho de José?" extraímos os seguintes tópicos (pp. 126s).

"Fazer parte dos apaixonados por Jesus, como os chamam os judeus italianos, absolutamente não constitui exceção, mas é bem diferente quando se trata de um Grão-Rabino que é batizado publicamente em Roma no dia 13 de fevereiro de 1945, adotando o nome de seu padrinho honorário, o Papa Pio XIII 'A figura do Cristo me fascina há muitos anos', declarou ele algum tempo depois, acrescentando: 'Tudo isso fermentou em mim por muitos anos, ou mesmo dezenas de anos'.

O fato de que ele tenha, mesmo se encaminhando para uma cristologia cada vez mais explícita, conseguido continuar a exercer, apesar de tudo, a função de chefe religioso das comunidades judaicas da Itália, orientando-as durante aqueles anos fatídicos e sustentando a fé judaica deste povo, tudo isto é considerado ainda hoje em dia por muitos judeus de Roma como uma traição e uma apostasia. Para sermos honestos, é preciso no entanto registrar que ele não retirou nenhum proveito material de sua conversão e que, no tempo da grande razzia dos judeus de Roma em outubro de 1943, contribuiu, com a ajuda do Papa, para salvar pelo menos 850 pessoas. Já nesta época ele referia-se ao Papa Pio XII como o 'Santo Padre', com o tom da mais profunda veneração. Algumas testemunhas destes anos de horror são levadas a concordar com a hipótese proposta pelo rabino Barry Dov Schwartz: 'Muitos judeus italianos sentiram-se compelidos a batizar-se depois da guerra, por reconhecimento à instituição que lhes salvara a vida. Pode-se crer que este tenha sido também o caso do Grão-Rabino de Roma'".

Pinchas Lapide é o autor do livro Rome et les Juifs (Roma e os Judeus) (Le Seuil 1967). Após pesquisas aprofundadas em toda a Europa e nos arquivos de Jerusalém, como também junto aos sobreviventes, chegou a contar 800.000 judeus salvos por Pio XII. Em carta escrita a Renée Casin em 19/6/1968 dizia: "Sendo judeu crente e israelense, ouso esperar que minha documentação terá certo peso, talvez suficiente para apagar um pouco da difamação e das mentiras destes últimos anos".


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